10 obras clássicas para celebrar o Verão

Antes de se ter tornado sinónimo de odor a protector solar, sunset parties e bares de praia a bombar música chill out a volumes sísmicos, o Verão inspirou grandes obras musicais. Eis uma amostra que vai de meados do séc. XVII a meados do séc. XX
Bathers in Asnières
©Georges Seurat Bathers in Asnières
Por José Carlos Fernandes |
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10 obras clássicas para celebrar o Verão

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June, de The Monthes, de Simpson

O inglês Christopher Simpson (c.1602/6-1669), um notável executante de viola da gamba, consagrou toda a sua produção musical conhecida a este instrumento. As suas colecções de Fantasias para viola soprano, duas violas baixo e baixo contínuo com os títulos The Monthes e The Seasons oferecem uma variada paleta de ambientes, embora não sejam música programática no sentido em que As Quatro Estações de Vivaldi o são – a impressão a transmitir é subjectiva, não uma representação musical de eventos específicos.

[Pelo ensemble Sonnerie]
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Concerto para violino RV 315 Verão, de As Quatro Estações, de Vivaldi

A fama de As Quatro Estações é justa. Não é que faltem motivos de interesse aos outros oito concertos da colecção Il Cimento dell’Armonia e de l’Inventione (O Certame da Harmonia e da Invenção), publicada em 1725, nem aos outros 210 (!) concertos para violino de Antonio Vivaldi que chegaram aos nossos dias. Mas a componente programática de As Quatro Estações, ou seja, a forma como a música ilustra os eventos meteorológicos e os seus efeitos sobre homens, a fauna e a flora, está admiravelmente conseguida.

Os sonetos que Vivaldi juntou a cada concerto de As Quatro Estações estão longe de ser grande poesia, mas ajudam a apreciar o poder sugestivo da música do compositor veneziano. Reza assim o soneto alusivo ao Verão:

Allegro: “Sob a implacável estação, incendiada pelo Sol/ Languescem o homem e o rebanho e arde o pinheiro/ Solta o cuco o seu canto/ Seguido pela rola e pelo pintassilgo/ Uma doce brisa sopra,/ Mas dá subitamente lugar ao vento Norte/ E aflige-se o pastorinho pelo seu destino/, temendo feroz borrasca”.

Adagio e piano – Presto e forte: “O temor dos relâmpagos e dos terríveis trovões/ Priva de repouso os membros lassos/ Moscas e moscardos zumbem furiosos!”

Presto: “Bem fundados eram os receios,/ Ribombam e relampejam os céus/ E a saraivada de granizo decapita as espigas”.

[Um Presto assolado por ventos ciclónicos, por Giuliano Carmignola (violino) e Orquestra Barroca de Veneza]
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Verão, de As Estações, de Haydn

A oratória As Estações (Die Jahreszeiten), estreada em Viena em 1801, tem um libreto, em alemão, de Gottfried van Swieten, traduzido e adaptado de um longo poema publicado em 1730 por James Thomson. Foi uma das derradeiras obras de Joseph Haydn, e a sua composição foi dificultada pelo declínio da saúde do compositor, que o obrigaria a cessar definitivamente actividade dois anos depois. A sua invenção permanecia porém intacta, como atesta este excerto, que dá conta dos efeitos adversos do Verão: o recitativo “Die Mittagssonne Brennet Jetzt in Voller Glut” apresenta “o sol do meio-dia, brilhando com todo o ardor num céu sem nuvens e lançando poderosas torrentes de fogo”; a ária “Dem Druck Erlieget die Natur” revela a natureza sucumbindo sob este fardo: “Flores murchas, prados ressequidos, fontes extintas, tudo acusa os efeitos do calor tórrido, e bestas e homens definham estirados no solo”.

[Recitativo acompanhado “Die Mittagssonne Brennet Jetzt in Voller Glut” e ária “Dem Druck Erlieget die Natur”, pelo tenor Yves Saelens (Lukas) e Octopus Vocal Ensemble & Orchestra, com direcção de Bart Van Reyn, ao vivo no Palais des Beaux Arts, Bruxelas, Junho de 2012]
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Les Nuits d’Été, de Berlioz

O ciclo de canções Les Nuits d’Été (1841), sobre poemas de La Comédie de la Mort (1838) de Téophille Gautier, foi concebido para voz e piano e orquestrado em 1843 e 1856. Apesar do título, nenhum dos poemas – “Villanelle”, “Le Spectre de la Rose”, “Sur les Lagunes: Lamento”, “Absence”, “Au Cimitière: Clair de Lune” e “L’Île Inconnue” – alude explicitamente ao Verão, embora aqui e ali pairem indícios de que as noites são mornas.

[“Sur les Lagunes”, por Anne Sofie von Otter e Les Musiciens du Louvre, com direcção de Marc Minkowski, ao vivo em Versailles, 2011]
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Abertura de concerto Sonho de uma Noite de Verão, de Mendelssohn

A Abertura de concerto Sonho de uma Noite de Verão op. 21 foi composta em 1826, tinha Felix Mendelssohn 17 anos, mas soa como obra de um compositor maduro. E como não há nela nada susceptível de ser aperfeiçoado, quando, 16 anos depois, Mendelssohn recebeu a encomenda, do rei Frederico Guilherme IV da Prússia, para compor música de cena para a peça homónima de Shakespeare, Mendelssohn anexou à música composta então a abertura de 1826 – e é ela, sem sombra de dúvida, o trecho mais brilhante da música de cena (que recebeu o número de opus 61).

