Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Porto icon-chevron-right Entrevista a Benjamim: “Nós, músicos, temos que inventar o futuro”
Benjamim
Fotografia de Vera Marmelo Benjamim

Entrevista a Benjamim: “Nós, músicos, temos que inventar o futuro”

Benjamim pousou as guitarras, perdeu os pudores e apaixonou-se por um sintetizador. Tem um disco novo nas mãos, muita vontade de o mostrar ao vivo e vários projectos no horizonte. Falámos com ele antes do concerto no Porto, no dia 30 de Outubro.

Por Ana Patrícia Silva
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O novo disco de Benjamim começou com um sintetizador. Foi a brincar com um velhinho Roland Jupiter-6, com uma caixa de ritmos e um gravador de quatro pistas que encontrou a liberdade que precisava. Depois, inundou-o com a solidão, as loucuras da noite e o calor da sua banda.

Vias de Extinção lembra os tempos que já não existem e as coisas que já não podemos fazer, mas que aos poucos tentamos reconquistar. Como os concertos. Para ouvir este disco como deve ser – ao vivo e com todas as cores – apanhem-no no Teatro Maria Matos, em Lisboa (26 e 27 de Outubro), no Teatro Sá da Bandeira, no Porto (nova data: 30 de Outubro), no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra (6 de Novembro), ou no Centro de Artes de Águeda (5 de Dezembro).
 
Foi um sintetizador que ditou o tom deste disco. O que te atraiu nele?
É um instrumento muito especial, extremamente expressivo, um clássico dos anos 80. Inspirou-me muito, tanto na construção tímbrica, como na construção melódica e harmónica do disco. Eu estava a tocar em casa sozinho e já me estava imaginar ao vivo a poder tocar estas canções. Para mim, isso foi bastante mágico. Durante um bom período de tempo, o disco existiu numa caixa de ritmos e em dois sintetizadores, foi assim que comecei a construir a música, um processo um bocado arcaico. Mas isso também fez com que o processo se tornasse mais humano.
 
“Humano” não é uma palavra que muitos associem à electrónica.
Mas acho que é um disco bastante humano, não é aquela ideia de música electrónica mais matemática ou mecanizada. Os timbres, apesar de serem electrónicos, são moldados para uma ideia que na sua essência é humana, são canções sobre temas da vida comum, do quotidiano.
 
Compor com sintetizadores libertou-te?
Sim. Desde o início que comecei a querer tocar muitos instrumentos de uma só vez. Tenho crises de identidade em relação aos instrumentos, à minha música, ao meu papel na música. Como trabalho como produtor, às vezes torna-se difícil eu próprio me definir. Mas a verdade é que o piano é a pedra basilar daquilo que é a minha identidade musical. Foi o único instrumento que estudei seriamente, é com ele que tenho uma relação mais próxima. A partir do momento em que percebi que era viável ir para a estrada com os teclados, isso foi libertador. Deixei a guitarra de lado e agarrei nos teclados que ando a colecionar. Sempre fui fascinado por teclados. Tive a sorte de uma novela ter agarrado numa canção minha há uns anos e todo o dinheiro que eu recebi disso foi para comprar um piano. Ando a escrever coisas muito diferentes ao piano, sinto que estou a crescer enquanto músico e isso também é importante, sentir que não estou preso às coisas que fiz.
 
Cresceste com o som dos sintetizadores? Eras um gajo da electrónica ou nem por isso?
Inicialmente não, mas tento libertar-me dos meus preconceitos. Quando tinha 16-17 anos, era preconceituoso em relação à música. Ouvia rock, ouvia Bob Dylan, The Doors, Neil Young, aquilo que era “música a sério”. Achava que Daft Punk não era música a sério, mas isso mudou. Hoje todos os estilos de música me fascinam. Adoro dançar, gosto de sair à noite. A música electrónica faz parte do meu ADN, da minha cultura.
 
Como foi conjugar a raiz electrónica do disco com o som mais orgânico da banda?
Foi um processo mesmo fixe. Este disco deu-me mesmo imenso gozo fazer, sinto que também deu muito prazer à minha banda. Tenho uma banda do caraças, têm um talento monumental, por isso quis perceber como é que podia envolvê-los de maneira assertiva. Esse processo foi um pouco longo – testámos as canções em alguns concertos, ensaiámos e com o input deles as canções começaram a ganhar músculo, tornaram-se muito sólidas.
 
Como produtor do teu próprio disco, receias não conseguir distanciar-te o suficiente?
Sim, a toda a hora (risos). Há momentos em que eu percebo o quanto me faz falta ter alguém a ajudar-me, mas neste disco senti isso de uma maneira muito mais intensa. Quando estava a finalizar e gravar as vozes, foi quando entrou a quarentena, acabei por ficar completamente sozinho no estúdio. Isso foi muito complicado, não ter ninguém com quem partilhar as dúvidas. O disco que me deu imenso prazer a fazer, deu-me imensa angústia a acabar. É sempre complicado perceber se as minhas músicas são boas ou uma merda, a minha banda é também o meu filtro.
 
