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O seu guia para os melhores concertos em Lisboa, festivais e últimas notícias de música

João Cabrita, de frente para a luz
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João Cabrita, de frente para a luz

Na música, como na escrita, há fenómenos de invisibilidade apenas identificados pelos mais atentos. Peças constantes e fundamentais do trabalho, que se diluem ora em projectos colectivos ora em páginas por eles escritas, sem nunca assumirem o foco directo da luz. Não é medo ou vergonha, é uma decisão consciente, resultado directo de um autoconhecimento profundo, e da crença no valor que podem trazer a cada novo desafio. João Cabrita, músico, é um dos protagonistas nacionais destes fenómenos, mas não o é de agora. O saxofonista tem vindo a assinar, ao longo das últimas três décadas, trabalhos e colaborações que vão dos Kussondulola a Sérgio Godinho, de The Legendary Tigerman a Cais Sodré Funk Connection. Os Sitiados, Despe e Siga, os Dead Combo, todos marcados pelo trabalho do músico e compositor lisboeta. O percurso, contudo, nunca se condensou num disco, num espaço verdadeiramente seu, mas isso está prestes a mudar. “Apercebi-me de que em 2019 fazia 30 anos de carreira. Como nessa altura estava a atingir um ponto de bloqueio criativo, queria [fazer] alguma coisa que funcionasse como um trigger. Foi aí que comecei a pensar nestes anos todos que tenho às costas e achei pertinente começar a chamar pessoas para este disco.” Não que isso não o deixasse receoso; afinal, pela primeira vez, e apesar de conhecer de trás para a frente todo o processo de fazer um disco, este seria da sua inteira responsabilidade. Dele, que preferiu sempre ser a peça de engrenagem. “Assusta um bocadinho. É muito fácil fazeres as coisas quando estás no projecto de outra pessoa, para lhe potenciar o trabalho; não estás tu sujeito a julgamento do público, de crítica, dos teus colegas”, diz. No entanto, o impulso para compor deixou-o tranquilo – “porque tenho tido a sorte de ter carta branca em todos os projectos em que estive. E na verdade só não aconteceu mais cedo porque não calhou.” Cabrita, disco homónimo, chega a 1 de Outubro deste ano (edição da Omnichord Records) e está recheado de talentos criteriosamente escolhidos consoante a necessidade de cada composição. Hélio Morais (Paus, Linda Martini), Gui (Xutos e Pontapés, que co-assina o primeiro single, “Whatever Blues”), João Gomes (Cais Sodré Funk Connection), Sam The Kid, Tó Trips (Dead Combo, e parceiro em “Dancing With Bullets”, o segundo single) ou Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) são alguns dos nomes chamados a construir as faixas com ele. “É um disco povoado.” Em marcha está também o plano de unir os primeiros quatro videoclipes numa curta-metragem, assinada por Miguel Leão (Comicalate). “É um miúdo extremamente criativo e a quem eu dei liberdade total”, revela João Cabrita. Entretanto, vai actuar no ciclo de espectáculos que marcam a reabertura do Teatro Maria Matos. Sobe ao palco a 3 de Agosto, segunda-feira. “O espectáculo é todo centrado nos temas do disco. Por essa altura já teremos três singles cá fora e, por lá, vou ter uma banda incrível a acompanhar-me, constituída pelo João Capinha, que toca com o Bruno Pernadas, o André Murraças e o Gonçalo Prazeres, que tem tocado com os Dead Combo. Depois tenho o João Rato, teclista e guitarrista, e o Filipe Rocha, baterista de Sean Riley & The Slowriders.” A estes, junta-se ainda Surma. O concerto funciona como pré-apresentação de Cabrita, a derradeira oportunidade de o público ouvir o trabalho antes de este ser lançado em disco. Até porque o músico não gosta de se demorar muito nos temas, acabando por fazer quase tudo por instinto. E é assim que ele quer manter a sua música. “Eu sou conhecido por ser rápido a fazer as coisas, o meu método é: o primeiro take é o melhor, as segundas ideias já te fazem duvidar e a energia já lá não está. A música tem que ser viva, e para isso temos de pensá-la pouco. É muito instintivo.” Teatro Maria Matos. Seg 21.00. 10€.

