Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Porto icon-chevron-right Richard Zimler: “Adoro contar histórias sobre os heróis da vida quotidiana”

Richard Zimler: “Adoro contar histórias sobre os heróis da vida quotidiana”

'Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco' é o último romance de Richard Zimler, acabado de chegar às livrarias. Depois de o lermos de ponta a ponta, falámos com o autor sobre o amor no mundo e a falta dele

Richard Zimler
@João Saramago Richard Zimler
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Este livro conta a história de dois sobreviventes do Holocausto para quem é muito difícil falar sobre o que aconteceu. Com este problema de comunicação e o tempo a extinguir os últimos sobreviventes, este romance é uma forma de preservar a memória?

Em parte, sim. Tenho 62 anos e, infelizmente, cheguei à conclusão de que as pessoas não aprendem História. Repetem sempre os mesmos erros. O Brasil é capaz de eleger um fascista, o que me faz pensar que a grande maioria dos seus votantes não tem conhecimento da sua própria ditadura: uma ditadura fascista, que fez com que milhares de pessoas desaparecessem e outros milhares fossem torturados. Como romancista, como ser humano, acho importante conhecermos a nossa História. No caso do Holocausto, que foi um crime contra a humanidade, o que aconteceu pertence a toda a gente, não apenas aos judeus. Esta tentativa de genocídio contém lições que ainda hoje são pertinentes. Por isso, sim, é um livro sobre a memória, sobre estes dois magníficos sobreviventes, Benni e Shelly, e sobre como eles ultrapassaram os traumas, mas também como os transmitiram à família contra a sua própria vontade.

As personagens têm uma grande profundidade e carga emocional. O que há aqui de autobiográfico?

Há pouco, mas há alguns elementos. Estudei música e conheço bem a música sefardita, por exemplo. Tocava guitarra clássica e estudei flauta. A personagem da Teresa, esposa de Benni, reflecte esse meu interesse pela música sefardita.

O Eti, o filho de Benni, pinta...

E eu pinto e desenho quando estou muito descontraído, entre livros. Cresci em Nova Iorque, ia a muitos museus e a minha infância foi muito marcada pela arte, pela música, pelo teatro e pelo cinema. Tive a vantagem de ter uma mãe que devorava livros. Esse aspecto cultural talvez seja a parte mais autobiográfica do livro, uma vez que os meus pais não eram sobreviventes do Holocausto. Os meus avós vieram da Polónia para os EUA por volta de 1905, mas a avó da minha mãe deixou oito irmãos na Polónia e todos eles foram mortos nos campos. De Treblinka, provavelmente.

O título em inglês é The Incandescent Threads, ou seja, Os Fios Incandescentes, traduzindo para português, que nos ligam uns aos outros. George aparece na vida de Shelly para o ajudar a encontrar Benni no fim da Guerra. Estamos todos ligados?

Eu deixo essas questões em aberto. Cada leitor decide. As coincidências provocam em nós uma certa sensação de desconfiança. Será que há algo por detrás desta coincidência? Já vivi coincidências quase impossíveis. Acho que é uma experiência comum a toda a gente. Benni acredita que existem ligações invisíveis...

Ligações que transcendem o espaço, o tempo e a geografia?

Sim. Por que é que eu nasci nos EUA? Por que é que todos os meus quatro avós decidiram mudar-se para lá e porquê? Todos nós somos uma consequência de tantas improbabilidades, de tantos acasos, de tantos acidentes. O nosso presente é determinado por tantas improbabilidades do passado.

O livro é feito dessas improbabilidades?

Os enredos dos meus livros surgem directamente das personagens. Os elementos mais importantes dos meus romances são as personagens e a qualidade da escrita. Uma escrita poética, com força, com impacto. O enredo não precisa de ser muito trabalhado. Ele é a consequência de Benni, de Shelly, de Teresa. As decisões deles determinam a narrativa. Não preciso de efeitos especiais, o drama surge dos conflitos entre pessoas. O drama não é uma criação artificial, faz parte da nossa vida.

Estas pessoas que amam muito e de diversas formas aparecem numa altura em que dá a sensação de estarmos a esquecer-nos de valores importantes como a tolerância e a igualdade entre géneros, credos, raças...

O mundo está com muitos problemas. A Polónia e a Hungria são, basicamente, neofascistas, e o Brasil é capaz de eleger um nazi, racista e xenófobo. Nos EUA temos o Trump, um ignorante primário abominável. O que vai acontecer nas próximas décadas será determinado pelas novas gerações. Espero que elas façam as decisões certas. Li hoje que Portugal é o país europeu com a maior percentagem de cientistas mulheres. Isto era impensável há 50 anos. Nós pensamos que os direitos conquistados, estão conquistados para sempre. Que as mulheres em Portugal vão ter sempre direito ao voto, a abortar, de se apaixonarem por uma pessoa do mesmo sexo, de adoptarem uma criança sem marido. Esses direitos podem desaparecer em pouco tempo. Temos de estar sempre vigilantes e lutar, lutar muito para conseguir cada vez mais igualdade.

O manuscrito de Berequias Zarco, referido no livro, é um aviso para que não nos esqueçamos do passado?

Exactamente. Durante a Segunda Guerra Mundial corremos o risco de perder toda a cultura ocidental de tolerância, de democracia, de direitos humanos. No caso do Berequias Zarco, ou seja, numa situação limite, temos de ter a vontade de sacrificar tudo para preservar os filhos, os netos, a civilização. Cada pessoa neste livro faz um sacrifício. Quando desenvolvemos uma relação de amor, ela exige alguns sacrifícios, senão vai desaparecer. Eu não poderia ter escrito este livro sem viver 40 anos com o Alexandre Quintanilha. Sem fazer uma viagem psicológica, física e espiritual com a mesma pessoa.

