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Old Jerusalem: trovas do tempo que passa

Francisco Silva tem um belo novo disco. Certain Rivers, o oitavo álbum do projecto Old Jerusalem, é editado a 14 de Maio.

Por Ana Patrícia Silva
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Vivemos um ano surreal, com várias fases distintas de emoções e reacções. A música ajudou a amenizar muitas dores, para quem a ouve e para quem a cria. Francisco Silva aproveitou este tempo para completar o oitavo álbum do projecto Old Jerusalem, a que chamou Certain Rivers. “Trabalhar neste disco foi, conscientemente, uma forma de focar a mente num propósito concreto e criativo que ajudasse a tornar este período de grandes limitações em alguma coisa um pouco mais produtiva”, conta. “Sinto que o que eu perdi com a pandemia não foi nem de perto nem de longe tanto quanto outras pessoas terão perdido, mas no mínimo todos perdemos uma dose considerável de paz de espírito e serenidade, com efeitos ainda por apurar, a prazo. Este contexto da pandemia e do confinamento condicionou muito os planos para este disco – se por um lado acabou por impulsionar o trabalho, por outro determinou um modelo de trabalho e decisões estéticas bastante distintas daquelas que idealizava.”

Apesar disso, conseguiu contar com colaborações de nomes como Peter Broderick, cujo trabalho admira há bastante tempo. “Ele move-se com muito talento entre o universo das canções – e, portanto, com grande afinidade a Old Jerusalem – e o de uma composição contemporânea muito mais focada no plano estritamente musical, o que é uma mais-valia numa colaboração deste género.” No tema “High high up that hill”, pareceu-lhe que a voz dele poderia funcionar muito bem e estabeleceu contactos para lhe endereçar o convite – “para minha grande satisfação, ele aceitou, e acabou por cantar e arranjar o tema maravilhosamente”. 

 


A música de Francisco Silva tem um coração que crepita quente e lentamente. Faz com que as explorações mais tranquilas pareçam vivas com encantamentos íntimos. São canções que se deitam e deleitam num espaço de recolhimento, na contemplação interior. No aconchego acústico da guitarra, canta canções de beleza poética, sobre o desencanto pela passagem do tempo. Mergulhando dentro de si mesmo, deixa a música a marinar na delicadeza descarnada da melancolia.

É-lhe difícil descrever como surge uma canção de Old Jerusalem. “Não tanto porque o processo tenha qualquer dose de transcendência”, explica Francisco. “Mas porque de facto, pelo contrário, parte muitas vezes de banalidades (musicais ou líricas) que a uma certa luz e num determinado momento ganham um sentido estético que parece valer a pena desenvolver e prosseguir. Mas se calhar isto não deveria surpreender, porque muitíssimas vezes os momentos mais mágicos da nossa existência coincidem com os pequenos nadas do nosso quotidiano.”

No meio da melancolia, parece existir sempre algo de belo e luminoso na sua música. Será este um feliz acaso do encontro das palavras com as melodias, ou a beleza é algo que procura conscientemente? “Confesso que houve fases na vida de Old Jerusalem em que tentei deliberadamente imprimir um tom mais agreste à sonoridade da banda, mas essa característica acabou por na maioria das situações fazer sentido apenas no domínio das palavras – e mesmo aí quase sempre com um silver lining a conferir alguma leveza à melancolia. O que é certo é que raramente senti que uma estética mais desolada reflectisse bem o que quero exprimir nas canções. Tenho um fraquinho por encontrar resquícios de beleza, mesmo nos ambientes mais hostis”, admite.

A música de Old Jerusalem é delicada e subtil, vai-se deslindando na sua filigrana. É aparentemente simples, mas tem os seus labirintos – requer uma certa disponibilidade emocional para entrar dentro destas canções e descobrir as suas nuances. Talvez o mundo em que vivemos não seja o mais propício a isso. “Sem querer soar demasiado pessimista ou nostálgico por um qualquer tempo mítico em que as subtilezas das artes eram apreciadas com entusiasmo pela generalidade da população, não creio que o contexto em que vivemos e a forma como usufruímos das canções hoje em dia seja favorável a esse apreço pelas nuances da arte”, diz Francisco. “Sinto que efectivamente há uma relação mais frívola com a música, eventualmente mais utilitária, que é muito distinta daquela que me habituei a manter com esta e outras formas de criação e expressão. Será uma generalização grosseira, é certo, e possivelmente até equivocada, mas não tenho visto grandes evidências que a contrariem.”

A verdade é que quem dedicar o seu tempo a este disco será devidamente recompensado. As canções, quando são bem feitas, têm este dom – ajudar a vislumbrar novas perspectivas sobre esta odisseia de amar, perder e sobreviver. E dar mais sentido a esta estranha coisa que é estar vivo. ■

 

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