A obsessão e cura de Neev
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A obsessão e cura de Neev

O que leva um músico a pegar num trabalho de esqueleto feito, músculo definido e pele fechada, e deitar tudo fora? Obsessão. Perfeccionismo, talvez. A busca incessante de uma estrutura que lhe sirva de igual modo os ouvidos e o peito. Bernardo Neves fê-lo não uma vez, não duas ou três. Quatro, foi este o número de tentativas até que Philosotry, o disco de estreia do seu alter ego Neev, ficasse pronto. “Passou por muitas mãos e por muitos sítios, à procura da pessoa certa com quem o trabalhar. Porque tinha na cabeça que queria trabalhar com um produtor e tinha a ideia da pessoa certa, portanto nunca parei até a encontrar.” A ideia de funcionalidade não é de agora. Na escola, em miúdo, nunca segurou uma banda mais do que uns meses porque “levava tudo muito a sério”, a mesma razão que nunca o levou a tocar covers. “Nunca me deu sentido de concretização”, recorda. Ele sabia exactamente o que queria, ainda que não necessariamente o que esperar; a música, fosse ela como fosse, do conforto da guitarra ou da surpresa do piano, foi sempre um objectivo. “Não sei dizer quando é que comecei a querer ser músico, posso é dizer que nunca vi outro caminho” – e foi isso que o levou ao trabalho de Larry Klein, produtor norte-americano, que assinou trabalhos de Joni Mitchell, Tracy Chapman, Herbie Hancock ou Melody Gardot. Foi no quarto, a ouvir um disco desta última, que percebeu a peça em falta para o disco. “Pensei: 'a pessoa que produziu isto sabe exactamente o que está a fazer'. E quando fui ver, percebi que era o Larry Klein. Aí fui ver o trabalho dele e percebi o que tinha feito. O meu manager mandou-lhe um mail a dizer 'tenho aqui este artista, com estas músicas, e ele gostava muito de trabalhar contigo'. Ele aceitou e passadas umas semanas meti-me num avião e fui ter com ele a Los Angeles.” As 11 faixas ganhavam assim melodias “ricas e um eclectismo que finalmente lhe deu vida”, diz. Destas, avançaram cinco singles: “Calling Out”, “Lie You Love It”, “This Dream”, “It Is What It Is” e “Something Trivial”, cada um pensado para respirar ao seu tempo, à sua verdade. Porque nunca foi a quantidade na criação a imperar, e ele di-lo muitas vezes. A música de Neev vem de um Bernardo que tem em Bon Iver um dos principais faróis e, à semelhança do grupo liderado por Justin Vernon, o importante é que a música fale mais alto, sempre. “Tudo vem de uma verdade que encontras. Se quero passar verdade pela música, a cena principal é passar uma ideia genuína. E é aí que entra o eu, opiniões, experiências, a forma como absorvo a verdade. Uma coisa que sempre me cativou foi a ideia de a música falar mais alto do que a pessoa que a escreveu.” E para o conseguir não há regras. Ou talvez haja, um retalho de padrão que ele reconhece, o de que quase tudo o que veste as melodias vem da escrita não musical. É um paradoxo: Neev guarda episódios em cadernos que mais tarde se transformam em letras, sem que estes se transformem em músicas autobiográficas. “A música vem imortalizar aquela jornada de escrita. Há coisas que nem vão ter à música, mas as que vão partem sempre dos sentimentos escritos”. Não sem antes deixar que tudo faça sentido, e esse, parte sempre de um momento anacrónico. “Houve alguém que me disse que a habilidade de conseguir transportar um sentimento sem palavras é das coisas mais bonitas da música. Portanto quando tens uma parte instrumental que te passa tudo isso, é uma coisa lindíssima. E quando vou compor uma música, se não me sai uma coisa que sinta, fica para outro dia. Mas a letra, por si, vem sempre a seguir a isso e está muito ligada às melodias.” No final, cabe tudo algures entre a voz e os arranjos melódicos que nos dão uma sensação de grandeza quase cinematográfica. A viagem começou em 2016 à boleia dos noruegueses Seeb e do single “Breathe”, faixa que o deu a conhecer, mas passaram-se quatro anos e a pulsação não abrandou. Então, agora, para onde é que o pode levar? “No dia em que a música parar de ser aquele mistério que não quero resolver, vou ser o primeiro a não a fazer. Ainda é cedo para dizer onde é que ela me levou. Fez-me ver muitos sítios dentro de mim que eu desconhecia. Fez-me olhar para o mundo de forma diferente. É uma pergunta que gostava de responder mas ainda não sei."

