Stabat Mater

Música, Clássica e ópera
Eduarda Melo
©Nelson d'Aires Eduarda Melo

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A evoluão dos cuidados médicos no mundo ocidental faz-nos dar por garantida a saúde das crianças e esquecer quão frequente era, há apenas um século ou dois, que um casal visse morrer os seus filhos antes de chegarem à adolescência, mesmo nos estratos privilegiados da sociedade. Entre os muitos compositores que se viram nesta situação, Mahler e Dvorák merecem destaque, por ambos terem composto obras ligadas à morte dos seus filhos.

No caso de Mahler, os seus Kindertotenlieder (“Canções das Crianças Mortas”) podem ser vistos como premonitórios, pois as suas filhas estavam vivas e saudáveis quando compôs estas canções a partir de uma série de poemas que Friedrich Rückert escrevera em 1833-
-34 como reacção à perda de dois filhos, vítimas da escarlatina – a mesma doença que vitimaria Maria, a filha mais velha de Mahler, 
em 1907, três anos após a conclusão dos Kindertotenlieder. Mas a morte de familiares em tenra idade não era nada de novo para Mahler, que em criança perdera oito irmãos. 

No caso do checo Antonín Dvorák, foi a morte da sua filha Josefa, com apenas dois dias de idade, a 21 de Setembro de 1875, que o impeliu a compor uma obra que servisse de escape à sua dor. Escolheu para o efeito o texto do hino católico Stabat Mater, que expressa a dor e desolação de Maria no Calvário, mas é válido para qualquer mãe que tenha perdido um filho – ou para um pai que tenha perdido uma filha. Após labutar na partitura nos primeiros meses de 1876, Dvorák acabou por pôr os esboços de lado, pois não conseguia dar-lhes resolução satisfatória, e preferiu trabalhar noutras obras. O destino – ou as periclitantes condições da vida no século XIX – vieram trazer-lhe motivação para concluir o Stabat Mater: a 13 de Agosto de 1876, Dvorák ficou sem a filha Ruzena, que foi vítima de um envenenamento acidental, e a 8 de Setembro de 1876 o único filho que lhe restava, Otokar, sucumbiu à varíola. Dvorák retomou o Stabat Mater, que concluiu em cinco semanas e estreou em Praga em 1880. 

No início do século XVIII, a medicina era ainda mais impotente, e não era invulgar
que doenças hoje curáveis tivessem elevadas taxas de mortalidade, mesmo entre jovens adultos: foi assim que, com apenas 26 anos, Giovanni Battista Pergolesi (1710-1736) sucumbiu à tuberculose em Nápoles. A morte na flor da idade contribuiu para que a sua fama crescesse, assente na sua produção operática (ainda que só a ópera bufa La Serva Padrona tenha garantido lugar no repertório) e no Stabat Mater composto pouco antes 
de falecer. O erudito Charles de Brosses considerava este último “a obra-prima da música latina” e garantia “não haver outra mais gabada pela profunda ciência da harmonia”. Confirmando este apreço, Bach, juiz intransigente no que toca à qualidade musical, deu-se ao trabalho de casar a música do Stabat Mater do seu jovem colega italiano com o texto alemão do Salmo 51, Tilge, Höchster, Meine Sunde. 

A Casa da Música permite ouvir os Stabat Mater de Dvorák e Pergolesi com escassos dias de intervalo. O primeiro no sábado 13, por Eduarda Melo (soprano) (na foto), Iris Oja (contralto), Mark LeBrocq (tenor), Marcell BaKonyi (barítono), o Coro Casa da Música, o Coro Infantil Casa da Música e a Orquestra Sinfónica do Porto, com direcção de Baldur Brönnimann.

O segundo na quarta 17, por Rowan Pierce (soprano), Iestyn Davies (contratenor) e a Orquestra Barroca Casa da Música, com direcção de Laurence Cummings, e complementado por um Concerto Grosso de Arcangelo Corelli e a Sinfonia di Concerto Grosso n.º 3 de Alessandro Scarlatti.

Por José Carlos Fernandes

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