Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Porto icon-chevron-right Samuel Úria: “Este pós-apocalipse está a ser um bocado estranho”
Música, Rock, Samuel Úria
Fotografia de Joana Linda Samuel Úria

Samuel Úria: “Este pós-apocalipse está a ser um bocado estranho”

Samuel Úria prepara-se para apresentar o novo disco ‘Canções do Pós-Guerra’ esta quarta-feira, 7 de Outubro, na Casa da Música. Falámos com ele.

Por Luís Filipe Rodrigues
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No seu novo álbum, Samuel Úria canta Canções do Pós-Guerra. Que guerra é essa? “Nenhuma em específico”, segundo ele. Há muitos tipos de guerra e cabem todos aqui. Depois da edição do disco e antes do concerto de apresentação no Porto, na quarta-feira 7, falámos sobre a música e o acto de a tocar durante a pandemia, mas também sobre a passagem do tempo e o fim do mundo.

Vamos começar pelo princípio. Qual é a guerra a que aludes no título deste disco?
Nenhuma em específico. A palavra “guerra” tem uma certa ambiguidade, cobre um grande espectro lexical. Pode ser o conflito armado literal, mas também uma guerra dos sexos, uma guerra geracional, um conflito interno. E o mesmo se aplica ao pós-guerra, que pode ser um momento de esperança, de desespero, de luto ou apenas de rescaldo.

E estas Canções do Pós-Guerra reflectem essa ambiguidade.
Sabes que escolhi o título antes de ter a maioria das canções feitas. Achei que não só a guerra, mas a própria noção de pós-guerra me poderia fazer escrever canções diversas e metê-las todas depois debaixo do mesmo guarda-chuva, da mesma sombrinha.

Há momentos de inquietação e fúria, mas a maior parte das canções é pesarosa, quase fúnebre. Muitas parecem ser sobre olhar para trás e não gostar do que se vê.
Há um desencantamento que quis trazer para este disco, que muitas vezes está presente nas minhas canções, embora normalmente esteja mais disfarçado. Neste quis que não estivesse só nas letras, que fosse reflectido nos arranjos. Tem a ver com esse olhar de que falas, que não é pessimista, que é realista sobre o passado, mas que se torna de alguma forma pessimista quando projectado para o que vem a seguir. Os dados que recolho do passado ou do presente não me dão a ideia de um futuro desafogado.

Em que sentido?
Estou ciente de que há clivagens na sociedade, há facciosismos, há extremismos, há coisas que estão a crescer no meu país que eu não esperava ver no meu tempo de vida. E o contexto de crise, de pandemia, com o qual não contava quando escrevi este disco no ano passado, agudizou aquilo que já estava a observar. Em vez de percebermos que temos de estar todos juntos para lutar contra isto, a pandemia agudizou as tais clivagens sociais.

Esta necessidade de olhar para trás e questionar não só o que foi feito, mas o que ainda se vai fazer, é uma consequência de teres chegado aos 40 anos, à meia idade?
Quando fiz 40 anos não me senti muito mais velho do que era quando tinha 38 ou 39, mas se calhar o arredondar do número dos 40 levou-me a fazer o rescaldo de uma década e a preparação para uma década nova. Porque há ali uma efeméride que é mais clara.

E não foste só tu que mudaste de década, foi o mundo. Entrámos nos anos 20.
Acho que, talvez por isso, existe uma reflexão que primeiro é pessoal e depois deixa de o ser. Começas a fazer uma revisão das décadas e dos grandes acontecimentos e a pensar no que não se fez – sei lá – desde o 11 de Setembro de 2001. Parece que o mundo acabou nesse dia, mas pelos vistos ainda não se reformulou. E este pós-apocalipse está a ser um bocado estranho.

Agora parece que está a acabar outra vez.
Exactamente. É estranho pensar na passagem do tempo e perceber aquilo que não foi feito, aquilo que está prestes a acontecer e é inevitável... Também é engraçado ver o quanto o mundo mudou e como até as mudanças para melhor trazem sempre um caudal venenoso. Há muita coisa que está a irrigar os terrenos à volta e está a dar frutos perigosos. E acho que a mudança de década, não só minha como do próprio mundo, convida a esse tipo de reflexões. Há um peso demasiado grande nos números redondos.

Escreveste o disco no ano passado. Quando tinhas pensado lançá-lo, originalmente?
Em 2019. A minha ideia era que este discocontemplasse também as canções do Marcha Atroz, o meu EP de 2018, que fosse maior. As primeiras canções que escrevi ainda estavam bastante ligadas a essas, em termos conceptuais. Só que depois por questões de calendário e porque, felizmente, ainda consegui tocar bastante em 2019, o disco foi sendo adiado. Comecei a gravá-lo no final do Verão, tive mais uma sessão em Dezembro, outra ainda no início deste ano, e a edição estava projectada para Março ou Abril de 2020.

Não achas estranho estares a lançar este disco só agora, num mundo tão diferente?
É estranho, mas nem tanto por estar desconexo da realidade. É o contrário. De repente tornou-se mais actual do que aquilo com que tinha contado. E isso também me traz quase um amargo de boca, por pensar que não será um disco de escape para as pessoas que estão a precisar de ouvir música como escape. Possivelmente, se tivesse de projectar um disco para 2020, depois de saber o que se iria passar, teria projectado um bem diferente.

Já deste um par de concertos neste mundo novo. Como têm sido essas experiências? Concertos com distância, com máscaras, sem cerveja na mão.
Isso afecta-te ao início, depois a coisa acaba por se normalizar. E a fome de palco ajuda a que seja a última coisa em que pensas. Queres é tocar, dar um espectáculo para os que estão. Não vais pensar nos lugares vazios, nem nas máscaras. Vais é pensar que não sabes quando é que podes voltar a fazer isto, e vais aproveitar ao máximo.