O que aprendeste sobre ti próprio enquanto estiveste isolado?
Eu vivi sozinho durante bastante tempo, a experiência de estar sozinho não é propriamente nova. O confinamento passei-o mais aqui com a minha avó. Ela mora no mesmo prédio que eu, vinha à hora do almoço, via o Joker na RTP e depois ia para casa dormir.
 
Isso é lindo.
Sim, mas ao mesmo tempo foi complicado, porque para fazer um disco destes tens que sentir o ambiente da coisa. No início da quarentena, a música tornou-se completamente irrelevante para mim, aquilo que eu estava a fazer era a coisa menos importante do mundo. Aliás, houve um período em que achei que não fazia sentido nenhum estar a fazer este disco. O que me motivou foi o instinto de sobrevivência. Porque de repente tinha a minha banda a duvidar se podia continuar a viver da música. Nessa altura não fazíamos ideia de quando é que íamos pisar um palco, foram dias mesmo assustadores. Mas tinha que pensar na sobrevivência da minha equipa. Como é que posso salvaguardar o meu futuro? Trabalhando, acabando as coisas que tenho para acabar. E tive muita sorte, porque a Sony assinou o meu contrato discográfico em plena pandemia.
 
Como é que encaras o futuro?
Eu estou sempre a pensar para além do horizonte. Tenho cuidado e estou consciente das limitações, mas de resto não penso na pandemia, não deixo que isso escravize a minha vida, os meus sonhos, as minhas ambições. Estou a gravar música nova, estou a ensaiar com a minha banda, estou a pensar em concertos novos, em remixes (o Rui Maia está a fazer uma muito fixe), tenho um disco perdido que nunca lancei – um disco de música electrónica muito mais instrumental, estou a ver o que é preciso acabar. Nós, músicos, somos inventores, nós temos que inventar o futuro, estamos sempre a inventar o futuro. Quero fazer colaborações, quero produzir mais discos, quero pensar em chutar a bola para a frente, não vou ficar deprimido nem vou ficar preocupado.

capa Benjamim - Vias de Extinção
capa Benjamim - Vias de Extinção
© DR

4 /5 estrelas

Os discos são documentos do seu tempo e este foi composto antes de o mundo desabar com uma pandemia. É muito vivido à noite, na boémia lisboeta, num tempo que já não existe, em que as pessoas dançavam e suavam juntas. Benjamim canta as memórias de uma vida desregrada e ressacada, da procura de um sentido, da consciência da mortalidade no meio de uma crise dos 30. Mais confortável a se exprimir, explora mais a voz, derrama e derrete vulnerabilidade. Ilumina a solidão com os néons dos sintetizadores. Como músico, produtor e compositor, Benjamim não tem interesse nenhum em repetir-se. E a sua música, pulsante de vida, ganha com isso. A partir de um sintetizador Roland Jupiter-6, explorou um universo mais electrónico na pop analógica, abraçando-o com o calor humano da sua banda. Vias de Extinção é um álbum com um coração grande. Cresce, desabrocha e dança numa catarse cósmica. Com canções caleidoscópicas, cheias de cores, memórias e pessoas, é um disco de quem ama a música sem preconceitos.

Mais entrevistas:

Selma Uamusse
© Luis S. Tavares

Entrevista a Selma Uamusse

Música

Ela ilumina. Lembra a magia de uma canção, de fazer acreditar num mundo melhor, com mais amor. Selma Uamusse lançou em Julho passado o seu segundo registo em nome próprio, Liwoningo, que significa luz em chope, uma língua tradicional de Moçambique, o seu país natal. É um disco que acentua o património imaterial africano, mas que se mistura no mundo. 

 

O teu novo disco é um raio de luz. Onde é que encontras essa luz e esperança nesta altura?

Na realidade, este raio de luz que é o Liwoningo tem esta intenção já há algum tempo. Quando comecei a compor o disco, estava longe de imaginar que iríamos passar por uma pandemia e que viveríamos estes tempos tão estranhos, tão cinzentos. Mas para mim já era, de alguma forma, um pouco sintomático o modo como nós nos andávamos a tratar uns aos outros e ao planeta. Eu sou uma pessoa que me nutro muito da esperança e da alegria, mas em 2018, quando comecei a trabalhar neste disco, percebi e comecei a sentir que, apesar do avanço tecnológico, das grandes economias, do aumento do poder de compra, do aumento da esperança média de vida, da medicina avançada, havia também sintomas antagónicos e que neste desenvolvimento todo continuávamos a ter situações de guerra, de fome extrema, de preconceito, de ressurgimento de movimentos extremistas. E então senti uma necessidade de falar sobre sermos luz na vida uns dos outros, de não estarmos indiferentes às situações pelas quais os outros estão a passar, como os distúrbios mentais, que são também um assunto mito na ordem do nosso dia. Essa luz e essa esperança eu encontro obviamente na minha fé, mas encontro também nas pessoas que estão à minha volta e naquilo que eu considero que é o nosso poder transformador da sociedade, quando encontramos o propósito pelo qual nós vivemos.

