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Alice dos Reis
© Marco Duarte'Malva Fields, Submerged', a primeira exposição individual da artista no Porto, fica na galeria Lehmann + Silva até 7 de Março

A E.Coli, bactéria responsável pelas infecções urinárias, protagoniza a primeira exposição de Alice dos Reis no Porto

Por Maria Monteiro
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Aos 24 anos, a artista visual constrói narrativas paralelas onde relaciona o humano e o animal, a tecnologia e a natureza. ‘Malva Fields, Submerged’, a primeira exposição individual de Alice dos Reis no Porto, aborda questões da biotecnologia e da saúde feminina ligadas à bactéria E. coli. Para ver na galeria Lehmann + Silva até 7 de Março.

O mundo de Alice dos Reis (n. 1995, Lisboa) não é o nosso. É um conjunto de mundos paralelos que vai edificando sobre a realidade, partindo dela mas ficcionando-a. Carrie Lambert-Beatty, historiadora de arte norte-americana, definiu o conceito de “paraficção” como “arte em que a ficção é apresentada como um facto – produto da fabulação e da imaginação”. É neste território que Alice dos Reis se vem movendo para contar novas histórias em formatos como vídeo, filme ou instalação.

“Interessa-me a potencialidade de criar narrativas paralelas a uma narrativa hegemónica”, introduz a artista, licenciada em Arte e Multimédia pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. A ligação à imagem em movimento não é nova – Alice já era ávida consumidora de cinema –, mas a formação focada na instalação e na performance permitiu-lhe explorar “a junção de vários elementos [narrativos] de forma mais orgânica”.

Influenciada pelo cinema, mas também pela literatura e filosofia, Alice dos Reis tem-se debruçado sobre “a relação entre o humano e o animal, entre a tecnologia e a natureza” e as fricções que podem resultar destes (des)encontros. “Acho que são temas fulcrais e de alguma maneira sedimentados no meu trabalho.”

Estas temáticas estão presentes em Mood Keep (2018), filme que apresentou a concurso no festival DocLisboa e que encabeçou Palpémbrana, a sua primeira exposição individual, na Galeria da Boavista, em Lisboa. A obra centra-se no axolote (espécie de salamandra considerada um dos animais mais fofos do mundo), cuja sobrevivência se encontra ameaçada pela destruição dos habitats, tentativa de domesticação e captura para comércio ilegal de animais exóticos.

Ao contrário do que acontece na realidade, a ficção criada por Alice mostra axolotes com pálpebras (este batráquio vive na penumbra e nunca desenvolveu a membrana protectora dos olhos comum a grande parte dos animais) que comunicam entre si através de uma rede wi-fi e vêem anime. “[A biodiversidade] é, definitivamente, um fio condutor no meu trabalho”, afirma Alice dos Reis. Contudo, ressalva que tem mais interesse em “olhar para a ideia de natureza do que para a [própria] natureza”.

O mesmo acontece em Sub Corrente, obra que lhe valeu o prémio Novo Banco Revelação 2019 e que conta a história de uma bióloga marinha que acompanha um cardume de krill – espécie que só está acima do plâncton na cadeia alimentar dos oceanos – no sentido de mapear uma zona profunda do Atlântico Norte. “Ao longo desse período, ela desenvolve uma relação muito próxima com estes seres que depois tem de deixar”, explica a artista.

Para concretizar a missão fictícia, aplicam-se câmaras às barrigas dos pequenos camarões, aludindo-se à “Internet dos Animais, tecnologia com câmaras e GPS que está em desenvolvimento e permite acompanhar as espécies nos seus habitats naturais”. “[Problematiza-se] o modo como a tecnologia pode ou não ser invasiva.”

Alice dos Reis
© Marco Duarte

O levantamento desta e de outras questões relacionadas com “a aproximação e o afastamento das espécies” catapultou Alice dos Reis para a estreia em contexto institucional e museológico com a exposição da instalação galardoada na Fundação de Serralves (onde, até 22 de Março, estão também expostos os outros dois trabalhos finalistas).

Mas mesmo antes disto, o trabalho de Alice dos Reis, sediada em Amesterdão, já fazia eco lá fora. O seu currículo conta com participações em exposições no Eye Filmmuseum, na Holanda, o Le Murate, em Itália, ou a Seventh Gallery, na Austrália. No Porto, apresenta-se pela primeira vez a solo com Malva Fields, Submerged, para ver na galeria Lehmann + Silva, no Bonfim, até 7 de Março.

Nesta exposição, a artista ocupa-se novamente da relação entre natureza e tecnologia: constrói uma narrativa em torno da bactéria E. coli, organismo milenar presente nos seres humanos, em quase todos os mamíferos e na flora dos oceanos. Quando entra em desequilíbrio no corpo humano “causa várias infecções a nível endocrinológico ou ginecológico”, contextualiza, notando que “50% das mulheres em todo o mundo vão, a certo ponto da sua vida, ter sintomas de infecções urinárias causadas por E. coli”.

Apesar de ser uma bactéria amplamente estudada e “usada no mapeamento genético e na produção de biodiesel”, ainda não há uma cura imediata para as doenças que provoca, “tidas pela comunidade médica como infecções de baixa escala”. “Há uma dicotomia entre os avanços da biotecnologia e da bioengenharia e os interesses económicos das grandes farmacêuticas.”

Neste mundo paralelo, uma experiência com biodiesel corre mal e causa um surto de E. coli que começa nos oceanos e se alastra para os outros ecossistemas, matando-os. “Face à falta de resposta médica, um grupo de mulheres investiga as curas usadas ao longo dos séculos e chega à malva”, enquadra Alice. Esta planta, tradicionalmente usada para tratar infecções urinárias em Portugal, vai ser modificada para possibilitar a criação de uma plantação submersa que restaure o equilíbrio dos ecossistemas.

A exposição integra vídeo, três painéis de banda desenhada feitos em colaboração com a ilustradora sul-coreana Bin Koh, quatro fotografias tiradas num laboratório de plâncton e uma peça que é, possivelmente, a preferida da autora: uma fotografia que ilustra o tempo que passou a explorar E. coli do seu corpo em laboratório. “Fiz várias experiências, desenhei e acabei por escrever um poema com ela.”

Alice dos Reis descreve como “poética” a possibilidade de “ter uma agência sobre a forma como essas culturas [de bactérias] se desenvolvem”. E, em ponto maior ou menor, a ideia é sempre a mesma: a inquietação do atrito desencadeado pelo confronto entre o que é natural e o que tem mão humana.

Malva Fields, Submerged
© Dinis Santos

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