Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Tiago Sousa: “O silêncio é de onde emana tudo”
 Tiago Sousa1/2
©Vera Marmelo Tiago Sousa
Tiago Sousa2/2
©Vera MarmeloTiago Sousa

Tiago Sousa: “O silêncio é de onde emana tudo”

Tiago Sousa usou o confinamento para se libertar através do piano. Ouvimos as suas palavras, teclas e silêncios.

Por Ana Patrícia Silva
Publicidade

Fundador da extinta editora Merzbau, que lançou nomes como B Fachada, Lobster ou Noiserv, Tiago Sousa acabou por seguir um percurso centrado no piano, convidando à introspecção e à meditação. O novo disco, Oh Sweet Solitude, é um regresso ao piano a solo e a formas mais livres e improvisadas de expressão. É música de autodescoberta que se redescobre ao vivo – o próximo concerto está marcado para 2 de Dezembro, no Lux, via Teatro do Bairro Alto.

O primeiro concerto de apresentação deste disco foi no Theatro Circo, às 11 da manhã de um sábado, devido ao recolher obrigatório. A tua música é propícia às manhãs?
Foi a primeira vez que toquei tão cedo. Na verdade, acaba por ir ao encontro de uma percepção que eu tenho em relação à música que faço, que é uma música que requer alguma atenção, um estado de espírito mais contemplativo. Se calhar não é tão propícia ao ambiente noctívago, em que normalmente os concertos ocorrem. Esses horários ao fim do dia trazem um estado de espírito diferente, uma percepção um pouco alterada, por isso acho interessante explorar horários menos convencionais. De certa forma, fiquei com vontade de repetir.

Referiste a necessidade de atenção para ouvir a tua música. Não gostas que seja usada como ambiente?
A partir do momento em que faço música e a dou às pessoas, ela deixa de ser minha, passa a ser partilhada. Eu faço-a com uma intenção, mas depois a forma como essa ideia se expande e vai readaptando é da responsabilidade das pessoas e das circunstâncias em que se encontram. Não é algo que me faça confusão. Eu tenho muita dificuldade em ouvir música e fazer outra coisa ao mesmo tempo. Há muita gente que comenta que ouve a minha música a ler, eu seria incapaz de o fazer. Mas as pessoas são as fiéis depositárias da minha música e vão usufrui-la de formas que não me passariam pela cabeça. No fundo, o encontro com o outro e com o estranho é precisamente o motivo que me leva a fazer isto tudo.

Este disco foi gravado num dia. De que forma te preparaste – já tinhas as pautas definidas ou deixaste fluir?
Este disco é o culminar de uma vontade de entender melhor a música e a linguagem musical no seu todo, e de um estudo mais aprofundado dos compositores de diferentes géneros musicais, sobretudo entre o século XIX e XX. Senti uma exaustão desse modelo, uma certa incapacidade de lidar com a música no plano estritamente racional e lógico. Reencontrei-me com o lado mais intuitivo e improvisativo, que me acompanha desde o início, e agora sinto que consigo fazê-lo de uma maneira diferente. Quis pegar numa série de temas, de motivos, pequenas células que me iam guiar ao longo da peça, mas depois tudo o que aconteceria nos meandros iria emergir do momento. O respirar da música é muito orgânico, não tem um respirar matemático, mas para chegar a essa espontaneidade existe uma preparação bastante grande. Às vezes é preciso dar uma distância, é preciso usufruir do silêncio, variar a mente, é uma preparação mais psicológica e mental. Devemos simplesmente tocar e confiar, não estar num processo de autocontrolo e obsessão com os detalhes. É aproveitar o que acontece de “errado”, aceitar os acidentes de percurso para transformar e tornar isso a própria música.

Mencionaste o silêncio. É importante para ti?
O silêncio é de onde emana tudo. Ao mesmo tempo, tem um lado paradoxal que é o facto de ser impossível. Por muito que experimentemos momentos de silêncio, ele nunca permanece. Há sempre um ruído qualquer que emerge.

