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Rui Ferreira, director-geral do Sea Life Porto
© João Saramago Rui Ferreira, director-geral do Sea Life Porto

Rui Ferreira: “Sinto vergonha ao ver crianças desesperadas por acharem que não vão ter um planeta”

Foi a primeira instituição do país com pegada de carbono positiva, e esteve à conversa connosco sobre as alterações climáticas e as ameaças à vida marinha

Por Bárbara Baltarejo
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Em 2019, o Sea Life Porto recebeu vários prémios, concluiu o projecto de expansão do espaço para assinalar o 10º aniversário e tornou-se a primeira organização nacional a atingir uma pegada de carbono positiva. Que retrospectiva faz deste ano?

Sem dúvida, este é o melhor ano para fazer esta entrevista. Consciencializar quem nos visita, para a protecção dos oceanos e para o tema do ambiente, faz parte do nosso ADN; está presente desde o primeiro dia mas, à medida que fomos evoluindo, começámos também a ter uma responsabilidade maior. Isso fez com que assumíssemos um posicionamento mais orientado para o problema da emergência climática, mostrando a relação directa que tem com os oceanos. Os oceanos são o elemento refrigerador do planeta Terra, portanto, todo o impacto que possa ter no aquecimento global vai criar pressão nas águas, vai criar perda de oxigénio, aumento da acidez, e pôr em causa a vida selvagem. Nós quisemos celebrar o 10º aniversário com acções mais ambientais e de retorno para a comunidade. Em Junho, além de inaugurarmos o novo espaço exterior e de trazermos uma nova espécie, os pinguins, planeámos bater um recorde e fazer a maior limpeza de praia do Porto.

E como é que o Sea Life Porto chegou à pegada de carbono positiva?

Foi um acontecimento natural. Não fazia parte de um plano de celebração de dez anos. Surgiu porque enquanto nos debruçávamos mais sobre a problemática do ambiente, chegámos ao programa da ONU que solicitou, no Acordo de Paris, a contribuição de todas as organizações para, até 2050, chegar a uma pegada de carbono neutra. Nós vimos o que estava ao nosso alcance e percebemos que não precisávamos de tanto tempo.

Que mudanças tiveram de pôr em prática?

O projecto passou por três etapas: medir, reduzir e compensar. Primeiro, medimos todo o impacto da nossa pegada, provocado pelos nossos colaboradores, visitantes, parceiros… A seguir, passámos para o processo de redução e diminuição. Investimos em energia solar e solicitámos energia verde, vinda de meios renováveis. Também foram revistos comportamentos ao detalhe para retirar o máximo proveito da eficiência energética dos nossos equipamentos e substituímos as lâmpadas de halogéneo por LED. A sensibilização de toda a equipa também foi uma aposta. Incentivámos os nossos colaboradores a vir de bicicleta ou em outro dispositivo eléctrico. Depois de tudo isto, fizemos a certificação com um técnico e vimos que percentagem de energia poderíamos compensar. Através de um programa da ONU comprámos certificados verdes. Estes permitem contribuir para um fundo financeiro, certificado e validado pela ONU, que patrocina projectos, por exemplo, em África e na Índia, de compensação de carbono (como plantação de florestas, projectos de limpezas, redução de emissões em unidades industriais que precisam de apoio, entre outras). Não quisemos ser apenas neutros e optámos por ser positivos, compensando uma parte das nossas emissões. Desta forma, o nosso impacto no ecossistema acaba por ser positivo. A separação de lixo que fazemos dentro do nosso espaço e que vai para a reciclagem também contribuiu.

O Sea Life Porto é a primeira organização a nível nacional a conseguir este feito. Ser um exemplo era um objectivo?

É um sentimento agridoce. Quando começámos a debruçar-nos mais a fundo nesta questão, não pensámos: ‘vamos ser os primeiros a fazer’, mas quando terminámos não encontrámos registo de mais nenhuma entidade com pegada de carbono positiva. É bom sentir que fizemos uma coisa importante e saber que fomos os primeiros. Deixa-me satisfeito saber que estamos no caminho certo, porque agora podemos partilhar as práticas que aplicamos. Mas, obviamente, também nos faz pensar que não é uma coisa assim tão difícil, tão impossível, principalmente porque o programa da ONU permite encontrar um equilíbrio. Ficámos muito orgulhosos mas, ao mesmo tempo, achamos que ainda há muito por fazer aqui no Porto.

A defesa da vida marinha é também uma aposta do Sea Life?

