10 canções pop de Verão

O Verão tem inspirado resmas de músicas e muitas são sobre surf, festas na piscina e “dolls by a palm tree on the sand” (Beach Boys dixit). Mas há canções pop de Verão que não se ficam pelo elogio das “cutest girls in the world” (as californianas, claro)

©DRHavai

10 canções pop de Verão

“Summer Teenage Girl”, dos Canadians

Uma canção impregnada de luz e, ao mesmo tempo, de melancolia, que recorda um amor de Verão aos 17 anos. O nome e o som da banda são enganadores: estes “canadianos” são de Verona (a cidade de Romeu e Julieta, pois então), embora dominem a gramática indie pop com o à-vontade de quem nasceu do lado de lá do Atlântico.

“Summer ‘68”, dos Pink Floyd

“Summer ‘68” é também sobre um “amor de Verão”, mas este não deixou boas memórias. Relata um efémero encontro de Verão com uma groupie da banda no Verão de 1968, experiência que se presume ter sido factual e pouco satisfatória: a letra denota amargura e Wright concluiu que teria sido preferível ter passado aqueles momentos deitado na relva, ao sol, com os amigos.

A canção faz parte de Atom Heart Mother (1970), o quinto álbum dos Pink Floyd, antes de a inspiração se ter esgotado e de terem começado a recorrer à pompa e à sobre-produção para o disfarçar, e foi composta e cantada pelo teclista, Richard Wright (na altura a banda funcionava num regime mais cooperativo, antes de Roger Waters assumir o comando) e tem um ambiente folk pastoril (se descontarmos os densos arranjos orquestrais típicos deste disco).

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“Summertime”, de Jesca Hoop

A “Summertime” de Hoop é das mais ensolarados e despreocupados hinos ao Verão jamais compostos: começa com o milho a crescer e o nível de água no poço a descer e acaba com a lua erguer-se e o sol a mergulhar para lá do horizonte, e propõe um programa nocturno que passa por nadar no lago e cantar com acompanhamento do coro de grilos e cigarras. É a faixa de abertura de Kismet (2007), o álbum de estreia da californiana Jesca Hoop, que antes de iniciar a carreira musical foi nanny dos filhos de Tom Waits e Kathleen Brennan, casal que foi decisivo no lançamento da sua carreira (Waits descreveu a música de Hoop como sendo equivalente a “nadar num lago à noite”, quiçá tendo esta canção em mente).

Uma advertência quanto a efeitos secundários: num dia luminoso de Junho, pode tornar-se impossível continuar a trabalhar de forma concentrada e produtiva depois de ouvir “Summertime”.

“Girls in Their Summer Clothes”, de Bruce Springsteen

A personagem que se exprime na canção – presume-se que não é The Boss, até porque a empregada de um diner o trata por “Bill” – parece estar longe dos seus melhores dias. Olha os casais que passam de mão dada, mas ele está só e a recordação da mulher que o deixou “corta-o como uma faca”. A noite de Verão está fresca e teve de vestir um casaco, mas as raparigas parecem não sentir a brisa e passam, nas suas roupas estivais, como se ele não existisse. O tom de Springsteen e os arranjos densos e empolados geram um ambiente mais épico e menos melancólico do que a letra pediria – aliás, bastaria adicionar ironia para termos uma paródia em registo “pop sinfónico” saída da pena dos Divine Comedy. A canção faz parte do álbum Magic (2007), que não é propriamente Springsteen vintage.

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“Summer Dress”, dos Red House Painters

Os vestidos de Verão das raparigas são também o assunto desta canção, de uma concisão e singeleza exemplares – bastam-lhe 2’50, a voz de Mark Kozelek, uma guitarra acústica e o tempero de um violoncelo de som plangente. A canção começa por parecer a celebração de uma rapariga cujo vestido a faz mais bela do que as outras, mas a luz é toldada pela neblina fria que vem do mar e a canção enche-se de sombras. Faz parte de Ocean Beach (1995), o quarto álbum dos Red House Painters, em que são detectáveis vínculos com o litoral do Sul da Califórnia – San Geronimo, Ocean Beach, Cabezon – ou que, como é o caso de “Summer Dress”, remete para um contexto de praia. Porém, não poderia estar mais longe dos hinos ao surf e às miúdas californianas dos Beach Boys.

