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Ó Evaristo ainda tens cá disto? Conheça as profissões quase extintas do Porto

Não temos o Evaristo, mas temos o André, o Luciano, a Fátima, o José, o António e o Pedro que dão vida às profissões quase extintas do Porto

Fátima Nunes, Vareira
©Marco Duarte Fátima Nunes, Vareira
Por Editores da Time Out Porto |
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Trabalham em ofícios seculares, que não aprenderam na escola, mas que lhes foram passados por gerações anteriores. São vestígios em carne e osso do Porto dos artesãos e das vendedeiras que, em tempos, tomou conta da paisagem e ajudou a construir a identidade de uma cidade trabalhadora. Aquela que ainda é a nossa e que queremos manter viva. Fomos à procura das profissões quase extintas do Porto e deixamos-lhe aqui testemunhos na primeira pessoa de artes quase esquecidas.

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As profissões quase extintas do Porto

António Sá, Tanoeiro
Time out

Tanoeiro

António Sá, 50 anos e Pedro Cruz, 29 anos

Nas Caves da Cockburn's, em Vila Nova de Gaia, há uma sinfonia que se repete todos os dias. O barulho das máquinas que trabalham a madeira é entrecortado pelo ritmo das marteladas aplicadas com destreza a toda a volta das pipas que precisam de manutenção, numa sucessão de movimentos tão precisa que mais parece coreografada. Os nove tanoeiros residentes – a última equipa a funcionar numa casa de vinho do Porto em todo o país –, já os fazem (quase) de olhos fechados.

É o caso de António Sá, de 50 anos, que está há 33 na tanoaria pertencente à Symington Family Estates. “Tanto compomos cascos como balseiros ou tonéis, quer aqui, quer no Douro [nos armazéns das outras marcas da Symington]”, começa por contar o tanoeiro responsável. Além de desmontarem, aduela a aduela, as vasilhas de vários tamanhos para reparação, os tanoeiros fazem a “revisão de todos os lotes dos armazéns de Gaia, uma vez por semana”.

Ao contrário da tanoaria tradicional, que tratava da confecção de pipas e barris para o transporte do vinho do Porto por via marítima para os mercados da Europa (o comércio do vinho do Porto era a principal e mais rentável actividade económica da cidade no século XVIII), a Cockburn’s não trabalha com madeira nova. Isto porque, no caso do vinho do Porto, o objectivo é que possa envelhecer sem adquirir os sabores da madeira (como acontece nos vinhos de mesa).

Neste sentido, privilegia-se a recuperação de cascaria com 50 ou 100 anos, cuja madeira velha e avinhada é praticamente insubstituível. Chegadas à oficina, as pipas são desmanteladas e são substituídas apenas as aduelas que estão danificadas. “Às vezes, de uma simples peça velha, fazemos uma coisa bonita”, comenta António, que sublinha, no entanto, que “isto demora o seu tempo a aprender”.

É ele que tem sido o mestre de jovens aprendizes como Pedro Cruz, de 29 anos, que se iniciou na arte da tanoaria há quase dois. O conceito não lhe era estranho, uma vez que trabalhava, anteriormente, na garrafeira da Symington, e o avô fora reformado da mesma empresa. Ainda assim, começou do zero. “Isto é muito diferente daquilo que fazia, mas sempre gostei de trabalhar a madeira”, reconhece.

Segundo António, ter gosto por aprender já é meio caminho andado para se ser bem-sucedido num ofício que deixa mossa no corpo ao fim do dia. “A gente ao fechar os pulsos, parece molas”, confessa o artesão. É, por isso, essencial trabalhar a força para aplicá-la da forma correcta e evitar lesões.

Neste momento, o tanoeiro responsável tem quatro aprendizes sob a sua orientação, que estão “a adaptar-se lindamente e a progredir a passos largos”. A passagem de testemunho reflecte “um esforço que há por parte da empresa em manter a profissão viva”. O que se traduz, também, no equilíbrio de idades da equipa de tanoeiros: três têm menos de 30 anos, três têm menos de ou 50 anos, e dois têm 60 e 61 anos. “Quando estes senhores se aposentarem, tem de haver sangue novo”.

Apesar de secular (o primeiro registo que há da actividade dos tanoeiros do Porto data de 1443), o ofício permanece desconhecido para grande parte das pessoas. “Se eu disser a alguém que sou tanoeiro, ninguém sabe o que é”, comenta António Sá. “Mas se explicar que componho pipas, já percebem”.

