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Francisca Camelo: “A poesia nasce da necessidade de contar as dores humanas”

Francisca Camelo é autora do livro Cassiopeia
© Matilde Viegas Francisca Camelo é autora do livro Cassiopeia

Cresceu numa casa habitada por livros e escritores, mas foi pelo verso livre que Francisca Camelo se rendeu à escrita. Aos 28 anos, já exerceu psicologia clínica - a sua área de formação -, trabalhou em recursos humanos e, actualmente, é guia turística. Embora tenha outra profissão, porque “é quase impossível que qualquer forma de arte seja auto-sustentável a não ser que contes já uns anos de vida”, é na poesia que tudo começa e acaba. Em 2018 publicou o primeiro livro, Cassiopeia, colabora com plataformas de divulgação de literatura e arte como A Bacana (da qual é co-fundadora) e Enfermaria 6 e já escreveu, até, uma letra para o músico Rui David. Estivemos à conversa com um dos nomes promissores da nova poesia portuguesa.

Consegues recordar o início da tua relação com a poesia?

A minha mãe sempre teve uma biblioteca muito interessante e lembro-me que, quando era miúda, devia ter uns oito anos, abria os livros dela. Um dia, dei com um livro do Eugénio de Andrade e com um mundo estranhíssimo em que as frases eram cortadas e densamente metafóricas. Eu ainda não sabia o que eram metáforas, só vi ali um monte de imagens que não conseguia entender, mas achei-as belíssimas. Lembro-me de escrever logo a seguir uma espécie de cover daquele poema. Depois tive a sorte de, enquanto estudava, ter um par de professores que acreditavam profundamente na necessidade da escrita e da poesia.

Que referências moldaram o teu trabalho?

O Eugénio abriu a porta, mas depois apaixonei-me por outras, como o Herberto Hélder ou o Ruy Belo. Entretanto, percebi que faltavam referências femininas, que estão muito pouco representadas no cânone. As que são representadas, à excepção da Sophia de Mello Breyner, como Maria Teresa Horta ou Natália Correia, são sempre colocadas na esfera do feminismo. E, atenção, eu sou feminista, mas quero dizer que parece que há o cânone habitual e o cânone politicamente activo. A Natália Correia, em 1966, organizou a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica e, daqueles 93 autores, só quatro eram mulheres. Quando comecei a escrever com maior sentido de vocação e não apenas como catarse, comecei a perceber que faltavam mulheres na minha leitura. Fiz um esforço consciente por procurar mais e encontrei todo um mundo, não só na poesia portuguesa, como na brasileira, como a Golgona Anghel, a Tatiana Faia e a Angélica Freitas.

Como se pode caracterizar a tua poesia?

Talvez por não ter formação em literatura e por toda a poesia que li ter sido descoberta por mim ou por pares ou professores, acredito que a escrita deve ser compreendida por todos. Isso acaba por, inevitavelmente, influenciar a forma como eu escrevo. Escrevo de forma necessariamente intimista, de forma simples, mas não simplista. Gostava que um texto meu fosse entendido tanto pela académica que escreve uma tese sobre Homero, como pela senhora que sabemos que trabalha a varrer escadas.

Olhando à nova geração de “poetas do Instagram” que escreve poemas curtos em verso livre, há quem diga que não é poesia, porque não é complexa e profunda o suficiente. Qual é a tua visão sobre isto?

A poesia é um local de profunda liberdade. Eu tenho os livros da Rupi Kaur [autora dos bestsellers Leite e Mel e O Sol e as suas Flores, que começou o seu percurso em redes sociais como o Instagram e o Tumblr], por exemplo, eu gosto de a ler. Se é uma poeta que me inspira particular densidade, não é. Mas eu considero aquilo poesia. Os tempos mudam, os meios mudam e eu acredito que a poesia deve ter um lugar à mesa, literalmente. Eu participo muito em leituras públicas, encontros de poesia… Acredito na poesia como era na sua forma original e primitiva, quando as pessoas se juntavam à lareira a contar histórias de mitos com o xamã de uma tribo. É assim que a poesia nasce no mundo, é através da necessidade de contar as dores humanas. Para mim, essa é a forma mais bela de consumir poesia. É partilhá-la, é escutá-la, é dizê-la. Quantos de nós temos dezenas de amigos fora? Se eu contasse a partilha presencial da poesia como a única forma de a explorar, nunca teria conhecido poetas além-mar, no Brasil, ou outros poetas portugueses emigrados. Acredito que o Instagram seja uma porta para uma casa com muitas divisões.

Como é que as redes sociais podem levar a poesia a mais gente?

Pegando no exemplo do Eugénio de Andrade, ele é um poeta extremamente lírico, que usa imagens muito simples, mas se eu hoje em dia consigo compreender o contexto histórico e até biográfico dele, com oito anos tudo o que eu lia eram metáforas bonitas. Se alguém, sem qualquer formação ou introdução à poesia, tiver num “poeta do Instagram” uma porta de abertura para esse mundo que não conhece ou acha que não vai gostar, porquê fechá-la? Tudo o que seja em prol da partilha da poesia é positivo.

Enquanto poeta da nova geração, como vês o estado da arte em Portugal?

A poesia está riquíssima. No Porto há uma nova geração de poetas que está a tocar em novos temas. Já começa a existir uma poesia queer com alguma visibilidade. Vê-se uma diversidade na própria produção escrita e gente que produz com muita qualidade e isso depois transfere-se para a esfera pública. Acho que o Porto se está a tornar um lugar mais rico e diverso. Polémicas de gentrificação à parte, isso traz às pessoas uma sensação de liberdade necessária à escrita. Ainda que a cidade tenha o mesmo tamanho, a nível cultural está maior e isso passa para a poesia.

 

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