Os novos discos que vêm dar-lhe música
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Os novos discos que vêm dar-lhe música

Acabadinhos de sair do estúdio ou ainda por chegar, surpreendentes e aguardados, há muita coisa nova para ouvir nos próximos tempos. 2020 pode parecer um ano estranho até à data, mas a indústria musical não tem deixado ninguém para trás e o streaming há de salvar-nos nas piores (e nas melhores) alturas. Childish Gambino, The Weeknd, Jessie Ware, The Strokes ou Ozzy Osbourne são alguns dos nomes da lista que se segue, e são argumentos bastante fortes para que corra ao telefone ou ao computador numa maratona auditiva. E mesmo que alguma destas entradas acabe adiada, os singles não nos hão de falhar. Conheça o que há de mais fresco para ouvir com estes novos discos. Recomendado: 13 músicas para cantar no banho sem vergonha

13 pianistas de jazz portugueses que precisa de ouvir
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13 pianistas de jazz portugueses que precisa de ouvir

Madeleine Albright, Secretária de Estado da administração Clinton, ficou célebre por ter denominado os EUA como a “nação indispensável”. Durante várias décadas, também o piano foi visto no meio jazzístico como “o instrumento indispensável”: a mão esquerda do pianista pode fazer de “secção rítmica” e a direita ocupar-se da melodia, e pronto, não são precisos mais instrumentos; já os outros instrumentos do jazz tiveram de esperar até à década de 1960 para que se tornasse aceitável que pudessem apresentar-se a solo. Por outro lado, foi preciso esperar quase tanto tempo – até ao início dos anos 50 – para que o saxofonista Gerry Mulligan ousasse apresentar-se regularmente com formações que dispensavam o piano. Nos nossos dias, o piano já não é “indispensável”, mas continua a estar na primeira linha e é mais frequente que seja o pianista o compositor e o líder de um combo de jazz do que outro instrumentista. Recomendado: Jazz em português – 13 discos indispensáveis

Andante risoluto: A covid-19 não pára a música online
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Andante risoluto: A covid-19 não pára a música online

A crise da covid-19 forçou ao encerramento de teatros de ópera, salas de concertos e clubes de jazz, mas, para que os melómanos não passem privações, muitas instituições e agrupamentos musicais tornaram livre o acesso a parte (ou à totalidade) dos seus arquivos. Após ter fornecido um vasto leque de sugestões de concertos online pelas principais salas de concertos clássicos e ópera do mundo, a Time In revela agora alguma da oferta nacional na área do jazz e música clássica. É claro que nada substitui a experiência de assistir a um concerto ao vivo, mas, até estes regressarem, faça do sofá da sua sala o camarote VIP. Recomendado: Os melhores concertos online esta semana

Playlists para a quarentena

Bom dia, alegria: músicas para começar bem o dia
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Bom dia, alegria: músicas para começar bem o dia

Ah, as manhãs. Esse pedaço de discórdia da humanidade, ora pendendo para os que de nós acordam em euforia ora pendendo para os que odeiam tudo no começo do novo dia. Mas não se inquiete porque, ao contrário dos nossos antepassados, temos muitas e boas soluções musicais para superar a pior das manhãs. Dos icónicos Marvin Gaye, Curtis Mayfield e Johnny Mercer, aos contemporâneos A$AP Rocky e Anderson Paak, esta lista é um apanhado de tudo o que nos faz querer sair da cama. Pequenas obsessões, paixões duradouras, coisas de momento. Destape-se com estas músicas para começar bem o dia. Também pode seguir esta playlist no Spotify. Recomendado: Playlist para ouvir à noite

As músicas para trabalhar em casa que lhe fazem bem à produtividade
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As músicas para trabalhar em casa que lhe fazem bem à produtividade

