Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Porto icon-chevron-right Pedro Cabrita Reis: "Não é preciso que as pessoas percebam a obra, mas que lhe ganhem afinidade"

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Pedro Cabrita Reis
D.R. Pedro Cabrita Reis

Pedro Cabrita Reis: "Não é preciso que as pessoas percebam a obra, mas que lhe ganhem afinidade"

É uma figura incontornável da arte contemporânea portuguesa. Dono de uma visão singular e controversa e de uma presença carismática. Falámos com o artista sobre a vida, a obra e a polémica.

Por Maria Monteiro
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Por estes dias vem tomando o Porto de assalto com exposições em dose tripla, uma obra de arte pública em Leça da Palmeira ou a escultura comestível para o aniversário da Livraria Lello. Qual é a relação que tem com a cidade e com a arte que aqui se faz?

Tenho uma longa relação com o Porto, sempre tive aqui muitos amigos, estou a lembrar-me do [Álvaro] Lapa ou do José Rodrigues. Acompanhei de perto a história de Serralves, expus lá praticamente no início e continuo a vir aqui. Fiz algumas coisas com o Eduardo Souto de Moura e tenho uma relação de estima e admiração com o Álvaro Siza. O Porto é uma segunda casa para mim e esta acumulação de projectos não passa de uma coincidência, mas é uma coincidência agradável.

Nos últimos anos, a grande escala está muito presente no seu trabalho. O que é que torna este formato estimulante?

Sempre me interessou a relação do espaço público com a grande escala. Tenho um encanto muito particular por tudo o que sai do ateliê, do quadro, da pequena escultura, e que me obriga a reflectir sobre a relação de uma obra com o espaço em que está.

Ao contrário de muitos outros colegas ou correntes da história da arte, não acredito que um monumento esteja em si morto como objecto estético. Nos anos 60, criou-
-se a ideia de que a monumentalidade pública estava completamente fora de questão. Só que as comunidades gostam de celebrações. O ser humano celebra-se a si próprio das maneiras mais diversas. Uma delas, provavelmente a mais arcaica e reaccionária, é erigir coisas que antigamente chamávamos de monumentos e agora chamamos de arte pública.

Interessa-lhe sair dos espaços convencionais da arte, como galerias e museus?

Claro. A arte pode mostrar-se nesses espaços, mas o verdadeiro espaço da arte é no pensamento e no olhar das pessoas. Desde o seu autor até aos que olham para ele. Interessa-me, acima de tudo, essa espécie de relação dessacralizada – porque, ainda assim, um monumento é uma sacralização –, com o espaço público. Eu gosto dos desafios criados pelos innuendos que decorrem da exposição e da análise do espaço público. A escala, a natureza política da comunidade, a forma como as coisas se fazem, a forma como são recebidas...

Vinte anos depois de expor no recém-inaugurado Museu de Serralves, regressa com uma exposição/instalação intitulada “Olhar inquieto”. Em que se traduz esta inquietação?

O [nome] Olhar Inquieto pretende sublinhar que uma obra de arte nunca nasce de uma só coisa. Quando se faz um risco num papel, esse risco vem informado de tudo, desde o voo da gaivota que se viu antes, até ao rosto de uma pessoa… Por muito abstracto que seja, esse risco não nasce do zero. Nasce de uma qualquer coisa a ferver aqui dentro, que dá origem àquilo que mais tarde se vai chamar a obra de arte. Portanto, essa obra de arte nasce de um olhar inquieto. O olhar inquieto é, justamente, a assunção de que não há um ponto de partida, há uma convergência de inúmeros, indefiníveis e incontroláveis pontos de partida.

Por ocasião da inauguração, escreveu-se que, a partir desse momento, quereria ser chamado apenas de Cabrita. Porquê esta mudança?

Toda a vida, desde que faço coisas, assinei sempre Cabrita. E achei que era interessante condensar. Quando se vai para velho, como é o meu caso, tens de saber exactamente até onde podes ir e o que é que podes levar contigo. E acaba por ser mais engraçado, porque a palavra deixa de ter um sentido e passa a ser uma imagem. E a minha vida são as imagens. Fico Pedro Cabrita Reis para os amigos e para os impostos e Cabrita para as artes [risos].

Não podemos falar de arte pública sem falar de escrutínio. Passadas duas semanas da inauguração, a “Linha do Mar”, em Leça da Palmeira, foi vandalizada. Num comentário ao Público disse que era um acto político associado à extrema-direita.