 

O que é que podemos aprender num tempo de adversidade como este? Como gostarias que o mundo se transformasse após a pandemia?

Acho que no início da pandemia todos sentimos algo muito universal – acho que, pela primeira vez, as dores dos pobres eram as dores dos ricos, as dores dos mais velhos eram as mesmas dores dos mais novos. De alguma forma, esta pandemia tornou as desigualdades um pouco mais esbatidas. Obviamente que quem tem maior poder para ultrapassar as adversidades, e tem acesso a cuidados de saúde, viverá esta pandemia de uma forma completamente diferente de quem não tem. No entanto, acho que, se calhar pela primeira vez a nível global, o medo sentido por toda a gente nestas circunstâncias se tornou um denominador comum.

O que eu gostaria realmente é que esta pandemia nos trouxesse esse denominador comum em que somos todos muito mais parecidos e estamos todos muito mais próximos do que aquilo que muitas vezes queremos acreditar. Temos vivido de uma forma muito auto-suficiente, muito individualista, para a nossa espiritualidade, para o nosso sucesso profissional, para a nossa família, as nossas coisas, e sem dúvida que esta pandemia veio trazer esse sentido de percebermos que há males que podem afectar todos. Obviamente não terão as mesmas consequências, mas há coisas que nos podem afectar a todos.

Naquilo que diz respeito à minha área da música e da cultura, foi muito clara a fragilidade com que os trabalhadores da indústria musical estão expostos, principalmente as pessoas que trabalham na área do lazer, do entretenimento e da cultura, foi muito evidente a fragilidade que existe na nossa profissão. E uma das coisas que eu gostaria que esta pandemia trouxesse de novo seria um maior respeito, uma maior atenção, uma maior preocupação e mais medidas que possam de alguma forma proteger um bem que é imaterial, que é a cultura, a música. Foi provavelmente um dos maiores alimentos neste tempo todo em que estivemos fechados em casa. A minha esperança é que o mundo se torne mais consciente e menos indiferente e que em particular na área da cultura possa haver maior apoio, maior respeito e maior atenção àqueles que cuidam da nossa alma.

 

Para uma artista que gosta de viver um concerto no meio do público, com muita entrega física e emocional, como é que estás a lidar com os distanciamentos nos concertos ao vivo?

Muito difícil para mim que sou uma pessoa física, que gosta de tocar as pessoas, que gosto de me aproximar, gosto de as sentir. Uma das principais razões pelas quais eu passo sempre do palco e dirijo-me até às pessoas é para esbater aquela visão que as pessoas têm do artista lá no palco, distante e inatingível. Eu gosto muito de fazer esse movimento para com o público, no sentido de agradecer a sua presença, no sentido de o conhecer melhor e mais de perto. Tem sido um desafio. Por outro lado, como qualquer desafio, também nos traz uma nova forma de conquistar as pessoas através do olhar – porque o olhar felizmente ainda não foi tapado pela máscara –, de falar um pouco mais aprofundadamente daquilo que é a minha mensagem e de sentir que as pessoas, pelas limitações que têm, estão mais atentas.

Eu acho que tem sido uma experiência muito boa, porque depois deste tempo em que estivemos em casa, todos nós, músicos, técnicos e público, estamos ávidos de momentos de entrega, de momentos em que temos esta comunhão musical. Obviamente é um tempo de adaptação, mas pelo menos os concertos estão a acontecer e isso para mim é muito bom. E a minha entrega emocional e até física continua a ser muito grande. Se calhar neste momento não posso tocar com as mãos, mas gosto de acreditar que continuo a tocar com o coração. E farei sempre música para o corpo, para dançarmos, para a alma, para nos emocionarmos, mas para o espírito também, para nos podermos elevar a um nível um pouco mais elevado.

 

Moçambique ainda é um país desconhecido para muitos portugueses. O que é que gostavas que os portugueses soubessem sobre Moçambique?