Estás a dizer que não sabes quando é que vais poder voltar a fazer isto, e é verdade. Como é que é essa insegurança, essa incerteza, te afecta a ti que vives disto?
Vou ser absolutamente sincero, e se calhar vou parecer a avestruz a esconder a cabeça debaixo da areia, mas neste momento essa incerteza e a ideia de que pode tudo acabar está sobretudo a ser canalizada para dar tudo nos próximos concertos. Estou a fazer muito poucos planos de contingência para a eventualidade de isto voltar tudo a cair outra vez. Tenho que dar o melhor no presente e isso obriga-me a que não esteja já tremendamente preocupado e cabisbaixo por causa da incerteza do futuro.

És um homem religioso. A tua fé ajuda-te a lidar melhor com essa incerteza?
Talvez. Embora eu seja de uma religião [baptista] que, em muitas coisas, é absurdamente racional e que não nos prepara para lidar com facilidades, pelo contrário. Crescemos com a ideia de que não podemos esperar que as coisas corram bem. Tens é de saber lidar com elas. Não é tanto o optimismo que é inculcado pela nossa religião, mas a resiliência.

Casa da Música (Porto). Qua, 7, 21.30. 18€.

Samuel Úria – Canções do Pós-Guerra

Samuel Úria - Canções do Pós-Guerra
Samuel Úria - Canções do Pós-Guerra
© DR

4 /5 estrelas

A procura da canção perfeita é um exercício de depuração. De a descarnar à essência, para sobreviver à erosão do tempo. Na música de Samuel Úria são as letras e as melodias que mandam, mesmo quando tocadas com tensão e intensidade, na tesão da electricidade. A arte da contenção faz recuar os arranjos para provar o sabor das palavras. Mas a simplicidade não o diminui. Quando despe uma canção, a riqueza da escrita sobressai, encadeada em leituras múltiplas. Num moinho de alegorias e parábolas, deixa-se emaranhar em labirintos líricos para esconder a nudez da sua vulnerabilidade. O esforço de desembrulhar as suas letras vale sempre a pena. Entre a introspecção e a intervenção, num olhar desconfiado e desesperado sobre o que nos rodeia, manda sermões ao mundo, mas também canta para a luz que um dia surgirá ao fundo do túnel. Acredita na potência emotiva e no poder subversivo do rock'n'roll. Usa a guitarra eléctrica como instrumento de combate, para apontar o dedo e chamar à acção – troca-a pela guitarra acústica quando navega e naufraga no seu íntimo interior. Seguro e sereno, sobrevivendo nos escombros, desenconchando o coração. ■ Ana Patrícia Silva

Mais entrevistas:

Selma Uamusse
© Luis S. Tavares

Entrevista a Selma Uamusse

Música

Ela ilumina. Lembra a magia de uma canção, de fazer acreditar num mundo melhor, com mais amor. Selma Uamusse lançou em Julho passado o seu segundo registo em nome próprio, Liwoningo, que significa luz em chope, uma língua tradicional de Moçambique, o seu país natal. É um disco que acentua o património imaterial africano, mas que se mistura no mundo. 

 

O teu novo disco é um raio de luz. Onde é que encontras essa luz e esperança nesta altura?

Na realidade, este raio de luz que é o Liwoningo tem esta intenção já há algum tempo. Quando comecei a compor o disco, estava longe de imaginar que iríamos passar por uma pandemia e que viveríamos estes tempos tão estranhos, tão cinzentos. Mas para mim já era, de alguma forma, um pouco sintomático o modo como nós nos andávamos a tratar uns aos outros e ao planeta. Eu sou uma pessoa que me nutro muito da esperança e da alegria, mas em 2018, quando comecei a trabalhar neste disco, percebi e comecei a sentir que, apesar do avanço tecnológico, das grandes economias, do aumento do poder de compra, do aumento da esperança média de vida, da medicina avançada, havia também sintomas antagónicos e que neste desenvolvimento todo continuávamos a ter situações de guerra, de fome extrema, de preconceito, de ressurgimento de movimentos extremistas. E então senti uma necessidade de falar sobre sermos luz na vida uns dos outros, de não estarmos indiferentes às situações pelas quais os outros estão a passar, como os distúrbios mentais, que são também um assunto mito na ordem do nosso dia. Essa luz e essa esperança eu encontro obviamente na minha fé, mas encontro também nas pessoas que estão à minha volta e naquilo que eu considero que é o nosso poder transformador da sociedade, quando encontramos o propósito pelo qual nós vivemos.

 

O que é que podemos aprender num tempo de adversidade como este? Como gostarias que o mundo se transformasse após a pandemia?

Acho que no início da pandemia todos sentimos algo muito universal – acho que, pela primeira vez, as dores dos pobres eram as dores dos ricos, as dores dos mais velhos eram as mesmas dores dos mais novos. De alguma forma, esta pandemia tornou as desigualdades um pouco mais esbatidas. Obviamente que quem tem maior poder para ultrapassar as adversidades, e tem acesso a cuidados de saúde, viverá esta pandemia de uma forma completamente diferente de quem não tem. No entanto, acho que, se calhar pela primeira vez a nível global, o medo sentido por toda a gente nestas circunstâncias se tornou um denominador comum.

