Os melhores discos do Verão de 2017

Do jazz metalizado dos Gorilla Mask ao club-rap de Vince Staples, eis os melhores discos deste Verão e os seus autores

©DRPega Monstro no festival Rescaldo

Verão, Verão. E depois um suspiro, que sempre vem quando enunciamos esta querida estação. Mais do que uma estação meteorológica, o Verão é um modo de vida, um queijinho pendurado na ratoeira que vislumbramos todo o ano sem conseguir lá chegar. Chegámos. Chegámos tanto que daqui a nada já é Natal. Mas tudo a seu tempo.

Tomemos o Verão, como muitos tomam, como um serviço de streaming onde podemos recuperar o que fomos perdendo ao longo destes dias, semanas, meses quentes. Neste caso, a música. Mais concretamente, a que achámos incrível desde Junho (lato arranque de Verão). E quando dizemos incrível é mesmo, é incrível cinco estrelas. Então vá, agora toca a ouvir. São dez discos, do jazz ao rap, elogiados pelos criticos da Time Out. Do melhor.

Os melhores discos do Verão de 2017

Pega Monstro - Casa de Cima
©Sara Rafael
1/10

Pega Monstro - Casa de Cima

5 /5 estrelas

As Pega Monstro são tudo de bom. Algures na internet existem duas páginas de Google Docs cheias de potenciais inícios para este texto – quase todos mais inspirados e chistosos do que este – e mesmo assim optou-se por escrever que “as Pega Monstro são tudo de bom”. Por três motivos: a) é verdade; b) o leitor fica logo a saber ao que vem; c) não desvia as atenções do mais importante, a celebração honesta e crucial da música do duo lisboeta que acaba de editar o surpreendente Casa de Cima.

Ao contrário do álbum de estreia e do seu sucessor, o superlativo Alfarroba, o novo disco não é uma progressão natural daquilo que a dupla vinha a fazer desde o primeiro EP. É um passo ao lado, sem ser em falso; é uma gloriosa troca de voltas a quem ouviu o single “Partir a Loiça” e pensou que sabia o que o esperava (não sabíamos, e ainda bem); é Fernando Pessoa de mãos dadas com velhinhas das Beiras numa dança eterna e descompassada; é música popular portuguesa feita por um duo de garage-rock que, hoje, é a mais concisa unidade de produção de canções do país. É do caraças.

Abre de mansinho, com “Ó Miguel”, lamento de guitarra melosa e bateria tensa. Segue-se o garage-punk politizado de “Partir a Loiça”, onde se anuncia que “tá na hora de espancar / a cabecinha dos betinhos / bora partir”. E depois vem o “Fado da Estrela do Ouro”, sonho fadista que é um hino à Lisboa que resiste. “Cachupa” é o amor cantado em português no ano de graça de 2017. “Pouca Terra” é o rock’n’roll se o rock’n’roll tivesse sido inventado deste lado do Atlântico. “Sensação” é slowcore do interior de Portugal forjado a fogo lento por duas mulheres das Avenidas Novas. E ainda há “Odemira”, a “Amêndoa Amarga” deste disco, no sentido em que é uma canção maior do que qualquer CD, mas encaixa aqui na perfeição. Um malhão indie rock perfeito e intemporal. São só sete canções, mas não é preciso ouvir mais nada este ano. Luís Filipe Rodrigues

Daniel Herskedal - The Roc
©DR
2/10

Daniel Herskedal - The Roc

5 /5 estrelas

Há continuidade entre Slow Eastbound Train (uma das revelações de 2015) e The Roc, mas o trio formado por Daniel Herskedal (tuba), Eyolf Dale (piano) e Helge Norbakken (percussão, um colaborador frequente de Mário Laginha), trocou a cumplicidade da orquestra Trondheim Soloists, por uma textura mais ligeira, só com uma viola e um violoncelo.

