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Joana Guerra editou o álbum 'Chão Vermelho'
Fotografia de June Nash Joana Guerra editou o álbum 'Chão Vermelho'

Joana Guerra: “Vamos fazendo activismo todos os dias”

Chão Vermelho é o nome do novo álbum a solo da violoncelista Joana Guerra. É um disco de empoderamento, num meio onde o papel das mulheres ainda é pouco valorizado.

Por Ana Patrícia Silva
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Com colaborações regulares com nomes como Scout Niblett, Surma, The Alvaret Ensemble, Pop Dell’Arte ou com as Lantana, um sexteto de improvisação livre de formação exclusivamente feminina, o universo sónico de Joana Guerra expande-se ainda mais nas participações em projectos de dança, teatro e cinema. O seu quarto álbum, Chão Vermelho, foi criado e gravado em 2019, “antes do apocalipse”, mas acaba por “casar bem com estes tempos meio obscuros que vivemos”. É um registo a solo, mas com muitas pessoas lá dentro, que tem os seus maiores cúmplices no violino de Maria do Mar, na percussão de Carlos Godinho e no contrabaixo de Sofia Queiroz Orê-ibir. Um disco de empoderamento, num meio musical onde o papel das mulheres é pouco valorizado.

A ideia de regeneração está muito presente neste disco – as flores que brotam do solo seco, as pedras parideiras, a fertilidade em circunstâncias mais inóspitas.
Sim, este Chão Vermelho é uma imagem um bocado sangrada, uma imagem simbólica da terra, mas também do chão enquanto matéria a que nos conectamos e que pisamos. É muito inspirada na zona onde vivo, na aldeia de Outeiro da Cabeça, entre Torres Vedras e o Bombarral. Aqui há muitas fábricas de tijolos, a cor vermelha está muito presente – quando chove, as margens da estrada têm água vermelha, a chuva leva aquele pó, é muito bonito. Depois há espaços com buracos massivos que foram criados para a extracção do barro e que agora estão ali no meio de eucaliptais. Foram abandonados, mas a natureza está a brotar e a regenerar. O disco expande para uma preocupação ecológica que tem a ver com esta destruição, a exploração intensiva da terra, mas também a capacidade de regeneração da natureza e do ser humano – em particular, a questão cíclica das mulheres, da menstruação. O vermelho também se liga a isso, à força anímica da mulher e da natureza, à questão ritualística, ao pagão e a uma certa espiritualidade xamânica.

Este disco tem muito presente a ideia de movimento, tem um lado muito físico e carnal. O que é interessante, porque tens feito muita música em projectos de dança, performance e teatro.
Sim, eu vou resgatar muitas ideias perdidas que ficaram no baú, que estavam a ser criadas para espectáculos. E o movimento está neste lado performativo de tocar. Pensei muito nisso. Como é que seria pensar primeiramente no gesto e não no som que quero obter? O som e o movimento estão interligados, um faz parte do outro, mas é quase uma coisa irracional.

Como é o teu processo de criação?
Muda bastante. Desta vez experimentei fazer uma coisa diferente, mais focada num tempo e num espaço. Nos discos anteriores ia fazendo, construindo e maturando, até chegar o momento de gravar. Aqui já tinha este conceito do chão vermelho que queria trabalhar simbolicamente e sonoramente. Foi um processo como nas artes performativas, de ir para ensaios para depois criar um espectáculo. Fiz uma residência artística, em minha casa... (risos) Mas pronto, foi uma residência artística de dois meses, de Junho a Agosto, e em Setembro de 2019 fui gravar.

Além do violoncelo, tocas outros instrumentos como a guitarra portuguesa e eléctrica, mas não de uma forma óbvia.
Isso foi uma questão que eu coloquei: será que faz sentido dizer que eu toco estes instrumentos? Sim, mas eu não os toco da maneira convencional. A guitarra portuguesa toco com arco e a guitarra eléctrica é quase como um instrumento percussivo, eu estou a percutir nas cordas da guitarra preparada, que eu manipulei.


Neste disco trabalhaste com muitas mulheres.
É propositado.

Os meios da música mais livre e improvisada são...
Principalmente masculinos, sim. Mas não foi um golpe de marketing. (risos) Eu escolhi-as porque as admiro. O mundo da música improvisada é um mundo de rapazes e eles às vezes esquecem-se que também há mulheres a fazer música boa. E se calhar não é por mal, a sociedade é estruturalmente patriarcal e masculinizada. Este é um disco para toda a gente, mas em homenagem às mulheres. E é feminista, mas sem ser uma coisa deliberada.

Tens sentido essa subvalorização e desigualdade ao longo da tua carreira?
Eu sinto muito o machismo impregnado nos processos de trabalho, há sempre uma condescendência. Quando há um grupo grande de homens músicos, nunca se pergunta à mulher a opinião dela. No outro dia estava a ler a Chimamanda Adichie, que diz que a mulher é sempre educada para agradar aos outros – e os homens não. Isso é um problema. A sociedade é machista e a música não foge à regra. Eu vivi várias situações, algumas mais explícitas, outras mais subliminares, que por vezes são as mais perigosas. É uma luta diária.

Como é que as coisas podem mudar?
Os programadores têm que ter isso em conta. Não nos ficarmos só pelo que conhecemos, pelo nosso leque de contactos. Por isso é que é preciso instituir quotas, para abrir a percepção das coisas. E é preciso ter sensibilidade. Há músicas muito boas em Portugal, é só tomar isso em conta e não pensar só nos amiguinhos com quem vão beber cervejas. E depois é uma questão estrutural, por isso vamos fazendo activismo todos os dias. Mostrar que estamos aqui, que temos confiança. Às vezes a confiança fica muito abalada, quando o sistema não é feito para ti. Às vezes fico desmoralizada, frustrada e irritada. Sobretudo irritada. Mas tenho que pensar no bem maior, que é a música. E espero que a música passe essa mensagem. ■

capa Joana Guerra - Chão Vermelho
capa Joana Guerra - Chão Vermelho
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Joana Guerra - Chão Vermelho

4 /5 estrelas

A liberdade de expressão de Joana Guerra é vulcânica. As variadas formas de se exprimir – várias línguas, vários instrumentos, várias formas de tocar esses instrumentos – são cromatismos diferentes de uma só pessoa. Mas a sua performatividade enquanto cantora e instrumentista é também um acto de contenção. Apesar de se rodear de várias pessoas e instrumentos, tem uma sábia gestão do silêncio, das potencialidades expressivas da voz, da poesia, da dramaturgia das cordas e das teclas. No limiar entre a beleza e a estranheza, o corpo tacteia o som. Há um prazer quase sádico em contorcer, arranhar, rasgar e transmutar os instrumentos, na volúpia do violoncelo, no violino ardente, na percussão telúrica. A noção de liberdade que permeia o disco amplifica o seu âmago emocional. Esta música é mágica e magnética, assombrosa e transformadora. ■

Ouvir: Bandcamp / Spotify

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