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A nova exposição de Maria Trabulo foca-se na acção do artista no panorama político-social

Maria Trabulo
© João Saramago Maria Trabulo

Em Janeiro de 2018, Maria Trabulo (n.1989, Porto) viajou para o Irão em contexto de residência artística. O choque cultural, próprio do ocidental que ali vai pela primeira vez e que lida com as barreiras à liberdade de expressão, não tardou em chegar. “Comecei a aperceber-me das transformações que tinha de fazer no meu discurso e no meu comportamento”, recorda a artista visual, que encabeça a exposição Desertado. Algo que aconteceu pode acontecer novamente, para ver no segundo piso da Galeria Municipal até 18 de Agosto.

A vontade de trabalhar o condicionamento da participação em espaço público ganhou força nas várias idas ao Museu de Arte Contemporânea de Teerão para tentar ver aquela que é considerada uma das mais relevantes colecções de arte do século XX. Adquirida pouco antes da Revolução Iraniana de 1979, integra obras de autores emblemáticos como Andy Warhol, René Magritte ou Alberto Giacometti, e esteve escondida durante muito tempo “porque era americana, europeia e não havia interesse em mostrá-la”.

Maria Trabulo foi percebendo o quão difícil era conseguir ter acesso a esta colecção, muito pouco divulgada no país. Não conseguiu vê-la, mesmo depois de várias tentativas, mesmo depois de ter procurado adaptar-se às reservas das autoridades iranianas. “Era preferível dizer que era investigadora em vez de artista. Ou dizer que vinha da Áustria e não de Portugal, porque ninguém conhecia Portugal”, conta a artista, que à época trabalhava entre Viena e o Porto.

No período em que esteve no Irão, Maria dizia “sempre a verdade, mas uma verdade trabalhada”, o que lhe suscitou um questionamento sobre o papel da ficção na construção política e social e na participação no espaço público. Aos poucos, foi-se dando conta da resistência que existia para lá da opressão. “O sistema político instaurado não impede os artistas de produzir”, nota Maria, acrescentando que “há formas de o conseguir”. “Muitas vezes passa por dizer aquilo que determinada pessoa ou entidade quer ouvir.”

Ao longo da residência, Maria Trabulo falava toda as semanas por Skype com Pieternel Vermoortel, directora artística do Netwerk Aalst, centro de arte contemporânea e cinema em Aalst, “cidade onde há uma das maiores comunidades de extrema direita da Bélgica." Conversas que eram, inicialmente, sobre a vida em Teerão, passaram a ser sobre “a utilidade do artista no novo panorama político da Europa”, refere Maria Trabulo, que viu de perto o crescimento da extrema direita na Áustria. Na renhida corrida às presidenciais austríacas de 2016, a artista notou que a ideia de “espaço público passou a ser muito mais forte na internet do que na vida táctil”.

A repressão no Ocidente e no Oriente serviu de base para a criação de uma exposição sobre “a participação política do artista e do indivíduo perante narrativas de outros artistas”. Para tal, desenhou um cenário pontuado por esculturas em areia da sua autoria, inspirado na antiga cidade de Persépolis e na Antiguidade, “em alusão às nossas construções políticas nela baseadas”. Depois de “criada esta ficção”, foram alojadas nela as ficções de nove artistas de países como Kosovo, Grécia ou Finlândia. Entre estas obras encontramos o filme No Show, no qual o holandês Melvin Moti recria as visitas guiadas feitas a soldados no Museu Hermitage, na Rússia, durante a evacuação da II Guerra Mundial. “Os quadros já não estavam lá, mas um trabalhador sabia as peças de cabeça”, diz Maria. “O artista reúne memórias e escritos para ficcionar a sua realidade e a do trabalhador.”

Sobre os artistas representados nesta exposição, Maria Trabulo (que em 2018 ganhou o prémio Novo Banco Revelação), diz incorporarem  “esta história de resistência, camuflagem e daquilo que pode ser um deserto, demonstrando a capacidade do artista em utilizar a ficção como ferramenta de resistência política”. E sugerem como “a construção da nossa identidade político-social também requer uma certa ficção”.

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