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Catarina Maia, autora do projecto 'O Meu Útero'
© DRCatarina Maia, autora do projecto 'O Meu Útero'

Catarina Maia: “Ainda há muito tabu à volta de tudo o que é alusivo à vulva”

A autora d’O Meu Útero, projecto de partilha e sensibilização para a endometriose, lança agora ‘Ilustrário do Amor Próprio’, publicação colaborativa que conta com 69 ilustrações de artistas portugueses com expressões para masturbação de quem tem vulva.

Por Maria Monteiro
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Há cerca de três anos, Catarina Maia foi, finalmente, diagnosticada com endometriose, depois de anos a fio a contorcer-se com dores menstruais. Toda a gente dizia que os sintomas eram normais, por isso demorou até perceber que sofria de uma doença crónica que tinha tanto de comum como de desconhecida. Criou, então, o projecto O Meu Útero para abrir o diálogo sobre a endometriose e, desde aí, tem trabalhado na desconstrução e descomplexificação da doença, assim como na desnormalização das dores menstruais.

Mas, além de utilizar a sua plataforma para sensibilizar o público para a endometriose, Catarina também aborda outros assuntos relacionados com a fertilidade, o ciclo menstrual, a sexualidade e a saúde femininas. Este domingo, apresenta na Casa do Capitão, em Lisboa, o Ilustrário do Amor Próprio, uma publicação colaborativa que conta com 69 ilustrações de artistas portugueses com expressões para masturbação de quem tem vulva – todas sugeridas pela comunidade que acompanha as redes sociais d’O Meu Útero. Conversámos com ela a propósito do novo projecto, cujas vendas reverterão a favor da gentopia - Associação para a Diversidade e Igualdade de Género.

‘O Meu Útero’ tem uma forte presença online, mas para quem não conhece, como é que surgiu e do que é que trata?

Eu sempre sofri muito com dores menstruais e há três anos descobri que tenho endometriose. É uma doença crónica que, apesar de ter uma prevalência muito elevada, não é conhecida. Uma em cada dez pessoas que nasce com vulva tem endometriose. Fez-me confusão não ser muito falado, porque, no fundo, trata-se de um problema de saúde pública. É uma doença complexa, tem um diagnóstico que pode ser difícil.

A dor menstrual é muito normalizada, há pessoas que ficam debilitadas por um ou mais dias, vomitam, têm diarreia, desmaiam e toda a gente diz que isso é normal. Médicos, familiares, amigos… Isso faz também com que a própria pessoa atrase o seu diagnóstico. Criei este projecto para alertar e consciencializar as pessoas de que a dor menstrual não é normal, ajudá-las a encontrar ajuda para perceber se têm ou não a doença e a aprender a gerir os sintomas, encorajá-las a entrar em contacto umas com as outras e acabar com o estigma que existe na associação da endometriose à infertilidade.

Ter endometriose não significa, necessariamente, ser infértil, mas as pessoas não se sentem confortáveis em falar sobre uma doença que as possa impedir de ter filhos. Ao mesmo tempo, existe um grande tabu em relação à menstruação e, por isso, se calhar também não se fala tanto sobre aspectos que são importantes para quem menstrua, como o facto de a dor não ser normal, se tenho muito fluxo ou não, se estou a menstruar de forma saudável ou não. Esses tabus estão muito associados à premissa de que a mulher deve ter dor, de que ela faz parte [da menstruação]. Mas também há medo de se falar de uma coisa que, apesar de metade da população ter, é vista como suja e nojenta.

Comecei impulsionada pela questão da endometriose, fui-me informando e fui partilhando o que fui encontrando em termos de informação científica fidedigna relativamente à doença, mas também sobre o próprio período, mais nessa perspectiva de tirar a vergonha, o nojo e o medo sobre ele.

Além da endometriose e da menstruação, abordas a sexualidade e o prazer.

Penso que são temas que acabam por estar relacionados e [ligados por] este medo que temos, no tipo de sociedade em que vivemos, de falar de tudo o que é alusivo à vulva. O período, o parto, o sexo, o autoerotismo, a masturbação... Tudo isso é sempre jogado para segundo plano. Acho que não há por que ter vergonha. Muitas pessoas têm uma vida sexual satisfatória, outras não têm por falta de conhecimento, comunicação e à vontade para a explorarem, mesmo sozinhos, e, nesse sentido, acho que é uma parte indissociável da conversa sobre o corpo e a experiência do corpo. Não sou expert em sexualidade ou no que quer que seja, mas acho que faz sentido encorajar as pessoas a questionarem os tabus que temos e a forma como eles nos limitam.