O bater do coração.
Exacto, há sempre alguma actividade que se torna evidente. Na cidade temos uma série de ruídos e sons, e se vamos para o campo parece que sentimos o silêncio novamente. Mas se passarmos lá algum tempo, já começamos a apercebermo-nos dos passarinhos, da água que corre, do vento que passa – então o silêncio já não é silêncio. Só em relação com o ruído é que criamos o silêncio. É nessa oposição que eu o tento usar, para dar ênfase a um elemento musical. É nessa dança entre a actividade e a ausência que tudo se passa. A arte do compositor é encontrar o equilíbrio entre esses dois momentos.

Como é que a natureza mais improvisada do disco se traduz no palco?
De forma muito entusiasmante, para mim. O momento de ir para cima de um palco com uma série de possibilidades em aberto é muito refrescante. Paradoxalmente, dá-me uma certa segurança, porque antigamente eu ia para o palco com um grande nervosismo para saber se ia ser capaz de tocar todas as notas que estavam escritas. E o que senti no Theatro Circo foi o oposto. O facto de tudo ser possível, a partir de um certo roteiro, torna o processo muito mais descomplexado e liberto. Dá-me esse gozo e prazer de redescobrir aquilo que fiz. Nesse aspecto, o concerto é um momento único, de consumação de todas as coisas que se passam na nossa cabeça e na nossa solidão.

Este tempo de solidão e confinamento teve alguma influência no disco?
Acaba por ter uma influência bastante grande. A redescoberta desse tempo de ócio, em que não se passa nada, é bastante benéfica ao processo criativo. Já havia dentro de mim a sensação de que precisava de parar para dar atenção a estas peças que se estavam a esboçar aos poucos, e foi uma oportunidade meio perfeita para me aventurar de forma diferente. Essa imprevisibilidade ao início causa perplexidade, mas é algo que temos que abraçar. A vontade que nós temos de controlar tudo é uma ilusão que criamos para nos sentirmos mais confortáveis com a nossa existência meio miserável, meio irrelevante para o grande tempo cósmico. Essa abertura para dançar com o imprevisto é algo que me ajuda a lidar com isto tudo. E me ajudou a resolver o puzzle em que estava metido.

Nesta altura há muitos músicos com vontade de desistir da música. Porque é que é importante, sobretudo agora, a música continuar a ser um veículo de expressão?
Este momento traz-me a evidência do quanto a arte, enquanto expressão estritamente humana, tem tanta importância e tanta validade. Há um episódio histórico da 7.ª Sinfonia de Shostakovich, de ter sido criada numa Leningrado cercada pelos nazis. E em Inglaterra, na II Guerra Mundial, as cidades que tinham sido bombardeadas continuavam a erguer as actividades culturais, precisamente porque se nós remetermos a vida apenas à sobrevivência, à manutenção dos nossos sinais vitais, a vida torna-se profundamente vazia e desinteressante. Esse vazio existencial é tirar a última camada de razão que temos para viver. São esses momentos que nos trazem o valor de estarmos vivos e de estarmos aqui todos juntos. É essa comunicação do intangível e do invisível, que só a arte pode transportar, que nós não podemos desleixar. Há pouco tempo estava a ouvir uma peça do compositor Olivier Messiaen que ele escreveu e tocou dentro de um campo de concentração. Mesmo nessas situações em que estamos expostos ao extremo da nossa sobrevivência, ainda assim emana esta necessidade de ouvir música, de ver um quadro ou ver um passarinho a cantar numa árvore. Este valor estético da vida não pode ser posto de parte – no momento em que isso acontecer, tudo resvala e tudo se perde.

Lux Frágil. Quarta-feira, 2 Dezembro, 19.00. 12€.

capa Tiago Sousa - Oh Sweet Solitude
capa Tiago Sousa - Oh Sweet Solitude
.

Tiago Sousa - Oh Sweet Solitude

4 /5 estrelas

A alma musical de Tiago Sousa é sensorial e bela. Criador e intérprete de peças impressionistas e existencialistas, é um artesão autodidacta de rédeas livres. Em Oh Sweet Solitude, o improviso e o imprevisto assumem maior protagonismo. Mais próximo da abordagem aberta de Samsara (2013), o álbum é guiado por um toque intuitivo, de inspiração filosófica. É música que escuta o vento e sorve o silêncio, música que parece simples, mas causa comoção. As teclas telúricas trovejam, gotejam e evaporam em sensibilidade. O seu piano reencontra o âmago da vida. Segue influências clássicas, mas sem o peso dos cânones nem o aprisionamento da academia. É livre, mas não serpenteia nos labirintos do jazz. O que sobressai é a sua humanidade, a inteligência emocional, a vontade de se conectar a algo mais que si mesmo. Espelho da sua solidão e da nossa, é música interior, mas a procurar a partilha. ■ 

