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Pelos corredores da Casa da Calçada impera a novidade, mas mantêm-se algumas marcas da história. Como pano de fundo, a beleza imutável do rio Tâmega ilumina a emblemática fachada amarela deste hotel de Amarante, cidade que viu nascer algumas das figuras mais relevantes da cultura portuguesa, como Amadeo de Souza-Cardoso, Acácio Lino, Teixeira de Pascoaes ou Agustina Bessa-Luís. “A Casa merecia esta reabilitação”, comenta Daniel Mariz, director de operações da Amazing, responsável pela gestão deste hotel de cinco estrelas que, dois anos e 15 milhões de euros depois, reabriu as portas de cara lavada – mais confortável e sofisticado. Fomos redescobrir a Casa da Calçada.
Na entrada salta à vista um trabalho da artista Iva Viana que representa, em gesso, a vinha da Quinta da Calçada, com cachos de uvas a percorrerem a parede de fundo da recepção. O barroco e as cores garridas foram substituídos por uma decoração mais discreta e dominada por cores mais sóbrias. Há também mais luz a entrar no hotel. “Esta é uma casa histórica de hotelaria na zona Norte. Ficou com um ar mais leve, a decoração está um pouco diferente, mas houve muitos traços do que era a decoração anterior que foram mantidos nos quartos, nomeadamente as secretárias e outras peças estruturais do hotel”, acrescenta o responsável.

A mudança “foi completa”, incluindo a cor e a decoração do edifício, mas “houve também a necessidade de manter a ligação ao que era antigamente” e de manter as memórias e a essência da Casa da Calçada. A prova disso é, por exemplo, a sala-museu, mesmo ao lado da recepção, que conservou grande parte da decoração antiga deste edifício – desde a mobília aos azulejos e ao papel de parede. Há muita história para contar nesta casa do século XVI que foi construída para ser um dos principais palácios do Conde de Redondo e que, desde 2001, se tornou num hotel, fruto do sonho de Manuel António da Mota, fundador da Mota Engil. Desde 2003, o hotel tem o selo da Relais & Châteaux, uma associação francesa de hotéis e restaurantes de luxo em todo o mundo.
No total, o edifício conta agora com 35 quartos de diferentes tipologias – 7 clássicos, 11 clássicos superiores, 3 prestige com vista jardim, 6 prestige com vista rio, 3 deluxe com vista rio e 3 suítes também com vista para o Tâmega. Apesar de diferentes, todos eles contam com elementos comuns: as cores sóbrias, as colunas Marshall em cima da mesa de cabeceira, o mini-bar com bebidas não-alcoólicas incluídas na reserva e ainda um quadro da artista têxtil Diana Meneses Cunha, inspirado nas vinhas da Calçada. Um dos grandes protagonistas vive atrás das cortinas: através da varanda, a vista para o Tâmega continua a ser um bonito postal.

Um spa novo e o contacto com a vinha histórica
O tempo é um bem precioso e, a pensar nisso, uma das grandes novidades da renovada Casa da Calçada foi a construção de um spa, integrado na paisagem do jardim, entre a piscina exterior e o vinhedo que faz parte do hotel. Neste lugar, chamado Tempo e com 500 metros quadrados, o convite é para parar e aproveitar ao máximo para relaxar o corpo e a mente. A decoração é marcada pelo xisto e, por aqui, pode contar com uma piscina interior aquecida, um ginásio aberto 24 horas e com vista para o jardim, uma fonte de gelo, banho turco, sauna e três salas de tratamento.
A carta de massagens é variada e tem desde massagens de relaxamento de corpo inteiro (140€/60 minutos) a tratamentos faciais, bem como tratamentos com produtos à base do vinho, reforçando a ligação da Casa da Calçada com o mundo vínico. “Este espaço nem sequer foi recuperado, foi construído de raiz e acreditamos que vai ser uma mais valia”, acrescenta o responsável.

Além do wellness center, o hotel tem também disponível diversas actividades, incluindo passeios para conhecer vinha, juntamente com um sommelier do grupo. Socalco a socalco, década a década, o passeio permite explorar ao detalhe as vinhas da propriedade que dão origem aos vinhos da Calçada. De seguida, pode fazer uma prova no bar da piscina (35€/três vinhos ou 60€/cinco vinhos), acompanhada de uma tábua de enchidos da região (25€). Há ainda, na zona do jardim, uma ampla sala de eventos e estão programadas outras actividades que os hóspedes podem aproveitar, desde aulas de ioga a workshops de cocktails.