Foi para contrariar esta tendência que, aquando da remodelação e reabertura das caves da Cockburn’s, em 2017, as visitas guiadas começaram a incluir a passagem pela tanoaria. Proporciona-se, assim, uma experiência completa ao público que, além de ter acesso às informações e imagens do museu, tem também a possibilidade de ver os tanoeiros em acção. “Às vezes até ajudamos os guias a responder a algumas questões”.

A Cockburn’s é a última casa de vinho do Porto com uma tanoaria de trabalho – as restantes subcontratam este tipo de serviço –, e o último centro de formação in loco da profissão. A sobrevivência e vitalidade desta arte secular, defende António Sá, poderia ser reforçada com a criação de uma escola para tanoeiros nas caves de Gaia. “Podíamos ser pioneiros. Eu já lancei a ideia”, remata.

Por Maria Monteiro

André Fernandes, Amolador
©Marco Duarte

Amolador

André Fernandes, 31 anos

Quem entra pela porta principal do Mercado Temporário do Bolhão e desce as escadas rolantes, encontra, à direita, André Fernandes, o amolador. Provavelmente, o último a resistir na cidade. Apesar do seu aspecto jovem, as fotografias a preto e branco afixadas na parede ajudam a perceber que aquele é um ofício com história. Há mais de 50 anos que a família de André ganha a vida a afiar facas, tesouras e outras cutelarias. “Esta profissão já era exercida pelo meu avô”, diz, enquanto aponta para uma das imagens expostas no balcão lateral. “Depois passou para o meu pai e, entretanto, para mim e para o meu irmão”, acrescenta.

Começou a acompanhar a família ainda em criança, no tempo em que os amoladores circulavam pelas cidades em bicicleta, anunciando a sua chegada com uma gaita. Desse tempo, guarda muitas recordações. “Lembro-me de acompanhar o meu avô, que ia a vários sítios. Tenho memória de ir ao Mercado de Matosinhos, se não me engano. Era eu que ia buscar as facas às peixeiras e aos talhos para depois o meu avô as entregar já afiadas”, descreve.

À medida que foi crescendo, foi aprendendo o ofício, ensinado pelo pai. Não fez nenhuma formação na área, até porque esta é uma profissão que se aprende com a prática. “Comecei a trabalhar com 11 anos, mas no início estraguei muita coisa”, conta, soltando uma gargalhada. Trabalhou em part-time em diferentes áreas, como a construção civil, a distribuição, a contabilidade e a pastelaria, até se dedicar à amolação a tempo inteiro em 2015.

Durante a conversa vão surgindo clientes que são atendidos pela esposa de André, Susana Monteiro. Uns vêm buscar guarda-chuvas, prontos para continuarem a enfrentar as intempéries dos meses de Inverno, outros facas bem afiadas (preços entre 1€ e 3€). Há também quem se demore a apreciar a montra com diferentes tipos de facas e navalhas para venda – esta é, aliás, uma das novidades do negócio, implementada há cerca de um ano “para compensar os dias maus da amolação”, diz o artesão.

No centro da banca está a ferramenta de trabalho de André, um esmeril, uma estrutura de madeira com uma pedra muito dura em forma de roda, que gira continuamente para afiar as ferramentas que lhe chegam às mãos, sejam facas tesouras ou alicates. À semelhança de tudo o resto, também a máquina tem história. “Antigamente trabalhava-se com uma máquina diferente, que funcionava a pedal. Mais tarde, o meu avô construiu um esmeril com um motor de uma motorizada. Como fazia muito fumo e muito barulho, o meu pai decidiu inventar uma máquina diferente com a ajuda do meu tio serralheiro. E cá está ela, com 25 anos”.

O método continua a ser artesanal, porque apesar de o esmeril ser eléctrico, é a destreza de André que dita o resultado. Às suas mãos chegam as facas de restaurantes como a Churrasqueira Nova Era, no Bonfim, ou O Afonso, em Cedofeita, mas também de peixarias, talhos e de jardineiros da cidade. Afiar tesouras ou alicates e compor guarda-chuvas são outras das tarefas que preenchem o dia- -a-dia do artesão, que começa às 08.00 e termina às 18.00.