Conversa afinada

Benjamim
Fotografia de Vera Marmelo

Benjamim: “Nós, músicos, temos que inventar o futuro”

Música Portuguesa

O novo disco de Benjamim começou com um sintetizador. Foi a brincar com um velhinho Roland Jupiter-6, com uma caixa de ritmos e um gravador de quatro pistas que encontrou a liberdade que precisava. Depois, inundou-o com a solidão, as loucuras da noite e o calor da sua banda.

Vias de Extinção lembra os tempos que já não existem e as coisas que já não podemos fazer, mas que aos poucos tentamos reconquistar. Como os concertos. Para ouvir este disco como deve ser – ao vivo e com todas as cores – apanhem-no no Teatro Maria Matos, em Lisboa (26 e 27 de Outubro), no Teatro Sá da Bandeira, no Porto (30 de Outubro), no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra (6 de Novembro), ou no Centro de Artes de Águeda (5 de Dezembro).

Foi um sintetizador que ditou o tom deste disco. O que te atraiu nele?
É um instrumento muito especial, extremamente expressivo, um clássico dos anos 80. Inspirou-me muito, tanto na construção tímbrica, como na construção melódica e harmónica do disco. Eu estava a tocar em casa sozinho e já me estava a imaginar ao vivo a poder tocar estas canções. Para mim, isso foi bastante mágico. Durante um bom período de tempo, o disco existiu numa caixa de ritmos e em dois sintetizadores, foi assim que comecei a construir a música, um processo um bocado arcaico. Mas isso também fez com que o processo se tornasse mais humano.

“Humano” não é uma palavra que muitos associem à electrónica.
Mas acho que é um disco bastante humano, não é aquela ideia de música electrónica mais matemática ou mecanizada. Os timbres, apesar de serem electrónicos, são moldados para uma ideia que na sua essência é humana, são canções sobre temas da vida comum, do quotidiano.

Compor com sintetizadores libertou-te?
Sim. Desde o início que comecei a querer tocar muitos instrumentos de uma só vez. Tenho crises de identidade em relação aos instrumentos, à minha música, ao meu papel na música. Como trabalho como produtor, às vezes torna-se difícil eu próprio me definir. Mas a verdade é que o piano é a pedra basilar daquilo que é a minha identidade musical. Foi o único instrumento que estudei seriamente, é com ele que tenho uma relação mais próxima. A partir do momento em que percebi que era viável ir para a estrada com os teclados, isso foi libertador. Deixei a guitarra de lado e agarrei nos teclados que ando a colecionar. Sempre fui fascinado por teclados. Tive a sorte de uma novela ter agarrado numa canção minha há uns anos e todo o dinheiro que eu recebi disso foi para comprar um piano. Ando a escrever coisas muito diferentes ao piano, sinto que estou a crescer enquanto músico e isso também é importante, sentir que não estou preso às coisas que fiz.

Cresceste com o som dos sintetizadores? Eras um gajo da electrónica ou nem por isso?
Inicialmente não, mas tento libertar-me dos meus preconceitos. Quando tinha 16-17 anos, era preconceituoso em relação à música. Ouvia rock, ouvia Bob Dylan, The Doors, Neil Young, aquilo que era “música a sério”. Achava que Daft Punk não era música a sério, mas isso mudou. Hoje todos os estilos de música me fascinam. Adoro dançar, gosto de sair à noite. A música electrónica faz parte do meu ADN, da minha cultura.

Como foi conjugar a raiz electrónica do disco com o som mais orgânico da banda?
Foi um processo mesmo fixe. Este disco deu-me mesmo imenso gozo fazer, sinto que também deu muito prazer à minha banda. Tenho uma banda do caraças, têm um talento monumental, por isso quis perceber como é que podia envolvê-los de maneira assertiva. Esse processo foi um pouco longo – testámos as canções em alguns concertos, ensaiámos e com o input deles as canções começaram a ganhar músculo, tornaram-se muito sólidas.

