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Actriz e encenadora Sara Barros Leitão
© Maria Inês Peixoto Actriz e encenadora Sara Barros Leitão

Sara Barros Leitão escreve um monólogo para a quarentena

Convidámos a actriz e encenadora Sara Barros Leitão para escrever o início de uma hipotética peça sobre este período de pandemia e confinamento.

Por Mariana Duarte
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Decidimos passar a palavra a quem nos inspira. A quem se tenta manter à tona numa altura em que a precariedade laboral se torna ainda mais aflitiva. Convidámos a actriz e encenadora Sara Barros Leitão para escrever o início de uma hipotética peça sobre este período de pandemia e confinamento. O resultado encontra-se nesta página. Como ela cumpriu o limite de caracteres, o final deste “micro-monólogo” ficou a meio. E a hipotética resposta ficará no ar. Obrigada, Sara.

P.S.: Sara Barros Leitão cede os direitos de autor deste monólogo durante o período de confinamento, para que qualquer actriz ou actor o possa fazer na sua varanda ou à janela.

 

PROCLAMAÇÃO DA EXISTÊNCIA

um micro-monólogo para actrizes ou actores em isolamento por pandemia

 

Onde se lê “actriz”, pode ler-se “actor”, ou qualquer outra acepção com que a/o intérprete se identifique. Irei escrever “actriz” primeiro porque sou mulher e escrevo sempre do meu lugar de fala, depois porque já é tempo de contrariarmos uma história da literatura dramática ocidental que tem por sistema o género masculino como protagonista e motor da acção.

Este é um micro-monólogo para actrizes ou actores que estejam em isolamento social e que, por força de uma pandemia, tenham visto os seus trabalhos cancelados.

Depreende-se que, numa situação destas, os teatros terão sido fechados, não sendo possível o contacto social. 

 

 

CENA ÚNICA

Uma rua vazia.

Um ou dois carros passam a velocidade de domingo.

Muitas gaivotas e pássaros exóticos que, nos últimos dias, começaram a aparecer.

Não há golfinhos, isso foi fake-news.

Talvez um drone (opcional) com uma voz gravada, em tom paternalista, que repete: “Fique em casa. Proteja a sua comunidade. Vai ficar tudo bem”. 

Uma varanda.

A actriz abre as portadas e aparece.

Fica à espera até avistar um vizinho ou vizinha numa janela.

 

Tempo. Não há pressa. Pode demorar o dia inteiro.

 

Se não aparecer nenhum vizinho/a, a actriz solta um suspiro e volta para dentro.

Pode tentar repetir a cena no dia seguinte.

 

Assim que aparecer uma pessoa noutra janela ou varanda, a actriz deve chamar a sua atenção. Pode improvisar algumas falas para o efeito. Não deve parecer desesperada para não a assustar.

Quando conseguir o seu primeiro espectador ou espectadora, o espectáculo começa.

 

ACTRIZ

Os teatros estão fechados. Todos os teatros do país estão fechados.

                                                           Espere, espere. Não é preciso responder.

                                                           Quer dizer, pode responder. Mas não tem de responder.

Sou actriz. Não sei se sabia. Se responder, vou ter de improvisar, mas fá-lo-ei no sentido de conseguir, com algum virtuosismo, espero eu, voltar à narrativa.

Isto é um micro-monólogo. É “micro”, não lhe vai tirar muito tempo.

Ou seja, é teatro. Isto.

Hoje, todos os teatros do mundo estão fechados, não sei se já tinha pensado nisso.

Sabe aquela imagem que passou nas notícias, na semana passada, de um aeroporto com os aviões estacionados na pista? Centenas de aviões com os narizinhos todos alinhados?

Chocou-me muito.

Mas fico mais comovida quando penso em todos os teatros do mundo fechados neste momento. Dizem que os teatros devem fechar uma vez por semana para que os fantasmas representem as peças e não as amaldiçoem nos outros dias de apresentação. Não sei se é supersticiosa/o. É?

                                                           Espere, espere! Não responda. Se responder, terei-

Estava a falar de fantasmas, não é? Já imaginou o que terão feito pelo teatro nas últimas semanas?

Passaram lá o dia mundial do teatro, consegue imaginar? Absolutamente sozinhos.

Li que, em Espanha, os trabalhadores deixaram uma luz acesa nos vários teatros, para que haja um testemunho. Além disso, algum dia terão de ir lá desligá-la, não é? Isso significa que voltarão ao teatro. Para o teatro. Voltaremos, não é?

Eu sei que isto é constrangedor. Somos vizinhas/os e talvez nunca tivéssemos falado antes. Falámos?

                                                           Espere! Não-

Não me lembro se alguma vez nos falámos. Sempre pensei que esse prédio fosse todo alojamento local. Mas agora percebo que não é. Pelo menos esse apartamento. Mas o de baixo é, não é?

                                                           Desculpe!

O que eu queria dizer é que isto pode parecer constrangedor, mas eu preciso de si. Preciso de si como uma luz que se deixou acesa. Como testemunho de que existo. Eu só existo como actriz, verdadeiramente, através de si.

Só acontece teatro, se alguém estiver a ver.

Breve pausa.

Tenho pensado tanto sobre isto.

Quando estudava, os professores diziam muitas vezes que para acontecer teatro bastam duas pessoas: uma que faz e uma que vê. Mas nunca pensei na literalidade dessa frase.

Eu moro sozinha.

Os teatros estão fechados.

Fomos os primeiros a parar de trabalhar.

Dizem que também seremos os últimos a poder…

Se não se importasse, podíamos repetir isto mais vezes?

A autora deste texto só escreveu 3000 caracteres.

Foi o limite que lhe deram.

                                                           Tudo o que eu disse são 3000 caracteres.

Vai acabar agora.

Mas acha que podemos voltar amanh

 

 

Sara Barros Leitão

9 de Abril de 2020

 

 

 

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