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Slow J: “A minha música é para toda a gente”

Entrevistámos o rapper (e produtor) Slow J. antes da apresentação do seu disco de estreia, "T.A.O.S.D"

©DR

Conversámos com um dos nomes maiores do hip-hop nacional enquanto bebia um chá na Champanheria do Largo. Ainda disponibilizou uma fita métrica para servir do suporte do gravador. Slow J é um artesão sem medidas fixas.

Posso perguntar-te porque é que tens uma fita métrica no bolso? 

Tenho que levar um móvel e preciso de saber se cabe no carro. 

Estás em mudanças, é isso? 

Ya, mudei-me há duas semanas para a Parede. Antes estive seis meses no Cais do Sodré a fazer uma residência artística, tinha o quarto e o estúdio pegados, num espaço que se chama Lost Lisbon. Tinha um ambiente muito fixe...

Foi aí que fizeste parte do disco? 

Sim. Antes já tinha estado 5 ou 6 meses no estúdio do Fred [Ferreira, produtor]. 

Quanto tempo levaste para fazer este disco? 

Dois anos. 

Chega? 

Mais ou menos... saiu-me mesmo do corpo. Foi a primeira vez que investi tanto tempo numa cena minha e o balanço agrada-me. O disco ultrapassou as minhas expectativas e ao mesmo tempo vivi bem... passei por grandes experiências. 

Essas experiências levaram-te a escutar o Presidente Mujica, ao ponto de teres dois samples do homem no disco? 

Identifiquei-me muito com as ideias do gajo, os samples que estão lá vêm especificamente de um documentário que é o Human, não sei se já viste...

Confesso que não. 

Vale a pena. É um documentário que filma pessoas pelo mundo inteiro, sempre num fundo preto, e com histórias de todo o tipo, desde o Mujica até um perfeito anónimo com experiências humanas fortes. Quem abre o documentário é um gajo que está preso porque matou a mulher e a filha. Ele explica que o pai lhe batia quando ele era pequeno, e quando o fazia dizia-lhe que era tudo para o bem dele, que lhe batia porque o amava. Então ele, de alguma maneira, ligou a dor ao amor, e para demonstrar amor usava violência. Depois o gajo conta a história de que só na prisão é que descobriu o que era realmente o amor, sobretudo através da mãe da mulher, que ia à prisão, e com todas as razões para o odiar, conversava com ele. É uma história que me deixa arrepiado. 

O que é que o Mujica tem a ver com isto?

O Mujica é visto como o presidente pobre, isso é um conceito incrível. Além disso, tem algo que ver com o disco do Valete [Serviço Público, 2006], que ouvia muito, tinha algumas passagens de líderes sul-americanos que depois afinal eram ditadores. 

Serves-te desse material, documental ou ficcionado, para fazer música? 

Sem dúvida. Não é que esteja sempre a utilizar esses materiais, mas gosto bué de pôr uma entrevista a tocar, por exemplo, e estar a fazer beats em simultâneo. 

Recordas-te de alguma entrevista específica que tenha sido uma ajuda? 

Lembro-me que fiz 5 ou 6 beats numa entrevista do Valete. Fi-lo como se tivesse a construir a banda sonora da coisa. 

Ah, então fazes sobretudo com entrevistas que te interessam. 

É assim, tu à partida quando começas a ouvir uma entrevista não sabes se vais gostar ou não... 

Pois... Ainda bem que esta é para ler. Esperas com este disco "Pagar as Contas" [título de uma música]?

 

Claro. Obviamente que o EP me ajudou a estabelecer uma marca, começar a afirmar-me. O trabalho agora é levar a mensagem ao resto das pessoas. Há pessoas que percebem logo à primeira, especialmente dentro da indústria da música e da crítica musical, mas quero comunicar melhor com a população em geral. E a partir daí, vai sempre vir dinheiro dos concertos e da promoção deste disco. 

“Às vezes dói, mas eu escondo” é outra canção. Se escondes não vais dizer o que é, certo? 

Nada disso. Quando escrevi esse tema tinha saído de uma relação, estava muito triste. Tinha aquela sensação de estar ao telefone com as pessoas e dizerem-me “Então, tudo bem?” e eu “Ya, ya, tranqui”. Esta música são todas as cenas que ficam naquele “tranqui”. Estou a falar de um sentimento que é muito normal para quase todas as pessoas, não é uma cena megadepressiva. 

