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David Fonseca
© DR David Fonseca

David Fonseca: "A música sempre foi um porto seguro"

Durante a quarentena, David Fonseca desenterrou 16 canções do seu baú e editou-as no novo disco Lost and Found – B Sides and Rarities. Falámos com ele.

Por Ana Patrícia Silva
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David Fonseca já soma 17 anos de carreira a solo, mas nunca lançou um best of. Como é que uma pessoa nada dada a retrospectivas decide, de repente, lançar uma compilação de lados B e raridades? A culpa foi da pandemia, que nos fechou em casa e nos forçou a olhar para dentro.

Durante a quarentena, David Fonseca mergulhou a fundo no seu arquivo, como nunca o tinha feito. “Na realidade, se não fosse o confinamento talvez este disco não tivesse acontecido, mas os discos são sempre fruto das circunstâncias e tempo onde vivem”, explica. “Ao fazê-lo, descobri estas canções que, apesar de terem sido totalmente finalizadas, estavam espalhadas por todo o lado de forma pouco acessível. De alguma forma, acabam por mostrar um lado mais invisível do meu trabalho como músico, uma espécie de lado B da minha carreira como compositor.”

Lost and Found – B Sides and Rarities reúne momentos mais atípicos, experiências e abordagens diferentes. Alguns mais experimentais, outros mais inesperados, entre o português e o inglês, num total de 16 canções que escaparam aos discos que lançou, mas que era importante assinalar de forma mais séria na sua discografia. Desenterrar estas raridades foi regressar ao passado. “Descobri que nem sempre tomo as melhores opções quando decido descartar-me de algumas canções! Acho que consigo perceber o meu grau de exigência a cada disco, é estranho para mim que algumas não fossem vistas como uma opção na altura e que acabassem por sair dos discos principais.”

Desde os Silence 4 que David Fonseca percebeu que as suas tempestades emocionais ressoam de forma forte nas outras pessoas. Ele escrevia para si próprio, mas acabaria por descobrir que não estava sozinho nas suas inquietações líricas. Tudo o que atravessamos, alguém, algures, já atravessou também. As nossas dores e alegrias são o que nos une, por isso, o melhor que podemos fazer é olhar uns pelos outros.

A música foi um elemento importante para lidar com o período de confinamento, entregando-se aos impulsos imaginativos. “Explorei de forma mais aprofundada alguns instrumentos e técnicas, estudei novas formas de gravação e fiz alguma música. A música sempre foi um porto seguro para mim e neste caso não foi diferente. Fazer e ouvir música levam-me para um universo distante e próximo ao mesmo tempo, um universo onde não existem tantas regras como aquelas que nos regem em tempo de pandemia.”

Apesar disso, escrever canções é “um misto de sentimentos contraditórios”. “Por um lado, há o prazer da descoberta de algo novo, a ideia de construir uma canção que ainda não existe. Por outro, a frustração que acompanha esse processo, cheio de falhanços e caminhos sem saída. Mas uma vez que se aprende a lidar com a parte mais difícil da criação, vale sempre a pena.”

O meio musical (e cultural, em geral) é um dos que mais tem sofrido com os efeitos da pandemia. “Preocupa-me a precariedade de toda a área cultural. A cultura é uma das bases essenciais da identidade de um povo e é urgente olhar para esta área como algo absolutamente fulcral para o nosso desenvolvimento. Acredito que temos muito para dar e muito que crescer, mas esta área tem de ser olhada com a importância e destaque que merece pelos governos que nos regem.”

Depois de ter deixado a digressão Radio Gemini a meio, com dezenas de espectáculos cancelados, ainda vamos ter de esperar algum tempo para ver David Fonseca ao vivo e sem ecrãs pelo meio. “Espero voltar aos palcos o mais rapidamente possível. Vamos ter de conviver com esta situação de pandemia durante algum tempo e teremos de nos adaptar a esta nova realidade”, diz. Mas será “em breve, muito em breve”.

