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Benjamim
Fotografia de Vera MarmeloBenjamim

Entrevista a Benjamim: “Nós, músicos, temos que inventar o futuro”

Benjamim pousou as guitarras, perdeu os pudores e apaixonou-se por um sintetizador. Tem um disco novo nas mãos, muita vontade de o mostrar ao vivo e vários projectos no horizonte. Falámos com ele antes do concerto no Porto, no dia 30 de Outubro.

Escrito por
Ana Patrícia Silva
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O novo disco de Benjamim começou com um sintetizador. Foi a brincar com um velhinho Roland Jupiter-6, com uma caixa de ritmos e um gravador de quatro pistas que encontrou a liberdade que precisava. Depois, inundou-o com a solidão, as loucuras da noite e o calor da sua banda.

Vias de Extinção lembra os tempos que já não existem e as coisas que já não podemos fazer, mas que aos poucos tentamos reconquistar. Como os concertos. Para ouvir este disco como deve ser – ao vivo e com todas as cores – apanhem-no no Teatro Maria Matos, em Lisboa (26 e 27 de Outubro), no Teatro Sá da Bandeira, no Porto (nova data: 30 de Outubro), no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra (6 de Novembro), ou no Centro de Artes de Águeda (5 de Dezembro).
 
Foi um sintetizador que ditou o tom deste disco. O que te atraiu nele?
É um instrumento muito especial, extremamente expressivo, um clássico dos anos 80. Inspirou-me muito, tanto na construção tímbrica, como na construção melódica e harmónica do disco. Eu estava a tocar em casa sozinho e já me estava imaginar ao vivo a poder tocar estas canções. Para mim, isso foi bastante mágico. Durante um bom período de tempo, o disco existiu numa caixa de ritmos e em dois sintetizadores, foi assim que comecei a construir a música, um processo um bocado arcaico. Mas isso também fez com que o processo se tornasse mais humano.
 
“Humano” não é uma palavra que muitos associem à electrónica.
Mas acho que é um disco bastante humano, não é aquela ideia de música electrónica mais matemática ou mecanizada. Os timbres, apesar de serem electrónicos, são moldados para uma ideia que na sua essência é humana, são canções sobre temas da vida comum, do quotidiano.
 
Compor com sintetizadores libertou-te?
Sim. Desde o início que comecei a querer tocar muitos instrumentos de uma só vez. Tenho crises de identidade em relação aos instrumentos, à minha música, ao meu papel na música. Como trabalho como produtor, às vezes torna-se difícil eu próprio me definir. Mas a verdade é que o piano é a pedra basilar daquilo que é a minha identidade musical. Foi o único instrumento que estudei seriamente, é com ele que tenho uma relação mais próxima. A partir do momento em que percebi que era viável ir para a estrada com os teclados, isso foi libertador. Deixei a guitarra de lado e agarrei nos teclados que ando a colecionar. Sempre fui fascinado por teclados. Tive a sorte de uma novela ter agarrado numa canção minha há uns anos e todo o dinheiro que eu recebi disso foi para comprar um piano. Ando a escrever coisas muito diferentes ao piano, sinto que estou a crescer enquanto músico e isso também é importante, sentir que não estou preso às coisas que fiz.
 
Cresceste com o som dos sintetizadores? Eras um gajo da electrónica ou nem por isso?
Inicialmente não, mas tento libertar-me dos meus preconceitos. Quando tinha 16-17 anos, era preconceituoso em relação à música. Ouvia rock, ouvia Bob Dylan, The Doors, Neil Young, aquilo que era “música a sério”. Achava que Daft Punk não era música a sério, mas isso mudou. Hoje todos os estilos de música me fascinam. Adoro dançar, gosto de sair à noite. A música electrónica faz parte do meu ADN, da minha cultura.
 