“Summertime Clothes”, dos Animal Collective

O Verão de “Summertime Clothes” é de ananases: a cama está transformada num charco e as paredes estão em chamas, é só colocando a cabeça sob a torneira se obtém um alívio temporário. A única solução é sair de casa e andar pelas ruas até de madrugada, em busca de uma aragem, arrancar as mangas e descartar as peúgas, dançar na rua ao som da música que se sai dos carros que passam. Impelido por este turbilhão caleidoscópico e pela batida irresistível é fácil entrar-se num transe dançarino que só se quebrará com os primeiros raios de sol.

Esta mescla de convite à dança e fervorosa declaração de amor, faz parte de Merryweather Post Pavillion (2009), que foi o oitavo álbum dos Animal Collective e aquele em que a banda mais se aproxima dos moldes da canção pop, embora sem abandonar a matriz psicadélica e alucinada que lhe é característica.

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“Summersong”, de The Decemberists

Um quadro de serenidade estival – “barcos balouçando no azul da baía” – sobrepõe-se a visões tenebrosas – “lá muito no fundo, todos os marinheiros mortos deslizam lentamente para o sono” – e o amor presente convive com a memória de ter estado à beira de cair numa “sepultura aquática”. O refrão deixa a advertência: o Verão chega com todo o seu esplendor luminoso, mas pode ser “silenciosamente engolido por uma onda”. A canção faz parte do quarto álbum de The Decemberists, The Crane Wife (2006), cujo título aparentemente bizarro se explica pela inspiração no inquietante conto tradicional japonês com o mesmo nome (Tsuru no Ongaeshi). O álbum de 2015, What a Terrible World, What a Beautiful World, inclui uma “Anti-Summersong”.

“Summer Home”, dos Typhoon

Quando lá fora as nuvens se adensam e a última vela parece prestes a extinguir-se, quando o relógio parece ter-se detido mas a poeira vai depositando-se sobre as superfícies, quando o corpo começa a dar sinais de decrepitude e o espelho quebrado reflecte uma vida igualmente estilhaçada, resta depositar fé no tempo luminoso que há-de chegar, pois há “uma terra prometida no coração de cada homem, há um Verão”. “Summer Home” faz parte do EP A New Kind of House (2011) dos Typhoon, uma banda de Salem, no Oregon, que cultiva uma curiosa mistura de folk e psicadelismo e cujos 11 elementos produzem uma sonoridade profusamente rendilhada e colorida, onde, além dos instrumentos-padrão do pop-rock, há lugar para violino, violoncelo, ukulele, trompetes e percussões sortidas.

[Versão ao vivo, na KEXP]

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“Summer Skin”, dos Death Cab For Cutie

O escamar da pele crestada pelo sol faz parte do imaginário estival e Ben Gibbard usa-a aqui como metáfora para o fim de um amor de Verão: com a pele de Verão, que mudou no Labor Day (feriado que se celebra na primeira segunda-feira de Setembro, nos EUA), foi-se também o amor. A canção faz parte do álbum Plans (2005) e soará ainda mais verdadeira e pungente quando o sol começar a pôr-se mais cedo.

“July”, das BOY

É um magnífico fecho para o álbum de estreia, Mutual Friends (2011), do duo formado pela suíça Valeska Steiner (voz) e pela alemã Sonja Glass (baixo). É uma doce canção de apaziguamento para quem fez uma longa e penosa caminhada e chega a um porto seguro, onde pode finalmente pousar a mala, descalçar os sapatos e esquecer cuidados. Todas as dificuldades, inquietações, dissabores e desilusões fazem agora sentido, pois fizeram parte do caminho que conduziu até àquele abrigo, onde nada há a temer e tudo será curado e resolvido.

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Com os ouvidos no verão

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