Como produtor do teu próprio disco, receias não conseguir distanciar-te o suficiente?
Sim, a toda a hora (risos). Há momentos em que eu percebo o quanto me faz falta ter alguém a ajudar-me, mas neste disco senti isso de uma maneira muito mais intensa. Quando estava a finalizar e gravar as vozes, foi quando entrou a quarentena, acabei por ficar completamente sozinho no estúdio. Isso foi muito complicado, não ter ninguém com quem partilhar as dúvidas. O disco que me deu imenso prazer a fazer, deu-me imensa angústia a acabar. É sempre complicado perceber se as minhas músicas são boas ou uma merda, a minha banda é também o meu filtro.

O que aprendeste sobre ti próprio enquanto estiveste isolado?
Eu vivi sozinho durante bastante tempo, a experiência de estar sozinho não é propriamente nova. O confinamento passei-o mais aqui com a minha avó. Ela mora no mesmo prédio que eu, vinha à hora do almoço, via o Joker na RTP e depois ia para casa dormir.

Isso é lindo.
Sim, mas ao mesmo tempo foi complicado, porque para fazer um disco destes tens que sentir o ambiente da coisa. No início da quarentena, a música tornou-se completamente irrelevante para mim, aquilo que eu estava a fazer era a coisa menos importante do mundo. Aliás, houve um período em que achei que não fazia sentido nenhum estar a fazer este disco. O que me motivou foi o instinto de sobrevivência. Porque de repente tinha a minha banda a duvidar se podia continuar a viver da música. Nessa altura não fazíamos ideia de quando é que íamos pisar um palco, foram dias mesmo assustadores. Mas tinha que pensar na sobrevivência da minha equipa. Como é que posso salvaguardar o meu futuro? Trabalhando, acabando as coisas que tenho para acabar. E tive muita sorte, porque a Sony assinou o meu contrato discográfico em plena pandemia.

Como é que encaras o futuro?
Eu estou sempre a pensar para além do horizonte. Tenho cuidado e estou consciente das limitações, mas de resto não penso na pandemia, não deixo que isso escravize a minha vida, os meus sonhos, as minhas ambições. Estou a gravar música nova, estou a ensaiar com a minha banda, estou a pensar em concertos novos, em remixes (o Rui Maia está a fazer uma muito fixe), tenho um disco perdido que nunca lancei – um disco de música electrónica muito mais instrumental, estou a ver o que é preciso acabar. Nós, músicos, somos inventores, nós temos que inventar o futuro, estamos sempre a inventar o futuro. Quero fazer colaborações, quero produzir mais discos, quero pensar em chutar a bola para a frente, não vou ficar deprimido nem vou ficar preocupado.

Musica, Indie, Noiserv
© Vera Marmelo

Noiserv: “Hoje não há tempo para ouvir um disco inteiro”

Música

Na recta final de 2019, David Santos, o cantor e compositor que conhecemos como Noiserv, anunciou que ia lançar um novo disco em 2020 e revelou uma das suas faixas, “Meio”. Nos meses seguintes, foi partilhando as restantes canções, uma a uma, antes de reuni-las todas no álbum Uma palavra começada por N, editado no final de Setembro, e começar a apresentá-las ao vivo pelo país. A sua digressão chega finalmente ao Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, no dia 13 de Novembro, pelas 20.00  – começa mais cedo, para podermos estar todos em casa antes do toque de recolher obrigatório.
 

O teu mais recente disco, Uma palavra começada por N, foi antecedido por uma dezena de singles, lançados mensalmente. Por que decidiste apresentar o disco desta maneira?
Acima de tudo, porque parece que hoje não há muito tempo para ouvir um disco inteiro. Parece que às vezes os discos se limitam àqueles dois ou três singles, e muitas músicas não são ouvidas. E quando comecei a pensar no disco, e no seu conceito, achei que não fazia sentido destacar à partida duas ou três músicas. Então decidi dar quase um mês a cada uma, para que pudessem ser todas ouvidas com atenção. 

O primeiro tema que partilhaste, ainda no ano passado, o “Meio”, é quase um instrumental. Faz sentido no meio do disco, como uma espécie de interlúdio, mas não me parece uma escolha óbvia para single.
Quis surpreender as pessoas de alguma forma. E achei que devia ser a primeira também porque indicava uma ideia, um registo. Era uma música mais ou menos estranha, mas grande parte dos elementos mais estranhos que estão ali acabam depois por se espalhar ao longo de todas as músicas. Portanto, era quase um teaser do que vinha aí.