Há já uns anos que a internet nos trouxe esta lindíssima possibilidade de não ter de sair da cama para despachar serviço. Mas nos últimos anos, por decisão ou obrigação, a tendência tornou-se bastante mais acentuada. Os freelancers foram os grandes pioneiros e, daí em diante, abriu-se a porta já dentro das empresas a fazer o mesmo com o posto remoto. Seja como for, não há nada mais entediante do que trabalhar sem uma banda sonora digna, que nos dê aquele empurrão necessário à criatividade, que nos relaxe ou que nos leve a viajar uns minutos para voltarmos ao trabalho. Na Time Out queremos que faça a sua jorna caseira com (algum) entusiasmo e, por isso, damos-lhe 13 músicas para trabalhar em casa. Recomendado: As séries originais Netflix que tem de ver

14 músicas sobre estar aborrecido e preguiçoso
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14 músicas sobre estar aborrecido e preguiçoso

O que mais dizer sobre os dias que vão desaguando dentro de quatro paredes? Pouco. Mais do mesmo. Caminhadas da sala para a cozinha, da cozinha para a sala, para o quarto, ensaboar e repetir. Mas a música está cá para ajudar. Não é que estejamos todos no mesmo barco, ou melhor, estamos, o que difere é o tamanho e o conforto da embarcação, mas é reconfortante saber que também as rockstars se aborrecem. E melhor, para consolo das gentes, fazem canções sobre isso. Estas são 14 músicas sobre estar aborrecido e preguiçoso: por títulos ou pelas letras, há qualquer coisa dentro que quebra a parede e nos faz sentir melhor. É ouvir. Recomendado: 13 músicas para cantar no banho sem vergonha

13 músicas para cantar no banho sem vergonha
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13 músicas para cantar no banho sem vergonha

Por mais anos que passem, os concertos no banho continuarão a ser fenómenos. Isto porque, se pensar bem, há poucas coisas mais hilariantes do que aquele mini concerto à porta fechada que todas as manhãs – ou tardes ou noites, somos inclusivos nos horários – acontece sem pudores. Queremos que se exprima, sem medidas, queremos cantorias bem conseguidas, queremos entusiasmo, que parta a loiça toda, que chame a atenção dos vizinhos e que o consiga fazer de sorriso na cara. E não se preocupe porque se não estiver para isso, também temos banda sonora. Vá por nós, prepare o telefone, a coluna, leve a toalha e rode as músicas para cantar no banho. Recomendado: As músicas para trabalhar em casa que lhe fazem bem à produtividade

Cinco músicas fáceis para aprender a tocar na guitarra
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Cinco músicas fáceis para aprender a tocar na guitarra

Quantos e quantas de nós imaginámos o que seria subir a um palco e tocar meia dúzia de cantigas. Ou serenar alguém, como Julie Delpy fez aqui, ou Audrey Hepburn aqui, ou mesmo Ryan Gosling aqui. Pois bem, a internet está cá para ajudar e não faltam professores virtuais para nos fazer desempoeirar o instrumento e dar às cordas uma nova vida. Aliás, se algum dia o tiver pensado fazer, é esta a altura certa. Prepare os dedos, prepare a afinação vocal e instrumental (se precisar, esta app é uma boa ajuda) e tire a viola do saco. São cinco músicas fáceis para (re)aprender a tocar na guitarra. Recomendado: 14 momentos de música em filmes que não são musicais

Jazz em português

Cinco saxofonistas de jazz portugueses que precisa de ouvir
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Cinco saxofonistas de jazz portugueses que precisa de ouvir

O saxofone raramente mereceu a atenção dos compositores eruditos – pouco mais tem do que papéis secundários em obras menores de Bizet, Strauss, Berlioz, Saint-Saëns e Debussy –, mas tornou-se num dos instrumentos centrais do jazz. Ainda assim, nos primórdios deste género, teve de lutar para se impor contra a primazia do clarinete e da trompete. Mas, quando começaram a surgir mestres da envergadura de Coleman Hawkins, Lester Young, Johnny Hodges e Charlie Parker, o saxofone tornou-se na estrela do grupo – posição que seria confirmada por gigantes como John Coltrane, Stan Getz, Sonny Rollins ou Gerry Mulligan. Portugal não é excepção a este domínio do saxofone no jazz e, embora se trate de um segredo bem guardado, pode orgulhar-se de um saxofonista que, por duas vezes, foi eleito pela crítica internacional como o melhor do mundo. Recomendado: Os oito melhores sítios para ouvir jazz em Lisboa

