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A chef anunciou que se desvincula dos projectos que ajudou a criar. Agora, é possível vê-la em acção ao leme da cozinha da Bondlair, na Foz.

A notícia caiu como uma bomba. “Há momentos na vida em que é preciso falar com clareza, mas também com a serenidade que o percurso merece. É nesse espírito que partilho que o meu caminho segue agora por uma nova direcção, deixando, por isso, de existir qualquer vínculo profissional, criativo ou institucional entre mim e os projectos Stramuntana e Proua”. Lídia Brás, a chef transmontana que, em 2019, abriu, juntamente com Fernando Araújo, as portas do restaurante Stramuntana, em Vila Nova de Gaia – onde a cozinha desta região do nordeste português foi sempre preparada com autenticidade, técnica e identidade –, anunciou na semana passada, em comunicado, a sua saída inesperada dos dois projectos.
Em entrevista à Time Out, Lídia explica que a tomada de decisão se deveu a questões pessoais e familiares. “São 19 anos juntos, a trabalhar juntos, é muito tempo. E, infelizmente, quando a parte pessoal e a parte profissional se misturam, nem sempre corre bem. Deveríamos ter conseguido separar as duas”, diz sobre a relação com Fernando Araújo, acrescentando à conversa um ditado. “Lá na minha terra costuma dizer-se que quando um transmontano dá um passo atrás, é para ganhar lanço”, sorri.
Aos comandos da cozinha da Bondlair – a polivalente loja de luxo com artigos e acessórios de moda masculina junto ao Passeio Alegre, na Foz – desde Dezembro (sucedendo a Rui Paula), Lídia continua a pôr em prática a sua cozinha de raiz e de identidade, ainda que não tão vincada dadas as características do espaço. “Tal como disse no comunicado, isto não é uma ruptura com aquilo que sou, é só mais uma etapa no meu caminho. Neste momento, sair dos projectos foi a melhor decisão, mas o futuro está em aberto. Se continuar assim, a ideia é daqui a uns tempos abrir um espaço só meu”.
As nuvens dissiparam-se, o sol começou a brilhar nas águas do Douro, que corre em frente, e o eléctrico travou estridente mesmo à porta. Uma série de turistas espanhóis irrompeu pela loja. Encantados, soltam sonoros “qué chulo”, para quem os quiser ouvir. Assim que acabam o reconhecimento do espaço, admirando os imensos rótulos de vinho português e champanhes, compotas artesanais, doces, patês e biscoitos para venda, sentam-se e pedem o menu.
Na pequena cozinha, Lídia afina a nova carta. “A ideia é criar aqui uma oferta gastronómica que proporcione uma cumplicidade entre este bistrô e a loja”, começa por explicar. “Por isso é que temos tostas, que funcionam muito bem como grab and go; opções para começar o dia, como croissants com ovos mexidos e salmão fumado, por exemplo; e alguns petiscos, que podem ser pedidos durante o dia e acompanhados por um copo de vinho”. É aqui que Lídia dá mais expressão à sua veia transmontana, apresentando gulosas tostas com óleo de chouriço de porco bísaro; azeite Arvolea, também daquela região e de produção biológica para mergulhar o pão; azeitonas temperadas vindas de Freixo de Espada à Cinta; alheiras saborosas; e croquetes de presunto, entre outras coisas.
A aposta nos almoços e jantares também foi intensificada. Além da carta com pratos fixos, de segunda a sexta-feira vão passar a ter uma sugestão diária ao almoço, “preparada com o que houver de melhor no mercado nesse dia”. Quando a Time Out visitou o espaço, da panela ao lume saía um arroz carolino de coentros irrepreensível, sobre o qual lombos de cavala, cozinhada no ponto e com a pele tostada, repousavam juntamente com um picadinho de pimentos para dar frescura ao prato.
Para provar há ainda sopas de legumes e de peixe, folhados de vegetais e de vitela, cogumelos recheados e pratos mais compostos, como o bacalhau com broa ou com salteado de legumes e batata a murro, o bife à portuguesa, as plumas de porco preto e, claro, as sobremesas – onde se destaca a rabanada tradicional da chef –, que também terão o seu momento de glória. “Gostávamos muito de implementar uma ideia diferente: um pairing de vinhos e sobremesas”, atira Raquel Machado, a chef pasteleira que acompanha Lídia nesta aventura e que já passou pelos três restaurantes no Grande Porto galardoados com duas estrelas Michelin – Antiqvvm, The Yeatman e Casa de Chá da Boa Nova.
“Portanto, aqui estou, num enquadramento diferente, mais contemporâneo, mas pronta para continuar a dar a conhecer a minha cozinha. Tal como continuo a fazer nos meus showcookings e eventos privados. O resto, a seu tempo”, remata Lídia.
A Time Out não conseguiu chegar à fala com Fernando Araújo, mas em declarações ao jornal Expresso, o mesmo garantiu que irá dar continuidade aos projectos. “O restaurante vai continuar aberto e eu vou assumir a cozinha como também era habitual quando da ausência da Lídia”.
Rua do Passeio Alegre, 558. Seg-Dom 09.00-00.00
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