Quando partilhaste a primeira canção já tinhas todo o disco gravado?
Já tinha tudo. Quer dizer, acabei o disco em Novembro, mas depois ainda teve de ser masterizado. Ou seja, ainda não estava mesmo tudo pronto quando lancei a “Meio”, mas em termos de gravações e de estúdio e de mistura estava tudo feito. Só consigo assumir que vai sair um disco novo quando ele está todo acabado e já sei o que vai ser.

Curiosamente, pouco depois de lançares o “Meio”, o primeiro avanço deste disco, editaste um álbum diferente, o Soundtracks Vol. 1 (2019), com canções compostas para banda sonoras. O que te levou a editar essa compilação poucos dias depois de começares a apresentar o álbum de 2020?
Aquelas músicas fazem parte de um trabalho que eu tenho feito e que muitas pessoas não conhecem. E achei que fazia sentido tornar aquilo mais público, porque quem ouviu o meu disco anterior, de 2016, se ouvir aquelas músicas que fiz nos últimos quatro anos, e depois escutar Uma palavra começada por N consegue perceber uma ligação. Pode ser um exercício engraçado de fazer. Por isso achei que era uma boa ideia editá-las naquela altura.

Consideraste suspender este plano de apresentação do disco, com os lançamentos mensais, quando a Covid-19 nos fechou em casa e te forçou a cancelar os concertos? Ou achaste sempre que a ideia tinha de ser levada até ao fim?
A única coisa que me preocupou foi ter de adiar o lançamento do disco. Porque a ideia era dar um mês a cada música, e isso só fazia sentido se depois o disco saísse em Setembro. Mas decidi deixar a coisa correr, e depois mais tarde lidava com o que tivesse de lidar. E por muito chata que toda a situação tenha sido, houve um lado positivo. Comecei a perceber que as pessoas que me acompanham mais de perto sabiam que na última segunda-feira de cada mês ia haver uma música e um vídeo novo, e estavam à espera disso. Numa altura em que os concertos não existiam, em que estávamos mais tempo em casa e tudo o que era entretenimento estava reduzido quase a nada, estes lançamentos acabaram por ter até um papel.

Deve ser sempre complicado esperar quase um ano para partilhar ao vivo canções que estão prontas há muito tempo, e imagino que agora seja ainda mais estranho. Estás a tocar canções que foram feitas num mundo diferente. Isso faz-te impressão?
Não me faz impressão porque eu sempre trabalhei assim. Demoro muito tempo a terminar as coisas e só gosto de começar a lançar depois de estar tudo feito. E como as músicas são um pouco transversais a tudo o que seja exterior a mim, não é esta questão da pandemia que vai tornar agora a temática das músicas menos actual.

Mas imagino que a pandemia tenha mudado a tua vida, o que tu sentes. Mudou-nos a todos.
Sim, sim, sim. É claro que mudou muita coisa com a pandemia, porém não mudou a temática daquilo que é o disco, os receios que o disco tem. Eles existem na mesma.

Que temática é essa? Há alguma ideia transversal ao disco?
Muitas músicas falam de uma dificuldade que a pessoa às vezes tem de se auto-elogiar. E essa dificuldade manda-te para baixo, porque é difícil perceber o quanto as pessoas gostam daquilo que fazes ou não fazes. E isso faz-te duvidar. E essa dúvida faz-te questionar se deves ou não continuar. Músicas como a “Neutro” ou como a última do disco, que ainda não saiu, falam todas dessa questão. Da importância que a opinião dos outros tem sobre aquilo que tu fazes. E do medo que eventualmente tenho de me preocupar demasiado com isso, deixando de ser eu próprio.

Publicidade
Loosers
DR

Loosers: “A humanidade já estava confinada antes desta pandemia”

Música

Os Loosers ajudaram a escrever várias páginas da história recente da música portuguesa. Nos anos zero, num momento em que parecia que não se passava nada nesta terra, eles e outros grupos como eles – os Caveira, os Frango, os Fish & Sheep e mais uns quantos –  trabalharam e fizeram com que muitas coisas se passassem. Muitos concertos, muitas edições... “Muita música nova”, completa e resume Rui Dâmaso, um dos fundadores da banda, que no final de Outubro voltou a editar “música nova”, pela primeira vez em sete anos. É muito tempo de silêncio, para quem lançava vários discos e cassetes por ano.