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Clã
©João Octávio Peixoto

Clã: “O que me faz falta é estar no palco”

Música Portuguesa

Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves vivem num “cantinho sossegado”, numa aldeia em Vila do Conde. Já estão habituados a uma rotina caseira e confinada. Vivem no meio da natureza, num terreno onde zurra uma burra e onde podem apanhar sol e laranjas. Foi aqui que gravaram o novo álbum Véspera, que sai à rua a 22 de Maio. Apesar de ter sido criado nos últimos três anos, nele paira um prenúncio destes tempos de pandemia. É a primeira vez que os Clã lançam um disco e não podem apresentá-lo em frente a um público. Para uma banda que se extravasa no palco, isso é complicado.

  

Como está a correr a vossa quarentena?

Manuela Azevedo: Não está mal, na verdade. Nós vínhamos de um tempo assim caseiro. Como estávamos em estúdio a gravar, já estávamos habituados a esta rotina de estarmos confinados, por isso acaba por não ser assim uma grande mudança. Vivemos numa aldeia no concelho de Vila do Conde, é também aqui que gravamos. O nosso cantinho é bastante sossegado e isolado. Podemos apanhar sol, apanhar laranjas… Para estes dias de confinamento é um privilégio ter o que nós temos.

Hélder Gonçalves: Pela primeira vez na nossa carreira, estamos a lançar um disco e não podemos ir na semana seguinte para a rua ou fazer um concerto. Isso sempre foi muito importante para nós, os discos serviam de lançamento a uma digressão. E neste momento não vamos poder ir para a estrada. Para nós, é muito estranho.

 

Esta é uma boa altura para lançar este disco?

Manuela: Não fazia sentido deixar este disco mais tempo parado.

Hélder: Estamos a trabalhar neste disco desde 2017. Em 2018, começámos a fazer as gravações, é um processo longo.

Manuela: É uma razão egoísta, é a necessidade de partilhar o que temos nas mãos. Além disso, é um trabalho que não foi feito de propósito para esta ocasião, mas traz em si uma maneira de olhar para o mundo e de pensar o mundo que faz todo o sentido nos dias que vivemos agora. Estes dias de pandemia são dias estranhos, mas todas as coisas que estão associadas são males que já vinham antes. Por exemplo, a maneira como incompreensivelmente temos líderes como o Trump ou o Bolsonaro a lidar com esta pandemia, é algo que já se sentia na forma como eles lidavam com outras coisas.

 

Os Clã colaboram com pessoas da música, da literatura, da ilustração e das artes performativas. Que importância têm todas estas colaborações? O todo é maior que a soma das partes?

Manuela: Exactamente, tem a ver com isso. Aquilo a que chegas é sempre maior do que o ponto de partida, não é só juntar o trabalho destas pessoas, é articular esse trabalho, é discutir todos, é deixarmo-nos contaminar uns pelos outros. Na parte da criação em si há uma parte mais solitária, mas, a partir da altura em que desafiamos os nossos parceiros de escrita, logo aí já há uma abertura de mundo, de olhares e perspectivas sobre aquele ponto de partida. E à medida que vais juntando mais gente, como o André da Loba a propor um outro olhar sobre as canções, isso também te vai ajudar a pensar no que vais querer levar para o palco. Neste trabalho temos o Victor Hugo Pontes e a Cristina Cunha a assinar os figurinos, tudo isto é uma criação colectiva. Isso foi algo comprometido por estes dias mais estranhos, mas o Zoom acabou por ajudar. [risos]

 

Os Clã têm uma abordagem interessante à electrónica...

Hélder: Temos dois teclistas que usam teclados analógicos, que são instrumentos muito específicos, há um trabalho muito complexo a volta deles. Às vezes estamos semanas à volta de um teclado para escolher o sonzinho que faz “ping”. As possibilidades são muitas, é complicado por causa disso. Por outro lado, a música que ouvimos é muito variada e gostamos do contraste de ligar coisas mais acústicas do rock e da pop com elementos mais inesperados. Não olhamos para os teclados como instrumentos de música electrónica, mas como coisas palpáveis que podemos mexer e andar à procura e burilar à volta daquilo.