Como partiste para este Ilustrário do Amor Próprio?

Eu interajo muito com a minha comunidade no Instagram sobre os diversos temas, [o meu trabalho lá] passa muito pela partilha de experiências. Volta e meia quando tocava no assunto da masturbação, usava uma expressão brasileira que é “tocar siririca”, mas muitas vezes tinha de explicar o que significava, porque cá não é uma expressão convencional. Houve alguém que me mandou uma mensagem a dizer que se devia encontrar uma expressão para usar em português de Portugal e que eu devia pedir sugestões à malta que acompanha o meu trabalho.

Quando lancei esse desafio, foi numa perspectiva de encontrarmos uma expressão e votarmos numa para começarmos a usar quando nos referimos à masturbação. Só que as sugestões foram tantas e tão engraçadas e criativas, que achei que seria interessante fazer algo mais concreto, mais palpável com aquilo. Há o mítico "escarafunchar o mexilhão", mas depois há tipo "acariciar o veludo", "adoçar o bolo" ou “dedilhar”, que foi a vencedora.

No início pensei em fazer uma coisa muito pequenina, mas à medida que fui falando com as pessoas, aceitei esse desafio de fazer uma listagem maior de artista e aproveitei quase todas as ideias. É interessante que tenha havido tantas sugestões, porque faz perceber que as pessoas até falam sobre isto e que há falta de uma. Para quem tem pénis, uma expressão corriqueira para masturbação é bater uma punheta, é uma expressão que pode chocar, se aplicada fora de contexto, mas alguém dizer isso é super directo ao assunto e não é nada de extravagante. Se eu disser "sarapitola", como nos sugeriram, ninguém sabe do que é que estou a falar. Se calhar o paradigma está a mudar.

Estes 69 artistas incluem pessoas que não têm vulva. Como é que elas podem contribuir para o diálogo?

Essa foi uma questão sobre a qual reflecti muito, porque estava a convidar pessoas que não têm vulva e não experienciam a masturbação como uma pessoa que tem vulva, não só do ponto de vista físico, mas social. Essas pessoas que têm pénis, e que também participaram com as suas ilustrações, nunca passaram pela experiência de ter vergonha de falar sobre isso, de não ter uma expressão ou por preconceitos sexistas e machistas que estão muito presentes na nossa vida. Mas muitas pessoas que experienciam a sua sexualidade e que têm vulva fazem-no, também, com quem tem pénis. Acaba por fazer sentido que a questão do prazer e do erotismo seja afecta a essas pessoas. Não acredito que este diálogo seja algo exclusivamente de quem tem vulva.

Isto acaba por não ser nenhum manual nem uma publicação com um objectivo técnico, mas um conjunto de expressões que são muito simbólicas, que não têm propriamente a ver com a vulva em si, podem ter muitas interpretações. A aplicação da própria arte não implica que a pessoa esteja a dar um parecer sobre a sua experiência. Apesar de tudo, é proeminente a participação do lado das pessoas que têm vulva.

Qual tem sido o feedback do teu trabalho nos últimos anos?

O trabalho no Instagram acaba por ser acompanhado por um determinado nicho, são pessoas que também têm interesse pelo tipo de coisas que eu partilho e que, à partida, vão concordar. Mesmo que discordem, acham que faz sentido falar e sinto sempre que é enriquecedor. Se alguém for mais ofensivo na sua abordagem, decidem não acompanhar o trabalho, ou se calhar vão criticá-lo noutras plataformas, mas acho esse tipo de reacção sintomático, exactamente, do problema para o qual estamos a tentar trazer luz. Vale a pena ter-se um diálogo sobre se esta é a melhor maneira de se falar sobre as coisas, e acho que devemos estar sempre receptivos a isso. Sinto que estamos a atravessar uma fase em que as pessoas estão a abrir mais os olhos para estas questões. Também é verdade que as opiniões se podem polarizar bastante, mas, acima de tudo, é importante ter empatia. 

Ilustrário do Amor Próprio
© DR
Ilustração de Annehail
© DRIlustração de Annehail
Ilustração de Amargo
© DRIlustração de Amargo

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