Uma viagem gastronómica no Largo do Paço
Na hora da refeição, não faltam propostas na Casa da Calçada. Se pretender algo mais tradicional e de conforto, o Canto Redondo, sob a alçada do chef italo-argentino Emiliano Savio, tem tudo o que precisa. Se se recorda como era o espaço antigamente, certamente vai reparar nas diferenças que existem nos corredores do piso da restauração: onde antes predominavam as cores bordô, vivem agora tons brancos e arcadas iluminadas, com um bonito bar no meio. O À Margem é outro dos espaços gastronómicos que existem no hotel, com uma carta ligeira e de snacks e o local onde os hóspedes tomam um pequeno-almoço cheio de pastelaria e pratos à la carte. Mas se o que lhe apetece mesmo é provar a gastronomia italiana, o Ciao Tílias é uma boa opção, com uma convidativa varanda sobre o Tâmega.
A grande jóia da Casa da Calçada é, no entanto, o restaurante Largo do Paço, que antes do fecho para obras detinha uma estrela Michelin. Agora, o espaço regressa à ribalta com Francisco Quintas ao leme, o mais jovem chef português a receber uma estrela, no 2Monkeys, em Lisboa. De regresso à Casa da Calçada, onde também passou como estudante, o chef proporciona uma autêntica viagem por sabores e texturas “que intrigam e que fazem pensar”, através de um menu de degustação surpreendente, com produtos da temporada e que mostra que o fine dining também pode ser uma experiência descomplicada e reconfortante.

Cada um dos 15 momentos deste menu é servido de forma coordenada por uma equipa de sala jovem, que não deixou nenhum detalhe de parte – incluindo a harmonização de vinhos cuidadosamente pensada. Num ambiente intimista e muito interactivo, o menu é apresentado, inicialmente sob a forma de uma sopa de palavras, onde cada um deve tentar descobrir os ingredientes presentes em cada prato. Tarefas à parte, toda a refeição é um crescendo de intensidade e complexidade de sabores.
Nas entradas, destacam-se os brócolos com béarnaise, trigo sarraceno e caril, que chamou à atenção pelo seu sabor e textura peculiar, servido em trio juntamente com a sapateira com melão, presunto e manjericão e ainda com o atum com caviar e brócolos. Terminadas estas três entradas, segue-se uma ida à cozinha do chef. Neste momento, os clientes são convidados a conhecer a equipa e a ver de perto a finalização da gamba violeta com massa mãe, acompanhada de batata e chilli, um prato de Verão, que traz o conforto e a descontração de um fim de tarde.

Apesar de cumprir o conceito de fine dining, com uma gastronomia sofisticada, o chef Francisco Quintas pretende também trazer descontração e servir uma experiência sem demasiada formalidade. “Temos uma equipa jovem e queremos este dinamismo, esta parte divertida, em que a equipa vem à sala e os clientes vão à cozinha. Queremos que se desformalize um pouco o formalismo do fine dining”, explica em conversa depois do jantar.
Toda a refeição é um percurso de sabores e influências do chef – desde a frescura do lírio com ovas ikura, cucamelon, pepino e lavanda (servido com granizado ralado no momento pelo chef), ao maior conforto e complexidade da enguia fumada com cebola, crème fraîche, lima caviar e cogumelos. Sem esquecer o pregado com lula gigante, caviar e bergamota, um dos pratos favoritos de toda a refeição.

Há ainda combinações improváveis, até porque Francisco Quintas quer trazer "uma cozinha divertida, com muitos sabores, com muita coisa a acontecer". Exemplo disso é o saboroso prato de molejas de vitela com carabineiro, cebolinho, alho negro e macadâmia, que combina, em simultâneo, o mar e a terra; ou o pombo com ruibarbo, nabo fumado e cevadinha, num momento em que cada cliente escolhe uma faca feita pelo projecto Lua Knives exclusivamente para a Casa da Calçada. Ainda antes deste parto de carne, é servido um outro mais selvagem: o tamboril grelhado com molho de cenoura, salada de funcho, aneto e citrino.
Após vários pratos bem equilibrados e complexos, há espaço para as sobremesas que também não deixam ninguém indiferente. Começamos pelos morangos com mousse de chocolate branco assado, crocante de hibisco e hortelã e seguimos para uma combinação de sabores e texturas proporcionadas pelo gelado de citrinos com limão e merengue. O jantar termina com mais um momento interactivo e imersivo: os petit fours são servidos dentro de uma Casa da Calçada em miniatura, feita em madeira por um artesão local. O menu está disponível de terça-feira a sábado, apenas ao jantar, e tem um custo de 160€ (mais 100€ com pairing de vinho) com 15 momentos e 140€ (75€ com pairing) para 13 momentos.

O chef Francisco Quintas assume a missão de reconquistar a estrela Michelin para o Largo do Paço, recebida pela primeira vez há 20 anos, sob a batuta do chef Cordeiro, mas confessa não pensar demasiado nisso. “A minha maior pressão não é a estrela, é os clientes saírem satisfeitos. Estamos com um preço de menu já alto, por tudo o que apresentamos e para a carga de staff que temos, e, para mim, a maior pressão é isso. É o que sempre disse: acredito que se os clientes saírem satisfeitos e com vontade de voltar, o resto acaba por vir naturalmente”, assegura. Se tudo correr bem, a estrela Michelin poderá ser reconquistada já no próximo ano.
Largo do Paço, 6 (Amarante). 255 410 830. Preços a partir dos 200€ por noite
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