Mallu Magalhães: “Sempre soube que esse mundo de marshmallow não existia”

Entrevista com Mallu Magalhães, a artista brasileira que acaba de editar "Vem", quarto disco de originais que chega seis anos depois de "Pitanga"
mallu magalhães
©Gonçalo F. Santos
Por Miguel Branco |
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Vem, Mallu. Vem, que é o quarto disco e a convocatória da artista paulista para uma festa de samba e de rock sambado. Mais do que isso, é a certeza de que a vida não é assim tão maravilhosa, nem assim tão dramática. Seis anos após a edição de Pitanga, com a Banda do Mar e a maternidade pelo meio, Mallu Magalhães larga as gomas da fantasia e os contos de fadas acidentados. “[a vida] Vai ser isso aí, não é? Ok. Está bom”, ironiza. Uma conversa informal e honesta, sem gravata nem formalidades.

Passaram seis anos desde que editaste o Pitanga. Entretanto tiveste a Banda do Mar, foste mãe...este disco é um aglomerado desse tempo?

Sim, acho que as experiências que passei depois da Banda do Mar e mesmo a maternidade...é uma coisa intensa, muda muito qualquer pessoa. E tem também essa coisa da mudança do país, isso também mexeu comigo. Até à Banda do Mar a minha produção artística até então era maioritariamente calma, então não conseguia colocar para fora esse vigor, esse lado selvagem que sempre tive. Sentia falta de pôr para fora esse impulso mais de ataque. Este disco é também uma resposta ao disco da Banda do Mar, não o teria feito sem isso. 

São tudo canções pós-Banda do Mar?

Tem coisas de antes, mas a maioria foi feita depois. A “Culpa do Amor” é a única mais antiga. 

Foi tudo feito em Portugal?

Nem por isso, porque como a gente fazia muita tournée no Brasil, grande parte das músicas foram feitas lá. Foi meio a meio. 

Podemos então dizer há um input tuga neste disco.

Claro, a influência de Portugal é profunda em mim. Por ser um país mais calmo acho que me alivia e faz com que fique mais livre no aspecto da produção cultural. Foi muito construtivo para mim, é quase como quando a gente está de férias, a gente faz música com muito mais facilidade. 

Há uma maior disponibilidade mental.

Sim, aqui a minha vida é essencialmente feita a pé. Quando morava em São Paulo era uma vida mais de carro, transporte, metro, hoje pego pouco o metro, ando muito. 

Tens menos urgência.

Exacto. E isso influencia muito. Há uma cultura aqui...é muito louco como a métrica do jeito português de falar tem um efeito qualquer em mim. 

O maior exemplo dessa importância portuguesa é a “Linha Verde”, canção com um arranjo de fado.

Sim, é o mais evidente. Uma vez fiz um fado sem querer, numa colectânea do Péricles Cavalcanti e eu reinterpretei uma canção do Caetano e quando fui tocar no violão sem querer fiz um fado. Casou mais ou menos com a nossa vinda para cá e o fado acabou por ficar mais presente na minha vida. Acho lindo, acho uma música de arrepiar. 

Costumas ir a casas de fados?

Já fui, não costumo ir. Hoje em dia qualquer coisa de noite fica mais difícil para mim. 

A hora de almoço são as novas saídas à noite quando se é mãe.

É isso mesmo. 

Este Vem tem fado como tem jazz, bossa-nova, coisas mais sambadas. Quiseste ir a todas?

Foi natural, as minhas referências foram ficando cada vez mais para esse lado da música brasileira. Acho que até o facto de me distanciar do Brasil faz com que tenha essa necessidade de reafirmar a minha identidade, isso acontece com qualquer estrangeiro, nunca comi tanto brigadeiro, nunca escutei tanto samba. 

Tens até uma faixa chamada “São Paulo”.

É, quando morava em São Paulo dizia “coisa horrorosa, não aguento mais essa cidade”. Hoje acho São Paulo o diamante dourado da humanidade, tanto que decidi a partir de agora viver metade do ano lá, metade do ano cá. Fico com saudade e não vale a pena sofrer. 