 

O palco é o mundo dos Clã. Como é que estão a lidar com esta incerteza do regresso aos palcos?

Manuela: É muito mau. Não conseguimos estar os seis juntos, não podemos tocar juntos, o que é fundamental para manter a saúde de qualquer colectivo. Especialmente para nós, porque aprendemos das próprias canções ao estar com elas em palco, ao tocá-las inúmeras vezes. É terrível ter um trabalho novo na mão e não poder estar em cima do palco a defendê-lo e a ver a reacção das pessoas ali à frente. Vamos ver como se regressa a alguma normalidade, mas é óbvio que vamos passar por situações muito estranhas. A experiência em palco de ter as plateias separadas, as pessoas com a máscara no rosto e só consegues ver os olhinhos, com medo de se manifestarem e saltarem e dançarem, porque vão invadir o espaço do outro. Tudo isso vai tornar a experiência muito estranha. Esta auto-consciência do outro, do distanciamento, tudo isto é uma aprendizagem muito estranha, quanto mais naquilo que devia ser uma celebração de estarmos todos juntos. Vão ser tempos tramados. Na parte da sobrevivência, ainda mais complicado é. Esta suspensão de toda a gente que está relacionada com o mundo do espectáculo, associada a uma grande precariedade na área da música, porque não há subsídios ou contratações... Temos tanta gente que trabalha à volta do espectáculo em risco de sobrevivência, sem rendimentos. O reatar de alguma normalidade disto tudo vai ser demorado. É importante estarmos todos muito antenados, muito solidários, muito exigentes em relação ao nosso próprio governo para podermos ultrapassar isto sem muitos danos, sem muita gente ficar pelo caminho.

 

O que vos preocupa mais no futuro?

Manuela: Esta situação podia ser uma ocasião para melhorarmos enquanto espécie. Percebermos que é importante sermos responsáveis uns pelos outros, ter um Serviço Nacional de Saúde que funcione, ter solidariedade social. Que não faz sentido uma vida sem o outro, sem uma comunidade. Que ter um planeta menos poluído é bom e é possível. Essas coisas são lições fundamentais, mas eu temo que a gente esqueça, assim que regresse à normalidade. Era importante que a dureza daquilo que estamos a passar servisse para alguma coisa. Mas o que me preocupa mesmo é perceber até que ponto o controlo sanitário não vai alterar demasiado uma convivência normal e natural entre os humanos. Se não nos vamos tornar em coisas assépticas que desistiram completamente do toque, do afecto. É muito estranho pensar no risco de mudar comportamentos que são essenciais em ser-se humano. Isso deixa-me algum receio pelo futuro.

Hélder: E as pessoas que perderam empregos, especialmente aquelas que já estavam numa situação difícil ou numa profissão que dependia de recibos verdes. Eu sei que muitos colegas nossos artistas estão com dificuldades, mas ainda conseguimos fazer aquilo de que gostamos, de alguma forma. Podemos tocar em casa, podemos gravar. Mas um técnico que faz luzes, que leva o material, que afina guitarras e ganhava a vida com isso, agora não há nada que possa fazer. E são pessoas valiosíssimas, mas não podem fazer o seu trabalho. Acho que o governo devia ser eficaz a tratar disso, mas para isso é preciso os políticos perceberem do que estão a falar. A sensação que temos é que o governo não percebe bem o nosso mundo. As pessoas não têm ideia de tudo o que é preciso para fazer um concerto, quanto é que no fim um artista ganha. Ao nível político, um ministro ou secretário de estado tem que perceber o que se está a passar, senão também não sabem como ajudar.

 

Os concertos online gratuitos vão desvalorizar os concertos normais?

