Nuno Baltazar: "Um francês não vem ao Porto comprar Chanel. Para quê?"

A completar 20 anos de carreira, o estilista deixa a Avenida da Boavista e abre, em breve, um espaço na Baixa
© Marco Duarte Nuno Baltazar
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2018 é um ano de mudanças...

É. Há dois anos fiz 40 anos e este ano faço 20 de carreira. Acho que quando chegamos a determinadas etapas na vida é impossível não olhar para trás e não fazer um balanço.
Percebi que as coisas me aconteceram muito cedo. Comecei a apresentar colecções na Moda Lisboa com apenas 22 anos e abri uma loja e um ateliê também muito novo. E, claro, as coisas foram ganhando uma estabilidade que, apesar de ter coisas boas, se não estivermos alerta nos faz estagnar. Por isso, há dois anos comecei a perceber que precisava de sair da zona de conforto.

Qual foi o primeiro o passo?

Sair desta loja [até Março, a loja de Nuno Baltazar ocupava o número 856 da Avenida da Boavista]. A avenida mudou e à medida que a Baixa se foi desenvolvendo, perdeu-se muito comércio aqui. Dificilmente as pessoas vêm à Boavista fazer compras. E eu também precisava de sair do ateliê, ir beber um copo de vinho, ver pessoas a passar. Há muito tempo que andava à procura de um espaço e quando o encontrei coincidiu com a abertura  da nova loja do Luís Buchinho. Vamos estar muito próximos [a próxima loja vai ser no número 37, da Rua do Bolhão].

Achas que a zona junto ao Bolhão poderia ser um novo quarteirão criativo?

Sem dúvida. Acho que deveria haver uma estratégia municipal para agregar projectos criativos. É importante que as marcas internacionais vejam o que aqui temos. Um francês não vem ao Porto comprar Chanel. Para quê? Quer é encontrar outras coisas, especiais e únicas. E, por isso, era muito bom para todos se existisse essa concentração.

A nova loja é muito diferente?

Muito. A mudança vai-me fazer perder clientes e isso é uma coisa que me agrada. Perder clientes vai ser fundamental para que outras se aproximem da marca. Enquanto esta loja só tem o lado bonitinho, com tectos trabalhados e madeiras, a nova tem um ambiente industrial, com elementos corroídos e decadentes. Vai ser um choque muito grande para muita gente.

Isso vai reflectir-se também no teu trabalho?

A nova loja vai ter um carácter mais masculino até porque tenho feito colecções de homem nas últimas estações que nesta loja não têm espaço, nem físico, nem de ambiente. Também vou ter peças mais casuais, como sweaters e t-shirts. Mas não vou tornar a marca sportswear, as minhas peças é que sempre foram pensadas para isso. Uma saia de lantejoulas pode e deve ser usada com um jumper.

Estes 20 anos são uma mudança de paradigma?

Completamente. Até o logótipo vai mudar. Este desafio deu-me um ânimo que eu já não estava a sentir. Fez-me reflectir sobre para onde é que eu quero que a marca vá, qual é a mulher que eu quero que seja a mulher Nuno Baltazar, e qual o homem também.

É a Catarina Furtado?

Não, não é. As pessoas escrevem, sem me perguntarem, que a Catarina é a minha musa. A Catarina é uma grande amiga, que eu visto principalmente em televisão. Ela inspira-me nesse trabalho mas não me inspira nas minhas colecções. As minhas colecções são pensadas a partir de histórias de mulheres. Algumas até já não são vivas, outras nunca existiram...

Inspiras-te muito na ópera, no cinema...

Sim, já trabalhei Sophia de Mello Breyner e Cabo Verde foi tema de uma colecção inteira, baseada no movimento que as mulheres fazem para apanhar uma criança do chão. E esta próxima colecção [Outono/ Inverno] tem inspiração no universo da Paula Rego. Tenho mulheres que me inspiram, mas não tenho uma musa.

E como é esta colecção que está à venda?

Inspirei-me no livro O Amante, da Marguerite Duras, e no filme. É uma história sobre o primeiro romance de uma adolescente. E o resultado é uma paleta de cores cheia de sombras, com peças de homem vestidas em mulher, a dar a ideia de cama: uma camisa amarrotada, uma t-shirt e umas cuecas. Peças descontraídas, oversized, fluidas e sobrepostas.

Quem é que gostarias mesmo de vestir?

A Meryl Streep. E agora, vais achar um disparate, mas apetecia-me vestir-te a ti. Gostava que vestisses uma saia minha com a mesma camisola com que estás e com o mesmo cabelo. Gosto que as pessoas interpretem a minha roupa.

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