13 pianistas de jazz portugueses que precisa de ouvir
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13 pianistas de jazz portugueses que precisa de ouvir

Madeleine Albright, Secretária de Estado da administração Clinton, ficou célebre por ter denominado os EUA como a “nação indispensável”. Durante várias décadas, também o piano foi visto no meio jazzístico como “o instrumento indispensável”: a mão esquerda do pianista pode fazer de “secção rítmica” e a direita ocupar-se da melodia, e pronto, não são precisos mais instrumentos; já os outros instrumentos do jazz tiveram de esperar até à década de 1960 para que se tornasse aceitável que pudessem apresentar-se a solo. Por outro lado, foi preciso esperar quase tanto tempo – até ao início dos anos 50 – para que o saxofonista Gerry Mulligan ousasse apresentar-se regularmente com formações que dispensavam o piano. Nos nossos dias, o piano já não é “indispensável”, mas continua a estar na primeira linha e é mais frequente que seja o pianista o compositor e o líder de um combo de jazz do que outro instrumentista. Recomendado: Jazz em português – 13 discos indispensáveis

Oito bateristas de jazz portugueses que precisa de ouvir
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Oito bateristas de jazz portugueses que precisa de ouvir

Em contraste com a música clássica, em que a percussão costuma desempenhar um papel menor e há obras em que o percussionista passa meia hora imóvel e apenas intervém no “tcham-tcham” final, o jazz confiou, desde os seus primórdios um papel importante à bateria. Na era do swing, virtuosos como Gene Krupa e Buddy Rich deram à bateria um novo protagonismo e quando, na viragem das décadas de 1940-50, o bebop fez explodir a linguagem do jazz, havia bateristas como Kenny Clarke, Max Roach e Art Blakey a liderar a revolução. Na década de 1960, as inovações operadas por John Coltrane e Miles Davis tiveram o precioso contributo dos bateristas Elvin Jones e Tony Williams (respectivamente) e a turbulência rítmica de Bitches Brew, álbum pioneiro da fusão do jazz com o rock que se tornaria marcante na década de 1970, provinha das duas baterias de Jack DeJohnette e Lenny White. Hoje a bateria desempenha papel tão importante no jazz como qualquer outro instrumento e alguns dos mais excitantes grupos do nosso tempo têm bateristas à frente – e Portugal não é excepção. Recomendado: Jazz em português – 13 discos indispensáveis

Seis guitarristas de jazz portugueses que precisa de ouvir
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Seis guitarristas de jazz portugueses que precisa de ouvir

Os primórdios da história da guitarra jazz foram necessariamente discretos, pois até o instrumento começar a ser amplificado tinha dificuldade em fazer-se ouvir entre os sopros e a bateria. Devido ao seu fraco volume sonoro, nas big bands ficava remetida a um papel rítmico e só nos pequenos combos começou a assumir um papel solista. No período entre as duas guerras mundiais teve três notáveis pioneiros em Eddie Lang (1902-1933), Django Reinhardt (1910-1953) e Charlie Christian (1916-1942). Com o instrumento já electrificado, surgiram figuras como Kenny Burrell, Herb Ellis, Barney Kessel e Grant Green, mas todos ele seriam ofuscados, em termos de sucesso comercial, por Wes Montgomey (1923-1968). Nenhum destes pioneiros poderia adivinhar os papéis que o instrumento seria capaz de desempenhar quando associado a pedais de efeitos e outra parafernália electrónica. De todos os instrumentos usados no jazz, a guitarra foi o que mais sofreu as influências do rock, contribuindo para enriquecer a linguagem do jazz – os três primeiros guitarristas portugueses desta lista são exemplo dessa frutuosa permeabilidade entre géneros musicais. Recomendado: Os oito melhores sítios para ouvir jazz em Lisboa

Entrevistas Time Out

Cláudia Pascoal: "Cresci imenso nos últimos dois anos"
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Cláudia Pascoal: "Cresci imenso nos últimos dois anos"

