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Os Amigos do Gaspar: Uma Reunião na Cidade
Os Amigos do Gaspar: Uma Reunião na Cidade

‘Os Amigos do Gaspar’ estão de volta, agora numa curta-metragem musical

Mais de 30 anos depois, o realizador Duarte Coimbra faz renascer ‘Os Amigos do Gaspar’, de João Paulo Seara Cardoso e Jorge Constante Pereira. Antecipamos o novo filme-musical que revisita o icónico programa infantil.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
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Estávamos em Março de 1989 quando a segunda temporada de Os Amigos de Gaspar chegou ao fim. Sete anos depois, em 1996, Duarte Coimbra nasceu. Estava longe de imaginar que, um dia, viria a ser o realizador responsável por revisitar o programa infantil que marcou o imaginário de uma geração. Comissariado pelo Batalha Centro de Cinema, Os Amigos do Gaspar: Uma Reunião na Cidade traz de volta as personagens da série criada por João Paulo Seara Cardoso e Jorge Constante Pereira. A partir do álbum de Sérgio Godinho Canta com Os Amigos do Gaspar (1988), que eternizou músicas como “É Tão Bom” e “Canção dos Abraços”, o filme-musical convida-nos a reencontrar – em histórias por ruas e locais do Porto de hoje – Marta e Manjerico, o marinheiro Pires com o seu amor pela Dona Felismina, o ganancioso Farturas e, claro, o inconfundível Guarda Serôdio, sempre implacável com prevaricações.

“Não tinha ideia do que era, mas assim que me disseram que queriam levar as marionetas para a rua, num musical com canções do Sérgio Godinho, achei que não podia dizer que não”, conta Duarte Coimbra. “Depois fiz a minha pesquisa e pensei como é que estas personagens se poderiam posicionar em 2023.” Por um lado, conta-nos, tentou honrar o trabalho da série original, que estreou em 1986 na RTP1 e veio a repetir na RTP Memória e na SIC – agora, pode ser vista online, na RTP Arquivos. Por outro, quis perceber como poderia encontrar a sua própria voz e incluir-se na criação. “Nasci em Lisboa e as minhas idas ao Porto sempre foram visitas muito fugazes, mas uma das condições do projecto era que pudéssemos chamar pessoas locais para a equipa. Senti-me super bem-vindo e tive a oportunidade de descobrir a cidade ao mesmo tempo que a filmava.”

Os Amigos do Gaspar: Uma Reunião na Cidade
Os Amigos do Gaspar: Uma Reunião na Cidade, realizado por Duarte Coimbra

O convite para realizar partiu do director artístico do Batalha, Guilherme Blanc. “Queria convidar uma pessoa portuguesa que tivesse uma relação próxima com filmes musicais e achei interessante convidar alguém bastante mais jovem, que à partida não tem uma relação tão afectiva com a série original. Foi assim que chegámos ao Duarte. Na verdade, há muito poucas pessoas que trabalhem o cinema musical em Portugal. O Duarte é uma delas e tem uma linguagem que considerámos apropriada para o que queríamos fazer”, diz Blanc, que co-assina o argumento. “O filme foi escrito a quatro mãos, entre o Duarte e eu mesmo. Há uma base pré-existente, que é o álbum [de Sérgio Godinho]. Depois, procurámos perceber em que sítios do Porto faria sentido que essas histórias se passassem. Como é que, no fundo, ecoariam a cidade de hoje – não o Porto, mas as cidades de um ponto de vista mais amplo.”

Com uma duração de 35 minutos, a curta-metragem resulta também de um trabalho de pesquisa ao longo de 2022, que incluiu a reconstituição das marionetas originais e contou com o apoio de vários autores da série original. “Quando digo autores, estou a falar dos autores das músicas, das histórias, das próprias marionetas, mas também do Jorge, que ainda estava vivo”, esclarece Blanc, referindo-se a Jorge Constante Pereira, que morreu em Janeiro de 2023, aos 81 anos. A filha, Susana, tem uma participação especial no filme. “Quando pensámos em quem poderia entrar na “Canção dos Abraços”, para além das marionetas, escolhemos duas pessoas com uma relação muito afectiva com a série original – a filha do Jorge Constante Pereira e Isabel Barros, que era companheira do João Paulo Seara Cardoso.”