Hélder: Eu acho que não se devem fazer concertos online gratuitos. No momento em que os artistas ficaram sem nada, a única coisa que têm é esta plataforma online, que pode ser a única fonte de subsistência nos próximos meses. Portanto nós não podemos – já não devíamos antes, mas especialmente neste momento – escancarar e oferecer tudo. A música já perdeu bastante valor porque as pessoas podem ouvir música sem pagar no YouTube ou no Spotify, o streaming já desvalorizou a música como algo em que tens que investir e pagar. O único sítio onde as pessoas faziam isso era nos concertos, pagavam bilhetes. E se neste momento também desbaratamos isso como artistas, estamos a dar tudo e cada vez a ficar com menos soluções de sobrevivência. Uma coisa é oferecer cinco músicas, outra coisa é disponibilizar um concerto inteiro. Isso tem um valor que não podemos desperdiçar, senão as pessoas acham que fazemos as coisas facilmente, que não nos custa nada, que não há dezenas de pessoas a trabalhar para que uma coisa destas aconteça.

 

O que é que mais querem fazer quando o confinamento terminar?

Hélder: Nós temos sorte por estarmos juntos em casa, mas queria estar com os amigos, a família, brindar com um copo, entrar num restaurante. Há muita coisa que nem estamos a dar valor agora e que vamos valorizar depois.

Manuela: Sim, mas o que me faz mais falta neste momento é mesmo estar no palco. ■

 

Capicua
© João Saramago

Capicua: "O Porto não está a defender os portuenses”

Música

Há uma música em que dizes para aproveitarmos este disco porque pode ser o último…

Isso tem a ver com o facto de os discos estarem a morrer. É um bocado ingrato fazer maratonas de dois ou três anos de trabalho para depois aquilo ser consumido na voragem da novidade. Tens que competir no meio do ruído das redes sociais, numa arena de vaidades, com o que te é mais especial e precioso. Será que vale a pena? Se puser uma foto do meu almoço ou do meu bebé, tenho mais likes do que com a música que fiz com as minhas emoções e pensamentos. Vês muitos músicos com problemas de depressão e suicídio porque é muito ingrato teres que “vender” a tua arte num mercado em que se vende de tudo. É um bocado perverso, parece que tens de perder a tua privacidade para ganhar a atenção das pessoas.

Já tens mais de 15 anos de carreira. Achas que tens tido o reconhecimento devido?

Por um lado sim, por outro não sei. Muitas pessoas começaram a ouvir hip-hop porque a minha música chegou a públicos diferentes. Ter pessoas de diferentes gerações nos meus concertos foi uma prova de que consegui essa transversalidade. Mas dentro do Capicua acaba de editar ‘Madrepérola’, um disco que explora um lado mais solar e que coincidiu com a sua primeira gravidez. Ana Patrícia Silva conversou com ela sobre ser mãe, mulher e rapper num mundo pouco amigo das mulheres. João Saramago iluminou-a com a luz do Porto. “O Porto não está a defender os portuenses” entrevista A Capicua hip-hop houve momentos em que não tive esse reconhecimento. Acho que uma parte do público e dos meus pares não se identifica comigo nem com o estilo de rap que eu faço, mais poético, mais político-social. Quanto mais longe cheguei, menos próxima estive desse reconhecimento. Por outro lado, há muita gente que percebe que andei a mostrar que é possível uma mulher ter uma carreira longeva no hip-hop.

A história do hip-hop em Portugal mostra que, além de haver poucas mulheres a fazer rap, são poucas as que conseguem resistir no tempo.

Porque é difícil, de facto. Tens que quebrar a barreira da falta de auto-estima. Para uma mulher é mais pesado, culturalmente, ter a segurança de dizer que o meu trabalho é válido, que vale a pena mostrá-lo ao mundo. É preciso contrariar uma socialização que nos atira para o auto-boicote permanente.

Somos ensinadas desde pequenas a não acreditar nas nossas capacidades.

Sim, e de nos valermos não dos nossos talentos, mas do nosso aspecto físico. Somos mais estimuladas para casar e ter filhos do que para ter uma carreira. É uma corrida de obstáculos, é preciso resistência.

Como é que conseguiste ter essa resistência?