Questionado sobre o futuro da actividade, o jovem de 31 anos reconhece que se trata de uma profissão em vias de extinção, mas mostra-se confiante. “Hoje há muito o hábito de deitar fora e comprar novo, e isso acontece com tudo, mas felizmente tenho tido clientes”. “O facto de haver pouca gente que saiba fazer isto também é uma vantagem. Acho que tenho tido procura por causa disso”, confidencia.

André Fernandes é, possivelmente, o único amolador na cidade, embora haja outros espaços comerciais onde se afiam facas. E não sabe se o negócio vai passar para a quarta geração da família. “Eu gostava de ver a minha filha seguir também este rumo, mas será uma decisão dela”.

Por Bárbara Baltarejo

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Fátima Nunes, Vareira
©Marco Duarte

Vareira

Fátima Nunes, 63 anos

Começou a trabalhar com peixe aos 13 anos e, desde então, nunca mais o largou. Filha de mãe vareira, viúva de pescador e cria da Afurada, Fátima Nunes acorda às cinco e um quarto da manhã para ir vender peixe na zona de Gaia. Faça chuva ou faça sol, faça vento ou um frio de rachar. Ser vareira é isto: é amor à causa, é hábito, é instinto de sobrevivência. “Gosto muito daquilo que faço. Adoro vender peixe. Acho que me faz bem, em todos os sentidos”, diz. “Faz-me conviver com muitas pessoas, ajuda-me a ter a mente activa e dá-me muito jeito porque a pensão de viúva que recebo – 200 e poucos euros – não dá para me sustentar.”

Encontrámo-la na rua onde está há 35 anos, a mesma onde começou a vender na companhia da mãe. “O peixe anda fugido”, comenta uma freguesa, enquanto Fátima abre a pescada para lhe mostrar como é fresca, com a “manchinha preta na barriga”. Com uma tesoura e uma faca, limpa e ajeita o peixe, tão bem e tão rápido que podia fazer isto de olhos fechados. As suas mãos, levemente ensanguentadas e calejadas pelo manusear do peixe, contêm anos de sabedoria.

O primeiro trabalho de Fátima foi aos 13 anos, na fábrica de conservas Benito Garcia, em Gaia. Fazia um pouco de tudo. "A experiência que íamos ganhando era o curso que não havia". Quando a fábrica fechou, tinha 27 anos, dois filhos para criar e outro a caminho. Decidiu, então, "pegar na canastra" e ir vender com a mãe, que lhe ensinou muito daquilo que sabe hoje – incluindo fazer a rodilha, o pano entrelaçado que serve para equilibrar a canastra (também chamada de giga) com o peixe na cabeça, sem a ajuda das mãos (excepto quando está muito vento).

“A primeira vez que vendi foi petinga”, recorda. O marido era pescador de sardinha e Fátima chegou a vender peixe apanhado por ele, além daquele que ia buscar à lota da Afurada.

Hoje, aos 63 anos, pele rija e sorriso terno, conta como muita coisa mudou. “De há 15 anos para cá que se vende muito menos peixe. Começou a haver mais hipermercados e as pessoas vão lá fazer as compras no fim-de-semana. Aproveitam as promoções e guardam para o resto da semana.” Além das rotinas, os hábitos alimentares não são os mesmos. “Os jovens comem pouco peixe. Hoje há comidas que a gente nem conhece, e ainda bem.” A zona onde vende também foi mudando, com cada vez mais turismo e cada vez menos habitantes. “Eu antes subia e descia as ruas com a canastra, havia por aqui muitas ilhas. Saiu daqui muita gente”, observa, enquanto alguns turistas lhe tiram fotografias, sem pedirem autorização.

Apesar de tudo, continua a ter clientes assíduos: moradores antigos das redondezas e dois restaurantes. “Quem já me conhece vem comprar-me um quarteirão de sardinha e robalo do mar, não vai ao supermercado. Não é a mesma coisa. Se precisarem de um bom polvo para o Natal, ligam-me.”

A coisa mais difícil na sua profissão, a par da chuva, é a polícia. A venda ambulante de peixe não é permitida, portanto Fátima tem de estar sempre atenta a ver se a Polícia Municipal não aparece ao virar da esquina. Se isso acontecer, tem de esconder a canastra numa porta aberta (e amiga) que encontrar. “Eles estão a fazer o dever deles e eu estou a fazer o meu. Tenho de sobreviver. Eu vivo em função da giga. Eu como da giga.”