Mas isso era dantes, quando os Loosers eram a banda de rock libertário de José Miguel Rodrigues, Rui Dâmaso e Tiago Miranda, que saiu em 2008. Desde então, abrandaram o ritmo, receberam sangue novo – Jerry The Cat e Guilherme Canhão completam a actual formação – e o seu som mudou. As canções passaram a ser o resultado de um “processo mais longo”, segundo o percussionista José Miguel Rodrigues; a ser feitas com “mais cuidado”, nas palavras do guitarrista Rui Dâmaso. “Não são gravações tão improvisadas”, aprofunda Rui. “[Dantes] havia ali um rasgo qualquer que saía de nós e passava para o disco praticamente em processo directo. Agora é um pouco diferente. Há uma tentativa de melhorar um bocadinho o que quer que seja. Não só o som, mas a música também.” 

Se a música soa melhor, considera José Miguel, é porque “há tempo para a fazer soar melhor”. O primeiro registo da segunda vida da banda, Hot Jesus, saiu em 2013, e o segundo, Kill Screen, só foi lançado nos últimos dias de Outubro, apesar de estar em gestação desde 2018. Desde antes, até. “Em 2018 demos um concerto em que metade do disco, ou até um pouco mais, foi posta à prova perante o público – mas com as músicas completamente diferentes do que são agora”, explica o baterista. “Nos meses anteriores tínhamos andado a enviar coisas uns para os outros e a fazer dubs e a sobrepor. E depois desse concerto ficámos com a impressão de que havia ali material que gostávamos de imprimir.”

Ao longo destes dois anos, nunca se encontraram em estúdio. Trabalharam à distância – remotamente, como se diz agora. Mas ao contrário dos milhões que hoje são forçados pelos governos e as empresas e as circunstâncias a trabalhar assim, para eles foi uma escolha. Cada um gravava sozinho, em casa, e ia partilhando o que estava a fazer com os restantes membros, que depois somavam as várias partes. Somavam e subtraíam, como fazem questão de sublinhar José Miguel e Rui, que equipara o processo de gravação a “uma bola de neve”: ao longo de dois anos, foi ganhando novas camadas e características, foi crescendo, mas também “foi perdendo muita coisa desde o início”. 

Esta conversa de bolas de neve e o facto de as faixas terem sido gravadas à distância, sem o calor humano gerado por quatro tipos a tocarem na mesma sala, podem sugerir que Kill Screen é um disco frio. Porém, Rui Dâmaso não concorda com a ideia. Insinua-se que “frio” não será a melhor palavra – até porque a voz de Jerrald James, aka Jerry The Cat, e as palavras que vocifera emanam calor –, mas que esta música soa “digital”. O guitarrista interpõe que “o digital não tem de ser frio” e “que o disco tem o seu calor próprio. Um calor digital”. Esqueça-se então a temperatura. Independentemente dela, Kill Screen é um disco denso e opressivo, talvez o mais electrónico do grupo, sem ser um disco de electrónica. 

“É um disco destes tempos, dos nossos tempos”, declara José Miguel. E é-o por diferentes razões, de várias formas. Por um lado, foi influenciado pelo confinamento – não só aquele a que fomos forçados nos últimos meses, mas algo que lhe é anterior, porque “a humanidade já estava bastante confinada muito antes desta pandemia”, segundo Dâmaso. Por outro, o facto de ser um objecto digital, sem edição física, vai ao encontro da maneira como cada vez mais gente consome música. Também (mas não só) por isso, fizeram vídeos para acompanharem as novas canções, filmados por realizadores como Edgar Pêra, João Ana ou Miguel Soares. Os ecrãs dos telemóveis e computadores são o habitat natural desta música, mesmo que a banda defenda que ela “tem que se ouvir alto, numa aparelhagem”.