O que eu gostaria realmente é que esta pandemia nos trouxesse esse denominador comum em que somos todos muito mais parecidos e estamos todos muito mais próximos do que aquilo que muitas vezes queremos acreditar. Temos vivido de uma forma muito auto-suficiente, muito individualista, para a nossa espiritualidade, para o nosso sucesso profissional, para a nossa família, as nossas coisas, e sem dúvida que esta pandemia veio trazer esse sentido de percebermos que há males que podem afectar todos. Obviamente não terão as mesmas consequências, mas há coisas que nos podem afectar a todos.

Naquilo que diz respeito à minha área da música e da cultura, foi muito clara a fragilidade com que os trabalhadores da indústria musical estão expostos, principalmente as pessoas que trabalham na área do lazer, do entretenimento e da cultura, foi muito evidente a fragilidade que existe na nossa profissão. E uma das coisas que eu gostaria que esta pandemia trouxesse de novo seria um maior respeito, uma maior atenção, uma maior preocupação e mais medidas que possam de alguma forma proteger um bem que é imaterial, que é a cultura, a música. Foi provavelmente um dos maiores alimentos neste tempo todo em que estivemos fechados em casa. A minha esperança é que o mundo se torne mais consciente e menos indiferente e que em particular na área da cultura possa haver maior apoio, maior respeito e maior atenção àqueles que cuidam da nossa alma.

 

Para uma artista que gosta de viver um concerto no meio do público, com muita entrega física e emocional, como é que estás a lidar com os distanciamentos nos concertos ao vivo?

Muito difícil para mim que sou uma pessoa física, que gosta de tocar as pessoas, que gosto de me aproximar, gosto de as sentir. Uma das principais razões pelas quais eu passo sempre do palco e dirijo-me até às pessoas é para esbater aquela visão que as pessoas têm do artista lá no palco, distante e inatingível. Eu gosto muito de fazer esse movimento para com o público, no sentido de agradecer a sua presença, no sentido de o conhecer melhor e mais de perto. Tem sido um desafio. Por outro lado, como qualquer desafio, também nos traz uma nova forma de conquistar as pessoas através do olhar – porque o olhar felizmente ainda não foi tapado pela máscara –, de falar um pouco mais aprofundadamente daquilo que é a minha mensagem e de sentir que as pessoas, pelas limitações que têm, estão mais atentas.

Eu acho que tem sido uma experiência muito boa, porque depois deste tempo em que estivemos em casa, todos nós, músicos, técnicos e público, estamos ávidos de momentos de entrega, de momentos em que temos esta comunhão musical. Obviamente é um tempo de adaptação, mas pelo menos os concertos estão a acontecer e isso para mim é muito bom. E a minha entrega emocional e até física continua a ser muito grande. Se calhar neste momento não posso tocar com as mãos, mas gosto de acreditar que continuo a tocar com o coração. E farei sempre música para o corpo, para dançarmos, para a alma, para nos emocionarmos, mas para o espírito também, para nos podermos elevar a um nível um pouco mais elevado.

 

Moçambique ainda é um país desconhecido para muitos portugueses. O que é que gostavas que os portugueses soubessem sobre Moçambique?

Moçambique é um país muito desconhecido para os portugueses e não só. Moçambique é a chamada "pérola do Índico" e eu acho que é realmente uma pérola que está bem escondida lá dentro da concha. Eu gostava muito, e tem sido um dos meus objectivos, não necessariamente ser embaixadora de Moçambique, mas deixar pelo menos alguma curiosidade. Moçambique tem pessoas muito especiais, é um país muito diversificado no que diz respeito às etnias, às culturas, é muito provavelmente um dos países onde eu mais vi um melting pot de pessoas de diferentes etnias, há uma miscelânea muito especial que faz com que haja um respeito e uma honra muito grande. Acho que essa é uma das grandes belezas de Moçambique – sem esquecer as paisagens, que é daquilo que as pessoas mais ouvem falar, das praias, das áreas florestais.

Mas há algo que eu tenho tentado trabalhar, definir e explorar que é este lado do património cultural e do património musical. Temos muitos tipos de dança, muitos tipos de ritmos, há uma riqueza enorme nas polifonias, nas polirritmias, temos muitas línguas oficiais, sem falar nos dialectos, e isso traz uma enorme diversidade a um povo que é relativamente discreto, mas quanto a mim muito especial, muito bondoso. E que tem conseguido ultrapassar dificuldades gigantes como fome, secas, cheias, ciclones, guerras, de uma forma muito honrada, mas sempre a olhar para o futuro com muita esperança.

 

O racismo começa a ser mais mediatizado, mas sempre existiu e sempre foi silenciado. Como é que tem sido a tua vivência como mulher negra em Portugal?

Vivo em Portugal desde 1988 e durante muito tempo sentia aquele racismo disfarçado, das pessoas que sempre me consideraram a preta, mas diferente, a preta especial, a preta que cheira bem, a preta que não rouba, a preta que fala bem. E eu fico muito contente que neste momento o racismo seja, não necessariamente mediatizado, mas que esteja cada vez mais exposto. Para pessoas que não têm tido a sensibilidade de acreditar que existe racismo em Portugal – porque existe –, o que me parece é que falamos de uma questão que durante muito tempo era uma espécie de hemorragia interna que não era visível para toda a gente e que neste momento está exposta. E, como qualquer fractura exposta, ela precisa de ser tratada e de ser sarada. Quando temos uma doença, nós precisamos de a diagnosticar e de saber o que aconteceu e o que está por detrás. Esta não é uma questão da moda – porque temos um movimento Black Lives Matter, e ainda bem que existe, porque cria maior sensibilização e maior consciencialização –, mas estamos a falar de um problema que existe não só na Europa mas também em Portugal, derivado também de todo o processo dos “Descobrimentos”, da escravatura, da colonização, e que eu tenho vivido na pele de muito perto, de várias formas.

