Hélder Leite
© Eduardo Martins | Pérola Negra
© Eduardo Martins

Mestres da pista: sem eles, a noite do Porto não era a mesma coisa

Conheça Luís Salgado, Céline Valente e Hélder Leite, figuras incontornáveis do Maus Hábitos, Pérola Negra e Plano B.

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Com programações eclécticas, pensadas para agradar a diferentes públicos, o Maus Hábitos, o Plano B e o Pérola Negra tornaram-se, nos últimos anos, paragens obrigatórias da noite portuense. Em parte, graças a quem trabalha nos bastidores – seja a programar ou a gerir –, para criar alguns dos melhores ambientes que a cidade tem para oferecer. Para descobrir os seus percursos e desvendar alguns dos segredos para o sucesso, falámos com Luís Salgado, Céline Valente e Hélder Leite, figuras incontornáveis destes espaços emblemáticos. Até porque, sem eles, a noite do Porto não era a mesma coisa.

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Os donos da noite

Luís Salgado

Músico, Maus Hábitos

É difícil falar do Maus Hábitos sem mencionar Luís Salgado, programador do emblemático e ecléctico espaço portuense que junta, numa simbiose perfeita, música, arte, comida, bebida, café e festa. Curiosamente, a parceria de sucesso, que foi oficializada em 2014, nasceu de um acaso.

“Antes de qualquer outra coisa, sou músico e, desde a abertura deste projecto cultural, em 2001, que vinha cá actuar com as bandas que integrava. Com isto, acabei por conhecer o Daniel Pires, que é o dono. Quando me preparava para comemorar um aniversário redondo [em 2012], desafiado por uns amigos que questionavam a minha capacidade de organizar um festival, perguntei-lhe se me deixava fazer aqui a celebração. Ficou reticente, é certo, mas lá me cedeu a sala principal”, começa por contar. 

O resto pode dizer-se que é história. Com uma programação composta, essencialmente, por bandas de amigos, Salgado superou todas as expectativas e, no ano seguinte, voltou a festejar o aniversário com um minifestival. “Nessa espécie de segunda edição, já tinha o Maus Hábitos todo disponível e consegui trazer alguns grupos mais conhecidos para actuar. Aí, o público chegou perto das 2000 pessoas. Algumas tiveram de ficar à porta”, acrescenta.

Em Abril, cerca de três meses após a realização do evento, Pires fez a pergunta que mudou tudo: “Consegues fazer isto todas as semanas?” Apanhado de surpresa, o músico escolheu a via da sinceridade. “Disse-lhe que não sabia, até porque me faltava experiência e conhecimento em programação, mas estava disposto a tentar. Foi assim que, sem nunca ambicionar, me tornei programador”.

A pouco e pouco, Luís, natural de Tomar, mostrou que tinha realmente jeito para a coisa. “O facto de estar no mundo da música, ainda que apenas como artista, facilitou, até certo ponto, o trabalho. O demais fui aprendendo com o tempo”. A capacidade de juntar à sua volta pessoas novas terá sido um dos motivos do sucesso. “No primeiro mês, dediquei-me a fazer reuniões com todos os colectivos que havia na cidade para perceber o que estava a acontecer à nossa volta e como estes grupos podiam fazer coisas aqui, de concertos a clubbing e artes plásticas”, explica o profissional. Tudo para devolver a velha glória ao Maus Hábitos.

“Já éramos uma instituição no Porto, porém, tivemos um período mais complicado do qual queríamos recuperar. A ideia era voltar a estar sempre entre as primeiras opções de quem queria sair à noite e ser um ponto de referência não só de qualidade, mas de liberdade e experimentação”.

Salgado também tratou de levar o projecto para fora de portas. “Enquanto espaço físico, com muita pena minha, não temos como crescer. Então começamos a apostar na realização de eventos noutros sítios. Surgiram assim, por exemplo, os Concertos de Bolso, na Feira do Livro, e o circuito Supernova, que promove actuações fora do Porto. Até porque, sendo de uma cidade pequena, sei bem o que é ter de me deslocar para ir a concertos. Com estas iniciativas, conseguimos levar iniciativas a sítios em que, sem o apoio de uma marca conhecida e consolidada, seria mais difícil. No fundo, quisemos democratizar a arte ao torná-la mais acessível a todos”.