O primeiro disco de Cláudia Pascoal chama-se apenas ! – sim, um ponto de exclamação. Pode parecer estranho, mas quando se fala com a jovem cantora percebe-se que o título é apropriado. Ou pelo menos é um bom reflexo do que ela é, e era essa a intenção. As frases saem-lhe depressa, diz as mais pequenas coisas com grande energia e convicção. Antes da edição do álbum, que chegou às lojas a 27 de Março, trocámos dois dedos de conversa.  Vou começar com uma pergunta fácil: como se lê aquele título? Eh pá, não se lê. Então o que chamo ao disco? Não sei bem. Ainda estou no processo de perceber como é que vou comunicar isto. Mas não queria mesmo que o título fosse só um nome, uma referência. Queria que fosse um statement e um reflexo de quem sou. E achei que um ponto de exclamação seria exactamente isso. Os !!! dizem que o nome deles se lê Chk Chk Chk. Podes fazer o mesmo: dizer que o ponto de exclamação quer dizer outra coisa qualquer. Talvez. Posso pegar no meu bonequinho amarelo… Não sei se sabes do que estou a falar. Não faço ideia. Nas redes sociais tenho uma espécie de amigo imaginário que é o blah, um bonequinho amarelo. Aliás, era para ser esse mesmo nome do álbum, mas achei que seria demasiado parvo. Mas agora se calhar vou começar a dizer que o ! se pronuncia “blah”. Parece-me bem. Quando começaste a trabalhar nestas canções e no disco? Durante a Eurovisão. Passei muitas noites sozinha no hotel e comecei a escrever algumas canções. Pouco depois a Universal convidou-me para

André Henriques: “Este disco é um óvni”
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André Henriques: “Este disco é um óvni”

Dizem-nos que um curso superior é importante, que formar família é imprescindível, que o trabalho não é condenação se gostarmos do que fazemos. Mas se temos um curso, um emprego, uma família, se em todos os aspectos somos o tijolo perfeito de um enorme muro social, então, por que haveríamos de querer fazer tremer as fundações? André Henriques fê-lo; a medo, deixou o trabalho na área da consultoria, em grande medida pelo que sempre esteve do outro lado da porta, a música. “Ao fim de uns anos começas a pensar se mereces mais vinte e tal anos daquilo até te reformares, ou se os teus filhos merecem que chegues a casa infeliz e sem vontade de ir trabalhar na segunda-feira. O que fiz foi um risco do caraças mas foi mesmo aquela coisa de ‘vou saltar’. Olhar ao espelho e perceber que não posso fazer uma coisa que me deixa infeliz.” Cajarana, título do disco e alcunha de infância, é o seu primeiro álbum fora dos Linda Martini, chegou em Março e está voltado para uma imagem sem necessidade de representação de outros. A família, a música, os dias cabem todos na escrita, crus, como um diário. “Sempre fui muito observador, gosto de estar na mesa do café e de encontrar no quotidiano coisas mundanas em que a maioria não consegue ver beleza. Gosto de pegar nisso.” No grupo, diz, há sempre uma preocupação, mesmo que inconsciente, de ser a voz do todo. “Com o meu nome estampado na bolacha não há disso.” A falta dos companheiros assustou-o mas, contas feitas, resultou n

Stephen Malkmus: "Pensava que aos 50 anos ia estar a fazer música de merda"
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Stephen Malkmus: "Pensava que aos 50 anos ia estar a fazer música de merda"