Nunca pensou em abrir uma peixaria nem quis uma banca no Mercado da Afurada. Prefere a liberdade da rua. “Gosto de estar aqui a vender, é onde me sinto bem.” De terça a sexta-feira levanta-se de madrugada, veste a saia e o avental típicos de vareira (ou varina) e vai comprar o peixe na lota de Matosinhos. Pelas 7.30 chega ao seu ponto de venda e volta a casa pelas 12.30, a pé. Tem “muito orgulho” no que faz. “Enquanto tiver energia, vou continuar com a canastra na cabeça. Mesmo depois da idade da reforma, se tiver forças.”

Faça chuva ou faça sol, Fátima Nunes vai continuar a carregar a história de uma profissão em vias de extinção que já vem do século XIX – sozinha, no seu dia-a-dia, mas também na Associação de Varinas da Afurada, juntamente com outras vareiras nortenhas que de vez em quando são convidadas para desfilar com os seus trajes e cantares tradicionais. Despede-se com um pregão à antiga, só para nós: “Ó meninas, vai-se vender sardinha na lota. Sardinha miúda. Quanto vale? O cabaz é cheio, o peixe é vivo e a sardinha é miudinha. Quanto vale?”.

Por Mariana Duarte

Luciano Thedim, Santeiro
©Marco Duarte

Santeiro

Luciano Thedim, 82 anos

Não foi pêra doce encontrar a oficina de Luciano Thedim. Pelo caminho perdemo-nos duas vezes nas ruas da Maia, mas a legião de santos que nos aguardava lá mexeu os cordelinhos divinos para que déssemos com a porta. Quando chegámos, Luciano estava à nossa espera, ansioso por partilhar o seu mester com quem o quisesse ouvir.

É num anexo, mesmo ao lado de casa, que o santeiro trabalha todos os dias, de segunda-feira a domingo, das 08.00 à meia-noite, e só abre uma excepção, de vez em quando, para ir à missa. Dentro do espaço, os olhos brilhantes das dezenas de figuras sacras, feitas em madeira, observam-nos do alto das prateleiras. Luciano adianta-se: “Primeiro é feita a maquete, também em madeira, mas em ponto mais pequeno, para se aperfeiçoar todos os detalhes. Só depois é que se faz a estátua e essa é sempre feita a partir de um único bloco de madeira”, explica. Depois de quase pronta, separa-se o rosto do resto do corpo “para se poderem colocar os olhos por dentro”.

A única peça pronta no ateliê é a de uma figura da Nossa Senhora de Fátima, que aguarda viagem em cima de uma mesa. Está avaliada em 3.500€ e quando sair daqui vai directa para a Coreia do Sul – um país que tem este santeiro em muito boa conta, dado o número de encomendas que recebe de lá.

Ao fundo da sala, encostada a um canto, está a mesa de trabalho, ocupada neste momento por uma estátua inacabada. É da mesma santa, é uma réplica da que está na Capelinha das Aparições, no Santuário de Fátima. O autor da original, feita em 1919, foi um irmão da sua mãe, José Ferreira Thedim. Na verdade, o primeiro santeiro da família foi o seu bisavô materno e o testemunho foi passando, de geração em geração, até chegar a Luciano e aos irmãos. Começou a trabalhar pouco tempo depois de fazer o exame da quarta classe. “Antigamente era assim, era preciso ter toda a gente a trabalhar, porque o dinheiro era pouco.” Na altura foram-lhe dadas duas opções: podia juntar-se ao pai e trabalhar como pedreiro ou ir para a oficina dos tios e tornar-se santeiro. Escolheu a última e começou por aprender a fazer pequenos detalhes, como as mãos dos santos, estrelas, borlas e açucenas.

Foi ganhando gosto pelo ofício e como os primos também trabalhavam na oficina, gostavam de “puxar uns pelos outros”. Faziam, muitas vezes, competições para ver quem é que conseguia fazer mais e as peças mais perfeitas. Ainda trabalhou à peça para outros santeiros, fez a tropa, mas quando regressou já não havia tanto trabalho na área, então, juntou-se aos primos que, entretanto, tinham aberto uma oficina.

É santeiro há quase 70 anos e a única pausa que fez neste ofício foi para trabalhar numa fábrica de ferro nas redondezas. “Ainda aguentei cinco anos, mas ao fim de três apareceu-me lá o reitor do Santuário de Fátima, o contabilista e o gerente.” Tinham ido convencê-lo a voltar ao activo e, nesse mesmo dia, encomendaram-lhe várias figuras. Tentou conjugar as duas profissões, mas percebeu que não conseguia fazer tudo e optou pelos santos em madeira.

