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Os Filhos do Colonialismo
© Vera Marmelo

'Os Filhos do Colonialismo' contam as suas histórias no Teatro do Campo Alegre

Por Maria Monteiro
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Este não é o Portugal revestido a ouro e glória de que se fala nos livros escolares. Em Os Filhos do Colonialismo, espectáculo da companhia Hotel Europa, não há lugar para o romantismo e para o mito do “bom colonizador”. “É assustador perceber os massacres e a opressão praticados pelos portugueses”, reflecte o encenador André Amálio, que partilha a criação desta peça, apresentada no Teatro Campo Alegre na sexta 21 às 21.00 e no sábado 22 às 19.00, com a checa Tereza Havlíková.

Amálio, que à boleia da sua tese de doutoramento se tem debruçado sobre as entranhas da memória e das feridas do colonialismo português numa série de peças de teatro documental, procurou desmantelar, neste espectáculo, “a versão trabalhada da guerra colonial” que domina a nossa memória colectiva. A sua pesquisa conduziu-o ao conceito de pós-memória de Marianne Hirsch, investigadora que “trabalha a memória da segunda geração de sobreviventes do Holocausto”.

© Vera Marmelo

Simultaneamente, fez uma vasta recolha de testemunhos junto de filhos de antigos soldados que estiveram na guerra colonial portuguesa, filhos de pessoas que imigraram das antigas colónias e aqueles que, não tendo relação directa com as ex-colónias, têm em comum “um vazio de informação sobre esse período”. “A minha mãe esteve em Moçambique e pouco me falou disso”, exemplifica André Amálio. A partir dessa recolha, decidiu pôr em palco os próprios entrevistados, que contam as suas histórias e as das suas famílias em discurso directo.

É assim que conhecemos a história de uma mulher que se mudou para Angola e ficou presa na guerra civil, apaixonando-se depois por um comissário político da UNITA. Ouvimos também a filha de um antigo soldado português que lutou no Ultramar de peito inchado de orgulho, assente num nacionalismo no qual não se revê hoje, entre vários outros recortes de biografias das gerações pós-25 de Abril e das que as antecederam.

Este é o capítulo final de um ciclo de cinco criações de carácter marcadamente interventivo. Como é, aliás, todo o teatro do Hotel Europa, “um teatro que acredita que pode mudar o mundo”, afirma André Amálio. E, para o criador, isto consegue-se com uma “soma de pequenas vitórias”. “Se as pessoas vêem a peça e depois vão ler ou ver um filme sobre o assunto, a nossa missão foi cumprida.” 

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