Pela minha personalidade, pelos meus pais, pela educação que tive, pela militância política e associativa na adolescência. Acho que fui sempre estimulada a ter espírito critico, a valer-me dos meus talentos, a ser uma pessoa independente, a ser uma mulher feminista. Houve momentos em que foi difícil, mas por um conjunto de factores – alguns de sorte, outros de trabalho, uns de privilégio, outros de mérito – consegui. Também tive a sorte de ter começado com a M7 [a rapper e humorista Beatriz Gosta], tinha uma mulher ao meu lado e juntas fomos rompendo obstáculos. E por ter encontrado um produtor, o D-One, que sempre trabalhou connosco de igual para igual. Quando estás sozinha, é muito mais difícil. O mais importante é criar uma rede de apoio. Começar é difícil, resistir é hercúleo.

O que é que a maternidade te ensinou sobre o empoderamento feminino?

Aprendi que é importante conectarmo- -nos com o nosso lado biológico. Eu sou socióloga e tenho essa perspectiva de que as diferenças de género são culturais e que as diferenças entre sexos são também muito mais construídas do que biológicas.Mas quando me reencontro com esse lado biológico da reprodução, do parto e da amamentação, acho que as diferenças não nos devem distanciar ou hierarquizar, mas devem encher as mulheres de orgulho. Quando conseguimos comandar o nosso próprio processo reprodutivo, saímos com uma auto-estima muito reforçada, sentimo-nos empoderadas e invencíveis. Ser mãe é muito exigente em termos de entrega, de cansaço, de falta de liberdade. Mas, ao mesmo tempo, é lindo, é poético, é a coisa mais intensa que podemos experimentar.

Assusta-te trazer um filho a este mundo? Ou é um acto de optimismo, de acreditar que o mundo vai melhorar?

Se não consegues fazer um mundo melhor para os teus filhos, faz filhos melhores. Acho que todas as gerações passam por essa ideia de que o mundo está demasiado feio para acrescentarmos mais pessoas. Do ponto de vista ecológico, de facto somos muitos e não devíamos ter mais filhos, mas, se nos deixarmos dominar pelo medo, deixamos de viver.

O que é que temos de ensinar aos nossos filhos para serem pessoas melhores?

Uma educação feminista é essencial para homens e mulheres. Mas a educação é um quotidiano de pequenas lições e de grandes exemplos que vamos dando sem sequer ter consciência disso. Eles acabam por absorver a nossa forma de estar no mundo. Temos de ser o exemplo mais perfeito possível, dentro das nossas limitações enquanto seres imperfeitos.

Alguma vez te prejudicou assumires que és feminista?

Em termos estratégicos, é sempre melhor quando os músicos são anti-sépticos, quando não opinam sobre as coisas e fingem que está sempre tudo bem para não chatear ninguém e vender o máximo possível. Essa nunca foi a minha postura, eu sempre encarei a música como um megafone para as minhas causas e as minhas preocupações. Um artista, no verdadeiro sentido do termo, é muitas vezes incómodo, mesmo que isso custe uns concertos a menos. Todas as pessoas que têm um microfone na mão têm uma responsabilidade. Há que viver com isso, sem que se torne demasiado pesado ao ponto de não termos liberdade de criar, não deixar que as causas eclipsem o nosso trabalho artístico.

A propósito do que aconteceu com o Valete [a música e o vídeo de “BFF” foram acusados de normalizar a violência contra as mulheres], até que ponto é que a liberdade de expressão e a liberdade artística podem servir como escudo?

Desde que não entrem na difamação, no discurso de ódio, em coisas que estão prescritas na lei como limites, os artistas são completamente livres. Mas o artista está num contexto cultural e social, que é determinado e que não pode ser ignorado. Eu sou livre de criar e as pessoas são tão livres quanto eu de comentar e criticar. É um jogo que toda a gente joga quando está no espaço público. Mas com as redes sociais criam-se ondas de reacção que acabam por ser desproporcionais.

Poderia ter sido uma conversa importante.

Sim, e não foi essa conversa que aconteceu.

Também porque ele reagiu daquela forma, com ameaças. Surpreendeu-te a reacção dele às críticas?