Foi então que se lançou sozinho e criou equipa com outros artistas e pintores para dar resposta às encomendas. É que durante 15 anos as suas estátuas em madeira estiveram à venda, quase exclusivamente, no Santuário de Fátima. “Quando lá chegava tinha o prazer de dizer que já não tinham nenhuma imagem das minhas porque era tudo vendido.”

Agora, com 82 anos, trabalha sozinho nesta oficina e, há cerca de 10, é tudo feito por ele, excepto a pintura das peças, essa parte deixa para outros artistas. “A idade começou a aparecer e eu quis diminuir a quantidade de trabalho.” Apesar de já não produzir tantas peças como antigamente, gosta de manter o seu ritmo frenético. É o último santeiro da família Thedim, mas garante que enquanto conseguir vai continuar a esculpir os seus santos em madeira. Alguns, para ficarem mesmo perfeitos, demoram um ano a sair das suas mãos.

Por Margarida Ribeiro

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José Alfredo, Engraxador
©Marco Duarte

Engraxador

José Alfredo, 78 anos

Desde a sua abertura, em Setembro de 1996, numa das zonas comerciais mais antigas da cidade, muita coisa mudou no centro comercial ViaCatarina. Novas lojas abriram, outras tantas fecharam, um rooftop instalou-se no 14º piso do parque de estacionamento do edifício e a fachada serviu (e serve) de montra a uma série de obras de arte. A presença de José Alfredo de Oliveira neste cenário é que se manteve inalterada perante a passagem do tempo. Instalado na zona de restauração (agora junto à Olá e ao Ali Baba Kebab Haus), atende, há 23 anos, todos aqueles que procuram uma boa engraxadela para os seus sapatos. Pelo serviço que disponibiliza de segunda-feira a sábado, entre as 10.00 e as 16.30, José cobra 2€.

Mas são cada vez menos os clientes que aparecem. Há dias em que não tem nem um, o que torna tudo muito difícil, desabafa. Ainda assim, isso não o impede de continuar a apanhar, diariamente, o autocarro e o metro para ir trabalhar. Usa-os para percorrer a distância entre a sua casa, perto de Vila do Conde, e o shopping. À segunda-feira, então, o dia é particularmente “medonho” para o negócio, mas a tentativa de equilibrar o orçamento doméstico impele-o a continuar. “Eu sou reformado, mas a reforma é pequena”, atira. Depois de pagar a renda, a água, a luz e o gás, pouco ou nada lhe sobra. “Eu, com esta idade, já podia estar a descansar, mas a vida não permite. Tenho de sujeitar-me a isto”, conclui resignado.

Apesar do cansaço, José continua a gostar da profissão que iniciou há mais de meio século, ao longo da qual lhe passaram milhares de sapatos pelas mãos, demasiados para conseguir sequer apontar um número aproximado. “Gosto muito disto, da vida de engraxador, de engraxar ou de pintar o sapato. E faço sempre o melhor para servir o cliente”, para que ele fique satisfeito e volte – coisa rara, pois “já não há clientes fixos”.

Como causas da diminuição da procura aponta, por exemplo, a popularização das sapatilhas e de outros tipos de calçado, mas também a alteração das rotinas. Segundo José, perdeu-se o hábito de ir, simplesmente, engraxar os sapatos. Por estes dias, quem mais usufrui dos seus serviços são frequentadores mais velhos do centro comercial que, ao depararem-se com ele, aproveitam para engraxar o par que estão a usar.

Mas nem sempre foi assim. Houve épocas menos difíceis e fartura de clientes. Esteve na Rua Sá da Bandeira, na Rua do Loureiro, na do Bonjardim, na Batalha, no antigo Café Imperial e no Café Embaixador. Na altura, trabalhava através das chamadas engraxadorias colectivas ou em parceria com os cafés, e uma percentagem do dinheiro que ganhava ficava para o patrão. Com o passar dos anos, os engraxadores que marcavam a paisagem urbana da cidade começaram a desaparecer. Que José saiba, além dele resta apenas mais um que, de vez em quando, está na Praça da Liberdade, “mas é muito raro, porque também é uma pessoa doente”.