Moçambique é um país muito desconhecido para os portugueses e não só. Moçambique é a chamada "pérola do Índico" e eu acho que é realmente uma pérola que está bem escondida lá dentro da concha. Eu gostava muito, e tem sido um dos meus objectivos, não necessariamente ser embaixadora de Moçambique, mas deixar pelo menos alguma curiosidade. Moçambique tem pessoas muito especiais, é um país muito diversificado no que diz respeito às etnias, às culturas, é muito provavelmente um dos países onde eu mais vi um melting pot de pessoas de diferentes etnias, há uma miscelânea muito especial que faz com que haja um respeito e uma honra muito grande. Acho que essa é uma das grandes belezas de Moçambique – sem esquecer as paisagens, que é daquilo que as pessoas mais ouvem falar, das praias, das áreas florestais.

Mas há algo que eu tenho tentado trabalhar, definir e explorar que é este lado do património cultural e do património musical. Temos muitos tipos de dança, muitos tipos de ritmos, há uma riqueza enorme nas polifonias, nas polirritmias, temos muitas línguas oficiais, sem falar nos dialectos, e isso traz uma enorme diversidade a um povo que é relativamente discreto, mas quanto a mim muito especial, muito bondoso. E que tem conseguido ultrapassar dificuldades gigantes como fome, secas, cheias, ciclones, guerras, de uma forma muito honrada, mas sempre a olhar para o futuro com muita esperança.

 

O racismo começa a ser mais mediatizado, mas sempre existiu e sempre foi silenciado. Como é que tem sido a tua vivência como mulher negra em Portugal?

Vivo em Portugal desde 1988 e durante muito tempo sentia aquele racismo disfarçado, das pessoas que sempre me consideraram a preta, mas diferente, a preta especial, a preta que cheira bem, a preta que não rouba, a preta que fala bem. E eu fico muito contente que neste momento o racismo seja, não necessariamente mediatizado, mas que esteja cada vez mais exposto. Para pessoas que não têm tido a sensibilidade de acreditar que existe racismo em Portugal – porque existe –, o que me parece é que falamos de uma questão que durante muito tempo era uma espécie de hemorragia interna que não era visível para toda a gente e que neste momento está exposta. E, como qualquer fractura exposta, ela precisa de ser tratada e de ser sarada. Quando temos uma doença, nós precisamos de a diagnosticar e de saber o que aconteceu e o que está por detrás. Esta não é uma questão da moda – porque temos um movimento Black Lives Matter, e ainda bem que existe, porque cria maior sensibilização e maior consciencialização –, mas estamos a falar de um problema que existe não só na Europa mas também em Portugal, derivado também de todo o processo dos “Descobrimentos”, da escravatura, da colonização, e que eu tenho vivido na pele de muito perto, de várias formas.

Passei por imensas situações de preconceito e de racismo claro e evidente. Obviamente não encerro a minha existência só enquanto mulher negra e emigrante e na diáspora, mas isso tem criado condicionantes para maior dificuldades em determinadas áreas. Mas tal como essa etiqueta, também poderia ter outras etiquetas que não têm facilitado a minha convivência, mas fico honestamente muito feliz que haja espaço para nos escutarmos uns aos outros, para nos ouvirmos e para percebermos que esta ferida tem de ser sarada. E ela só pode ser sarada se for falada, discutida e tratada com o carinho que deve ter.

 

O que é preciso para Portugal reconhecer que é um país racista?

Reconhecer que Portugal é um país racista é o mesmo que reconhecer que existe racismo em Portugal. Para algumas pessoas, a expressão “Portugal é um país racista” é uma frase muito ofensiva e efectivamente as palavras têm muito poder e ninguém quer abraçar isso de ânimo leve. Há sempre uma sensação de desconforto – se eu não me sinto racista, por que é que eu hei-de dizer que Portugal é um país racista? Mas quando existe racismo, isso torna-se parte da identidade de um país.

Acho que é muito importante reconhecer que não somos todos tratados da mesma forma. As oportunidades não são iguais e existe ainda uma mentalidade não descolonizada por parte de muitas pessoas que ainda vêem os pretos como os serventes, os lacaios, aqueles que estão numa posição inferior, que falam menos bem, que precisam de ser educados pelo branco. Eu acho que é preciso fazer um reconhecimento de que existe uma situação histórica por detrás que nos faz ter um racismo que está de tal modo estruturado na nossa mente e na nossa forma de estar que já o tomamos por normal.

Um dos maiores desafios é quando temos que nos colocar numa posição que nunca vivemos. Obviamente que não podemos fazer isso assim num clique, mas podemos parar, pensar, escutar. Ouvir quem tem passado por racismo e não partir do pressuposto de que a comunidade negra se auto-vitimiza e que acha sempre que tudo é racismo. Porque efectivamente muitas vezes nos temos silenciado enquanto comunidade negra e neste momento precisamos de falar. Precisamos de falar das dores que temos sentido, nas dificuldades em encontrar emprego, na dificuldade de enviar um currículo com fotografia a pensar que isso irá tirar oportunidades, nas dificuldades em coisas tão simples de ser adolescente, como saber que se calhar não vais entrar numa discoteca por ser negro.