A invulgar conjugação instrumental e a extraordinária versatilidade da tuba de Herskedal criam uma rica e original paleta tímbrica, com a tonalidade de fundo escura e dominada por instrumentos graves a ser salpicada pelas cintilações do piano. A influência oriental, que já era audível na faixa-título de Slow Eastbound Train tornou-se mais notória e alastrou a boa parte do disco: o comboio atravessa agora o Médio Oriente, o que é explicitado em títulos como “Kurd, Bayat, Nahawand to Kurd” (com irresistível poder hipnótico), “Hijaz Train Station” (estático e lamentoso), ou “Thurayya Railways” (a peça mais dramática de um disco em que domina a serenidade).

O “roc” do título do álbum não tem a ver com o “rock”, mas com o “pássaro roca” da mitologia persa, uma gigantesca ave de rapina capaz de arrebatar um boi pelos ares. Herskedal e os seus parceiros voam alto, tão alto que as fronteiras entre jazz, música de câmara e tradições do Médio Oriente se esbatem. E embora os músicos sejam noruegueses, nada nestas paisagens cálidas e de tons terrosos sugere os clichés do orientalismo de pacotilha, podendo The Roc ser colocado no mesmo plano das explorações transculturais de Rabih Abou-Khalil e Renaud García-Fons. José Carlos Fernandes

Vince Staples - Big Fish Theory
©DR
3/10

Vince Staples - Big Fish Theory

5 /5 estrelas

Cada vez que Vince Staples lança o dado o jogo muda. E, pelos vistos, sai sempre seis. Se em Summertime ’06 (2015), o seu primeiro LP, o exagero no número de faixas não nos permitia dissertar sobre um disco perfeito, agora, o que fazer? Staples é, efectivamente, um dos maiores peixes do mercado, que aqui trata de comer todo o isco presente no oceano, igual a dizer que todos os jovens actores do rap que se têm apropriado do trap e de instrumentais mais electrónicos e festivos deviam escutar este disco. E, posto isto, considerarem a reforma. 

O gosto por beats onde por norma ninguém rima (electrónica algo agreste para aquilo que os livros consideram hip-hop) já se escutava em Summertime ’06, mas aqui a bass adensa-se, saímos do buraco, almejamos a superfície. Em Big Fish Theory olhamos para o futuro e esquecemos o passado sinuoso. Nunca um rapper mostrou dotes tão precisos na arte de domar um javali em fúria como é a produção deste disco, que cruza texturas de electro, trip-hop, funk 2.0. Acrescem as letras complexas, que só espreitam pelo ombro para ver se vem alguém, se-demoram-não-espero. E uma atitude quero-lá-saber.

Escutar Vince Staples é saber que não há nada mais fresco do que isto. “Crabs In a Bucket”, primeira canção (com Kilo Kish e Justin Vernon, de Bon Iver) é um ensaio poético sobre um beat trip-hop, que podia ter colaboração dos Portishead; “Big Fish” (produção genial de Christian Rich) é um banger que impera pela dança do volante de automóvel, até não haver mais gasolina, até ser de manhã; “745” é balanço puro, calmo o suficiente para fazer deste tema o primeira do dia, e ai de quem nos obstrua o caminho; “Yeah Right” (com Kendrick Lamar e Kucka), “Party People” e “BagBak” são hinos-tempestade que se guardam sempre para a segunda metade da festa, daqueles que merecem um vídeo para todos os grupos de Whatsapp: “Sintam, putos”. Isto não é afrofuturismo, é um enredo bem actual: o maior peixe na frente e o cardume a perseguir. Talvez no próximo disco o vejamos a rimar por cima de techno ou trance. Miguel Branco

Ermo - Lo-Fi Moda
©DR
4/10

Ermo - Lo-Fi Moda

5 /5 estrelas

O mundo mudou e com ele os Ermo evoluíram e reinventaram-se. Sem romper com o passado mas injectando vida nova, encontraram um lugar estranho e habitaram-no. Mostrando-se ocultados, navegam o confuso mas corajoso caminho de quererem ser quem são, sabendo que talvez não sejam quem os outros querem.