[Pela Orquestra da Gewandhaus de Leipzig (de que Mendelssohn foi director musical entre 1835 e 1847), com direcção de Kurt Masur, ao vivo em 1997]
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Verão, de As Estações, de Glazunov

O bailado As Estações, de Aleksandr Glazunov, estreou em 1900, em São Petersburgo. Na verdade, a encomenda fora feita ao seu amigo Riccardo Drigo, director musical da companhia de bailado do teatro Imperial de São Petersburgo, e Glazunov, que, em 1899, fora nomeado professor no Conservatório dessa mesma cidade, deveria ter composto música para o bailado Les Millions d’Arlequin. Mas como cada um dos compositores sentia maior afinidade pelo tema do outro, trocaram as tarefas.

O II quadro de As Estações tem lugar num campo de trigo, com plantas a murchar na terra escaldante, que as náiades tentam refrescar trazendo água do rio. Há sátiros e faunos a tocar flauta, o que faz suspeitar que o enredo terá ido beber algo a Prélude À l’Après-Midi d’un Faune, de Debussy, que estreara em 1894, e que também tem uma atmosfera estival (mas é obra de sofisticação e originalidade bem superiores).

[Por The Cleveland Orchestra, com direcção de Vladimir Ashkenazy]
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Summer, de Bridge

A viragem dos séculos XIX-XX foi fértil em obras evocativas da Natureza e das suas mutações ao longo do ano (quiçá como reacção ao facto de a urbanização e a industrialização galopantes estarem a afastar rapidamente o homem da Natureza). Entre elas está o poema sinfónico Summer, de Frank Bridge (1879-1941), um compositor britânico pouco conhecido do lado de cá do Canal de Mancha (e que, muitas vezes, é apenas mencionado na qualidade de professor de Benjamin Britten).

Bridge era um pacifista convicto e talvez isso o tenha estimulado a compor, em 1915, enquanto a Europa era dilacerada por uma guerra de um brutalidade nunca vista, uma obra tão idílica, luminosa, opulenta e pastoril quanto Summer.

[Pela Bournemouth Sinfonietta, dirigida por Norman Del Mar]
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A Song of Summer, de Delius

O britânico (de ascendência germânica) Frederick Delius (1862-1934) parece ter tido algum fascínio pelo Verão, pois além do poema sinfónico A Song of Summer (1931), compôs também In a Summer Garden (1908), inspirada por poemas de Dante Gabriel Rossetti, e uma breve peça para orquestra intitulada Summer Night on the River (1912).

Quando compôs A Song of Summer, Delius, tinha ficado cego, devido à sífilis, mas transmitiu a Eric Fenby, o jovem que lhe serviu de secretário e a quem ditou a música que já não era capaz de registar na partitura, uma vívida imagem do cenário que pretendia evocar com o poema sinfónico: “Imaginemo-nos sentados numa falésia coberta de urze, com vista sobre o mar. As notas sustentadas nas cordas agudas sugerem o céu azul e a quietude da cena [...] a figura nos violinos quando a música ganha animação sugere o suave ondular das vagas, as flautas evocam o planar de uma gaivota”.

[Pela Orquestra Sinfónica de Londres, com direcção de John Barbiroli, 1967]
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Knoxville: Summer of 1915, de Barber

O compositor americano Samuel Barber é conhecido quase exclusivamente pelo seu Adagio para cordas, que nem sequer é das suas obras mais inspiradas. Bem superior é Knoxville: Summer of 1915, uma peça para soprano e orquestra sobre texto de James Agee.

O texto de Agee é uma evocação onírica e nostálgica da infância, através dos olhos de um rapaz de seis anos, de Knoxville, Tennessee – a cidade onde Agee nasceu em 1906, o que leva a presumir que o texto se baseia nas suas recordações. Ao fim da tarde de um dia escaldante no Deep South, as pessoas sentam-se nos alpendres, baloiçam nas suas cadeiras e conversam tranquilamente, sobre tudo e sobre nada, na rua passam carruagens, automóveis, um eléctrico; a noite desce, o “ruído seco e exaltado dos gafanhotos, vindo de todos os lados, enfeitiça os meus tímpanos”. E a criança sente-se grata por estar rodeada pelos adultos da sua família, com as suas “vozes suaves e indistintas, como se fossem aves adormecidas”.

[Por Barbara Hendricks (soprano) e a Orquestra Sinfónica de Londres, dirigida por Michael Tilson Thomas]
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A Midsummer Night’s Dream, de Britten

A ópera de Benjamin Britten que estreou em Aldeburgh em 1960 é uma das mais deliciosas reinterpretações da peça de Shakespeare. O ambiente é de fantasia barroca, o que é reforçado por Britten ter confiado o papel de Oberon a um contratenor (um registo vocal “fóssil”, que, em 1960, tinha apenas um cultor, o pioneiro Alfred Deller) e o das fadas de Titania a rapazes soprano. A música é, ao mesmo tempo, rica e diáfana, recorrendo a combinações tímbricas invulgares, sendo algumas atribuídas especificamente a certas personagens – por exemplo, a voz de Oberon é acompanhada por uma refulgente articulação de harpa, cravo e celesta.

Britten faz convergir danças barrocas, as misteriosas brumas das florestas wagnerianas, o colorido impressionista de Debussy e Ravel, para criar uma sonoridade originalíssima e digna de um conto de fadas.

[Início do I acto, na versão com Ileana Cotrubas (Titania), James Bowman (Oberon), Curt Appelgren (Bottom) et al. e a Filarmónica de Londres, com direcção de Bernard Haitink e encenação de Peter Hall, ao vivo no Festival de Glyndebourne de 1981 (disponível em DVD Warner/NVC Arts)]
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