É preciso falar, é preciso ouvir. É tempo de as pessoas ouvirem quem tem passado por situações de racismo e entenderem que não são só os outros, mas que a nossa mentalidade ainda não está completamente descolonizada. Isso faz parte da história e é importante reconhecer que a história moldou a nossa forma de pensar.

E temos que mudar essa mentalidade, essa forma de pensar. Ignorar e dizer que não há racismo, que não somos racistas, não irá mudar a forma como a sociedade está neste momento. 

David Fonseca
© DR

David Fonseca: "A música sempre foi um porto seguro"

Música

David Fonseca já soma 17 anos de carreira a solo, mas nunca lançou um best of. Como é que uma pessoa nada dada a retrospectivas decide, de repente, lançar uma compilação de lados B e raridades? A culpa foi da pandemia, que nos fechou em casa e nos forçou a olhar para dentro.

Durante a quarentena, David Fonseca mergulhou a fundo no seu arquivo, como nunca o tinha feito. “Na realidade, se não fosse o confinamento talvez este disco não tivesse acontecido, mas os discos são sempre fruto das circunstâncias e tempo onde vivem”, explica. “Ao fazê-lo, descobri estas canções que, apesar de terem sido totalmente finalizadas, estavam espalhadas por todo o lado de forma pouco acessível. De alguma forma, acabam por mostrar um lado mais invisível do meu trabalho como músico, uma espécie de lado B da minha carreira como compositor.”

Lost and Found – B Sides and Rarities reúne momentos mais atípicos, experiências e abordagens diferentes. Alguns mais experimentais, outros mais inesperados, entre o português e o inglês, num total de 16 canções que escaparam aos discos que lançou, mas que era importante assinalar de forma mais séria na sua discografia. Desenterrar estas raridades foi regressar ao passado. “Descobri que nem sempre tomo as melhores opções quando decido descartar-me de algumas canções! Acho que consigo perceber o meu grau de exigência a cada disco, é estranho para mim que algumas não fossem vistas como uma opção na altura e que acabassem por sair dos discos principais.”

Desde os Silence 4 que David Fonseca percebeu que as suas tempestades emocionais ressoam de forma forte nas outras pessoas. Ele escrevia para si próprio, mas acabaria por descobrir que não estava sozinho nas suas inquietações líricas. Tudo o que atravessamos, alguém, algures, já atravessou também. As nossas dores e alegrias são o que nos une, por isso, o melhor que podemos fazer é olhar uns pelos outros.

A música foi um elemento importante para lidar com o período de confinamento, entregando-se aos impulsos imaginativos. “Explorei de forma mais aprofundada alguns instrumentos e técnicas, estudei novas formas de gravação e fiz alguma música. A música sempre foi um porto seguro para mim e neste caso não foi diferente. Fazer e ouvir música levam-me para um universo distante e próximo ao mesmo tempo, um universo onde não existem tantas regras como aquelas que nos regem em tempo de pandemia.”

Apesar disso, escrever canções é “um misto de sentimentos contraditórios”. “Por um lado, há o prazer da descoberta de algo novo, a ideia de construir uma canção que ainda não existe. Por outro, a frustração que acompanha esse processo, cheio de falhanços e caminhos sem saída. Mas uma vez que se aprende a lidar com a parte mais difícil da criação, vale sempre a pena.”

O meio musical (e cultural, em geral) é um dos que mais tem sofrido com os efeitos da pandemia. “Preocupa-me a precariedade de toda a área cultural. A cultura é uma das bases essenciais da identidade de um povo e é urgente olhar para esta área como algo absolutamente fulcral para o nosso desenvolvimento. Acredito que temos muito para dar e muito que crescer, mas esta área tem de ser olhada com a importância e destaque que merece pelos governos que nos regem.”

Depois de ter deixado a digressão Radio Gemini a meio, com dezenas de espectáculos cancelados, ainda vamos ter de esperar algum tempo para ver David Fonseca ao vivo e sem ecrãs pelo meio. “Espero voltar aos palcos o mais rapidamente possível. Vamos ter de conviver com esta situação de pandemia durante algum tempo e teremos de nos adaptar a esta nova realidade”, diz. Mas será “em breve, muito em breve”.

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Clã
© João Octávio Peixoto

Clã: “O que me faz falta é estar no palco”

Música Portuguesa

Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves vivem num “cantinho sossegado”, numa aldeia em Vila do Conde. Já estão habituados a uma rotina caseira e confinada. Vivem no meio da natureza, num terreno onde zurra uma burra e onde podem apanhar sol e laranjas. Foi aqui que gravaram o novo álbum Véspera, que sai à rua a 22 de Maio. Apesar de ter sido criado nos últimos três anos, nele paira um prenúncio destes tempos de pandemia. É a primeira vez que os Clã lançam um disco e não podem apresentá-lo em frente a um público. Para uma banda que se extravasa no palco, isso é complicado.