Stephen Malkmus é um nome fulcral do indie rock americano, adorado por velhos e novos fãs sobretudo pelos discos que gravou com os Pavement na década de 90. Mas depois da separação do lendário grupo, e ao longo deste século, continuou a fazer o mesmo tipo de música com a sua própria banda, os Jicks. No ano passado, decidiu mudar de rumo e editar sozinho um álbum de synth-rock. E agora voltou a surpreender quem o ouve com as canções folk de Traditional Techniques, mais uma vez sem os Jicks. E que boa surpresa. O novo disco é maioritariamente acústico, e absorveu influências indianas e do médio oriente, do country americano e da folk psicadélica dos 60s, mas sem se afastar completamente das bases indie do cantor e compositor. Por altura da sua edição, falámos sobre o novo álbum e a reunião dos Pavement, que tocam em Junho no festival NOS Primavera Sound, no Porto. Se o novo coronavírus os deixar. Desde que fizeste 50 anos pareces estar a trabalhar mais do que nunca. O Traditional Techniques é o terceiro álbum que lanças em três anos. A que se deve este aumento de produtividade? Não sei dizer. É verdade que não costumo lançar os discos tão perto uns dos outros, mas aconteceu por acaso. Não foi nada planeado. Se bem que realmente estou com mais tempo livre agora que as minhas filhas estão mais velhas. Antes de terem feito dez anos era mais difícil arranjar tempo para mim. És um pai muito presente? Sim. Agora a mais velha tem 14 anos e a mai

Bathstage: "Giro, giro era fazer concertos na banheira"
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Bathstage: "Giro, giro era fazer concertos na banheira"

Vivemos de forma tão apressada que nos esquecemos das coisas mais mundanas. O som de um carro a arrancar, o som do vento a atravessar as frestas de uma janela, a mecânica de pressionar um interruptor e fazer-se luz. Mas se ao parar, segundos que sejam, pudéssemos dedicar atenção ininterrupta ao que nos rodeia, o resultado seria surpreendente. Assustador, até.  Carolina Caldeira parou. E da brutalidade do silêncio resultou uma inspiração. A ideia foi acontecendo, maturando. “Trabalhava num hotel, aqui na Baixa. Uma das funções era cobrir a folga da governanta, então passava muito tempo a olhar para casas de banho, que não era o que mais me entusiasmava na vida. Uma dessas vezes devo ter pensado ‘giro, giro era fazer aqui concertos’. Já que toda a gente canta no banho, podíamos pôr músicos a fazê-lo”. A história do Bathstage – ou do palco de casa de banho – começa como um acaso observacional; sem meios, sem gente, sem estrutura, sem lugar, como os não-lugares que as casas de banho são, tantas vezes. Contas feitas são nove episódios, nove músicos, nove casas de banho, vezes dois. Duas temporadas de caos funcional, improviso, superação, vontade e desalento e triunfo. Cantautores, emcees, músicos de mão cheia, de Filipa Marinho a Mundo Segundo, de César Lacerda a Chico Bernardes ou a Fred Pinto Ferreira, todos ligados pela fórmula da madeirense de 30 anos, fundadora e directora artística do projecto. “Na primeira temporada foi um jo

Mazgani: “É mais fácil encontrar espaço na lentidão”
Música

Mazgani: “É mais fácil encontrar espaço na lentidão”

Shahryar Mazgani é um interlocutor cuidadoso. Não porque meça as palavras, mas porque parece esforçar-se e ter gosto por ir ao encontro de quem fala com ele – ouve o que lhe dizem com atenção, aceita dialogar sobre tudo e, quando sente que se afastou demasiado do ponto de partida, termina as respostas com um “espero ter respondido à tua pergunta”. Esse cuidado e essa empatia não se notam apenas nas entrevistas. Escutam-se também nos discos do cantautor luso-iraniano. O mais recente, The Gambler Song, saiu em Fevereiro e será apresentado na quarta-feira, 4 de Março, no Capitólio.   Várias pessoas têm-se referido a The Gambler Song como um disco mais calmo, em oposição ao anterior The Poet’s Death, que tinha um registo mais roqueiro. Eu não sinto isso, mas tu concordas que o novo disco é mais calmo do que os anteriores? Potencialmente, o anterior The Poet’s Death era mais rock e revelou-se ainda mais rock no palco, pelo menos em alguns momentos. Mas não quero discordar. Até porque a lentidão sempre me interessou. Desde o início que encontro mais facilmente espaço para contar uma história nessa cadência mais lenta. Mas podes discordar à vontade. Não quero, e vou dizer-te porquê. Eu fico feliz com a leitura do outro. Acho que a minha leitura do que faço não é necessariamente a melhor. Se alguém encontra algo com que se identifica numa canção, para mim isso é perfeito. Agora, para não fugir à pergunta, e não ser demasiado filosófico, eventualmente havia momentos em que as canções