Passei por imensas situações de preconceito e de racismo claro e evidente. Obviamente não encerro a minha existência só enquanto mulher negra e emigrante e na diáspora, mas isso tem criado condicionantes para maior dificuldades em determinadas áreas. Mas tal como essa etiqueta, também poderia ter outras etiquetas que não têm facilitado a minha convivência, mas fico honestamente muito feliz que haja espaço para nos escutarmos uns aos outros, para nos ouvirmos e para percebermos que esta ferida tem de ser sarada. E ela só pode ser sarada se for falada, discutida e tratada com o carinho que deve ter.

 

O que é preciso para Portugal reconhecer que é um país racista?

Reconhecer que Portugal é um país racista é o mesmo que reconhecer que existe racismo em Portugal. Para algumas pessoas, a expressão “Portugal é um país racista” é uma frase muito ofensiva e efectivamente as palavras têm muito poder e ninguém quer abraçar isso de ânimo leve. Há sempre uma sensação de desconforto – se eu não me sinto racista, por que é que eu hei-de dizer que Portugal é um país racista? Mas quando existe racismo, isso torna-se parte da identidade de um país.

Acho que é muito importante reconhecer que não somos todos tratados da mesma forma. As oportunidades não são iguais e existe ainda uma mentalidade não descolonizada por parte de muitas pessoas que ainda vêem os pretos como os serventes, os lacaios, aqueles que estão numa posição inferior, que falam menos bem, que precisam de ser educados pelo branco. Eu acho que é preciso fazer um reconhecimento de que existe uma situação histórica por detrás que nos faz ter um racismo que está de tal modo estruturado na nossa mente e na nossa forma de estar que já o tomamos por normal.

Um dos maiores desafios é quando temos que nos colocar numa posição que nunca vivemos. Obviamente que não podemos fazer isso assim num clique, mas podemos parar, pensar, escutar. Ouvir quem tem passado por racismo e não partir do pressuposto de que a comunidade negra se auto-vitimiza e que acha sempre que tudo é racismo. Porque efectivamente muitas vezes nos temos silenciado enquanto comunidade negra e neste momento precisamos de falar. Precisamos de falar das dores que temos sentido, nas dificuldades em encontrar emprego, na dificuldade de enviar um currículo com fotografia a pensar que isso irá tirar oportunidades, nas dificuldades em coisas tão simples de ser adolescente, como saber que se calhar não vais entrar numa discoteca por ser negro.

É preciso falar, é preciso ouvir. É tempo de as pessoas ouvirem quem tem passado por situações de racismo e entenderem que não são só os outros, mas que a nossa mentalidade ainda não está completamente descolonizada. Isso faz parte da história e é importante reconhecer que a história moldou a nossa forma de pensar.

E temos que mudar essa mentalidade, essa forma de pensar. Ignorar e dizer que não há racismo, que não somos racistas, não irá mudar a forma como a sociedade está neste momento. 

David Bruno
© Renato Cruz Santos

Entrevista a David Bruno: “Portugal é uma mina de ouro”

Música Portuguesa

Conhecemos David Bruno sobretudo como produtor (do Conjunto Corona a PZ), mas nos seus discos a solo revelou ser um mirabolante contador de histórias das zonas esquecidas de Portugal. Depois de se debruçar sobre Vila Nova de Gaia, criou um álbum visual – para ver no YouTube – sobre a zona raiana da Beira Alta e Trás-os-Montes, mas dedicado a todas as aldeias do Portugal interior. Em Raiashopping, foi à terra dos avós para prestar homenagem ao Portugal dos cafés com cheirinho, dos enchidos, das festas de espuma, dos emigrantes, das tainadas e dos campeões que bebem minis no café em tronco nu nos dias de calor. Falámos com ele antes dos concertos de apresentação em Lisboa (5 de Setembro), no Porto (12 de Setembro) e em Braga (18 de Setembro).

 

De que forma é que a pandemia te afectou e como é que a música te ajudou nesta altura?
A minha música vive da observação de banalidades (consideradas pela maioria como tal, mas não para mim) do nosso Portugal. Fechado em casa não observo nada, por isso, em termos criativos, o isolamento resultou em criatividade nula. Deu-me, no entanto, muito tempo para trabalhar em coisas para as quais normalmente não teria tempo – tarefas menos criativas, entenda-se.

Os teus discos versam sobre universos muito particulares. Surpreendeu-te a forma como as pessoas abraçaram a tua música desde o primeiro disco?
Surpreendeu, porque nunca tive expectativas, mas fiquei muito contente por perceber que as pessoas conseguem ver a beleza dos pequenos detalhes que eu abordo no meu trabalho. Não estou sozinho e isso deixa-me muito feliz. É o triunfo do banal e do carinho pelas pequenas coisas que normalmente são ignoradas. É a prova do potencial da nossa cultura, da nossa gente, dos nossos lugares.

Tens feito discos sobre vivências e lugares que raramente têm este protagonismo. Portugal ainda tem muito por explorar através da música?
[Portugal] é uma mina de ouro, um manancial inesgotável e um dos países com gente mais carismática do mundo – apercebi-me disso quando passei cerca de ano e meio a viajar mais pelo mundo há uns anos. No entanto, eu só abordo temas dos quais tenho propriedade para falar. Mas, mesmo assim, tenho matéria-prima infinita.