  

Como está a correr a vossa quarentena?

Manuela Azevedo: Não está mal, na verdade. Nós vínhamos de um tempo assim caseiro. Como estávamos em estúdio a gravar, já estávamos habituados a esta rotina de estarmos confinados, por isso acaba por não ser assim uma grande mudança. Vivemos numa aldeia no concelho de Vila do Conde, é também aqui que gravamos. O nosso cantinho é bastante sossegado e isolado. Podemos apanhar sol, apanhar laranjas… Para estes dias de confinamento é um privilégio ter o que nós temos.

Hélder Gonçalves: Pela primeira vez na nossa carreira, estamos a lançar um disco e não podemos ir na semana seguinte para a rua ou fazer um concerto. Isso sempre foi muito importante para nós, os discos serviam de lançamento a uma digressão. E neste momento não vamos poder ir para a estrada. Para nós, é muito estranho.

 

Esta é uma boa altura para lançar este disco?

Manuela: Não fazia sentido deixar este disco mais tempo parado.

Hélder: Estamos a trabalhar neste disco desde 2017. Em 2018, começámos a fazer as gravações, é um processo longo.

Manuela: É uma razão egoísta, é a necessidade de partilhar o que temos nas mãos. Além disso, é um trabalho que não foi feito de propósito para esta ocasião, mas traz em si uma maneira de olhar para o mundo e de pensar o mundo que faz todo o sentido nos dias que vivemos agora. Estes dias de pandemia são dias estranhos, mas todas as coisas que estão associadas são males que já vinham antes. Por exemplo, a maneira como incompreensivelmente temos líderes como o Trump ou o Bolsonaro a lidar com esta pandemia, é algo que já se sentia na forma como eles lidavam com outras coisas.

 

Os Clã colaboram com pessoas da música, da literatura, da ilustração e das artes performativas. Que importância têm todas estas colaborações? O todo é maior que a soma das partes?

Manuela: Exactamente, tem a ver com isso. Aquilo a que chegas é sempre maior do que o ponto de partida, não é só juntar o trabalho destas pessoas, é articular esse trabalho, é discutir todos, é deixarmo-nos contaminar uns pelos outros. Na parte da criação em si há uma parte mais solitária, mas, a partir da altura em que desafiamos os nossos parceiros de escrita, logo aí já há uma abertura de mundo, de olhares e perspectivas sobre aquele ponto de partida. E à medida que vais juntando mais gente, como o André da Loba a propor um outro olhar sobre as canções, isso também te vai ajudar a pensar no que vais querer levar para o palco. Neste trabalho temos o Victor Hugo Pontes e a Cristina Cunha a assinar os figurinos, tudo isto é uma criação colectiva. Isso foi algo comprometido por estes dias mais estranhos, mas o Zoom acabou por ajudar. [risos]

 

Os Clã têm uma abordagem interessante à electrónica...

Hélder: Temos dois teclistas que usam teclados analógicos, que são instrumentos muito específicos, há um trabalho muito complexo a volta deles. Às vezes estamos semanas à volta de um teclado para escolher o sonzinho que faz “ping”. As possibilidades são muitas, é complicado por causa disso. Por outro lado, a música que ouvimos é muito variada e gostamos do contraste de ligar coisas mais acústicas do rock e da pop com elementos mais inesperados. Não olhamos para os teclados como instrumentos de música electrónica, mas como coisas palpáveis que podemos mexer e andar à procura e burilar à volta daquilo.

 

O palco é o mundo dos Clã. Como é que estão a lidar com esta incerteza do regresso aos palcos?

Manuela: É muito mau. Não conseguimos estar os seis juntos, não podemos tocar juntos, o que é fundamental para manter a saúde de qualquer colectivo. Especialmente para nós, porque aprendemos das próprias canções ao estar com elas em palco, ao tocá-las inúmeras vezes. É terrível ter um trabalho novo na mão e não poder estar em cima do palco a defendê-lo e a ver a reacção das pessoas ali à frente. Vamos ver como se regressa a alguma normalidade, mas é óbvio que vamos passar por situações muito estranhas. A experiência em palco de ter as plateias separadas, as pessoas com a máscara no rosto e só consegues ver os olhinhos, com medo de se manifestarem e saltarem e dançarem, porque vão invadir o espaço do outro. Tudo isso vai tornar a experiência muito estranha. Esta auto-consciência do outro, do distanciamento, tudo isto é uma aprendizagem muito estranha, quanto mais naquilo que devia ser uma celebração de estarmos todos juntos. Vão ser tempos tramados. Na parte da sobrevivência, ainda mais complicado é. Esta suspensão de toda a gente que está relacionada com o mundo do espectáculo, associada a uma grande precariedade na área da música, porque não há subsídios ou contratações... Temos tanta gente que trabalha à volta do espectáculo em risco de sobrevivência, sem rendimentos. O reatar de alguma normalidade disto tudo vai ser demorado. É importante estarmos todos muito antenados, muito solidários, muito exigentes em relação ao nosso próprio governo para podermos ultrapassar isto sem muitos danos, sem muita gente ficar pelo caminho.