Lo-Fi Moda sonha com o futuro enquanto projecta instantes fiéis do presente, da humanidade devorada pela tecnologia, da solidão de uma vida em rede. O digital libertou-os. Pensam menos, sentem mais, mexem mais. É um disco a fritar de ideias, um mosaico fragmentado de uma electrónica saciada de sons suculentos. Com menos palavras e muito mais som, são livres de serpentear no infinito, luxuriando na lava de luminescentes melodias e de beats deliciosamente chungas. Um dos discos mais excitantes do ano, em qualquer parte do mundo. Ana Patrícia Silva

Colter Wall - Colter Wall
©Chris Graham
5/10

Colter Wall - Colter Wall

5 /5 estrelas

Johnny Cash, é verdade, já estava a precisar, não talvez de um sucessor, mas eventualmente de um herdeiro. Reserve-se, claro, alguma margem de dúvida. Cash é Cash, os tempos são outros e Colter Wall tem apenas 21 anos. Não se sabe se será preso um dia, se verá Deus noutro. Uma coisa é já certa: o homem tem uma voz do outro mundo. Um barítono tão encorpado que diríamos estar perante alguém na casa dos 60, muito tabaco aspirado.

Mas não é só a voz. É aquele acompanhamento austero, baseado na guitarra acústica, pedal steel amiúde e pouco mais. Bateria e piano, como na belíssima “You Look To Yours”, uma canção de estrada e mulheres, e lições a tirar, como só no country se faz. Há a obrigatória referência a Woody Guthrie, uma canção tradicional e outra de Townes Van Zandt. O resto é material próprio, talkin’ blues do nosso século. O rapaz é canadiano, o que, diz a história, o qualifica sobremaneira para esta empreitada. Manuel Morgado

Dan Auerbach - Waiting on a Song
©ALYSSE GAFKJEN
6/10

Dan Auerbach - Waiting on a Song

5 /5 estrelas

Gene Chrisman tocou bateria em “Natural Woman”, de Aretha Franklin, e em “Son of a Preacher Man”, de Dusty Springfield. Bobby Wood, que aparece em “Sweet Caroline”, de Neil Diamond, e “Suspicious Mind”, do grande Elvis, exibe aqui teclas variadas por todo o disco. E depois há Duane Eddy, que tocou em centenas de discos e cuja guitarra abrilhanta por exemplo, “Cherrybomb”. E mais uma data de músicos de estúdio deste calibre, e compositores e produtores batidos de Nashville. E Mark Knopfler que dá um ar da sua graça a fazer o que sabe.

A lista e o peso das participações neste projecto rivalizam com os nomes sonantes cujos discos foram produzidos, nos últimos anos, por Dan Auerbach: Lana del Rey, Dr. John, Ray LaMontagne...

Mas a lista também diz muito sobre o tipo de música que se ouve nesta segunda aventura a solo da alma mater dos Black Keys (a anterior, Keep It Hid, data de 2009). Soul, country, folk, funk, pop... isso tudo, mas embrulhado de uma forma brilhante e divertida. Beach Boys, Burt Bacharach, Beatles, Neil Young são os nomes que poderíamos acrescentar aos já mencionados, nem tanto como influências, mais como presenças involuntárias, tal a proximidade que por vezes é alcançada. Mas se quisermos encontrar mesmo algo de semelhante, na abordagem (música de estúdio instantânea, divertimento notório) e nos estilos percorridos, então é obrigatório lembrar os Traveling Wilburys, que no final dos anos 80 juntaram gente como Dylan, Harrison, Roy Orbison.

São canções, dez no total, quase todas com menos de três minutos, que apelam ao assobio, ao cantarolar, ao pé de dança. Guitarras de vária sonoridade, palmas, coros afinadinhos e umas cordas, raras mas belas e certeiras. Nada a ver com os Black Keys.

Será, talvez, demasiado fácil, talvez mesmo pouco exigente. E porque há-de toda a música ser complicada ou armada ao pingarelho? Manuel Morgado

Gorilla Mask - Iron Lung
7/10

Gorilla Mask - Iron Lung

5 /5 estrelas

O que mina a valia de largos sectores do metal não é a sua agressividade mas a sua obtusidade. Os Gorilla Mask do saxofonista Peter van Huffel são um exemplo de como a agressividade, quando orientada pela inteligência e condimentada pela subversão, pode gerar música formidável.