Ao ViaCatarina, este último resistente chegou através de um amigo, que ao saber da abertura do espaço e da necessidade de um engraxador lhe perguntou se estava interessado. José foi tentar a sua sorte e por lá ficou até hoje, abrigado da chuva impiedosa do Inverno e do sol tórrido do Verão. A estadia é para continuar. “Enquanto Deus me der saúde, vou ficar por aqui”.

Por Patrícia Santos

As profissões que já não existem

Já não andam pelas ruas a entoar os seus pregões, mas deixaram um legado difícil de esquecer. Hoje, são relembrados com estátuas e homenagens e vivem na memória de quem ainda deles se lembra.

Ardinas
©Cortesia Porto Editora

Ardina

Entre as figuras mais populares de outrora, encontram-se os ardinas, que de boina na cabeça, fato de cotim (um tecido forte de algodão ou linho) e alparcatas nos pés, andavam pelas ruas a vender diários, entoando pregões para atrair clientes, segundo relata Germano Silva em Porto, Profissões (quase) desaparecidas. Esta “ideia de se andar a vender o jornal nas ruas da cidade foi posta em prática pela primeira vez, no Porto, por Gaspar Ferreira Baltar, fundador d’ O Primeiro de Janeiro, por volta de 1870”, com o objectivo de atrair mais público. Se até então os interessados compravam os diários nas redacções ou nas tipografias, a partir daí tornou-se comum ver os ardinas com a sacola de jornais ao ombro, a percorrer, de forma ligeira, as diferentes artérias portuenses. Com o aparecimento da publicidade e da criação de revistas e suplementos, os jornais tornaram-se mais pesados, portanto, surgiram as bancas, geralmente instaladas à porta dos cafés mais concorridos. A sentença de morte da profissão viria com “a proliferação de quiosques pela cidade a partir dos anos 60 do século passado”. Para a eternidade sobram os retratos, as pinturas, as canções, os filmes e as revistas de teatro que os ardinas inspiraram, assim como a estátua do escultor Manuel Dias, instalada na praça da Liberdade, que representa esta figura e que todos os dias atrai a atenção de turistas e portuenses.

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Polícia Sinaleiro
©Cortesia Porto Editora

Policia Sinaleiro

Antes de haver semáforos em cada esquina, o trânsito era controlado pelos polícias sinaleiros, mais conhecidos como “cabeças de giz”, devido aos capacetes brancos que usavam. Surgiram em meados dos anos 1920, inseridos na Secção de Trânsito da PSP, e podiam ser encontrados nas zonas mais movimentadas da cidade como, por exemplo, o cruzamento da Rua de Passos Manuel com a Rua Sá da Bandeira e a Praça D. João I. Havia dois tipos de sinaleiros: os que cumpriam apenas a função de regularização do trânsito, com os gestos necessários para orientar os automóveis, e os que tinham uma postura exuberante, com apitos, gestos e palavras de ânimo para os automobilistas. Eram de tal modo populares que se formavam verdadeiros aglomerados de gente que parava para assistir ao “espectáculo”. Em 1934, o Automóvel Clube de Portugal começou a organizar o Natal do Sinaleiro, uma homenagem a estes profissionais que se traduzia na oferta de prendas por parte da população. Com a mecanização do trânsito, os sinaleiros foram desaparecendo. Primeiro, estavam junto aos semáforos a dar à manivela para mudar as cores, mas, posteriormente, viriam a ser completamente dispensados.

Carquejeiras
©Cortesia Porto Editora

Carquejeiras

Percorriam quilómetros a pé com 30 a 50 quilos às costas, muitas vezes esfomeadas, grávidas, com os filhos ao colo ou com eles agarrados às suas saias. Mulheres pobres, mulheres de ferro, lutadoras porque assim tinham de ser, as carquejeiras eram quem transportava, da beira-rio até zonas como o Carvalhido, Paranhos, Boavista ou Antas, os molhos de carqueja que serviam como acendalha para os fornos das padarias e das lareiras das casas burguesas, desde os finais do século XIX até meados do século XX. Um dos pontos mais duros do percurso era a rampa da Corticeira, hoje Calçada das Carquejeiras, que ligava os Guindais às Fontainhas – íngreme, com uma inclinação de 22%, apelidavam-na de “via dolorosa”. Por este trabalho, que era essencial para alimentar a indústria panificadora da cidade, as carquejeiras recebiam uma verdadeira miséria. A última carquejeira do Porto, Palmira de Sousa, faleceu em 2004. Se há mulheres que merecem uma estátua em sua homenagem, são elas. E vão tê-la, nas Fontainhas: a inauguração será este ano.

