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Nuno Rodrigues
© João Brites

Entrevista a Nuno Rodrigues, director do Curtas Vila do Conde

O 28.º Curtas Vila do Conde acontece de 3 a 11 de Outubro e vem preparado para os tempos que vivemos. O director do festival diz o que esperar no regresso às salas.

Por Maria Monteiro
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O cinema está habituado a estar frente a frente com os espectadores e, como as restantes artes visuais e performativas, vive do aglomerado de pessoas que se reúne para testemunhar um acontecimento ou objecto artístico. O Curtas Vila do Conde – International Film Festival é um bom exemplo, já que todos os anos proporciona o encontro presencial entre cinéfilos e profissionais do cinema. Para a sua 28º edição, que se realiza de 3 a 11 de Outubro, teve de procurar alternativas para possibilitar a partilha de experiências em sala e garantir a segurança da organização e do público.

Além da lotação limitada, de acordo com as normas de segurança da Direcção-Geral de Saúde, a edição deste ano apresenta várias novidades. Pela primeira vez, a programação que decorre entre o Teatro Municipal de Vila do Conde, a Solar – Galeria de Arte Cinemática e o Auditório Municipal vai ser parcialmente mostrada online, através do formato Video on Demand (VoD). Apesar do distanciamento imposto pela pandemia, o Curtas sai da sua primeira casa para estender-se a Porto, Lisboa e Faro. A configuração mudou, mas a essência do festival continua intacta. Nuno Rodrigues, fundador e director do Curtas Vila do Conde, antecipa a programação e fala sobre os desafios de repensá-lo para os novos tempos.

Como se adaptou o Curtas a este ano atípico?

Precisamente por ser atípico, o festival foi sofrendo alterações, uma delas foi a data. Habitualmente acontece em Julho e passou para Outubro. Depois, tivemos de reavaliar o modo como iríamos construir [a programação], porque queríamos defender a ideia de um festival marcadamente presencial e começámos a pensar em alternativas. Queremos trabalhar de uma forma segura que dê confiança aos espectadores. Imaginamos duas possibilidades: uma que visa sobretudo defender o cinema português em sala, que é levar a Competição Nacional do Curtas a quatro cidades. Cada filme, estreia mundial ou nacional, arranca em Vila do Conde, e depois estará no Cinema Trindade, no Porto, no Auditório do IPDJ ou no Cineclube de Faro, em Faro, e no Cinema Ideal, em Lisboa. Grande parte dos realizadores vai estar em Vila do Conde e depois seguirá este circuito para estar presente em várias sessões do resto do país. Para além disso, e porque há pessoas que não estão tão à vontade em regressar às salas, e sobretudo porque existem muitas pessoas do interior que têm dificuldade em deslocar-se ao festival, imaginámos a versão online do Curtas.

A extensão do programa a outras cidades e ao plano virtual é uma resposta ao cenário actual.  Poderá ser também uma oportunidade de crescimento?

Nós não fechamos a porta a isso. O mais importante foi resolver o desafio deste ano, mas certamente que, como muitas actividades comerciais ou culturais, vamos sofrer as mudanças operadas por esta pandemia. Os hábitos das pessoas sobre a forma como fazem determinado tipo de coisas vão mudar e muito. Vamos estar atentos a esses fenómenos e alterações e algumas destas coisas poderão vir a ser repensadas daqui para a frente, não obrigatoriamente neste formato. Este festival vai para a sua 28º edição, mas parte da sua força e expressão nacional e internacional deve-se, precisamente, ao facto de estar sempre a criar novidades e a acompanhar as mudanças dos tempos.

De que modo é que esta nova estrutura impactou o orçamento?

O investimento no online é uma fatia grande e nova no orçamento. O Ministério da Cultura criou novas possibilidades para entidades do sector e festivais do cinema, como apoio e contributo para os formatos que surgem neste contexto, mas obviamente que isto se altera. Um festival que tem metade das suas salas não ocupadas pelas limitações tem menor número de entradas e, portanto, também estas alternativas servem para criar soluções do ponto de vista financeiro. O orçamento acaba por ser idêntico, é um pouco superior ao do ano passado, fruto também de alguns apoios extra, mas diria que é semelhante. Apenas equilibrámos a programação de forma diferente, temos mais verbas para algumas dessas novidades, e condicionando outras partes. Temos muito menos convidados internacionais. Tirando alguns dos cineastas em destaque, e o nosso júri, nós privilegiamos esta ideia de segurança.

Quais são os destaques da programação deste ano?

O Curtas tem uma diversidade de programação imensa, que vai ao encontro de públicos muito diferentes. Há sempre a Competição Nacional e Internacional, que costumam ser as linhas programáticas mais fortes e que este ano estão mesmo muito fortes. Também o facto de a pandemia ter estendido o festival no tempo levou a que tivessem surgido algumas novidades e alguns filmes que estavam a aguardar a estreia internacional em grandes eventos. Por outro lado, há o programa In Focus, dedicado ao realizador espanhol Isaki Lacuesta, que vai cruzar o cinema e a exposição na Galeria de Arte Cinemática.

No território das longas-metragens, destaco o filme de abertura, Casa das Antiguidades, do João Paulo Miranda, um realizador que temos vindo a acompanhar há muitos anos, que já esteve em Vila do Conde, e cujo filme acabou de estrear na competição de Cannes virtual, San Sebastián e em Toronto. É um cineasta emergente que não queríamos deixar de ter aqui. Ele estará presente no Curtas, visto que está a trabalhar na Europa neste momento.

Teremos, também, o regresso de uma cineasta a quem já dedicámos uma retrospectiva e que consideramos uma das grandes figuras do cinema contemporâneo, a Kelly Reichardt, que tem aqui a apresentação de um filme que estreou em Berlim, também em competição, o First Cow. Para além dos filmes, vamos ter acções virtuais, debates, conversas, algumas em tempo real, outras gravadas. Já estamos a trabalhar algumas delas. 

Como é que o Curtas pode ajudar o sector a mexer?

Reinventando-se, como está a fazer agora, lutando pela sua existência em termos presenciais, em Vila do Conde, mantendo o modelo em sala, levando às salas como se propôs a fazer, com um gesto forte relativamente ao cinema português. A vida tem de continuar, as actividades económicas e culturais também, por isso o simples facto de não termos baixado os braços a fazer logo demonstra precisamente essa luta para defender o sector.

Quais são as vossas expectativas quanto ao público?

Penso que há muita gente com vontade de voltar às salas e também aqui há movimentos atípicos. Vemos que as salas de cinema comercial estão com grandes dificuldades, mas que as salas que estão a apresentar programas alternativos e mostras de autores estão a decorrer com enorme sucesso. Por isso, existe um nicho de público ávido destes eventos, e nós acreditamos que vão aderir, dentro dos cuidados e regras que pressupõe estar num evento como este em segurança. 

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