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'A Morte de Danton': A pré-revolução dos nossos dias no TNSJ

Albano Jerónimo encabeça o elenco de luxo que abre a temporada
© João Tuna/TNSJ Albano Jerónimo encabeça o elenco de luxo que abre a temporada

Paris, 1789. O aumento da miséria e da dívida pública, a corrupção vigente na corte e a descredibilização da monarquia levaram o povo à rua para gritar contra as assimetrias sociais, económicas e políticas que haviam mergulhado o país no caos. Paris, 2019. Os coletes amarelos instalam a desordem no país e protestam contra o aumento dos preços dos combustíveis, o alto custo de vida e o reduzido poder de compra (e pedem, além do aumento do salário mínimo, a reintrodução do imposto sobre fortunas). A Morte de Danton, texto do dramaturgo alemão Georg Büchner que Nuno Cardoso encena agora no Teatro Nacional São João (TNSJ), evidencia o paralelismo de duas sociedades separadas por 200 anos.

“As injustiças que accionaram a Revolução Francesa são as mesmas que accionam [as manifestações] dos dias de hoje”, observa o encenador, que abre a temporada 2019/2020 do TNSJ com a sua primeira encenação enquanto director artístico da instituição e com um elenco de luxo que conta com Albano Jerónimo, António Afonso Parra, Joana Carvalho, Mafalda Lencastre e Paulo Calatré, entre outros. Esta peça, originalmente de 1835, revisita os últimos dez dias de vida de Georges Danton, revolucionário que começa por encabeçar o movimento popular francês com Robespierre, mas que acaba por ser considerado “inimigo da Revolução” ao opor-se às chamadas políticas de terror dos jacobinos.

“Este texto é quase uma autópsia do momento em que a Revolução se auto-sabota”, problematiza Nuno Cardoso. O episódio da morte de Danton ilustra o paradoxo que sustenta a Revolução Francesa: ao mesmo tempo que se defendem valores como liberdade, igualdade e fraternidade e se definem os direitos do Homem, multiplica-se o banho de sangue com perseguições e execuções generalizadas. “É um momento extraordinário da História porque, de forma quase cataclísmica, cria-se toda a matéria que torna a nossa sociedade de agora reconhecível.”

A Revolução Francesa, enquanto “gesto de fundação das nossas instituições, do nosso ideário ou da política organizada por esquerda e direita”, prenunciou uma série de fundamentos que são hoje postos em causa pelo “discurso hiperconservador, populista e nacionalista que se propaga”, considera o encenador. “Este é um tempo de fractura em que se criam divisões imensas, como o Brexit ou a extrema-direita de Salvini [vice-primeiro-ministro e líder do partido Liga] em Itália.” Nesse sentido, o encenador serve-se do texto do século XIX para “falar da falência de momentos fracturantes que necessariamente indicam o perigo do fim e da não-concretização.”

Embora distanciados por dois séculos, os levantamentos de 1789 e 2019 têm por base a mesma busca pela igualdade e justiça. Uma incessante luta exacerbada pela globalização e pelo capitalismo, nota o encenador, já que “a ordem instituída valoriza não o cidadão, mas o mercado”. “De uma forma longínqua, mas acertada, a situação que vivemos é quase pré-revolucionária."

Se atentarmos em certas passagens da obra de Büchner, que mistura a linguagem elevada de discursos de Robespierre, exactamente como eles foram proferidos, com a linguagem popular da tradição mais jocosa de Shakespeare, vemos-nos ao espelho de forma desconcertante. “Hoje em dia tudo é feito com carne humana”, diz-se no texto de Büchner – e passa-nos facilmente pela cabeça as crises migratórias e os mortos no Mediterrâneo, o Brasil de Bolsonaro, a América de Trump. “O terror é a emanação da virtude”, disse um dia Robespierre, e para Nuno Cardoso essa afirmação “não está assim tão distante dos discursos nacionalistas de Boris Johnson ou dos economistas que o apoiam e defendem que é preciso destruir para construir algo mais forte”.

A Morte de Danton é um texto revolucionário também na sua forma, já que foge à linearidade do teatro feito até então. “Salta de uma cena para outra sem justificação, como o cinema de Tarantino”, assinala o encenador. A alternância entre cenas curtas e longas, analepses e prolepses, o tom concreto e o tom surrealista, tornam a narrativa caótica e pesada: um retrato de aproximadamente duas horas e meia feito à medida do “corpo social em convulsão” que atravessa o tempo e o espaço.

Teatro Nacional São João. Qua 18 a Sáb 29. Qua-Sáb 19.00 (excepto Qua 18 Set às 21.00) Qui-Sex 21.00 Dom 16.00. 7,50€-16€.

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