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'Aurora Negra', espectáculo de Cleo Tavares, Isabél Zuaa e Nádia Yracema
Fotografia de Filipe Ferreira 'Aurora Negra', espectáculo de Cleo Tavares, Isabél Zuaa e Nádia Yracema

2020 nos palcos foi assim, para o bem e para o mal

Um director artístico (Nuno Cardoso), uma actriz (Nádia Yracema), uma bailarina (Joana Castro) e uma espectadora (Beatriz Vasconcelos) fazem o seu balanço de 2020.

Por Mariana Duarte
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2020 foi um ano trágico para as artes performativas em Portugal. A paralisação da cultura provocada pela pandemia fez com que uma grande parte dos artistas e profissionais deste sector (e de muitos outros) perdesse os meios de subsistência, sem acesso a apoios dignos. Os teatros adaptaram-se a novas normas, a uma nova realidade e a uma reestruturação logística em várias frentes. Pedimos a Nuno Cardoso (encenador e director artístico do Teatro Nacional São João), Nádia Yracema (actriz e criadora), Joana Castro (coreógrafa e bailarina) e Beatriz Vasconcelos (espectadora) para fazerem o seu balanço de 2020.

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Nuno Cardoso, encenador e director artístico do Teatro Nacional São João

1. O que foi mais desafiante na direcção de um teatro em 2020?

2020 era para o Teatro Nacional São João (TNSJ) um ano de celebração, o ano do Centenário. Pretendíamos com a nossa actividade reafirmar a posição e o sentido da nossa instituição como Teatro Nacional. A pandemia atirou-nos, a nós como a toda a gente, para uma nova realidade. A necessidade de reprogramação da actividade, a urgência de nos tornarmos instrumento de apoio ao sector e, simultaneamente, a necessidade de continuarmos presentes enquanto serviço público, redefiniram as nossas prioridades, obrigando a equipa do TNSJ a um esforço gigantesco. Diria pois que o maior desafio foi o de manter a confiança no nosso trabalho, evitar o pessimismo e, em conjunto com todos os que fazem parte do TNSJ – as suas equipas, os criadores que connosco trabalham e o nosso público –, estar constantemente presente, afirmando o nosso Centenário com uma programação coerente e de serviço público.

2. Entre as actividades e peças canceladas, adiadas ou impossíveis de concretizar, qual foi a grande desilusão ou angústia?

O TNSJ conseguiu manter, de uma forma ou de outra, toda a sua programação e a coerência da mesma. Portanto, nesse aspecto, não experimento a desilusão ou a angústia de não termos realizado algo que tínhamos previsto. Todavia, o esforço das equipas que trabalham até ao esgotamento, a incerteza dos criadores que lutam para conseguir apresentar o seu trabalho, podendo ter que parar e perder o seu sustento, as plateias reduzidas por óbvias questões de segurança, o dia-a-dia e o que pode surgir a qualquer momento, produzem um grande sentimento de angústia.

3. Das mudanças que tiveram de ser feitas nos teatros em 2020, o que vale a pena transportar para 2021?

As mudanças e a nossa resposta a esta situação não se esgotam em 2020, prolongando-se em 2021. Daquilo que foi a nossa actividade este ano, saliento a constatação da valorização das plataformas virtuais e da sua complementaridade com a programação tradicional. Também acho que a situação de calamidade obrigou todos os agentes do sector a confrontarem-se com as suas fragilidades e a encetarem um conjunto de diálogos que, com paciência, acredito que serão transformadores. Finalmente, o período em que os teatros encerraram, as novas regras de acolhimento de público e a necessidade de alteração de horários talvez nos levem a olhar o teatro e a sua inscrição na comunidade com novos olhos, novas soluções e uma importância redobrada.