Achas que a tua música tem ajudado as pessoas a conhecer melhor o seu próprio país?
Eu tinha dito antes de sair o meu último disco que, se conseguisse convencer duas ou três pessoas a olharem para as terras dos seus pais e avós de outra forma e dar-lhes vontade de lá irem, seria uma vitória pessoal e seria um homem muito feliz, e de facto tenho recebido muitas mensagens de pessoas a dizerem-me isso! Cada vez que vejo uma mensagem dessas, fico de coração cheio. O mesmo se aplica aos sítios mencionados em discos anteriores, sobre Gaia – recebo muitas fotos de pessoas que vão a esses sítios porque ouviram falar deles na minha música. Isso deixa-me muito feliz, porque é uma alegria partilhada: eu fico feliz, as pessoas que gostam de minha música ficam felizes e os donos dos locais ficam felizes. Isso é muito bonito de conseguir através de algo como a música.

Os tempos de infância que passaste na zona raiana da Beira Alta e Trás-os-Montes tiveram influência na pessoa e no artista que és hoje?
Tiveram, muita. Os beirões e os transmontanos são mais puros (menos polidos e mais transparentes, entenda-se) que as pessoas das grandes cidades do litoral. Vivem mais as suas emoções (boas e más), para além de que se nota que a sua cultura, mística, tradições e crenças vêm de muito mais de trás – há até um certo paganismo muito claro em muitas tradições do nordeste. O contacto com esta forma de estar, passada para mim pelos meus avós, formou muitos aspectos do meu carácter. O principal talvez seja o folclore e o gosto por contar histórias às outras pessoas. Afinal de contas, é disso de que a minha música trata: contar histórias. Tenho saudades das horas que passei à lareira a ouvir superstições, lendas e histórias, sempre as mesmas – na altura até me fartava, mas hoje tenho saudade. E apercebendo-me da sorte que tive ao receber esse legado, espero poder ter hipótese de perpetuá-lo noutros contextos e ter a sorte de ter pessoas a ouvirem-me.

Como é que encaras os avanços do fascismo em Portugal? Tens receio que o teu amor ao povo e à cultura portuguesa possa ser confundido com essas ideologias?
Tenho muito receio e já fiz questão de distanciar a minha defesa da portugalidade dessa portugalidade – que, para dizer a verdade, me dá asco. Eu não defendo o país em si, nem os portugueses numa lógica de raça, superioridade ou algo do género. Eu defendo o nosso carisma, até os nossos pequenos defeitos, pormenores “micro” da nossa cultura, e para mim esses movimentos nada têm a ver com a maioria dos portugueses nem com a cultura que acabei de referir. Acho que genuinamente o povo português pode até ter por vezes mau feitio, ser fanfarrão, inapropriado, até mesmo “cringe”, mas acredito que a grande maioria de nós tem um bom coração. Retenho, como exemplos, o piloto Mário Patrão, que no Paris Dakar desistiu de uma prova para dar apoio a um piloto holandês que tinha tido um acidente e estava caído, tendo já vários pilotos passado por ele e ignorado a situação. Ou Carlos Pinto, o enfermeiro português que ficou para trás para socorrer as vítimas de esfaqueamento no atentado em Londres há uns anos. Ou o Soldado Milhões. Ou o Aristides de Sousa Mendes. Enfim. Aposto que todos eles se fartaram de dizer mal da vida e uns poucos de palavrões, reclamaram, disseram que os outros é que eram espertos por ter ignorado e pensado em si, mas foram bons e altruístas para os outros. Para mim, isto é ser português e é disto que eu me orgulho. Do Jorge Jesus, das conferências de imprensa do Carlos Carvalhal na Inglaterra. Esta “boa” portugalidade sente-se e dá para apalpar o amor, o carinho, a bondade destas pessoas e dos seus actos. Tenho muito orgulho nisto e espero que meia dúzia de pessoas não o estraguem.

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David Fonseca
© DR

David Fonseca: "A música sempre foi um porto seguro"

Música

David Fonseca já soma 17 anos de carreira a solo, mas nunca lançou um best of. Como é que uma pessoa nada dada a retrospectivas decide, de repente, lançar uma compilação de lados B e raridades? A culpa foi da pandemia, que nos fechou em casa e nos forçou a olhar para dentro.

Durante a quarentena, David Fonseca mergulhou a fundo no seu arquivo, como nunca o tinha feito. “Na realidade, se não fosse o confinamento talvez este disco não tivesse acontecido, mas os discos são sempre fruto das circunstâncias e tempo onde vivem”, explica. “Ao fazê-lo, descobri estas canções que, apesar de terem sido totalmente finalizadas, estavam espalhadas por todo o lado de forma pouco acessível. De alguma forma, acabam por mostrar um lado mais invisível do meu trabalho como músico, uma espécie de lado B da minha carreira como compositor.”

Lost and Found – B Sides and Rarities reúne momentos mais atípicos, experiências e abordagens diferentes. Alguns mais experimentais, outros mais inesperados, entre o português e o inglês, num total de 16 canções que escaparam aos discos que lançou, mas que era importante assinalar de forma mais séria na sua discografia. Desenterrar estas raridades foi regressar ao passado. “Descobri que nem sempre tomo as melhores opções quando decido descartar-me de algumas canções! Acho que consigo perceber o meu grau de exigência a cada disco, é estranho para mim que algumas não fossem vistas como uma opção na altura e que acabassem por sair dos discos principais.”

Desde os Silence 4 que David Fonseca percebeu que as suas tempestades emocionais ressoam de forma forte nas outras pessoas. Ele escrevia para si próprio, mas acabaria por descobrir que não estava sozinho nas suas inquietações líricas. Tudo o que atravessamos, alguém, algures, já atravessou também. As nossas dores e alegrias são o que nos une, por isso, o melhor que podemos fazer é olhar uns pelos outros.

