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JP Coimbra
© DRJP Coimbra

JP Coimbra: “Sou fruto da época em que cresci”

A estreia a solo de JP Coimbra é uma aventura audiovisual pelo Porto. Falámos com ele antes do concerto na Casa da Música, no dia 17 de Dezembro.

Escrito por
Ana Patrícia Silva
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Estávamos habituados a ouvir João Pedro Coimbra como compositor e letrista dos rebuçados pop dos Mesa, a colaborar com bandas como os Três Tristes Tigres, os Coldfinger e os Bandemónio de Pedro Abrunhosa, ou em projectos para teatro, cinema e publicidade. Mas nunca o ouvimos assim. Em VIBRA, o primeiro álbum em nome próprio, explorou a identidade musical de alguns lugares do Porto, com gravações em sítios como os corredores da Casa da Música, a estação de metro do Marquês ou a Fundação Serralves. Estes espaços foram tratados como instrumentos musicais, contribuindo com a sua volumetria para a composição, onde entra um piano, um quarteto de cordas e um grupo coral, entre a música erudita e electrónica. O processo foi filmado pelo realizador Vasco Mendes e será lançado em formato documentário em 2021. Para já, será ouvido pela primeira vez ao vivo na Casa da Música, no dia 17 de Dezembro.

Como nasceu esta ideia de fazer retratos sonoros de locais do Porto?
Nasceu da ideia antiga de que a música é composta tendo em conta o local onde vai ser tocada. Antes de a reprodução mecânica se ter difundido no século XX, os compositores, instrumentos e vozes tinham de ter em conta os locais onde a performance ia decorrer. Nesse sentido, as igrejas, teatros e outros espaços são amplificadores e as suas características acústicas exercem a sua influência naquilo que ouvimos. O objectivo no VIBRA foi levar isso um pouco mais longe, utilizando locais não preparados para gravação e usar essas “anomalias” acústicas no processo criativo.

Porquê estes locais, como foi feita a escolha?
Era necessário escolher locais com uma forte identidade acústica, onde a influência sonora fosse mais marcante. Por outro lado, para que houvesse esse reconhecimento auditivo do espaço em questão, teria de ser num sítio que as pessoas acedam com regularidade, para que através do som produzissem mentalmente essa visualização, o tal retrato sonoro.

Como é que consegues captar a vibração de um espaço físico e transformar isso em música?
Fizemos visitas técnicas aos locais para perceber de que forma os poderíamos captar. Depois, com o [engenheiro de som] João Brandão e a equipa do estúdio Arda, espalhámos microfones em vários pontos, alguns bastante afastados dos músicos, ouvindo assim mais a sala do que eles próprios. O som executado pelos músicos foi-nos devolvido pelas superfícies irregulares, criando artefactos sonoros, ou seja, alterações significativas relativamente ao que estava a ser tocado. Isso foi captado, aproveitado e inserido no resultado final. Alguns temas tiveram de ser alterados devido ao sítio onde foram executados, mas essa influência era desejável e um dos objectivos.  

Quais foram os principais desafios ao fazer um projecto desta dimensão?
Desde logo montar todo o arsenal técnico que envolve esta operação, depois levar músicos e cantores para situações que não são as mais normais, como gravar numa estação de metro às duas da manhã e depois lidar com as condições acústicas desses espaços. Houve alturas de stress, porque tínhamos um calendário muito apertado que envolvia os espaços, músicos e equipas. A preparação foi fundamental, porque não haveria segunda oportunidade.

De que forma é que este projecto te libertou, artisticamente? Para onde te poderá levar?  
Sempre ouvi um pouco de tudo e acho que sou fruto da época em que cresci, onde existia um certo anacronismo musical e uma variedade em canal aberto que te permitia ouvir um pouco de tudo, proveniente de várias épocas. Assim, misturavas não só estilos como séculos, sem dar conta ou pensar muito sobre isso. Gostar de rock, pop, clássica e jazz nunca me pareceu contranatura. Este disco reflecte um pouco isso, encontrei um espaço de manobra e uma linguagem que resulta dessas influências.

O que podemos esperar do concerto na Casa da Música?  
Eu e um quarteto de cordas – Samuel Coelho e Pedro Oliveira nos violinos, Cristóvão Andrade na viola e Carina Albuquerque no violoncelo – vamos recriar o VIBRA com a ajuda do Fred Rompante (luz) e do Vasco Mendes (vídeo). Vamos exibir também imagens do documentário que iremos lançar no próximo ano sobre o making-of de todo o processo deste projecto, que tem sido uma viagem magnífica. ■  

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