Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Porto icon-chevron-right Ângela Ferreira mostra fragmentos de uma casa sem amarras à terra no Porto
Notícias / Arte

Ângela Ferreira mostra fragmentos de uma casa sem amarras à terra no Porto

'Dalaba: Sol d’Exil' de Ângela Ferreira está na Culturgest Porto até 1 de Setembro
© Filipe Braga Ângela Ferreira evoca os telhados redondos das casas tradicionais africanas

Em 1960, Miriam Makeba (1932-2008), cantora e activista sul-africana, foi impedida de regressar a Joanesburgo após uma digressão com o músico e pacifista americano Harry Belafonte. Fixou-se nos Estados Unidos, mas na sequência do casamento, em 1968, com Stokely Carmichael (1941-1998), activista do movimento dos Direitos Civis e membro dos Black Panthers - organização política afro-americana na época tido pelo FBI como “a maior ameaça à segurança interna do país” -, viu-se coagida a sair de lá.

Marginalizada pelo regime racista do seu país e na condição de apátrida, recebeu asilo político na Guiné-Conacri. Foi numa colina da cidade de Dalaba que construiu a casa onde viveria 15 anos. Dalaba: Sol D’Exil, exposição para ver na Culturgest Porto até 1 de Setembro, nasceu da vontade de Ângela Ferreira (n. 1958, Maputo) em desenvolver uma abordagem “mais construtiva e menos deprimente” sobre os discursos coloniais e pós-coloniais que há muito atravessam o seu trabalho.

“Ao mesmo tempo que criticava a falta de aceitação dos povos europeus da sua história colonial, quis indagar sobre figuras africanas que pudessem ser inspiradoras”, explica a artista, que traz para a exposição a memória do exílio de Miriam Makeba, “uma mulher riquíssima do ponto de vista intelectual, político e criativo”. 

 

'Dalaba: Sol d’Exil' de Ângela Ferreira está na Culturgest Porto até 1 de Setembro
© Filipe Braga

 

O interesse de Ângela Ferreira numa das mais relevantes figuras africanas do século XX - Makeba foi, inclusive, a primeira mulher negra a discursar nas Nações Unidas -, solidificou-se quando descobriu imagens da casa na Guiné. “Os edifícios têm fundações na terra e eu quis fazer o oposto: pegar na casa e com ela tratar o exílio, que automaticamente implica sair de um sítio e ir para outro."

A arquitectura, que serve de base à pesquisa que Ângela Ferreira vem desenvolvendo sobre o apagamento da memória colonial, esteve, mais uma vez, no centro da criação. Para delinear este projecto, fez uma “investigação por controlo remoto”. Começou por tentar perceber se a casa ainda existia através do Google Maps e, quando conseguiu identificá-la entre as muitas rondáveis (casas tradicionais africanas) de Dalaba, contactou um fotógrafo local para ajudar na documentação.

Mamadou Cello Dialo fotografou o exterior e interior da casa e o cenário circundante, de acordo com indicações dadas pela artista. Depois de conhecer os cantos à casa, Ângela Ferreira quis “desmembrá-la e trabalhar as partes mais significativas”. A varanda foi um dos espaços destacados, já que terá sido a paisagem semelhante à de Joanesburgo que levou Miriam Makeba a escolher aquele lugar.

A entrada e o telhado são outras partes da casa  “transportadas e levadas” para a exposição. “Desenhei-a de modo a derrotar a ideia da casa como amarra à terra”, clarifica. Ao contrário do que aconteceu em Lisboa (a primeira paragem desta exposição), as quatro esculturas habitam a mesma sala da Culturgest Porto, “facilitando a sua leitura conjunta”. Já os  desenhos e fotografias pendurados nas paredes finalizam a imersão necessária para viajar a Dalaba sem sair da esfera da memória.

Culturgest. Av. dos Aliados, 104. Até 1 Set. Qua-Dom 12.30-18.30. Grátis

+ Quem faz, pela calada, a montagem das exposições no Porto?

+ Galerias de arte que deve conhecer no Porto

Fique a par do que acontece na sua cidade. Subscreva a nossa newsletter e receba as notícias no email.

Publicidade
Publicidade

Comentários

0 comments