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Apanhadeira de Malhas
©DR

Apanhadeira de malhas

A fibra de nylon, que começou a aparecer a partir de 1935, foi um dos materiais utilizados durante a Segunda Guerra Mundial para fazer tendas e roupas para o exército. Com o fim do conflito, esta matéria-prima ficou disponível para outros usos como, por exemplo, as meias de vidro. Apresentadas ao público na Feira Internacional de Nova Iorque de 1938, a sua produção aumentou depois de 1945. No entanto, “não era um produto barato. E, por isso, quando uma malha fugia, ou caía, mandava-se apanhar a malha”, explica Germano Silva. Esta era uma profissão exercida por mulheres, que geralmente trabalhavam em casa, à janela, com a ajuda de uma agulha e de um ovo para esticar a meia. Mais tarde surgiram pequenas máquinas que substituíram o trabalho manual. Mas, com o desenvolvimento da indústria, o preço das meias desceu e, por isso, ficava mais barato comprar um par novo do que mandar apanhar uma malha.

Vendedor de Gravatas
DR

Vendedor de gravatas

Eram os vendedores ambulantes mais discretos e, claro, os mais bem vestidos da cidade. Transportavam as gravatas coloridas num pau comprido que traziam sempre pendurado ao pescoço com uma correia de couro. Quase todas as gravatas eram feitas na Rua do Sol ou lá perto, em ateliês de cidadãos chineses. Também vendiam acessórios como botões de punho e alfinetes para gravata – um dos mais populares era o emblema do F.C.P. Tinham também uma espécie de código de conduta: todos sabiam que não podiam vender as suas gravatas na Rua 31 de Janeiro, na Rua Sá da Bandeira ou em qualquer outra onde existissem casas que também vendessem gravatas. Era comum encontrá-los nos cafés e na Estação de São Bento, onde esperavam, estrategicamente, junto às portas de saída dos comboios. Não tinham horários fixos e, muitas vezes, trabalhavam noite dentro. Era nessas horas que iam para a porta dos cinemas e do Teatro Sá da Bandeira.

A saber

Capim Dourado
© DR
Restaurantes

Restaurantes que agora funcionam com takeaway ou entregam em casa

Depois do fecho das portas dos teatros e museus municipais e do cancelamento de eventos que estavam marcados para os próximos tempos no Porto, os restaurantes começaram também a encerrar temporariamente ao público, de forma a combater a propagação do surto de Covid-19. Mas isso não significa que não possa devorar os pratos do Época, do bbGourmet ou do Capim Dourado em casa. Nesta lista encontra restaurantes que fecharam temporariamente mas funcionam com takeaway e entregas ao domicílio, para que possa continuar a conhecer o que de melhor se faz na cidade no conforto da sua casa. Recomendado: Os melhores takeaways no Porto

Zero Plástico
© Marco Duarte
Coisas para fazer

Sete projectos e movimentos no Porto que ajudam o planeta

Os recursos naturais que a Terra é capaz de renovar em 2019 já se esgotaram. Numa altura em que o mundo sai à rua para gritar por maior acção dos governos e das instituições em defesa do planeta, torna-se cada vez mais urgente a mudança de hábitos e de atitudes de cada um de nós. No Porto há muita gente empreendedora que decidiu pôr mãos à obra e criar projectos e movimentos para ajudar a cuidar da nossa maior casa. Passe os olhos por esta lista para ficar a conhecê-los melhor e inspire-se neles para começar a fazer a diferença. Recomendado: Nove sítios para comprar cosmética vegan

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Seinfeld dvd cover art
Photograph: Sony Pictures
Filmes

As 25 melhores séries de comédia

As listas, como quase tudo nesta vida, são relativas. Mas depois de enchermos uma espécie de conselho de administração com loucos de séries televisivas e outros consultores da redacção da Time Out, chegámos a estas 25. Portanto, se vai começar a disparar insultos e a pedir justificações para as suas séries de comédia preferidas não estarem aqui avisamos já que não vai ter sucesso. Podiam ser outras, mas são estas. E pedimos desculpa às que ficaram de fora. Mais um alerta à tripulação: estas séries de comédia estão ordenadas apenas por ordem alfabética, que não queremos alimentar ainda mais a polémica. Ria-se connosco.  Recomendado: Séries a não perder este mês

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