Como foi conjugar a raiz electrónica do disco com o som mais orgânico da banda?
Foi um processo mesmo fixe. Este disco deu-me mesmo imenso gozo fazer, sinto que também deu muito prazer à minha banda. Tenho uma banda do caraças, têm um talento monumental, por isso quis perceber como é que podia envolvê-los de maneira assertiva. Esse processo foi um pouco longo – testámos as canções em alguns concertos, ensaiámos e com o input deles as canções começaram a ganhar músculo, tornaram-se muito sólidas.
 
Como produtor do teu próprio disco, receias não conseguir distanciar-te o suficiente?
Sim, a toda a hora (risos). Há momentos em que eu percebo o quanto me faz falta ter alguém a ajudar-me, mas neste disco senti isso de uma maneira muito mais intensa. Quando estava a finalizar e gravar as vozes, foi quando entrou a quarentena, acabei por ficar completamente sozinho no estúdio. Isso foi muito complicado, não ter ninguém com quem partilhar as dúvidas. O disco que me deu imenso prazer a fazer, deu-me imensa angústia a acabar. É sempre complicado perceber se as minhas músicas são boas ou uma merda, a minha banda é também o meu filtro.
 
O que aprendeste sobre ti próprio enquanto estiveste isolado?
Eu vivi sozinho durante bastante tempo, a experiência de estar sozinho não é propriamente nova. O confinamento passei-o mais aqui com a minha avó. Ela mora no mesmo prédio que eu, vinha à hora do almoço, via o Joker na RTP e depois ia para casa dormir.
 
Isso é lindo.
Sim, mas ao mesmo tempo foi complicado, porque para fazer um disco destes tens que sentir o ambiente da coisa. No início da quarentena, a música tornou-se completamente irrelevante para mim, aquilo que eu estava a fazer era a coisa menos importante do mundo. Aliás, houve um período em que achei que não fazia sentido nenhum estar a fazer este disco. O que me motivou foi o instinto de sobrevivência. Porque de repente tinha a minha banda a duvidar se podia continuar a viver da música. Nessa altura não fazíamos ideia de quando é que íamos pisar um palco, foram dias mesmo assustadores. Mas tinha que pensar na sobrevivência da minha equipa. Como é que posso salvaguardar o meu futuro? Trabalhando, acabando as coisas que tenho para acabar. E tive muita sorte, porque a Sony assinou o meu contrato discográfico em plena pandemia.
 
Como é que encaras o futuro?
Eu estou sempre a pensar para além do horizonte. Tenho cuidado e estou consciente das limitações, mas de resto não penso na pandemia, não deixo que isso escravize a minha vida, os meus sonhos, as minhas ambições. Estou a gravar música nova, estou a ensaiar com a minha banda, estou a pensar em concertos novos, em remixes (o Rui Maia está a fazer uma muito fixe), tenho um disco perdido que nunca lancei – um disco de música electrónica muito mais instrumental, estou a ver o que é preciso acabar. Nós, músicos, somos inventores, nós temos que inventar o futuro, estamos sempre a inventar o futuro. Quero fazer colaborações, quero produzir mais discos, quero pensar em chutar a bola para a frente, não vou ficar deprimido nem vou ficar preocupado.

© DR

  • 4/5 estrelas

Os discos são documentos do seu tempo e este foi composto antes de o mundo desabar com uma pandemia. É muito vivido à noite, na boémia lisboeta, num tempo que já não existe, em que as pessoas dançavam e suavam juntas. Benjamim canta as memórias de uma vida desregrada e ressacada, da procura de um sentido, da consciência da mortalidade no meio de uma crise dos 30. Mais confortável a se exprimir, explora mais a voz, derrama e derrete vulnerabilidade. Ilumina a solidão com os néons dos sintetizadores. Como músico, produtor e compositor, Benjamim não tem interesse nenhum em repetir-se. E a sua música, pulsante de vida, ganha com isso. A partir de um sintetizador Roland Jupiter-6, explorou um universo mais electrónico na pop analógica, abraçando-o com o calor humano da sua banda. Vias de Extinção é um álbum com um coração grande. Cresce, desabrocha e dança numa catarse cósmica. Com canções caleidoscópicas, cheias de cores, memórias e pessoas, é um disco de quem ama a música sem preconceitos.

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