 

O que vos preocupa mais no futuro?

Manuela: Esta situação podia ser uma ocasião para melhorarmos enquanto espécie. Percebermos que é importante sermos responsáveis uns pelos outros, ter um Serviço Nacional de Saúde que funcione, ter solidariedade social. Que não faz sentido uma vida sem o outro, sem uma comunidade. Que ter um planeta menos poluído é bom e é possível. Essas coisas são lições fundamentais, mas eu temo que a gente esqueça, assim que regresse à normalidade. Era importante que a dureza daquilo que estamos a passar servisse para alguma coisa. Mas o que me preocupa mesmo é perceber até que ponto o controlo sanitário não vai alterar demasiado uma convivência normal e natural entre os humanos. Se não nos vamos tornar em coisas assépticas que desistiram completamente do toque, do afecto. É muito estranho pensar no risco de mudar comportamentos que são essenciais em ser-se humano. Isso deixa-me algum receio pelo futuro.

Hélder: E as pessoas que perderam empregos, especialmente aquelas que já estavam numa situação difícil ou numa profissão que dependia de recibos verdes. Eu sei que muitos colegas nossos artistas estão com dificuldades, mas ainda conseguimos fazer aquilo de que gostamos, de alguma forma. Podemos tocar em casa, podemos gravar. Mas um técnico que faz luzes, que leva o material, que afina guitarras e ganhava a vida com isso, agora não há nada que possa fazer. E são pessoas valiosíssimas, mas não podem fazer o seu trabalho. Acho que o governo devia ser eficaz a tratar disso, mas para isso é preciso os políticos perceberem do que estão a falar. A sensação que temos é que o governo não percebe bem o nosso mundo. As pessoas não têm ideia de tudo o que é preciso para fazer um concerto, quanto é que no fim um artista ganha. Ao nível político, um ministro ou secretário de estado tem que perceber o que se está a passar, senão também não sabem como ajudar.

 

Os concertos online gratuitos vão desvalorizar os concertos normais?

Hélder: Eu acho que não se devem fazer concertos online gratuitos. No momento em que os artistas ficaram sem nada, a única coisa que têm é esta plataforma online, que pode ser a única fonte de subsistência nos próximos meses. Portanto nós não podemos – já não devíamos antes, mas especialmente neste momento – escancarar e oferecer tudo. A música já perdeu bastante valor porque as pessoas podem ouvir música sem pagar no YouTube ou no Spotify, o streaming já desvalorizou a música como algo em que tens que investir e pagar. O único sítio onde as pessoas faziam isso era nos concertos, pagavam bilhetes. E se neste momento também desbaratamos isso como artistas, estamos a dar tudo e cada vez a ficar com menos soluções de sobrevivência. Uma coisa é oferecer cinco músicas, outra coisa é disponibilizar um concerto inteiro. Isso tem um valor que não podemos desperdiçar, senão as pessoas acham que fazemos as coisas facilmente, que não nos custa nada, que não há dezenas de pessoas a trabalhar para que uma coisa destas aconteça.

 

O que é que mais querem fazer quando o confinamento terminar?

Hélder: Nós temos sorte por estarmos juntos em casa, mas queria estar com os amigos, a família, brindar com um copo, entrar num restaurante. Há muita coisa que nem estamos a dar valor agora e que vamos valorizar depois.

Manuela: Sim, mas o que me faz mais falta neste momento é mesmo estar no palco. ■

 

Manel Cruz
© SFPNMC

Manel Cruz: “Criar é uma necessidade quase fisiológica de sobrevivência do ser humano”

Música

A alma inquieta de Manel Cruz já o levou a projectos como os Ornatos Violeta, Foge Foge Bandido, Pluto ou Supernada. Vida Nova é o livro-disco que apresenta na Casa da Música no domingo 28.

Como é que este disco começou?

Não lançava um disco há oito anos e não é que tenha desistido de fazer música, mas ia nadando. Na reunião dos Ornatos estive só naquilo e depois mais um ano ou dois a gastar o dinheiro que ganhei. Senti aquela pressão de fazer alguma coisa e entrei num capítulo depressivo, não me saía nada. Comecei então a vir para o estúdio tipo função pública. Fazia uma música por dia e muitas deitava logo ao lixo. O trabalho que fazes para trás serve para realização pessoal, mas tem um lado perverso: não te vai servir para sempre. Um artista acaba por se sentir sempre no zero. Tens que te reinventar, precisas de encontrar o retorno daquilo que és naquilo que fazes. Comecei a fazer músicas com o ukulele, a regressar às raízes: para fazer alguma coisa, tenho de ser capaz de fazer com pouco.