O CD abre com o musculado e neurótico “Hammerhead”, passa por faixas como “Before I Die”, que combina metal, reggae e free jazz e em que o baixo (Roland Fidezius) e a bateria (Rudi Fischerlehner) em modo Rage Against The Machine servem de suporte a um saxofone cada vez mais exasperado, “Crooked”, elegíaco e dilacerado, ou “Blood Stain”, conduzido por uma linha de baixo ominosa, e termina com “Chained”, uma correria impetuosa que mergulha num vórtice de destruição. José Carlos Fernandes

The Beach Boys - 1967 – Sunshine Tomorrow
8/10

The Beach Boys - 1967 – Sunshine Tomorrow

5 /5 estrelas

Eis o lado B do Verão do Amor. Em 1967, os Beach Boys já tinham gravado a sua obra-prima absoluta (Pet Sounds, de 1966) e o genial Brian Wilson perdeu-se, literalmente, na produção de um disco (Smile) pensado para derrotar os Beatles, mas que nunca viu a luz do dia. Em 67, portanto, quando toda a gente era uma revolução musical, os Beach Boys  quase hibernaram. Lançaram um disco (Wild Honey), sem Brian ao volante e que era uma espécie de marcha atrás, com a banda a descobrir o r&b, por onde toda a gente já tinha passado (“How She Boogalooed”), e quase sem os devaneios barrocos do mesmo Brian (“A Thing or Two”), para depois embarcarem numa digressão – adivinharam, também sem Brian... – que mostrava um grupo pouco consistente e com umas versões a léguas das registadas em estúdio.

Esta edição recolhe tudo isso. Wild Honey, pela primeira vez em versão estéreo, a que se juntam uma série de versões alternativas, de estúdio, de ensaio. Dá para perceber que, sem a liderança de Brian, a banda procura qualquer coisa e essa coisa não é propriamente desinteressante, apenas não é inovadora. Há depois mais uma mão cheia dos destroços de Smile, que já haviam sido alvo de ampla edição em 2011 (Smiley Smile). E ainda uma série de gravações ao vivo da tal digressão e mais umas coisas dispersas, a que não falta uma gravação de estúdio destinada a levar palmas e fingir de vivo (“Heroes and Villains”, por sinal uma versão muito interessante e diferente da oficial, esta sim com Brian em plena acção).

Tudo somado, temos uma edição que, pela primeira vez, demonstra o esgotamento do fulgor inicial dos Beach Boys e a passagem para uma versão menos ambiciosa, à sombra da qual a banda sobreviveu nas décadas seguintes. Com e sem Brian. Manuel Morgado

Grégory Privat Trio - Family Tree
9/10

Grégory Privat Trio - Family Tree

5 /5 estrelas

Os defensores da pureza do jazz esquecem-se de que ele nasceu da mestiçagem de linguagens, uma origem que legitima que sucessivas gerações de jazzmen continuem a enriquecê-lo com material genético das mais diversas procedências.

Com Family Tree, o exímio pianista Grégory Privat (n. 1984, Martinique), com Linley Marthe (contrabaixo) e Tilo Bertholo (bateria), dá contributo precioso para esta demanda, produzindo frutos transgénicos como “Riddim”, onde confluem o jazz, a tradição clássica e a música africana (via Caraíbas), ou “Le Parfum”, com as águas caribenhas percorridas por ondulações impressionistas. José Carlos Fernandes

Aaron Parks - Find The Way
10/10

Aaron Parks - Find The Way

5 /5 estrelas

Aaron Parks estreou-se como líder com The Promise (1999), com a surpreendente idade de 16 anos. Nos 18 anos entretanto decorridos, a promessa tem vindo a ser concretizada, com cada novo disco a ir um pouco mais longe, e atinge a plena realização em Find the Way, o seu segundo disco na ECM, com os veteranos Ben Street (contrabaixo) e Billy Hart (bateria), após Arborescence (2013), em piano solo.

O lirismo diáfano e onírico do novo álbum atinge o sublime na imponderabilidade de “Adrift”, na ondulação preguiçosa de “Unravel”, no espaço infinito de “Alice” e no deslizar majestoso de “Hold Music”. José Carlos Fernandes

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