Nádia Yracema, actriz e criadora

1. Ser actriz e criadora em 2020: o que foi mais angustiante?

2020 foi, sem dúvida, um ano atípico, repleto de desafios. Não só para a comunidade artística, mas para toda a sociedade. Foram travadas muitas lutas. A precariedade laboral no sector artístico foi exposta, vimos muitos colegas sem qualquer tipo de direito à protecção social, houve espectáculos cancelados, vozes silenciadas, vontades travadas… Gente sem pão, casa ou trabalho. No entanto, foi também um ano de concretizações: tive a oportunidade de criar uma leitura encenada em parceria com as Causas Comuns e o Teatro São Luiz, e ainda levar a cena Aurora Negra, juntamente com a Cleo Tavares e a Isabél Zuaa, um projecto que foi e continua a ser uma revolução.

2. Fazer espectáculos num contexto pandémico exigiu que tipo de adaptações?

Tantos olhos sem boca. Tantas mãos repletas de álcool, tantos lugares vazios, tanto medo do toque, tantas datas mudadas, tantos salários por pagar...

3. Apesar de ter sido um ano para esquecer nas artes performativas, há alguma coisa positiva que queiras levar para 2021?

Numa micro-escala espero que, finalmente, se concretize o estatuto do trabalhador das artes do espectáculo. Em suma, podemos agradecer a 2020 por nos obrigar a repensar-nos enquanto humanidade.

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Joana Castro, coreógrafa e bailarina

1. Ser coreógrafa e bailarina em 2020: o que foi mais angustiante?

Vi quase todo o trabalho que tinha agendado até Setembro ser cancelado e sem quaisquer garantias de reagendamento ou compensação. Acabei por me juntar a colegas do sector da cultura para reivindicarmos uma alteração na lei de cancelamentos/reagendamentos que nos concedesse o direito de receber pelas actividades canceladas e muitas outras lutas relacionadas com apoios ao sector, tanto imediatos como a longo prazo. Foi angustiante ver colegas numa luta permanente para se manterem à tona no dia-a-dia e sem quaisquer perspectivas de futuro.

2. Fazer espectáculos num contexto pandémico exigiu que tipo de adaptações?

Para além do uso de máscara, desinfecção dos espaços a cada utilização e a devida distância física, há uma redução substancial da lotação das salas. Há muitos problemas associados a estas adaptações, nomeadamente quando artistas e equipas recebem à bilheteira, pois para ter uma sessão lotada têm de fazer dois ou três espectáculos pelo preço de um.

3. Apesar de ter sido um ano para esquecer nas artes performativas, há alguma coisa positiva que queiras levar para 2021?

Houve união entre profissionais da cultura. Espero que continue nos próximos anos. É essencial agirmos colectivamente se queremos ver mudanças.

Beatriz Vasconcelos, espectadora

1. Enquanto espectadora assídua de teatro e dança, em que medida é que tiveste de adaptar os teus hábitos às novas condições de apresentação de espectáculos?

Durante os meses em casa, percebi a dependência que tinha de espectáculos ao vivo. Não tinha consciência de como já era uma rotina, no mínimo, semanal. Senti mesmo muita falta de ver espectáculos presenciais; a experiência do online é diferente. Assim que foi possível, voltei a ir aos teatros, de máscara e de mãos desinfectadas, mas isso nem me incomodou. Os horários matutinos ao fim-de-semana foram estranhos, mas não impeditivos. E tornei-me mais do que apologista e defensora do horário das 19.00.

2. O que foi mais angustiante?

O mais angustiante nestes últimos dois meses foi a sobreposição. Todos os teatros estavam com espectáculos ao mesmo tempo, às mesmas horas. Foi preciso fazer muitas escolhas... E correr para conseguir alguns dos poucos bilhetes. Por outro lado, ainda bem que as casas esgotaram rapidamente. Destaco também a distância: quando finalmente foi possível voltar aos teatros, senti uma falta imensa dos abraços no foyer, de rever as pessoas e de discutir coisas no fim das sessões.

3. Houve alguma coisa positiva nesta temporada esquizofrénica que gostarias de levar para 2021?

Custa-me apelidar o que quer que seja de positivo num ano tão desesperante para a cultura. Serviu pelo menos para alertar para o abandono e precariedade do sector. Destaco também os novos modelos de peças online, que podem crescer e trazer uma nova forma de fazer e ver espectáculos.

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