Tens tido projectos a solo, mas nunca verdadeiramente a solo. Aqui também estás rodeado por músicos.

Eu tenho muitas ideias, mas não são todas boas. O input que outro gajo me vai dar vai ser sempre mais original, porque vai criar um mutante daquilo que eu projectei, que não é dominado por nenhum de nós. Tem um factor de abismo que é muito mais rico. Ter que lidar com outra pessoa dá mais trabalho, mas é muito mais desafiante, porque te coloca numa posição mais frágil.

O disco tem muitos instrumentos, mas apesar disso é pouco denso.

Tinha uma vontade de simplificar. Tentei que as ideias mais simples se afirmassem e sobrevivessem no tempo. Numa época em que há coisas incríveis a acontecer, e muitas delas revolucionárias, sobretudo na experimentação tecnológica, começou a atrair-me a ideia de fazer um disco de canções simples. Muitas vezes neste disco apequenámos as coisas. Queríamos que a força não tivesse a ver com o impacto sonoro, queríamos jogar nas fragilidades, na singeleza.

És um músico inquieto e insatisfeito. De onde vem esse desassossego?

Acho que há uma vontade de criar um espaço alternativo a toda a realidade que sabes que não consegues mudar e à qual tens que te adaptar. Tens que ter um mundo onde possas ser o mais livre possível. Na arte não podes fazer concessões, mas às vezes esse teu espaço criativo é aquilo que te vai dar dinheiro. O mais importante desta coisa criativa é a tua comunicação contigo próprio. É teres um espaço para brincar como quando és puto. Se essa inquietude se resumir à parte criativa, é muito benigna. Quando começas a questionar por que não estás a funcionar socialmente é que as coisas são mais duras. Não consigo imaginar a criação sem inquietude. Agora já começo a perspectivá-la com prazer, com liberdade, sem medo.

O que te motiva hoje para criar?

Há uma parte que tem a ver com uma necessidade quase fisiológica de sobrevivência do ser humano, de criar coisas. Quase como uma droga, algo que te ajude a suportar a existência. Depois há uma outra parte que é mais da vaidade e da aceitação. Se achares que as pessoas só vão gostar de ti porque fazes coisas fixes, é uma merda. Tens que lutar para que as pessoas gostem de ti, mesmo que o teu trabalho não seja especial. E para isso ajudam as fases em que não fazes nada de jeito e percebes que há pessoas que estão-se cagando para isso e que gostam de ti.

Este disco é de certa forma positivo, afirma uma vontade de viver.

Isso foi um reflexo do que eu estava a viver, mas também uma vontade que eu tinha de estar bem e de transmitir isso para os outros. Mas se estás numa fase lixada não podes forçar-te. Tens de tentar ter alguma honestidade. Alguma. Porque toda a honestidade não sei se algum dia um gajo vai conseguir, nem sei se interessa, não sei se alguém quer ouvir as tuas merdas. Ninguém tem paciência para ouvir um gajo ser completamente honesto. Havia pelo menos uma vontade de estar bem. É aquela cena de perceberes que tens mais vida para trás do que para a frente, portanto há sérios riscos de eu já estar mais definido no que já fiz do que no que vou fazer. Já fiz a minha penitência. Apesar de saber que sou egocêntrico, não duvido que preciso dos outros, e que vivo para os outros. Quero ajudar a fazer um mundo mais fixe.

As tuas músicas partem das tuas experiências mas também de observações. Como é que as fazes?

Não sou muito informado do ponto de vista político. Não consigo ler livros, disperso-me, não gosto de ler. Eu sou muito virado para o próprio prazer. Se uma coisa não me dá pica aprender, não me esforço nada. Tenho a minha análise da sociedade que não acho que seja inválida. Sou muito atento às pessoas. Gosto muito de ouvir pessoas que não têm nada a ver com o meio artístico e que dizem coisas completamente reveladoras. O conhecimento é uma coisa global, está em tudo.

Como é que um gajo que não gosta de ler consegue escrever como tu?

Isso é um mito. A sociedade adora cenas absolutas, detesta estar perdida. A maior preocupação deve ser comunicar. Falar é uma forma de escrita, é uma escrita no ar. Fazer música é uma escrita, pintar também. As palavras são coisas ao teu serviço. Não pode haver cerimónia, religiosidade. Tens que as tratar mal porque elas não têm vida, és tu que lhes dás vida.

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