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© Nikolai Nekh
© Nikolai Nekh

Museu da Gentrificação mostra-se pela primeira vez no Maus Hábitos

‘Três cartazes para o Museu da Gentrificação’ está na Mupi Gallery até 18 de Novembro e mostra a transformação urbana, económica e social vista pela lente de Nikolai Nekh.

Por Maria Monteiro
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Há cerca de dois anos, Nikolai Nekh começou a aperceber-se da acumulação de objectos de mobiliário, como bancos, cadeiras, mesas ou estrados, nas ruas que percorria entre casa, na zona de São Bento, em Lisboa, e o trabalho. Na altura, o crescimento económico, o aumento do turismo e a especulação imobiliária já eram evidentes na cidade, mas foi quando se deparou com os vestígios da renovação de apartamentos para aluguer temporário a valores astronómicos que o artista se debruçou sobre o assunto. 

“Imaginei uma espécie de arquivo com estes materiais”, recorda Nikolai Nekh em conversa telefónica com a Time Out. Avançou, então, com a recolha de alguns objectos encontrados, fotografou-os, catalogou-os e devolveu-os à rua. Estavam lançados os alicerces do Museu da Gentrificação, projecto que mostra pela primeira vez ao público em Três cartazes para o Museu da Gentrificação, patente na Mupi Gallery, dos Maus Hábitos, no Porto, entre 8 de Outubro e 18 de Novembro. A exposição integra o ciclo Poético ou Político, com curadoria de João Baeta.

O título não engana, já que a exposição mostra, exactamente, três cartazes feitos a partir dos registos fotográficos dos objectos abandonados e de composições que o artista foi fazendo com estes e outros objectos. “[O Museu] tornou-se quase num diário gráfico de registo de formas”, comenta Nikolai Nekh. Os cartazes são apenas a “ponta do iceberg” do trabalho de documentação e conceptualização que tem desenvolvido sobre “os materiais que se produzem e que circulam no processo de gentrificação”, e que será apresentado de forma aprofundada no próximo mês em Lisboa.

Museu da Gentrificação
© Nikolai NekhA primeira grande exposição do projecto está agendada para Novembro

O confronto entre o desenvolvimento económico, científico e tecnológico e o crescente desequilíbrio social e ambiental não é novidade na sua prática artística, centrada nas “formas que o capitalismo utiliza para se representar a ele próprio”. São exemplos disso Postcards from the city Raduhznyy, obra finalista do prémio BES Revelação em 2008, em que Nikolai procurou criar uma imagem da cidade petrolífera na Sibéria ao “fotografar Lisboa como se fosse esse território”; e Achilles Heel, exposição de 2018 no Museu de Arte Contemporânea do Chiado (MNAC) em que analisava a relação entre as matérias-primas necessárias para mover a indústria e os recursos energéticos disponíveis.

Segundo o artista, a gentrificação é “talvez a manifestação mais recente que temos da luta de classes, [uma vez que] há classes diferentes a apropriar-se do mesmo território”. Apesar de ser um problema vivido de forma muito individual pelos moradores de menor poder económico, que são forçados a deslocar-se, todos somos responsáveis por ele, ainda que involuntariamente, sublinha. “Interessa-me criar uma maior consciência sobre o papel que todos temos no processo.” 

Mas a participação individual e colectiva na gentrificação não se cinge aos agentes económicos e turísticos, nota Nikolai Nekh. Também a estética contribui para esta realidade, o que se verifica, por exemplo, na fotografia de exposição. “Há um determinado tipo de luzes e enquadramentos que são usados para fazer o registo de exposições de arte contemporânea, e dificilmente se pode sair dele”, alerta, comparando-o ao registo de apartamentos para aluguer e venda, “quase todos fotografados da mesma forma, porque toda a gente quer aquele tipo de imagem”.

A sua obra acaba por ser disruptiva nesse sentido, já que procura ir além da fórmula invariável de captação e registo de imagem. Além de privilegiar as naturezas-mortas e a paisagem, distingue-se pelo enfoque no processo de produção de imagem e não apenas na sua finalidade. “Trabalho muito a questão das narrativas de produção e distribuição da imagem, o que está por trás daquilo que nos chega.”

A Mupi Gallery é apenas o levantar do véu que antecipa a primeira grande exposição do Museu da Gentrificação, que estará na galeria Balcony em Novembro. A ideia é cruzar as imagens dos cartazes com objectos-chave na construção conceptual do Museu: os andaimes, “que mais do que plataformas para pintar, aludem à ideia de escalada social”, e os estrados, que servem de poiso ao “nosso inconsciente”, acompanhados de fotografia e instalação.

Museu da Gentrificação
© Nikolai NekhOs andaimes são objectos usados de forma recorrente no projecto

Mupi Gallery. Maus Hábitos. Ter-Sáb 12.00-23.00, Dom 12.00-16.00. Entrada livre.

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