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Miguel Bonneville encontra-se com Georges Bataille no Rivoli

Georges Bataille é o pensador em destaque na peça
© Joana Linda Georges Bataille é o pensador em destaque na peça

A Importância de Ser Georges Bataille, em cena no Rivoli nos dias 7 e 8 de Junho, é o novo capítulo da série em que Miguel Bonneville se deixa contaminar por autores e pensadores que lhe servem de referência. À boleia de Bataille, o criador procura um espaço de liberdade e mistério na penumbra do teatro.

Como te cruzaste com o Bataille pela primeira vez?

Acho que me cruzei com ele antes de sequer me ter apercebido que me tinha cruzado com ele, por causa da [Marguerite] Duras. Num dos livros dela, que são uma espécie de compilação de artigos, havia um que era sobre o Bataille. Percebi depois, mais a fundo, a relação que ele tinha com a Duras. Andei à procura e percebi que ela tinha escrito sobre ele nesse livro que eu tinha e que já tinha lido há bastante tempo.

Então ele não te marcou nesse primeiro encontro.

Não, até porque era um artigo sobre ele, não era nada que me tivesse chamado à atenção para ir à procura. O que me fez ir à procura foi um filme do Godard, o Week-End. Estava a vê-lo com uma amiga, a Rita Só, e ela disse “ah, isto parece a história do olho”, que depois percebi que era a História do Olho do Bataille. Aí sim, fiquei com curiosidade de ir perceber quem era o Bataille. Isso foi por volta de 2005. Foi a primeira vez que li alguma coisa dele: a História do Olho e Minha Mãe. Uns anos mais tarde voltei ao Bataille por causa do filme do Christophe Honoré [Ma Mère]. Nessa altura, um bocado em modo auto-experimentação/performance, e também influenciado pelo [filme] Crash de David Cronenberg, fazia umas performances na rua com vários adereços, só para experimentar coisas, muito influenciado por um universo de transgressão e de personagens que estão à procura de sair da lógica do dia-a-dia. Depois, quando estava a fazer a peça a partir da Simone de Beauvoir na Lituânia, estava a ler As Lágrimas de Eros do Bataille. Foi sendo uma coisa gradual e pontual até ao momento em que eu estava no processo de criação para A Importância de Ser Paul B Preciado: houve uma referência ao Bataille e acho que aí descobri qualquer coisa que me interessava aprofundar.

E que coisa foi essa?

Essa qualquer coisa são muitas coisas. Tem a ver com o facto de ele tocar em assuntos que são muito importantes para mim, relacionados com a questão da identidade, da sexualidade e da mortalidade, e como tudo isso está ligado, e como o faz de uma forma muito poética, ao mesmo tempo muito filosófica. Mas é uma teoria que não pretende ser sistematizada. Nesse sentido, é muito anti-académica. 

Já há bastante tempo que abordas, nas tuas peças, questões que estão muito presentes na obra do Bataille, como a transgressão, o erotismo e a morte.

Sim, completamente. Há ali qualquer coisa que eu sabia que me interessava, mas se calhar precisei deste tempo todo para perceber. Ou para ter abertura e maturidade suficientes para compreender. Acho que estes encontros acontecem assim, até mesmo com as pessoas. Não falamos com uma pessoa há muito tempo, depois encontramo-la várias vezes e ao final de dez anos é que descobrimos que podemos ser melhores amigos, amantes… Isso acontece com estes autores, também. Com o Preciado, por exemplo, a nossa relação não acabou nada bem. A primeira parte do processo foi um enamoramento muito grande e a segunda parte foi “vou pôr as tuas coisas à porta com um saco de plástico, vai à tua vida”. É muito fascinante perceber como, de repente, tens uma relação tão forte com pessoas que não conheces e que marcam tanto o teu pensamento e a tua vida.

Como está a tua relação com o Bataille neste momento?

Está óptima. Neste processo todo também me deixei contaminar por este lado de não racionalizar excessivamente. Tentar poetizar e deixar que ao longo do processo as ideias se fossem confirmando, e que eu não fosse impondo nenhuma delas – até porque estou a trabalhar com um grupo de intérpretes e co-criadores e queria perceber o ponto de vista deles sobre estas questões que o Bataille levanta e que eu levanto através dele. Os ensaios eram sempre com sugestões de exercícios muito simples e a partir daí a peça foi-se construindo.

Estamos a falar de corpos em palco, e há quem diga que o Bataille era um pensador do corpo…

Completamente. Eu não queria pôr-me de fora e fazer uma espécie de composição de imagens ou uma composição coreográfica. A partir da repetição dos exercícios, eles foram-se transformando, uns foram influenciando outros, misturaram-se. Há uma espécie de improvisação sobre uma memória do corpo muito forte. Há uma liberdade dentro de um terreno que construímos, e isso para mim era o mais importante.

A peça acontece quase no escuro. Porquê?

Nós começámos a ensaiar só com um foco de luz, por opção minha. Por causa de várias coisas. Há aquilo a que o Bataille e o Genet, e outros autores, chamam de entrada na noite, quase como se fosse um entrar no desconhecido. Como se esta racionalidade escolar a que estamos expostos todos os dias não fizesse parte. Depois há o anti-iluminismo: a noção de fugir a este excesso de razão, excesso de explicação. Estamos completamente assoberbados, especialmente nas artes performativas. As peças já se explicam a si próprias, deixam muito pouco mistério, deixam muito pouco ao espectador para perceber de que forma é que ele sente. Já quase nem há a conversa do que é que se sentiu. É o se gostei ou não gostei, se o espectáculo era sobre isto ou sobre aquilo. Este escuro vai também nesse sentido de podermos ter outra coisa alerta além da visão. Neste caso, tal como na peça anterior, decidi que a folha de sala só é dada no final, para que as pessoas estejam menos armadas para ver o espectáculo.

O Bataille também te levou a isso?

Completamente. E esta ideia da entrada na noite para mim é fundamental. Tem a ver com a ideia de amor, de erotismo, de mistério. Acho que havia esta promessa de sermos todos mais inteligentes e mais educados, e que isso ia tornar-nos mais felizes, mas continuamos a matar-nos uns aos outros. Há um problema grave em perceber o que é a inteligência e o que é pensar, e o pensar estar descolado do sentir.

Pegando nisso e no título da peça, qual a importância de ser Bataille hoje?

É um bocado o que atravessa todas as outras pessoas que me inspiraram para esta série: o que é que elas fizeram e disseram que hoje continua a fazer sentido, e como fazem questionar o momento em que estou e o momento em que estamos. O Bataille tem a ver com esse lado de permitir que a poesia ocupe um espaço maior nas nossas vidas e que nos permita ter acesso àquilo a que nós muito genericamente chamamos de loucura e de tabus, e porque é que eles são tabus e porque é que precisamos deles para os podermos transgredir. Tem a ver com isto tudo e, para mim, com uma necessidade de procurar um espaço onde ainda exista liberdade. Sítios onde nos possamos desformatar.

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