Disse e mantenho-o. Na escultura, além das inscrições que estavam lá, havia um tridente que é uma assinatura universal de grupos terroristas ligados à extrema-direita e aos skinheads. Uma cruz suástica toda a gente sabe o que é, a foice e o martelo toda a gente sabe o que é, a cruz invertida [da organização de supremacistas brancos KKK] a mesma coisa... Aquele tridente é um símbolo que foi adoptado por grupos de extrema-direita. Não disse nada de extraordinário.

Esta não foi a primeira vez que uma obra sua foi vandalizada.

É a terceira vez. A primeira foi recentemente, mas numa peça que fiz em 1990 em Coimbra, uma mesa num lago chamada Lago dos Patos. Fui convidado pela Associação Académica de Coimbra para fazer uma coisa por ocasião dos 800 anos da universidade. Aquilo aguentou muito tempo depois da inauguração, depois esteve uns anos sem funcionar. Um dia, a autarquia actual restaurou-a e passado um tempo apareceu toda partida. Tenho de ir lá analisar aquilo. A outra foi uma escultura [um casinhoto em tijolo] que fiz a convite do Alberto [Carneiro], em Santo Tirso, para o Museu Internacional da Escultura. Quando a fiz [em 2001], disse ao Alberto que ainda tinha de escavacar a superfície, mas acabou por ficar assim 18 anos. Na altura, [em 2018, quando a peça apareceu esburacada], assumi a intervenção por mãos anónimas sem lhe ter chamado vandalismo. Mas, de facto, não foi um vandalismo, de certeza que foi um jovem artista, conheço alguns que seriam capazes de fazer aquilo. O Fernando Pessoa tinha uma frase extraordinária, que fez para a Coca-Cola, mas que nunca chegou a entrar em Portugal, porque Salazar não deixou: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Com a arte é a mesma merda. As pessoas começam por odiar e depois vão tirar selfies. Em Santo Tirso, primeiro viam uma barraca de tijolo e, quando um dia apareço eu e os meus assistentes para a terminar, eles chamam a polícia a dizer que estão a vandalizar a peça do Cabrita Reis… Este processo é muito engraçado.

As pessoas começaram a afeiçoar-se à peça.

Isso também aconteceu na intervenção que fiz na barragem da Bemposta. As pessoas [que antes faziam comentários depreciativos] vão de Espanha – de lá vê-se muito bem, porque é tudo amarelo – fazer fotografias com a família toda. Para mim esse é o grande prémio. As pessoas não precisam de perceber a obra ou de ter o curso de História da Arte ou Filosofia, o que é preciso é que lhe ganhem afinidade com o tempo. Acho que esta peça de Leça, depois deste começo atribulado, vai singrar normalmente. Ao domingo, é muito engraçado ver as avós que se sentam lá com os carrinhos dos netos, aquilo é um lugar de tolerância e de convivência.

Quando a polémica rebentou, além de se falar do valor avultado da obra, questionou-se o seu valor estético e artístico. A arte contemporânea sofre ainda de uma falta de compreensão?

Não é só a arte contemporânea, também é a arte moderna ou mesmo o impressionismo. Temos de analisar isso da perspectiva da educação. O que está aqui em causa não é nem a estética nem a importância da arte. É preciso rever por completo o programa de educação artística no ensino, seja ele privado ou público. Porque nós temos gerações que ficam coxas e incompletas se não lhes dermos uma profunda e continuada educação artística. Não é só ensinar a ler, e mal, e a fazer contas, para depois criar um enorme proletariado que vai para as empresas fazer o que tem a fazer para elas ganharem muito dinheiro.

O que a educação pressupõe é formar pessoas e isso faz-se através de uma educação global. Não é uma educação vocacionada para servir os interesses do mercado. É evidente que a educação deve tornar uma pessoa apta para contribuir para a sociedade, mas esse papel é tanto mais bem executado quanto mais vasta for essa educação, não é metendo as disciplinas de teor cultural ou artístico para o fundo do programa...

É fundamental que haja uma política cultural nas instituições governamentais e que não se relegue a cultura para segundo plano. A arte é essencial na construção da cidade e do cidadão?

Infelizmente, os orçamentos para a cultura são sempre muito fracos. Estas últimas administrações públicas têm feito coisas melhores. Mas muito mais tem de ser feito, porque o grande capital de um país é a inteligência. Financiar a investigação científica, as universidades e o pensamento, e a cultura e a arte é tão ou mais importante do que financiar conglomerados industriais que se aproveitam de fundos públicos para se auto-financiar, quando eles próprios deveriam fazê-lo. São investimentos a longo prazo, mas são os que rendem. 

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