A música foi um elemento importante para lidar com o período de confinamento, entregando-se aos impulsos imaginativos. “Explorei de forma mais aprofundada alguns instrumentos e técnicas, estudei novas formas de gravação e fiz alguma música. A música sempre foi um porto seguro para mim e neste caso não foi diferente. Fazer e ouvir música levam-me para um universo distante e próximo ao mesmo tempo, um universo onde não existem tantas regras como aquelas que nos regem em tempo de pandemia.”

Apesar disso, escrever canções é “um misto de sentimentos contraditórios”. “Por um lado, há o prazer da descoberta de algo novo, a ideia de construir uma canção que ainda não existe. Por outro, a frustração que acompanha esse processo, cheio de falhanços e caminhos sem saída. Mas uma vez que se aprende a lidar com a parte mais difícil da criação, vale sempre a pena.”

O meio musical (e cultural, em geral) é um dos que mais tem sofrido com os efeitos da pandemia. “Preocupa-me a precariedade de toda a área cultural. A cultura é uma das bases essenciais da identidade de um povo e é urgente olhar para esta área como algo absolutamente fulcral para o nosso desenvolvimento. Acredito que temos muito para dar e muito que crescer, mas esta área tem de ser olhada com a importância e destaque que merece pelos governos que nos regem.”

Depois de ter deixado a digressão Radio Gemini a meio, com dezenas de espectáculos cancelados, ainda vamos ter de esperar algum tempo para ver David Fonseca ao vivo e sem ecrãs pelo meio. “Espero voltar aos palcos o mais rapidamente possível. Vamos ter de conviver com esta situação de pandemia durante algum tempo e teremos de nos adaptar a esta nova realidade”, diz. Mas será “em breve, muito em breve”.

Manel Cruz
© SFPNMC

Manel Cruz: “Criar é uma necessidade quase fisiológica de sobrevivência do ser humano”

Música

A alma inquieta de Manel Cruz já o levou a projectos como os Ornatos Violeta, Foge Foge Bandido, Pluto ou Supernada. Vida Nova é o livro-disco que apresenta na Casa da Música no domingo 28.

Como é que este disco começou?

Não lançava um disco há oito anos e não é que tenha desistido de fazer música, mas ia nadando. Na reunião dos Ornatos estive só naquilo e depois mais um ano ou dois a gastar o dinheiro que ganhei. Senti aquela pressão de fazer alguma coisa e entrei num capítulo depressivo, não me saía nada. Comecei então a vir para o estúdio tipo função pública. Fazia uma música por dia e muitas deitava logo ao lixo. O trabalho que fazes para trás serve para realização pessoal, mas tem um lado perverso: não te vai servir para sempre. Um artista acaba por se sentir sempre no zero. Tens que te reinventar, precisas de encontrar o retorno daquilo que és naquilo que fazes. Comecei a fazer músicas com o ukulele, a regressar às raízes: para fazer alguma coisa, tenho de ser capaz de fazer com pouco.

Tens tido projectos a solo, mas nunca verdadeiramente a solo. Aqui também estás rodeado por músicos.

Eu tenho muitas ideias, mas não são todas boas. O input que outro gajo me vai dar vai ser sempre mais original, porque vai criar um mutante daquilo que eu projectei, que não é dominado por nenhum de nós. Tem um factor de abismo que é muito mais rico. Ter que lidar com outra pessoa dá mais trabalho, mas é muito mais desafiante, porque te coloca numa posição mais frágil.

O disco tem muitos instrumentos, mas apesar disso é pouco denso.

Tinha uma vontade de simplificar. Tentei que as ideias mais simples se afirmassem e sobrevivessem no tempo. Numa época em que há coisas incríveis a acontecer, e muitas delas revolucionárias, sobretudo na experimentação tecnológica, começou a atrair-me a ideia de fazer um disco de canções simples. Muitas vezes neste disco apequenámos as coisas. Queríamos que a força não tivesse a ver com o impacto sonoro, queríamos jogar nas fragilidades, na singeleza.

És um músico inquieto e insatisfeito. De onde vem esse desassossego?

Acho que há uma vontade de criar um espaço alternativo a toda a realidade que sabes que não consegues mudar e à qual tens que te adaptar. Tens que ter um mundo onde possas ser o mais livre possível. Na arte não podes fazer concessões, mas às vezes esse teu espaço criativo é aquilo que te vai dar dinheiro. O mais importante desta coisa criativa é a tua comunicação contigo próprio. É teres um espaço para brincar como quando és puto. Se essa inquietude se resumir à parte criativa, é muito benigna. Quando começas a questionar por que não estás a funcionar socialmente é que as coisas são mais duras. Não consigo imaginar a criação sem inquietude. Agora já começo a perspectivá-la com prazer, com liberdade, sem medo.

O que te motiva hoje para criar?

Há uma parte que tem a ver com uma necessidade quase fisiológica de sobrevivência do ser humano, de criar coisas. Quase como uma droga, algo que te ajude a suportar a existência. Depois há uma outra parte que é mais da vaidade e da aceitação. Se achares que as pessoas só vão gostar de ti porque fazes coisas fixes, é uma merda. Tens que lutar para que as pessoas gostem de ti, mesmo que o teu trabalho não seja especial. E para isso ajudam as fases em que não fazes nada de jeito e percebes que há pessoas que estão-se cagando para isso e que gostam de ti.

Este disco é de certa forma positivo, afirma uma vontade de viver.