E fora dos ecrãs, quando é que vamos voltar a ver os Loosers? “Estamos a trabalhar com o Teatro do Vestido numa peça que foi adiada para 2021 por causa da pandemia, chamada Aquilo Que Ouvíamos”, avança José Miguel. Mas, por enquanto, não há planos para apresentar Kill Screen ao vivo. “Isso é difícil agora”, diz o baterista. “Não está a dar muita pica neste momento, neste futuro próximo, programar o que quer que seja”, completa Rui Dâmaso. Concordamos. “Podemos é aproveitar o facto de esta ser a nossa primeira edição digital para ir fazendo updates, mudar os vídeos, até acrescentar músicas. De alguma forma, isso pode colmatar a falta de concertos”, conclui José Miguel. “Tudo é possível.”

Música, Cristina Branco
©Joana Linda

Cristina Branco: "Sinto horror em não cantar"

Música

Cristina Branco criou o alter ego Eva Haussman para domar os seus demónios, para saborear a verdadeira liberdade. Criou-a para viver mais livremente dentro de si. “A Eva ajudou-me a perder o medo de mim”, diz-nos Cristina Branco. “Deu-me a liberdade de simplesmente ser eu, sem aquela fragilidade do ‘talvez não seja assim que vocês me querem ver’, mas esta é a minha verdade e preciso de confrontar-me com ela, em nome da minha sanidade mental.”

Para perceber melhor a Eva, quis vê-la pelo prisma de diferentes compositores. Nomes como Filipe Sambado, Francisca Cortesão, André Henriques, Sara Tavares, Pedro da Silva Martins, Kalaf ou Márcia assinam os dez temas do álbum Eva. Esta grande pluralidade de vozes, cada uma a trazer a sua visão do mundo, acaba por convergir na essência de Cristina Branco. A diversidade de autores é importante na sua música porque “ninguém é apenas uma coisa”. “Ninguém é estanque. Aprendo sobre mim observando a forma como os outros me vêem também. Preciso sempre de fazer esse exercício, eu não existo apenas num estilo musical, no fado. Gosto de me passear livremente por onde a minha alma de pássaro me levar. Para isso, preciso das mãos dos outros, de me surpreender, eu não descubro todos os caminhos da minha intrincada mente sozinha. Haja música e criatividade para me guiar, e quantos mais, melhor, mais diversidade, mais pluralidade. E depois regresso a mim, já com novos ângulos, perspectivas. É dessa riqueza que vive a minha música.”

O disco saiu a 20 de Março, numa altura em que estávamos todos recolhidos em casa sem grandes perspectivas de futuro. Para Cristina Branco, acabou por ser uma altura de olhar mais para dentro, mas também para fora. “Descobri que sinto horror em não cantar, em não abraçar as pessoas, que isso me tolhe os movimentos. Ao mesmo tempo, aguçou o meu instinto de sobrevivência, de protecção das minhas crias e dos meus mais próximos. Fez-me ainda olhar para fora e dar tempo, disponibilidade física e mental para ajudar quem precisa. Comecei a fazer voluntariado e comprovei que ajudar os outros é ajudar-me a mim.”

Os tempos que temos pela frente deixam um véu de incertezas. “Preocupa-me a incógnita sobre o rasto que tudo isto vai deixar, sobre a forma como nos relacionamos uns com os outros, sobre como rapidamente temos que remodelar o trabalho, para podermos continuar. Será que somos resilientes o suficiente, enquanto comunidade? Como é que a arte absorve e regurgita o que está a acontecer e em que medida é que isso ajudará as massas a compreender e renascer?”, questiona.

Com um álbum novo nas mãos, ansioso de se mostrar, foi particularmente complicado lidar com a ausência dos palcos. “Foi difícil, penoso mesmo, ao ponto de parar de cantar para dentro, de ouvir música ou ler”, recorda Cristina Branco. “Tive muitos altos e baixos e as emoções em carrossel, desde a primeira hora da manhã até à noite. Queria tanto, mas tanto mostrar a Eva. Foi como estar já nos blocos de partida dos 100 metros de barreiras, no chão da pista, e receber uma falsa partida... Foi isto.”

Agora cantará as suas canções, fora das paredes de casa. Levará finalmente a Eva aonde ela precisa de estar: em cima do palco. “Tenho neste momento a possibilidade de mostrar de onde vem a Eva e para onde a Cristina quer ir. Vou voltar à prova de esforço e isso dá-me um alento desmedido. As circunstâncias roubaram-nos alguns meses, mas não nos roubaram a vida.”

Recomendado

    Também poderá gostar

      Publicidade