O Shelly refugia-se na sua hipersexualidade e o Benni na Cabala. No caso deste, a salvação da humanidade está na aproximação de Deus e na tentativa de sermos melhores?

O Benni está à procura de respostas em relação à sua própria culpa, porque todos os sobreviventes do Holocausto sentem uma culpa. Por que é que eu sobrevivi quando os meus pais, a minha irmã ou o meu tio não sobreviveram? É um aspecto injusto e terrível do Holocausto, mas real. Benni não encontra respostas na sua vida quotidiana, portanto, procura respostas nos velhos sábios, no misticismo judaico. Há uma frase no livro que me comove sempre, dita pelo Eti, o filho dele: “Este é o meu pai, livre de todos os seus complexos e de toda a sua culpa.” Adoro contar histórias sobre os heróis da vida quotidiana, que ultrapassam as dificuldades e que, apesar de todo o sofrimento, conseguem mostrar amor, paixão, solidariedade, empatia. O mundo está a precisar cada vez mais de compaixão. Vejo a ausência desses valores todos os dias. Quando não temos confiança nos tribunais, nos hospitais ou nas escolas, ficamos cada vez mais individualistas, e depois acontece o caos, o crime e a violência. Obviamente não quero isso para Portugal, nem para a Europa, portanto, temos de ter muito cuidado e de cuidar das nossas instituições.

Já que falamos de Portugal, as raízes da família Zarco são portuguesas.

Adoro a cultura sefardita. Curiosamente, os judeus sefarditas que nasceram na Turquia, nos EUA, no Brasil, em Inglaterra, sentem uma ligação psicológica a Portugal e a Espanha. A música que eles ouviam quando eram crianças eram canções sefarditas, com 500 anos ou mais. A língua falada em casa pelos judeus sefarditas da Turquia, até muito recentemente, era o ladino, que é português/espanhol medieval. A ligação de Benni e Shelly com Portugal não é uma invenção. Eles sentem isso. Têm uma ligação psicológica muito profunda.

Mesmo com a Inquisição durante séculos na Península Ibérica?

Isso é que é curioso. Apesar de terem sido torturados, banidos e perseguidos, ainda sentem essa ligação emocional com os países.

A comunidade judaica está bem integrada no Porto?

A sinagoga no Porto tem uma relação, custa-me dizer, periférica com a cidade. Ainda não descobriram uma maneira de integrar-se totalmente. As sinagogas na Europa são diferentes das sinagogas nos EUA e no Brasil, que são mais abertas e convidativas. Aqui não, são mais fechadas. Em parte, devido à história dos judeus da Europa. A sinagoga no Porto é, quase, uma espécie de ilha. Também é uma consequência do facto de a comunidade aqui ser muito reduzida. Durante muitos anos, por exemplo, não houve rabino. É lindíssima, mas durante décadas foi muito pouco aproveitada.

Há algum sítio na cidade onde goste de trabalhar?

Só consigo trabalhar em casa. Estou de tal maneira concentrado no universo paralelo da minha história que não oiço nada. Às vezes o Alexandre pergunta-me se quero um chá e eu nem respondo, mas ele já está habituado. Para se ser escritor é preciso gostar de estar sozinho.

Mas nunca se está verdadeiramente sozinho…

Exactamente! Bem dito. Não estou. Tenho muita gente aqui a viver [aponta para a cabeça]. É espectacular. Uma das grandes vantagens de se ser escritor é ter quase uma outra família.

Há mais romances a caminho?

Nos anos que me restam quero escrever mais volumes sobre os Zarco. Adoro a ideia de um projecto mais abrangente. Estou a escrever um outro. Decorre em Portugal. Regressei ao século XVII para escrever sobre um outro ramo da família Zarco. Quando terminei o primeiro capítulo deste livro percebi que não queria continuar com o mesmo narrador. Normalmente as minhas narrativas têm só uma perspectiva, decidi quebrar isso neste livro e escrever o segundo capítulo com a perspectiva de uma outra pessoa.

E ninguém está à espera disso.

Ninguém. Nem eu. Este livro exige duas coisas do leitor, mais fé em mim e na sua própria capacidade de interpretar informações e encaixar as peças do mosaico. Eu sei que estou a exigir um bocadinho mais dele neste livro. Para compensar, cada narrativa é muito simples, em ordem cronológica, não podia complicar, porque já é complicado ter seis narrativas diferentes.

Nem se percebe logo quem é que está a contar a história.

Às vezes, nas escolas, os alunos perguntam-me sobre quem é o meu público e eu digo, num tom um bocado atrevido e provocador, que não escrevo para pessoas estúpidas. Escrevo para pessoas sensíveis, inteligentes e curiosas.

Como seria um dia perfeito no Porto?

Richard Zlimer
© DR

Seria acordar cedo e com sol. Sem nevoeiro na Foz e sem chuva. Com 18 graus. Tomar o pequeno-almoço em casa, começar a trabalhar e conseguir umas páginas geniais para o meu novo romance. Ao meio-dia, ir até à praia e, depois, almoçar na Tavi uma sanduíche de salmão fumado ou, então, no Peebz, o meu hambúrguer vegetariano preferido. A esta altura a temperatura estaria nos 24 graus. Voltar para casa para tirar uma soneca, durante 35 minutos, e ver uma hora de NBA antes de voltar a trabalhar. Às 18.00, comprar umas coisas para o jantar na frutaria da Rua de Diu e, às 19.00, começar a prepará-lo, porque o Alexandre chega meia hora depois. Às 21.00 ver um bocadinho de televisão e, de seguida, dormir.

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