Custa-me comentar esse caso em particular porque é uma pessoa que eu conheço pessoalmente, tenho menos capacidade crítica. O que eu acho é que a discussão poderia ter sido importante e acabou por ser uma gritaria. Às vezes temos a oportunidade de ter discussões interessantes sobre essas questões da liberdade criativa, do politicamente correcto no bom sentido do termo, da importância do simbólico, da forma como as minorias têm que ser protegidas de determinados tipos de banalização de ataques e de criarmos uma linguagem e uma forma de estar em cidadania mais inclusiva e justa. Mas depois entramos nestas espirais em que uns se ofendem com tudo e não há conversa possível.

Tens uma música sobre a situação actual do Porto, a “Circunvalação”. Como vês o rumo que a cidade está a tomar?

Essa música fala do Porto real e não do Porto postal. Do Porto dos portuenses que todos os dias vivem a cidade. Nada contra os turistas, mas o bem-estar das pessoas foi subjugado aos interesses do turismo enquanto indústria de consumo rápido e de dinheiro rápido, com impactos muito profundos no quotidiano.

O Porto que sempre conheceste está a desaparecer.

Sim, a cidade descaracteriza-se e depois todas as cidades europeias são iguais, todas têm as mesmas lojas, os mesmos cafés, as mesmas cadeias de hotel. Já para não falar do bullying imobiliário, do lixo na cidade, da sobrecarga dos transportes públicos. Se formos ver o que a UNESCO escreveu quando atribuiu o título de Património Mundial da Humanidade ao centro histórico do Porto, dizia que era um conjunto que valia por ser castiço e por ser vivido. Não pela sua monumentalidade, mas por ter um tecido vivo de pessoas que habitam aquelas casas, que têm a roupa a secar à janela, têm as mercearias, os pequenos restaurantes. Vamos perder aquilo que a cidade tem de mais valioso, que é o carácter, com uma gente muito orgulhosa de si. É especialmente irónico, porque o Porto sempre foi uma cidade que se bateu pela liberdade. Os portuenses sempre defenderam o Porto até ao fim! Acho que agora o Porto não está a defender os portuenses. Era bom pararmos com essa coisa da cidade acontecimento, do branding, do marketing urbano, da cidade postal e pensar: como é que conseguimos reverter este dinheiro que estamos a criar com o turismo a favor das pessoas que vivem aqui? Como é que vamos minimizar o impacto deste consumo rápido e desta voragem turística? Temos de começar a pensar nisso, senão não vai ser fácil.

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Manel Cruz
© SFPNMC

Manel Cruz: “Criar é uma necessidade quase fisiológica de sobrevivência do ser humano”

Música

A alma inquieta de Manel Cruz já o levou a projectos como os Ornatos Violeta, Foge Foge Bandido, Pluto ou Supernada. Vida Nova é o livro-disco que apresenta na Casa da Música no domingo 28.

Como é que este disco começou?

Não lançava um disco há oito anos e não é que tenha desistido de fazer música, mas ia nadando. Na reunião dos Ornatos estive só naquilo e depois mais um ano ou dois a gastar o dinheiro que ganhei. Senti aquela pressão de fazer alguma coisa e entrei num capítulo depressivo, não me saía nada. Comecei então a vir para o estúdio tipo função pública. Fazia uma música por dia e muitas deitava logo ao lixo. O trabalho que fazes para trás serve para realização pessoal, mas tem um lado perverso: não te vai servir para sempre. Um artista acaba por se sentir sempre no zero. Tens que te reinventar, precisas de encontrar o retorno daquilo que és naquilo que fazes. Comecei a fazer músicas com o ukulele, a regressar às raízes: para fazer alguma coisa, tenho de ser capaz de fazer com pouco.

Tens tido projectos a solo, mas nunca verdadeiramente a solo. Aqui também estás rodeado por músicos.

Eu tenho muitas ideias, mas não são todas boas. O input que outro gajo me vai dar vai ser sempre mais original, porque vai criar um mutante daquilo que eu projectei, que não é dominado por nenhum de nós. Tem um factor de abismo que é muito mais rico. Ter que lidar com outra pessoa dá mais trabalho, mas é muito mais desafiante, porque te coloca numa posição mais frágil.

