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Música, Leonardo Bindilatti
©DRBindi

Rabu Mazda: “Positivo até ao fim”

Na recta final do ano passado, Leonardo Bindilatti lançou o seu primeiro, muito pessoal e positivo álbum, ‘Bindi’. Falámos com ele antes do concerto no Porto, que acontece esta sexta-feira, 28 de Janeiro, no Café au Lait.

Escrito por
Luís Filipe Rodrigues
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“Mazda life é mesmo assim”, canta ele no “Domingo”. “Todo o dia é um domingo”, completa. “Mazda life é mesmo assim”, continua a reza. “Positivo até ao fim.” Ele é Leonardo Bindilatti, Bindi para os amigos, Rabu Mazda nas capas dos discos. Bindi é também o nome do primeiro álbum a solo, descrito pelo próprio como um disco “mais pessoal”, nascido de uma “vontade de expressar” o que lhe ia cabeça. Foi lançado a 3 de Dezembro do ano passado, tarde demais para receber o destaque merecido nas listas de discos do ano – na Time Out, por exemplo, já tínhamos votado nos melhores. Mas agora as suas canções têm outra chance para serem ouvidas e descobertas pelo público, com as primeiras apresentações ao vivo marcadas para o Porto, na sexta-feira, 28, e para Lisboa, no dia seguinte. Passada uma semana, a 4 de Fevereiro, actua no Gasoline, no Barreiro, com Silvestre e Seán Being.

“Toco primeiro no Porto, no Café Au Lait. Os Judas Triste vão abrir. Depois sou eu, sozinho, a cantar – a minha namorada vai ser a minha DJ. E o Arrogance Arrogance vai passar som no fim. É uma noite da [editora] Favela, que tem lá uma residência e é pessoal amigo”, conta. “Depois, na ZDB, vou estar com a Fetra e com o Rudi [Brito], o Domatrice.” Para os mais distraídos, “a Fetra” é a Cafetra, gangue editorial de Lisboa do qual Leonardo é uma peça fulcral, tanto pelo seu trabalho de produção como pela música feita no contexto de bandas e projectos como Kimo Ameba, Putas Bêbadas, Iguanas ou Kridinhux. Na ZDB, o colectivo estará representado pelas irmãs Maria Reis e Júlia Reis (a baterista de Pega Monstro, que não ouvimos em Lisboa há demasiado tempo), Lourenço Crespo e Sallim.

O trabalho desenvolvido por estes e outros amigos ao longo dos últimos anos foi uma das razões que o levaram a gravar Bindi. “Há muito tempo que queria fazer canções mais pessoais, mais sobre mim. A maior parte dos projectos que tenho são com outras pessoas. Sempre em bandas e sempre a fazer música para os outros”, conta. “Queria fazer como os meus amigos, expressar mais as minhas ideias. E com esse disco tentei fazer isso. Ganhei essa coragem.” Coragem não só para dizer o que queria, como para cantar. “Quando fiz estes instrumentais, pensei que gostava que alguém cantasse por cima. Acabei por ser eu, porque senti que já estava mais à vontade para dizer o que queria”. E porque “quis provar que conseguia fazer a coisa sozinho”.

Musicalmente, Bindi é uma súmula do trabalho e dos interesses de Leonardo Bindilatti. Há ecos e sons do trap – “as cenas de Soundcloud que oiço passam bué por aí” – mas também do footwork, do baile funk e muito r&b; há sintetizadores hipnóticos e uma névoa nostálgica. Escutamos nas suas 11 canções uma vida inteira passada a ouvir música e a fazê-la, em bandas de indie rock, mas sobretudo nos seus duos com Maria Reis, os Kridinhux, e Lourenço Crespo, os Iguanas; e mais recentemente a solo. Há pontos de contacto óbvios com EPs instrumentais lançados no primeiro confinamento – Todo Mundo Sabe, com o selo da brasileira 40% Foda/Maneiríssimo – e no segundo – Tá Sempre Pegando Fogo, via Discos Extendes. “É uma extensão do que já fiz e do que faço”, concorda. “Há sempre uma evolução [de projecto para projecto, de disco para disco], mas acho que é uma extensão.”

Se as bases instrumentais espelham os interesses do produtor, as letras cantadas mostram quem ele é e como encara a vida. A começar com a motivacional “Bora Lá” e a terminar na devocional “É o Fim”, as suas canções são atravessadas por uma esperança luminosa e uma positividade infecciosa – mas não nos sentidos pandémicos destas palavras. Aliás, Bindi existe à parte da pandemia. É o suficiente para nos interrogarmos como e quando nasceram as suas canções. Leonardo dá a resposta. “Nalgumas músicas já tinha a ideia do que queria dizer antes, porém escrevi as letras durante a pandemia. Só que não me foquei muito no que estava a acontecer, porque achei que isso ia limitar-me um bocado.” Como é que conseguiu? “Eh pá... Tem a ver com o que eu queria realmente dizer. E as coisas que queria dizer não tinham a ver com o panorama mundial. Tinham mais a ver comigo e com cenas que tinha vivido.”

Lembramos o balanço que ele fez no final de 2020 para a Flur, onde por baixo da alínea “2020 Mau” respondeu apenas “não sei”. Como é possível não saber? “Se calhar é um bocado egoísta, mas para mim houve aspectos positivos apesar de toda a merda que foi 2020. É claro que eu pensei muitas vezes que nós tínhamos bué sorte e só agora é que a gente vê a sorte que tinha. Mas acho que respondi isso porque achei que toda a gente ia responder que foi uma merda, e não valia a pena estar a bater no ceguinho. Vale mais dizer: ‘Ya, tá-se bem. Quem está vivo, está vivo. Bora move on’.” Apesar da aparente confiança, da positividade, ele sabe que não é fácil seguir em frente, quando os números de casos, de internamentos, e as estruturas do dia-a-dia parecem continuar a desintegrar-se. De certa forma, a pandemia deixou tudo e todos em ruínas. “Claro que sim.”

  • 5/5 estrelas

Mas Bindi está aqui para nos ajudar a erguer. “Bora Lá”, a abrir o disco, é um desafio, um pedido para seguir com a vida, com apenas duas palavras repetidas e reconfiguradas ao longo de três minutos de trap jubilante. “Cobra D’água” e “OMD”, logo a seguir, são convites à festa, ao mesmo tempo celebratórios e infectados por uma certa nostalgia. “Domingo”, a canção com que abrimos este texto, é um misto de declaração de intenções e biografia cantada. “Nunca Ninguém Nada”, “Gira Por Aí” ou “Quem Dera” são atravessadas por uma toada melancólica sem serem “downers” – palavra de Bindi. Pelo meio, “Ouro Mazda” é uma canção resplandecente, um tsunami de boa onda. E “Cantar Baixinho” é música de conforto e embalo. Quando finalmente o disco acaba, depois dos quase quatro minutos de electrónica e romantismo de “É o Fim”, acreditamos que vai ficar tudo bem. Só temos de nos render à música e deixar Rabu Mazda mostrar-nos o caminho. Bora lá.

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