Nascido em 1984, Guilherme Blanc lembra-se bem de ver a série com a irmã mais velha. Agora que tem filhos pequenos, sente que está a passar por uma outra experiência, também muito marcante. “Que é perceber como é mostrar a uma geração que me sucede uma coisa que, naquela mesma idade, foi muito importante para mim”, partilha, antes de destacar ainda o “espírito de reunião”. “Num primeiro momento, trouxemos literalmente para a mesma mesa pessoas muito especiais para nós, como o Jorge Constante Pereira, a Isabel Barros, o Sérgio Godinho. Ou seja, pessoas que para nós foram referências absolutas do ponto de vista cultural, ao longo de décadas. Juntar essas figuras canônicas da cultura portuguesa e conseguir conquistá-las para uma ideia bastante ambiciosa foi um processo muito bonito, que resultou num filme que, por sinal, também é muito bonito.”

O ponto de partida para a tal reunião na cidade a que alude o título é o Jardim do Parque de São Roque, perto do Estádio do Dragão, na zona das Antas. “É aí que o filme começa”, desvenda Duarte Coimbra. “Nós estávamos à procura de um jardim especial, porque filmar com marionetas comporta um maior desafio logístico. Os décors que procurávamos tinham de ter condições para esconder os marionetistas. Para mim, também foi uma aprendizagem e acho que o filme sofre, até talvez no bom sentido, de estarmos todos a aprender como é que poderíamos fazer. Às vezes estávamos entusiasmados com um plano só para depois percebermos que não dava para esconder o manipulador, o que nos levou a uma simbiose criativa muito mais interessante, porque precisávamos de dar a volta. Depois foi giro imaginar o que é que os personagens poderiam estar a fazer hoje na cidade. Acho que não foi muito difícil.”

Os Amigos do Gaspar: Uma Reunião na Cidade
Os Amigos do Gaspar: Uma Reunião na Cidade, realizado por Duarte Coimbra

Na série original, a Dona Felismina tinha uma loja, agora trabalha no Mercado do Bolhão; enquanto o marinheiro Pires tem um barco para levar turistas a passear, Douro acima, Douro abaixo. “Já uma personagem como o Farturas – que, como a canção do Sérgio diz, quer ser rico – transportou-me logo para o universo da bitcoin”, conta Duarte, que acredita que este novo filme poderá fazer chegar Os Amigos do Gaspar a um novo público. Guilherme Blanc concorda e acredita que a componente de reflexão sobre o estado da cidade também terá um papel nisso. “A série original já tinha esse truque, que é um truque comum a muitos filmes infantis, que é ser escrita para diferentes níveis de entendimento. Isso significa que os miúdos gostam, mas que há uma linha de ideias que só os mais velhos percebem. Estamos a falar de uma série muito política e que, apesar disso e por isso, toca várias gerações por diferentes motivos, o que é uma coisa muito mágica. Foi, aliás, precisamente o que nos interessou e porque colocámos tanto empenho e ambição neste projecto.”

A estreia, marcada para 9 de Dezembro, conta com uma participação especial ao vivo de Sérgio Godinho. Mas esgotou em poucas horas, à semelhança das restantes sessões previstas – são seis ao todo, entre 9 e 11 de Dezembro. “Estamos ainda a tentar perceber em que formato, mas à partida conseguiremos mostrar o filme também em Lisboa”, promete Guilherme Blanc. “Gostávamos muito de o exibir também na televisão e estamos a tentar perceber como é que o filme poderá circular. Agora estamos concentrados na apresentação, mas a nossa ideia é poder levar o filme a outros auditórios e, eventualmente até, por canais televisivos.”

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