Manual de ética para a pista de dança

Quer uma noite bem passada? Conheça o código de conduta para uma pista de dança mais inclusiva

DR

Sair à noite deve ser um momento de alegria, liberdade, celebração. Mas muitas vezes não o é, por falta de respeito do público ou do staff de bares e festas. Propomos, por isso, um código de conduta para uma pista de dança mais inclusiva, segura e feliz, com os contributos de algumas DJs.

Manual de ética para a pista de dança

1
Respeite os DJs

Respeite os DJs

A ideia é ajudar-nos a passar um bom bocado, sim, mas não estão ali ao nosso serviço. Estão a trabalhar. Se não gosta do que está a ouvir, o que é perfeitamente legítimo, queixe-se ao colega do lado e vá a outro sítio em vez de pedir para passar outro tipo de música. Se quiser perguntar o nome de alguma canção, por exemplo, acene à, ou ao, DJ para ver se está disponível naquele momento para lhe responder. Não pouse o copo em cima da cabine nem fique lá à frente especado a olhar – gostava que lhe fizessem o mesmo quando está na sua secretária ao computador?

2
E respeite as DJs mulheres

E respeite as DJs mulheres

Válido para público, promotores de festas, donos de bares, técnicos de som. O talento e a inteligência não dependem do género – nem da etnia, nem da idade –, portanto não tem de dar lições quando uma mulher não pede dicas. É paternalismo, é machismo. “O que me acontece mais são duas coisas: engenheiros de som que, sem eu pedir, me explicam como usar o equipamento de DJ – como se não fosse uma coisa com a qual eu trabalho quase todos os fins-de-semana –, ou então membros do público (sempre homens) que em vez de fazer um pedido (também seria mau) me vêm condescendentemente aconselhar discos e compilações que eu ‘devia ouvir’ para tocar no futuro”, conta Inês Coutinho, a DJ e produtora mais conhecida por Violet. “Ainda há circunstâncias em que somos acusadas de sermos bem-sucedidas porque somos ‘miúdas giras’”, diz, por sua vez, Luísa Cativo, aka Catxibi, DJ e co-criadora da festa Thug Unicorn, regularmente no Gare. “Já vi o meu trabalho e o das minhas colegas a ser menosprezado ou mal pago por esse motivo. Já nos atiraram literalmente coisas à cara enquanto tocávamos, já tive de me defender fisicamente de um homem numa das nossas festas, já desrespeitaram os nossos limites pessoais.”

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3
Homens: não invadam o espaço privado das mulheres

Homens: não invadam o espaço privado das mulheres

Os homens não são todos iguais, bem se sabe, mas o assédio e o abuso sexual de mulheres perpetrado por homens é uma realidade diária que se estende às pistas de dança. Por vezes de um modo totalmente predador e violento. É comum serem tocadas, apalpadas, alvos de comentários sobre a sua aparência física, observadas sem parar a centímetros de distância, rodeadas por um ou mais homens que acham que assim vão conseguir chamar atenção. Tudo isto tem um nome: assédio. Ninguém tem o direito de invadir o espaço pessoal – e o corpo – de outrem sem permissão, nem de o tentar dominar. 

4
Saiba flirtar

Saiba flirtar

Ainda sobre o ponto 3: não, isso não quer dizer que é proibido flirtar com uma rapariga. Assédio e sedução são coisas bem diferentes. Há formas não-intrusivas de abordar uma mulher. Não se aproxime demasiado. Se quiser interagir, não sussurre coisas ao ouvido nem comece logo a tocar. Faça perguntas, troque alguns olhares. Avance apenas se houver consenso, autorização da parte dela. É fácil perceber quando uma pessoa não está interessada – por exemplo, quando muda de sítio depois de alguém se aproximar dela. Não insista, não fique parado a olhar, não a siga (quer mesmo dar uma de stalker?). E não se tente aproveitar de uma mulher só porque está bêbada – se ela estiver num estado em que não consegue comunicar de forma clara, isso quer dizer que não está capaz de consentir. E envolvimento físico sem consenso é violação. Se vir algum caso destes a acontecer ou em vias de, avise algum membro da equipa do espaço.

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5
Dance com os outros, não contra os outros

Dance com os outros, não contra os outros

No fundo, resume-se a “vigiar o espaço físico e mental” que se ocupa na pista de dança, aponta Inês. Isto é “especialmente válido para homens altos e com movimentos bruscos. Dançar é muito importante, mas para isso é importante sentirmo-nos seguros e bem-vindos na pista”, diz. “Quando alguém não está a ter em conta quem está à sua volta, seja através de movimentos ou de interacção indesejada, automaticamente está a tomar o espaço de outros corpos, porventura mais pequenos e/ou mais frágeis, que têm igual direito a divertirem-se e a sentirem-se confiantes.” O mesmo pode aplicar-se quando se vai pedir uma bebida.

6
Não discrimine

Não discrimine

Felizmente não somos todos iguais. Se vir alguém diferente de si, respeite. Se isso lhe causar assim tanta confusão, é como diz o ditado: “Estás mal, muda-te.” “As guias para uma boa festa deveriam ser as mesmas que se deviam usar no dia-a-dia”, resume Luísa. “Não discriminar ninguém com base na nossa percepção superficial dessa pessoa: identidade de género, orientação sexual, raça, religião, forma de vestir, sotaque.” Cada pessoa tem direito a expressar a sua identidade. “Existe a violência contínua de não reconhecerem a minha identidade”, diz Odete C. Ferreira, DJ e performer. “Ou acham que sou um rapaz – porque falta representação trans em Portugal e as pessoas não percebem de todo –, ou acham que sou uma prostituta, oferecendo-me coisas, tentando falar comigo, etc.”

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7
Donos de bares e promotores: apostem em casas de banho sem género definido

Donos de bares e promotores: apostem em casas de banho sem género definido

Desse modo não “se corre o risco de denúncias idiotas e violentas contra pessoas trans”, assinala Odete. E pedir ou sugerir a uma pessoa que vá a uma casa de banho que não corresponde à sua identidade de género é algo profundamente opressivo e violento.

8
Ter atenção à segurança (e a quem a faz)

Ter atenção à segurança (e a quem a faz)

“É crucial que haja um briefing para que o comportamento destes profissionais reflicta o ambiente e conceito da festa, e que nunca seja para antagonizar ou oprimir o público”, refere Luísa. Em algumas situações isso implica uma política de porta, no sentido pedagógico. É preciso perceber “que espaço é aquele que se criou dentro da festa e que tipo de violências simbólicas uma pessoa poderá causar”, reforça Odete. “Isto faz-se com uma coisa tão simples como: ‘esta festa é maioritariamente de pessoas trans, caso entres por favor respeita o espaço seguro que se criou, se não teremos de pedir para saíres’.” Uma parte importante neste processo é também ter um staff o mais diverso possível. Por exemplo, “seguranças que não performam masculinidade ou então que não sejam homens cisgénero”, sugere Odete.

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