Bach: Missa em si menor

Música, Clássica e ópera
Laurence Cummings
©Anton Sckl Laurence Cummings

A Time Out diz

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Na primeira do século XVIII, a corte de Dresden possuía a melhor e mais bem paga orquestra da Cristandade. Não é de estranhar que Bach, responsável pela música em Leipzig e envolvido em querelas com o Conselho Municipal que o empregava, almejasse um cargo na capela do novo príncipe-eleitor da Saxónia (e rei da Polónia) Friedrich August III em Dresden. Em jeito de candidatura, enviou ao príncipe uma missa (apenas com Kyrie e Gloria, à maneira luterana), em 1733. A ideia não era tanto que a missa fosse executada numa cerimónia religiosa, mas deslumbrar o príncipe com uma demonstração de puro génio musical. Bach não obteve nenhum cargo efectivo em Dresden, embora em 1736 lhe fosse atribuído o título honorífico de Compositor da Corte. Em 1747-49, Bach voltou à missa, adicionando-lhe as secções usuais nas missas católicas: Credo, Hosanna, Benedictus, Agnus Dei e Dona nobis pacem – algo de insólito num compositor de inabalável fé luterana e que compôs exclusivamente para a liturgia luterana.

Esta foi a última obra coral em que Bach trabalhou antes de a cegueira o impedir de compor e não é evidente o propósito a que se destinaria. Na verdade, as dimensões monumentais (de hora e meia a duas horas de duração) da obra que ficou conhecida como Missa em si menor (embora Bach não lhe tivesse dado qualquer título) inviabilizariam o seu uso litúrgico e a estreia integral da obra só teve lugar em 1859, 110 anos após ter sido terminada. Possivelmente, e tal como A Arte da Fuga, composta pela mesma altura, foi assumida por Bach como legado de uma vida como músico e como uma síntese de técnicas e tradições composicionais.

Seja qual tenha sido o intuito do cantor de Leipzig, a posteridade só tem que prostrar-se em agradecimento perante este derradeiro tour de force. Embora boa parte do material que constitui a Missa em si menor provenha de obras preexistentes e compostas ao longo de quase um quarto de século, a síntese final funde-o miraculosamente num todo homogéneo e de superlativa inspiração. Não é por caso que 1750 (ano da morte de Bach) é consensualmente aceite como término da época barroca – depois de A Arte da Fuga e da Missa em si menor, que restaria para dizer naquela linguagem? 

É apropriado que uma obra que é vista como sumário de uma vida e de uma época tenha sido escolhida para rematar a programação de 2018 na Casa da Música – será interpretada pelo Coro Infantil & Coro Casa da Música e pela Orquestra Barroca Casa da Música, com direcção de Laurence Cummings (na foto).

Por José Carlos Fernandes

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