Cerca de uma década após o início deste percurso, o músico faz um balanço positivo. “Ainda há muito que queremos fazer, mas há uma série de objectivos já conseguidos. Nomeadamente, ser um espaço em que todas pessoas se sentem bem e livres para ser quem são, independentemente da idade, orientação sexual, género, nacionalidade ou preferência musical. Actualmente, é comum ver punks a beber cocktails no Beyoncé Fest e quem ouve Death Metal também ouve pop, por exemplo, o que era impensável num passado não muito distante”.

Da programação dos próximos meses, vale destacar o concerto de Cabrita (2 Fev). Depois de um aclamado disco de estreia (2020), o saxofonista apresenta Umbra, "que difere do seu antecessor pela abordagem mais sombria, relacionada a questões circundantes à nossa existência - a dos vivos - e à maneira como nos mantemos por cá".

Igualmente imperdível é o espectáculo de Wakadelics (16 Fev), grupo de Viana do Castelo conhecido por explorar vários estilos musicais. Naquela que é a sua primeira actuação no Maus Hábitos, a banda apresenta Mau Olhado, o mais recente EP.

Rua Passos Manuel, 178, 4º andar. Seg 18.00-02.00, Ter-Qui 12.00-02.00, Sex-Sáb 12.00-06.00

Céline Valente

DJ, Plano B

Numa altura em que quase não havia mulheres com papéis de relevo nos bastidores da noite — ainda hoje estão em minoria —, Céline Valente assumiu a programação do Plano B, um dos espaços pioneiros da movida portuense. A história, que começou a escrever-se há cerca de dez anos, não podia ter tido um início mais inusitado.

“É engraçado porque, na altura, não era um sítio que me chamasse à atenção. No entanto, tinha vários amigos, sobretudo na área da música, que adoravam e frequentavam com regularidade. Inicialmente, fui um pouco arrastada por eles, mas rapidamente percebi que era um local onde me sentia bem, até porque tinha uma oferta cultural bastante diversificada. A nível de música, passava tudo aquilo que gostava e consumia”, conta Valente.

Quanto mais ia ao Plano B, mais pessoas conhecia e, a certa altura, o seu caminho cruzou-se com o dos proprietários. “Aconteceu de forma inesperada. Naquela época fazia jornalismo musical, pelo que andava sempre em entrevistas e concertos. Depois, um pouco por acaso, perguntei aos donos se tinham alguém a trabalhar na parte da comunicação, que se dedicasse a promover o espaço e os eventos. Disseram que não, mas estavam à procura e chamaram-me para uma reunião. Fui e acabei por ficar com o cargo”.

O percurso da artista, que já actuava como DJ, não foi linear. “Desde que comecei, em Julho de 2014, faço um bocado de tudo, pelo que é difícil indicar um cargo em específico. Agora, estou mais dedicada à programação dos concertos e da produção dos eventos externos, mas também cuido da comunicação, das redes sociais. Enfim, do que for preciso”.

Assim como Céline, o Plano B, que é uma referência desde a abertura, há quase duas décadas, também já não é o mesmo. “O público, por exemplo, foi algo que mudou imenso. É muito mais diverso do que há uns anos. Em termos de espaço, a grande mudança aconteceu em 2021, quando Ricardo Costa se tornou proprietário. Pode dizer-se que trouxe uma nova vida e versatilidade à casa”.

Sem sacrificar a essência ou o ambiente intimista e próximo dos artistas, o bar ganhou um palco maior, sistemas de luz e som que permitem uma experiência imersiva, um programa de concertos alargados e nova decoração. O primeiro andar, por exemplo, tornou-se mais acolhedor graças aos novos sofás vermelhos, ideais para quem só quer beber um copo e dar dois dedos de conversa. Na sala do fundo, fica a cabine do DJ, capaz de se transformar numa terceira pista quando necessário. Junta-se às duas no piso inferior, onde os novos palcos e tela de projecção permitem receber bandas com 12 elementos. Na sala Cubo, voltada para a música electrónica, as condições de acústica e de luz foram melhoradas.

Apesar de todas estas transformações, Céline acredita que a localização e a programação são mesmo as grandes mais-valias. “Temos uma agenda muito ecléctica, tanto a nível de DJs como de concertos, que inclui nomes nacionais e internacionais. Também queremos que as pessoas possam ampliar a sua bagagem cultural e conhecer novas propostas”, explica Céline, que começou como DJ no Plano B, onde ainda hoje é residente.

“Sou uma eterna apaixonada pela música. É através dela que consigo aceder ao meu estado mais elevado de ser. Não há nada que se compare à sensação de estar numa cabine com 300 ou mais pessoas à tua frente, a partilhar e receber energia, pelo que faço questão de continuar a tocar, sobretudo nesta casa, com a qual tenho uma ligação emocional muito forte”. Uma ligação que traz gravada na pele na forma de um B tatuado no pulso.

