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Kebraku, uma festa feita de amor e militância

Por Mariana Duarte
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Festas há muitas, mas poucas são como a Kebraku. Por causa da música – a protagonista é a música brasileira, com muito funk à mistura – e de toda a ética que sustenta o projecto. É uma festa activamente anti-sexista, anti-racista e pró-LGBTI, em que se procura não só criar um espaço de felicidade e celebração de vários modos de ser e de viver, mas também um lugar de respeito, conforto e saúde. Numa parceria com a associação Abraço, a organização distribui preservativos e panfletos sobre onde fazer o teste do VIH/ SIDA, além de promover uma pista sem tabaco (ninguém é proibido de fumar, mas pede-se que o façam lá fora) e sem assédio sexual (uma luta que, infelizmente, poucos promotores e programadores assumem).

“A ideia é praticar o amor, praticar a felicidade, mas sempre respeitando o espaço individual de cada pessoa”, diz Rafael Henrique Victório, mais conhecido como DJ Farofa, ideólogo e DJ residente da Kebraku, organizada por um núcleo duro de quatro pessoas. “Eu, como produtor da festa, digo às pessoas para virem ter comigo se tiverem algum problema e falo com os seguranças para não terem uma abordagem violenta, mas sim pedagógica. Como DJ, não passo músicas com letras machistas. "É um jeito bonito de se viver e dá para mostrar isso através da noite.”

Depois de uma passagem pelo Porto em 2012, para estudar Filosofia do Direito, Rafael mudou-se definitivamente em 2014. De São Paulo trouxe duas malas cheias de discos de vinil, em vez de roupa. O objectivo era divulgar a música brasileira em Portugal, do samba à música baiana, da vanguarda paulistana ao axé. No Verão de 2015 começou “a discotecar”. Primeiro no Espaço Compasso, depois em vários bares da cidade, como o Café Au Lait e o Maus Hábitos, onde é residente, entre outros eventos, como o Festival MIMO, em Amarante.

Em 2016 criou a Kebraku com Laurem e outras amigas brasileiras. A festa foi crescendo, ocupando vários espaços da cidade de forma itinerante. Hoje é um sucesso, com edições esgotadas e com público que até vem de fora do Porto. O facto de agora haver “menos preconceito” em relação à música brasileira e de existirem “mais DJs em Portugal” a apostar nela, acabou também por ser positivo para o projecto, nota Rafael.

“A Kebraku é uma festa de ritmos transantes, dançantes e rebolantes, e uma plataforma de amor, arte e celebração”, resume. E é também “uma forma de militância” – ouviu-se “Fora Temer” nas noites da Kebraku e, na última edição, no Pérola Negra, poucos dias depois da tomada de posse de Bolsonaro no Brasil, gritou-se “Ele Não, Ele Nunca” durante o live act do músico Frankão, aka O Gringo Sou Eu.

Este mês ainda não é certo que aconteça uma Kebraku, mas em Março há dobradinha: dia 4, noite de Carnaval, no Maus Hábitos, e dia 29 no Pérola Negra, com um concerto de Jaloo, um dos nomes mais entusiasmantes da nova música brasileira independente. Vamos lá rebolar na pista, mas com respeito.

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