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Cinema maldito toma conta da Casa Comum da Reitoria da UP todas as sextas-feiras de Março

Escrito por
Patrícia Santos
Idi Amin: a Self-Portrait, de Barbet Schroeder
© IMDBIdi Amin: a Self-Portrait, de Barbet Schroeder
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Nove documentários que por diversos motivos — maioritariamente políticos — viram a sua exibição proibida, podem agora ser vistos na Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto, graças a um ciclo organizado pelo núcleo de cinema documental KINO-DOC, sediado em Lisboa. A luta pelos direitos da comunidade negra nos EUA, as condições de vida em instituições de tratamento psiquiátrico e o stress pós-traumático de um grupo de soldados norte-americanos regressados da Segunda Guerra Mundial são algumas das temáticas abordadas nestes filmes. Poderão ser vistos ao longo de quatro sessões, todas as sextas-feiras de Março, de acordo com o portal de notícias da UP. 

A África subsariana serve de cenário às três películas que vão ser projectadas no dia 6. São elas Les statues meurent aussi (1953), de Alain Resnais, Chris Marker e Ghislain Cloquet, que se desenrola em torno da arte africana e da forma como esta foi afectada pela colonização; Catembe (1965), de Faria de Almeida, na qual é retratado o dia-a-dia em Maputo, na época conhecido como Lourenço Marques; e Idi Amin: a Self-Portrait (1974), de Barbet Schroeder, que apresenta Idi Amin, antigo ditador militar do Uganda, no auge da sua governação. 

Enquanto o primeiro documentário foi apenas exibido uma vez no seu ano de lançamento e censurado nos 11 que lhe seguiram, o segundo sofreu 103 alterações, passando de 80 para 48 minutos e tornando-se no filme português com mais cortes impostos por censura. Já o terceiro desdobrou-se em duas versões: uma para o Uganda e outra para o resto do mundo. Segundo o KINO-DOC, “Amin recusou a exibição da versão internacional do filme, fazendo reféns cerca de 200 cidadãos franceses, até que o realizador cedeu e cortou certas cenas. A versão internacional da obra foi proibida até 1979, ano em que Idi Amin saiu do poder”.

Na segunda sexta-feira de Março, dia 13, os conflitos que afectaram a sociedade norte-americana no século passado vão dominar a sessão. Let There Be Light (1946), de John Huston, “encomendado e depois banido pelo governo dos EUA até 1980”, por acabar com o mito do soldado heróico americano ao mostrar o stress pós-traumático de um grupo de veteranos regressados da guerra, abre a noite. Segue-se a exibição de Now (1965), de Santiago Álvarez, uma reflexão sobre o racismo nos EUA, e de Le 17e Parallèle: La Guerre Du Peuple (1968), do holandês Joris Evans, que retrata a resistência dos camponeses da aldeia Vinh Linh, situada no norte do Vietname, durante os bombardeamentos dos EUA. 

Titicut Follies (1967), do americano Frederick Wiseman, que capta a realidade dos pacientes presos no Hospital Estadual de Bridgewater, em Massachusetts, mostrando a humilhação, os maus tratos e a nudez imposta aos prisioneiros; e Warrendale (1967), de Allan King, sobre as vidas de 12 crianças com distúrbios emocionais que recebem novos tratamentos experimentais no centro de acolhimento de Warrendale, em Toronto, podem ser vistos no dia 20. 

Um ano após o lançamento, Titicut Follies “foi acusado em tribunal de ser uma violação da privacidade e dignidade dos reclusos, acabando por tornar-se no primeiro filme a ser banido nos EUA por questões fora dos âmbitos da obscenidade e segurança nacional”. Voltou à circulação 23 anos depois. Já Warrendale, produzido para passar na estação televisiva canadiana CBC, acabou por ter a sua exibição vetada, depois de o realizador se ter recusado a aceitar a censura dos palavrões que se ouvem no filme.

O ciclo termina a 27 de Março com a projecção de Los Angeles Plays Itself (2003), de Thom Andersen. Trata-se de um ensaio videográfico que se desenrola em torno da ligação da cidade dos anjos com a indústria cinematográfica de Hollywood, e da “forma como por esta foi apropriada e estereotipada”. O documentário só foi lançado comercialmente em 2014, uma vez que o realizador temeu ter de enfrentar repercussões legais por se ter servido, sem autorização, de planos de mais de 200 filmes. As questões de direitos de imagem foram ultrapassadas ao abrigo do conceito legal fair use, como em outros documentários de found footage em situações idênticas.

As sessões, de entrada livre, têm início marcado para as 21.30.

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