Sim. Promovemos a reprodução em cativeiro para não haver necessidade de captura em vida selvagem. Alguns animais são mantidos em exposição nos nossos espaços, mas outros são libertados em vida selvagem, como acontece no santuário para focas na Bélgica, por exemplo. As entidades que nos fornecem peixes e outros animais também respondem a uma ética de responsabilidade de máximo rigor, que vai além da ética exigida pelas entidades oficiais. Só assim garantimos que todos os procedimentos de bem-estar animal são cumpridos e que é respeitado o ecossistema. Dou-lhe um exemplo: há pouco tempo apoiámos o programa do doutoramento do investigador Ricardo Calado, que desenvolvia uma forma de analisar resíduos de cianeto nos peixes que são vendidos nas lojas de aquariofilia. A presença desse resíduo mostra que o método de captura é tóxico, porque adormece o peixe para tornar a captura mais fácil, e essa substância queima os corais. Falamos de espécies como o peixe palhaço, na zona do Pacífico, onde é permitida a sua captura. Se não forem respeitadas as regras, pode danificar-se o ecossistema e alguns peixes expostos ao cianeto podem não sobreviver. No Verão também colocámos mais de mil cinzeiros em todas as praias do distrito do Porto porque, como sabemos, as beatas são um dos maiores problemas de poluição do mar; e tivemos tendas nas praias para difundir a mensagem para a protecção dos oceanos.

Há pessoas que não vêem com bons olhos os animais em cativeiro...

Se antes os aquários serviam apenas para que as pessoas pudessem ver ao vivo criaturas fascinantes, como a tartaruga verde ou o tubarão de pontas negras, que nunca poderiam ver no dia-a-dia, hoje isto ganha uma importância maior, tendo em conta as ameaças da vida marinha… Infelizmente, os animais acabam por estar mais seguros e bem tratados em cativeiro do que na vida natural. Isto se calhar não acontecia há 20 anos, mas acontece hoje. Estes espaços não são a causa da ameaça das espécies da vida selvagem. Nós, aliás, fomentamos a vida selvagem e promovemos a reprodução de animais. Neste momento, a vida selvagem está exposta a muitos factores externos que a põem em risco. Espaços como o Sea Life Porto ajudam a que as pessoas percebam o que podem perder se não mudarem os comportamentos. No entanto, há diversos animais que nós concordamos que não devem ser mantidos em cativeiro e não os temos, como é o caso das baleias ou dos golfinhos e, por isso, a fundação Sea Life Trust cria projectos como o santuário para as baleias-beluga na Islândia. O Sea Life comprou um oceanário num país asiático que tinha essa espécie. Aquelas baleias não estavam em condições para serem libertadas no seu habitat natural, habituaram-se a viver em cativeiro, não tinham os seus mecanismos para poder viver em vida selvagem, por isso, criou-se um santuário onde essas baleias foram libertadas. Achamos que o respeito pela vida animal pode ser feito de diferentes formas e temos de aceitar todos os pontos de vista. 

O que podem os portuenses esperar dos próximos dez anos?

No início do próximo ano vamos promover uma nova actividade temporária para quem visitar o Sea Life Porto. Como todas as crianças gostam de brincar aos super-heróis, vamos criar uma experiência interactiva, onde todos poderão aprender mais sobre os superpoderes de cinco criaturas marinhas muito especiais e testarem a suas habilidades através de jogos e desafios interactivos.

Quantos visitantes é que o Sea Life recebe por ano?

A média anual é superior a 200 mil e nestes dez anos já recebemos dois milhões e meio de visitantes. É muito bom. Claro que também houve momentos difíceis. Portugal esteve exposto a uma crise económica muito forte e isso teve os seus impactos. Perdemos alguma capacidade de investimento durante esse período devido ao aumento da carga fiscal – passámos a pagar um IVA de 23% em vez do IVA de 6% – e isso deixou-nos em desvantagem, porque existem outras actividades em Portugal que não têm o carácter educativo que nós temos e que, no entanto, pagam o IVA bastante mais reduzido.

Refere-se às touradas…

Sim, mas isso seria outra conversa… Apenas lamentamos e achamos que é errado. Ainda em relação a este ano, estamos muito contentes, mas achamos que isto é um processo de melhoria contínua.

O que é que podemos fazer para contrariar a degradação do planeta?

Há um poder que está ao alcance de todos e de que precisamos de começar a ter consciência: somos consumidores e temos que olhar para as marcas e para os produtos que consumimos e perceber se eles são sustentáveis. Também podemos exigir mais dos nossos políticos. A problemática ambiental tem de fazer parte da agenda política, não é um assunto para ser falado esporadicamente ou só quando acontece uma tragédia ambiental. Desafio também todas as pessoas com alguma capacidade de influência a adoptarem uma atitude cooperativa mais responsável e mais sustentável. Acredito que a atitude desta nova geração é bem firme. Lembro-me que no meu tempo, e eu já tenho 40 anos, as greves à escola eram muito fúteis. Hoje sinto vergonha ao ver crianças de 14 anos desesperadas por acharem que não vão ter um planeta para viver e acho que temos todos de fazer alguma coisa para inverter isso. A situação pode ser ainda mais dramática do que as pessoas imaginam.

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