Como seria de esperar, há muita coisa a acontecer no bar durante os próximos meses. Conte, por exemplo, com concertos da argentina Ms. Nina (24 Fev), cantora, compositora e especialista em reggaeton, dembow, hip-hop e trap, e de Ana Lua Caiano (5 Abr), que explora a fusão musical entre a tradição portuguesa e a electrónica, misturando sonoridades do passado com beat-machines, sintetizadores e sons do quotidiano, trazendo assim a herança tradicional portuguesa para o mundo moderno.

Rua Cândido dos Reis, 30. Qui-Sáb 22.00-06.00

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Hélder Leite

Empresário, Pérola Negra

O cabaret e bar de striptease mais famoso da cidade reabriu como discoteca em Novembro de 2018, pelas mãos de Hélder Leite, que sempre esteve ligado à hotelaria. Ainda que as sessões de sexo ao vivo tenham ficado para trás, o Pérola Negra mantém a decoração kitsch de outros tempos – os sofás vermelhos, as paredes espelhadas e os varões que quase todos na cidade reconhecem.

“Por algum motivo, este sítio desperta-me a curiosidade desde novo, numa altura em que nem sequer tinha idade para cá entrar. Conhecia-o de ouvir falar e de ver fotografias. Um dia tive a oportunidade de ver como realmente era e fiquei deslumbrado com tudo, do ambiente à história e ao que representa”, conta. Nasceu ali a vontade de abrir uma discoteca ou clube, sonho que começou a realizar-se em Setembro de 2017, quando comprou o espaço.

Tratou então de preparar uma casa inclusiva, com uma programação cultural capaz de abranger todas as pessoas e comunidades. “A ideia é que todos aqueles que procuram momentos de descontracção, com boa música e boas bebidas, se sintam bem aqui. Que sejam livres para se divertir e dançar sem amarras ou inibições. Privilegiamos, de igual modo, o contacto com o outro e as relações, pelo que contamos com uma zona de estar”, explica Hélder, que fez questão de manter o espaço o mais fiel possível à configuração original.

“O objectivo nunca foi fazer grandes mudanças. Apenas criar melhores condições para o público, pelo que mantivemos a decoração e reforçámos o sistema de som e luzes. Depois, apostámos muito na programação, que é semanal e permite estabelecer parcerias com produtoras e artistas da cidade. Esta vai bastante além da parte musical. Temos de tudo, desde performance a teatro e exposições”, enumera o empreendedor de 43 anos.

A variedade possibilita chegar a vários públicos, de curiosos a velhos conhecidos. “Volta e meia, entra aqui alguém mais velho, meio à espreita, a ver como estão as coisas. Ainda no outro dia estava cá para uma reunião e chegou um senhor que passou na rua e ficou intrigado. Acabou por partilhar um pouco de quando frequentava o espaço, nos anos 90”.

Das actividades futuras, vale realçar o DJ set de Stavroz (3 Fev), quarteto belga, e o concerto de Tal Fussman (13 Abr), artista de Tel Aviv que cria música que funciona em vários ambientes e transcende géneros musicais.

Rua de Gonçalo Cristóvão, 284. Horário de acordo com a programação

Mais no Porto

Não há nada mais terapêutico do que uma boa noite de copos entre amigos, certo? Por este motivo, é imperativo saber onde encontrar os melhores bares no Porto, para começar bem a noite ou ficar noite dentro. Conhecer as bebidas da moda ou em que bar se pode sentar a ver a bola também é importante. A pensar nisso, preparámos-lhe esta lista com sugestões para um copo ao fim do dia, para admirar a cidade ou beber um cocktail. Todos mais do que prontos para o receber. Mas tenha juízo e beba com moderação.

  • Cafés/bares

Se há coisa que fazemos bem, é beber um cafezinho, várias vezes ao dia. É vital. E se, volta e meia, não ingerirmos uma dose de cafeína, não somos os mesmos e ninguém nos atura. A pensar nisto e neste hábito tão enraizado na cultura e sociedade portuguesas, é que lhe preparámos esta lista com os cafés no Porto que tem de conhecer. Uns mais clássicos e antigos, outros mais modernos e com cafés de especialidade, moídos na hora, vindos de vários cantos do mundo. Agora já não tem desculpa para adiar mais aquele café há muito planeado.

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