Isso foi um reflexo do que eu estava a viver, mas também uma vontade que eu tinha de estar bem e de transmitir isso para os outros. Mas se estás numa fase lixada não podes forçar-te. Tens de tentar ter alguma honestidade. Alguma. Porque toda a honestidade não sei se algum dia um gajo vai conseguir, nem sei se interessa, não sei se alguém quer ouvir as tuas merdas. Ninguém tem paciência para ouvir um gajo ser completamente honesto. Havia pelo menos uma vontade de estar bem. É aquela cena de perceberes que tens mais vida para trás do que para a frente, portanto há sérios riscos de eu já estar mais definido no que já fiz do que no que vou fazer. Já fiz a minha penitência. Apesar de saber que sou egocêntrico, não duvido que preciso dos outros, e que vivo para os outros. Quero ajudar a fazer um mundo mais fixe.

As tuas músicas partem das tuas experiências mas também de observações. Como é que as fazes?

Não sou muito informado do ponto de vista político. Não consigo ler livros, disperso-me, não gosto de ler. Eu sou muito virado para o próprio prazer. Se uma coisa não me dá pica aprender, não me esforço nada. Tenho a minha análise da sociedade que não acho que seja inválida. Sou muito atento às pessoas. Gosto muito de ouvir pessoas que não têm nada a ver com o meio artístico e que dizem coisas completamente reveladoras. O conhecimento é uma coisa global, está em tudo.

Como é que um gajo que não gosta de ler consegue escrever como tu?

Isso é um mito. A sociedade adora cenas absolutas, detesta estar perdida. A maior preocupação deve ser comunicar. Falar é uma forma de escrita, é uma escrita no ar. Fazer música é uma escrita, pintar também. As palavras são coisas ao teu serviço. Não pode haver cerimónia, religiosidade. Tens que as tratar mal porque elas não têm vida, és tu que lhes dás vida.

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Capicua
© João Saramago

Capicua: "O Porto não está a defender os portuenses”

Música

Há uma música em que dizes para aproveitarmos este disco porque pode ser o último…

Isso tem a ver com o facto de os discos estarem a morrer. É um bocado ingrato fazer maratonas de dois ou três anos de trabalho para depois aquilo ser consumido na voragem da novidade. Tens que competir no meio do ruído das redes sociais, numa arena de vaidades, com o que te é mais especial e precioso. Será que vale a pena? Se puser uma foto do meu almoço ou do meu bebé, tenho mais likes do que com a música que fiz com as minhas emoções e pensamentos. Vês muitos músicos com problemas de depressão e suicídio porque é muito ingrato teres que “vender” a tua arte num mercado em que se vende de tudo. É um bocado perverso, parece que tens de perder a tua privacidade para ganhar a atenção das pessoas.

Já tens mais de 15 anos de carreira. Achas que tens tido o reconhecimento devido?

Por um lado sim, por outro não sei. Muitas pessoas começaram a ouvir hip-hop porque a minha música chegou a públicos diferentes. Ter pessoas de diferentes gerações nos meus concertos foi uma prova de que consegui essa transversalidade. Mas dentro do Capicua acaba de editar ‘Madrepérola’, um disco que explora um lado mais solar e que coincidiu com a sua primeira gravidez. Ana Patrícia Silva conversou com ela sobre ser mãe, mulher e rapper num mundo pouco amigo das mulheres. João Saramago iluminou-a com a luz do Porto. “O Porto não está a defender os portuenses” entrevista A Capicua hip-hop houve momentos em que não tive esse reconhecimento. Acho que uma parte do público e dos meus pares não se identifica comigo nem com o estilo de rap que eu faço, mais poético, mais político-social. Quanto mais longe cheguei, menos próxima estive desse reconhecimento. Por outro lado, há muita gente que percebe que andei a mostrar que é possível uma mulher ter uma carreira longeva no hip-hop.

A história do hip-hop em Portugal mostra que, além de haver poucas mulheres a fazer rap, são poucas as que conseguem resistir no tempo.

Porque é difícil, de facto. Tens que quebrar a barreira da falta de auto-estima. Para uma mulher é mais pesado, culturalmente, ter a segurança de dizer que o meu trabalho é válido, que vale a pena mostrá-lo ao mundo. É preciso contrariar uma socialização que nos atira para o auto-boicote permanente.

Somos ensinadas desde pequenas a não acreditar nas nossas capacidades.

Sim, e de nos valermos não dos nossos talentos, mas do nosso aspecto físico. Somos mais estimuladas para casar e ter filhos do que para ter uma carreira. É uma corrida de obstáculos, é preciso resistência.

Como é que conseguiste ter essa resistência?

Pela minha personalidade, pelos meus pais, pela educação que tive, pela militância política e associativa na adolescência. Acho que fui sempre estimulada a ter espírito critico, a valer-me dos meus talentos, a ser uma pessoa independente, a ser uma mulher feminista. Houve momentos em que foi difícil, mas por um conjunto de factores – alguns de sorte, outros de trabalho, uns de privilégio, outros de mérito – consegui. Também tive a sorte de ter começado com a M7 [a rapper e humorista Beatriz Gosta], tinha uma mulher ao meu lado e juntas fomos rompendo obstáculos. E por ter encontrado um produtor, o D-One, que sempre trabalhou connosco de igual para igual. Quando estás sozinha, é muito mais difícil. O mais importante é criar uma rede de apoio. Começar é difícil, resistir é hercúleo.

O que é que a maternidade te ensinou sobre o empoderamento feminino?