O disco tem muitos instrumentos, mas apesar disso é pouco denso.

Tinha uma vontade de simplificar. Tentei que as ideias mais simples se afirmassem e sobrevivessem no tempo. Numa época em que há coisas incríveis a acontecer, e muitas delas revolucionárias, sobretudo na experimentação tecnológica, começou a atrair-me a ideia de fazer um disco de canções simples. Muitas vezes neste disco apequenámos as coisas. Queríamos que a força não tivesse a ver com o impacto sonoro, queríamos jogar nas fragilidades, na singeleza.

És um músico inquieto e insatisfeito. De onde vem esse desassossego?

Acho que há uma vontade de criar um espaço alternativo a toda a realidade que sabes que não consegues mudar e à qual tens que te adaptar. Tens que ter um mundo onde possas ser o mais livre possível. Na arte não podes fazer concessões, mas às vezes esse teu espaço criativo é aquilo que te vai dar dinheiro. O mais importante desta coisa criativa é a tua comunicação contigo próprio. É teres um espaço para brincar como quando és puto. Se essa inquietude se resumir à parte criativa, é muito benigna. Quando começas a questionar por que não estás a funcionar socialmente é que as coisas são mais duras. Não consigo imaginar a criação sem inquietude. Agora já começo a perspectivá-la com prazer, com liberdade, sem medo.

O que te motiva hoje para criar?

Há uma parte que tem a ver com uma necessidade quase fisiológica de sobrevivência do ser humano, de criar coisas. Quase como uma droga, algo que te ajude a suportar a existência. Depois há uma outra parte que é mais da vaidade e da aceitação. Se achares que as pessoas só vão gostar de ti porque fazes coisas fixes, é uma merda. Tens que lutar para que as pessoas gostem de ti, mesmo que o teu trabalho não seja especial. E para isso ajudam as fases em que não fazes nada de jeito e percebes que há pessoas que estão-se cagando para isso e que gostam de ti.

Este disco é de certa forma positivo, afirma uma vontade de viver.

Isso foi um reflexo do que eu estava a viver, mas também uma vontade que eu tinha de estar bem e de transmitir isso para os outros. Mas se estás numa fase lixada não podes forçar-te. Tens de tentar ter alguma honestidade. Alguma. Porque toda a honestidade não sei se algum dia um gajo vai conseguir, nem sei se interessa, não sei se alguém quer ouvir as tuas merdas. Ninguém tem paciência para ouvir um gajo ser completamente honesto. Havia pelo menos uma vontade de estar bem. É aquela cena de perceberes que tens mais vida para trás do que para a frente, portanto há sérios riscos de eu já estar mais definido no que já fiz do que no que vou fazer. Já fiz a minha penitência. Apesar de saber que sou egocêntrico, não duvido que preciso dos outros, e que vivo para os outros. Quero ajudar a fazer um mundo mais fixe.

As tuas músicas partem das tuas experiências mas também de observações. Como é que as fazes?

Não sou muito informado do ponto de vista político. Não consigo ler livros, disperso-me, não gosto de ler. Eu sou muito virado para o próprio prazer. Se uma coisa não me dá pica aprender, não me esforço nada. Tenho a minha análise da sociedade que não acho que seja inválida. Sou muito atento às pessoas. Gosto muito de ouvir pessoas que não têm nada a ver com o meio artístico e que dizem coisas completamente reveladoras. O conhecimento é uma coisa global, está em tudo.

Como é que um gajo que não gosta de ler consegue escrever como tu?

Isso é um mito. A sociedade adora cenas absolutas, detesta estar perdida. A maior preocupação deve ser comunicar. Falar é uma forma de escrita, é uma escrita no ar. Fazer música é uma escrita, pintar também. As palavras são coisas ao teu serviço. Não pode haver cerimónia, religiosidade. Tens que as tratar mal porque elas não têm vida, és tu que lhes dás vida.

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