O disco tem uma grande variedade de texturas sonoras. Tanto tens instrumentais mais funaná, como coisas mais jazzy, baladas... Achas que isto pode ser mal interpretado, ser visto como “olha m’este a querer fazer tudo”? 

Acho que não. Mas é engraçado que fales disso: no outro dia estava a mostrar as três primeiras malhas a um rapaz que é meu fã e ele teve daquelas reacções... Levantou-se, maluco, e disse-me: “lindo, mano, é Slow J mas com beats maiores...”. No meu raciocínio nunca deixei que as pessoas se habituassem a uma sonoridade, o meu EP foi feito para isso, as pessoas só se podem habituar a mim. Ou gostam de mim ou não gostam. Não é tipo “eu gosto de Slow J porque gosto de boom bap”. 

Tipo amor à primeira escuta? 

A minha percepção é que ouvem uma e depois vão ouvir o resto. E, por norma, gostam. 

O que estás a dizer é que a estética não te interessa muito. 

Ya. Acho que a minha estética tem mais a ver com a parede sónica que o álbum tem... ao mesmo tempo, ao ouvi-lo do início ao fim tens noção de quanto bass é que Slow J tem, quanto é que vai acima, quanto é que vai abaixo. Não tens é noção que instrumentos é que uso, porque não há um standard, estou sempre a mudar. 

Ou seja, antes de te enfiares no estúdio a fazer este TAOSD já sabias que ia ser uma coisa diversa. 

Claro, estou certo da minha dependência da diversidade. Na minha cabeça sou produtor antes de ser intérprete, e como produtor é quase como ser cientista, estou constantemente a tentar descobrir a próxima maneira de fazer as coisas. 

Já deves estar farto que te digam és a próxima grande cena. Lidas bem com isso? 

Estou sempre a tentar fazer a próxima grande cena, isso é certo. O meu objectivo é fazer discos clássicos que fiquem na cabeça das pessoas para sempre. Se consigo ou não, deixo para as pessoas decidirem. 

Mas também tens que ter uma opinião...

É assim, estás num momento de música incrível... acho mesmo que a minha geração está aqui para fazer estragos...

O resto da conversa não te interessa, é isso? 

Exacto, não é o meu papel. Tenho pessoas que me dizem que ouvem “Comida” todos os dias e isso para mim é que conta, o que quero é tocar as pessoas e mudar-lhe as mentalidades, não tenho como objectivo ser melhor do que X ou Y. 

Ontem estava a trocar umas mensagens com um amigo betinho que do nada diz: “Slow J é do caraças”. Como é que te defendes disto? 

Não o faço, o que quero é precisamente isso. A maneira como gosto de trabalhar é assim mesmo: mais do que quantos fãs de hip-hop é que vou tocar, é quantos fãs de música que ainda olham o hip-hop de lado é que vou conseguir trazer cá para dentro. Fico contente que ele te tenha dito isso. A minha música é para toda a gente. 

Tens um tema chamado “Sado”. Setúbal diz-te muito? 

Sem dúvida, já vivi em vários sítios, mas Setúbal é o único a que chamo casa. “Sado não sente saudade” foi uma ideia que tive a propósito do Sado. É uma ideia que tenho, que quase se podia aplicar a todos os rios, de que o rio anda sempre de lado, nunca olha para ninguém, o rio está-se a cagar para ti. Quer tu bazes e nunca mais o vejas, quer tu voltes porque não deu lá do outro lado, o rio vai sempre aceitar-te de volta. E não se vai importar se não voltares. 

O disco chama-se “The Art of Slowing Down”. 

Sim, o nome vem de um livro escrito pelo Edward Yu. Ele treina atletas através de um método super-interessante que passa pelos atletas mexerem o seu corpo em câmara lenta. Imagina corredores dos 100 metros de costas no chão a mexerem-se lentamente para conhecerem os músculos do seu corpo tão bem ao ponto de correrem com uma eficácia de 100%, para cada músculo estar a trabalhar para um objectivo só. Achei um conceito incrível. Explica como eu sou, o meu próprio desacelerar. 

O que queres dizer com isso? À partida diria que estás a acelerar. 

Em puto era um trapalhão. Ia tentar apanhar o garfo e deixava cair o prato, a água, tudo. E ainda novo percebi que se fizesse tudo mais devagar conseguia que o copo não caísse. Comecei a aplicar isso em tudo na minha vida. A minha ideia de entusiasmo é estar aqui, a fazer uma cena que curto.

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