Aprendi que é importante conectarmo- -nos com o nosso lado biológico. Eu sou socióloga e tenho essa perspectiva de que as diferenças de género são culturais e que as diferenças entre sexos são também muito mais construídas do que biológicas.Mas quando me reencontro com esse lado biológico da reprodução, do parto e da amamentação, acho que as diferenças não nos devem distanciar ou hierarquizar, mas devem encher as mulheres de orgulho. Quando conseguimos comandar o nosso próprio processo reprodutivo, saímos com uma auto-estima muito reforçada, sentimo-nos empoderadas e invencíveis. Ser mãe é muito exigente em termos de entrega, de cansaço, de falta de liberdade. Mas, ao mesmo tempo, é lindo, é poético, é a coisa mais intensa que podemos experimentar.

Assusta-te trazer um filho a este mundo? Ou é um acto de optimismo, de acreditar que o mundo vai melhorar?

Se não consegues fazer um mundo melhor para os teus filhos, faz filhos melhores. Acho que todas as gerações passam por essa ideia de que o mundo está demasiado feio para acrescentarmos mais pessoas. Do ponto de vista ecológico, de facto somos muitos e não devíamos ter mais filhos, mas, se nos deixarmos dominar pelo medo, deixamos de viver.

O que é que temos de ensinar aos nossos filhos para serem pessoas melhores?

Uma educação feminista é essencial para homens e mulheres. Mas a educação é um quotidiano de pequenas lições e de grandes exemplos que vamos dando sem sequer ter consciência disso. Eles acabam por absorver a nossa forma de estar no mundo. Temos de ser o exemplo mais perfeito possível, dentro das nossas limitações enquanto seres imperfeitos.

Alguma vez te prejudicou assumires que és feminista?

Em termos estratégicos, é sempre melhor quando os músicos são anti-sépticos, quando não opinam sobre as coisas e fingem que está sempre tudo bem para não chatear ninguém e vender o máximo possível. Essa nunca foi a minha postura, eu sempre encarei a música como um megafone para as minhas causas e as minhas preocupações. Um artista, no verdadeiro sentido do termo, é muitas vezes incómodo, mesmo que isso custe uns concertos a menos. Todas as pessoas que têm um microfone na mão têm uma responsabilidade. Há que viver com isso, sem que se torne demasiado pesado ao ponto de não termos liberdade de criar, não deixar que as causas eclipsem o nosso trabalho artístico.

A propósito do que aconteceu com o Valete [a música e o vídeo de “BFF” foram acusados de normalizar a violência contra as mulheres], até que ponto é que a liberdade de expressão e a liberdade artística podem servir como escudo?

Desde que não entrem na difamação, no discurso de ódio, em coisas que estão prescritas na lei como limites, os artistas são completamente livres. Mas o artista está num contexto cultural e social, que é determinado e que não pode ser ignorado. Eu sou livre de criar e as pessoas são tão livres quanto eu de comentar e criticar. É um jogo que toda a gente joga quando está no espaço público. Mas com as redes sociais criam-se ondas de reacção que acabam por ser desproporcionais.

Poderia ter sido uma conversa importante.

Sim, e não foi essa conversa que aconteceu.

Também porque ele reagiu daquela forma, com ameaças. Surpreendeu-te a reacção dele às críticas?

Custa-me comentar esse caso em particular porque é uma pessoa que eu conheço pessoalmente, tenho menos capacidade crítica. O que eu acho é que a discussão poderia ter sido importante e acabou por ser uma gritaria. Às vezes temos a oportunidade de ter discussões interessantes sobre essas questões da liberdade criativa, do politicamente correcto no bom sentido do termo, da importância do simbólico, da forma como as minorias têm que ser protegidas de determinados tipos de banalização de ataques e de criarmos uma linguagem e uma forma de estar em cidadania mais inclusiva e justa. Mas depois entramos nestas espirais em que uns se ofendem com tudo e não há conversa possível.

Tens uma música sobre a situação actual do Porto, a “Circunvalação”. Como vês o rumo que a cidade está a tomar?

Essa música fala do Porto real e não do Porto postal. Do Porto dos portuenses que todos os dias vivem a cidade. Nada contra os turistas, mas o bem-estar das pessoas foi subjugado aos interesses do turismo enquanto indústria de consumo rápido e de dinheiro rápido, com impactos muito profundos no quotidiano.

O Porto que sempre conheceste está a desaparecer.

Sim, a cidade descaracteriza-se e depois todas as cidades europeias são iguais, todas têm as mesmas lojas, os mesmos cafés, as mesmas cadeias de hotel. Já para não falar do bullying imobiliário, do lixo na cidade, da sobrecarga dos transportes públicos. Se formos ver o que a UNESCO escreveu quando atribuiu o título de Património Mundial da Humanidade ao centro histórico do Porto, dizia que era um conjunto que valia por ser castiço e por ser vivido. Não pela sua monumentalidade, mas por ter um tecido vivo de pessoas que habitam aquelas casas, que têm a roupa a secar à janela, têm as mercearias, os pequenos restaurantes. Vamos perder aquilo que a cidade tem de mais valioso, que é o carácter, com uma gente muito orgulhosa de si. É especialmente irónico, porque o Porto sempre foi uma cidade que se bateu pela liberdade. Os portuenses sempre defenderam o Porto até ao fim! Acho que agora o Porto não está a defender os portuenses. Era bom pararmos com essa coisa da cidade acontecimento, do branding, do marketing urbano, da cidade postal e pensar: como é que conseguimos reverter este dinheiro que estamos a criar com o turismo a favor das pessoas que vivem aqui? Como é que vamos minimizar o impacto deste consumo rápido e desta voragem turística? Temos de começar a pensar nisso, senão não vai ser fácil.

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