Continuas a perseguir o amor, é esse o imaginário do disco. Só que desta vez há uma eventual falta do mesmo. Tens hoje uma percepção diferente do amor do que tinhas no Pitanga, por exemplo?

É...caramba nunca me tinha tocado disso. É uma coisa interessante de se dizer, porque efectivamente acontece. Estou mais velha, entre ter 18 e 24 é pouco tempo, mas é uma altura importante da vida. No outro dia encontrei alguém na rua e a pessoa me falou: “Ah, mas eu também sou muito nova, tenho 24 anos ainda não tenho a sua idade”. E eu falei: “Também tenho 24”. E ela disse: “Nossa, sério? Achei que tinha uns 33”. E eu fiquei a pensar nisso...será que pareço 10 anos mais velha? 

Nem pensar.

Pois, também acho, mas juro que cheguei a casa e fiquei a pensar que devia fazer qualquer coisa ao meu visual, está alguma coisa de errada. 

Diria que está tudo bem. Retomemos o assunto dessa eventual percepção diferente do amor, tu no tema “Vai E Vem” dizes: “A felicidade que vem no microssegundo”. Sempre pensaste assim?

Sim, sempre soube que esse mundo de marshmallow não existia. Mas tenho a fé de que a gente pode construir o nosso mundo e viver uma vida alegre e feliz. Ao longo do tempo a gente vai ficando mais realista, vão acontecendo mais problemas e traumas e por isso passei a valorizar o momento e esse microssegundo. Sem aquela tristeza de que vá acabar. Se durar três meses está óptimo, se durar 30 segundos também está óptimo. 

Ou seja, o tempo, a maternidade, fez-te fazer música mais realista, menos conto de fadas.

Sim, este é o meu disco mais realista, talvez mais conformado. Mas beleza, vai ser isso aí, não é? Ok. Está bom. É um pouco ridícula esta expressão, mas é verdade: os meus outros discos eram sobre o meu mundinho e este é sobre o mundo, o mundão, aquilo que ele é. Isso não é triste nem terrível, nem tão feliz nem tão triste. Hoje, honestamente, já não caio nos choros e nos dramas que caía antigamente. Fico pensando: nossa, que dramática.

Há sempre coisas positivas nas dores de crescimento.

E acho que quando você se vê fora do seu país, há assim uma parada de sobrevivência, especialmente com criança pequena, é um desespero forte, é físico, meio de primata, tenho que cuidar do que é meu. É curioso. A vivência do Inverno para mim aqui também foi interessante, nunca tinha passado um Inverno inteiro aqui, é perigoso emocionalmente. Pode ser fatal.

Mas sobreviveste.

Sim, mas acho que este é um disco com menos medo. Nos outros ainda me colocava assim numa situação meio frágil, este é um disco mais confiante e é uma confiança conquistada, é legítima, não é aquela confiança de estar com uns amigos que curtem seu som. Honestamente acho um grande disco e me acho o máximo. 

Esta frase vai ficar lindamente nesta entrevista.

Não, você entendeu... e escrito sempre fica mais ridículo. 

Uma última coisa: “Pelo Telefone” é uma canção incrível.

É? Também acho, amo, é a minha preferida. E quando pensei nela queria que tivesse assim um clima James Bond, queria-me sentir o James Bond que há em todos nós. Todo o mundo tem um 007 escondido, foi esse o ambiente que quis retratar. 

Queria perceber a tua relação com o telefone e as novas tecnologias. Ou seja, se tivesses que ir para uma ilha deserta o telemóvel era o primeiro objecto que levarias?

Se tiver wi-fi...

Ou seja, és aditiva.

Não, tenho uma relação normal. Não é doentia. Acho celular o máximo, internet, aquela coisa de as pessoas se sentirem incomodadas, do celular ficar o tempo todo apitando, eu adoro. O meu celular apita para caramba e eu amo. Me sinto querida, requisitada, acho o máximo. Adoro fazer parte de grupos do Whatsapp, estou em todos, do condomínio, do jantar, tudo.

Obrigado.

Imagina.

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