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Casa da Calçada renasce com mais conforto (e quer reconquistar a estrela Michelin para o Largo do Paço)

Depois de dois anos em obras de reabilitação, o hotel de luxo de Amarante reabriu com muitas novidades, do novo spa a uma oferta gastronómica renovada.

Ana Catarina Peixoto
Escrito por
Ana Catarina Peixoto
Jornalista, Porto
Casa da Calçada
Jorge Ferreira | A Casa da Calçada reabriu em Abril de 2025, depois de dois anos de obras
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Pelos corredores da Casa da Calçada impera a novidade, mas mantêm-se algumas marcas da história. Como pano de fundo, a beleza imutável do rio Tâmega ilumina a emblemática fachada amarela deste hotel de Amarante, cidade que viu nascer algumas das figuras mais relevantes da cultura portuguesa, como Amadeo de Souza-Cardoso, Acácio Lino, Teixeira de Pascoaes ou Agustina Bessa-Luís. “A Casa merecia esta reabilitação”, comenta Daniel Mariz, director de operações da Amazing, responsável pela gestão deste hotel de cinco estrelas que, dois anos e 15 milhões de euros depois, reabriu as portas de cara lavada – mais confortável e sofisticado. Fomos redescobrir a Casa da Calçada. 

Na entrada salta à vista um trabalho da artista Iva Viana que representa, em gesso, a vinha da Quinta da Calçada, com cachos de uvas a percorrerem a parede de fundo da recepção. O barroco e as cores garridas foram substituídos por uma decoração mais discreta e dominada por cores mais sóbrias. Há também mais luz a entrar no hotel. “Esta é uma casa histórica de hotelaria na zona Norte. Ficou com um ar mais leve, a decoração está um pouco diferente, mas houve muitos traços do que era a decoração anterior que foram mantidos nos quartos, nomeadamente as secretárias e outras peças estruturais do hotel”, acrescenta o responsável.

Casa da Calçada
Jorge FerreiraA zona da recepção da Casa da Calçada

A mudança “foi completa”, incluindo a cor e a decoração do edifício, mas “houve também a necessidade de manter a ligação ao que era antigamente” e de manter as memórias e a essência da Casa da Calçada. A prova disso é, por exemplo, a sala-museu, mesmo ao lado da recepção, que conservou grande parte da decoração antiga deste edifício – desde a mobília aos azulejos e ao papel de parede. Há muita história para contar nesta casa do século XVI que foi construída para ser um dos principais palácios do Conde de Redondo e que, desde 2001, se tornou num hotel, fruto do sonho de Manuel António da Mota, fundador da Mota Engil. Desde 2003, o hotel tem o selo da Relais & Châteaux, uma associação francesa de hotéis e restaurantes de luxo em todo o mundo.

No total, o edifício conta agora com 35 quartos de diferentes tipologias – 7 clássicos, 11 clássicos superiores, 3 prestige com vista jardim, 6 prestige com vista rio, 3 deluxe com vista rio e 3 suítes também com vista para o Tâmega. Apesar de diferentes, todos eles contam com elementos comuns: as cores sóbrias, as colunas Marshall em cima da mesa de cabeceira, o mini-bar com bebidas não-alcoólicas incluídas na reserva e ainda um quadro da artista têxtil Diana Meneses Cunha, inspirado nas vinhas da Calçada. Um dos grandes protagonistas vive atrás das cortinas: através da varanda, a vista para o Tâmega continua a ser um bonito postal.

Casa da Calçada
Jorge FerreiraA Casa da Calçada reabriu com 35 quartos

Um spa novo e o contacto com a vinha histórica

O tempo é um bem precioso e, a pensar nisso, uma das grandes novidades da renovada Casa da Calçada foi a construção de um spa, integrado na paisagem do jardim, entre a piscina exterior e o vinhedo que faz parte do hotel. Neste lugar, chamado Tempo e com 500 metros quadrados, o convite é para parar e aproveitar ao máximo para relaxar o corpo e a mente. A decoração é marcada pelo xisto e, por aqui, pode contar com uma piscina interior aquecida, um ginásio aberto 24 horas e com vista para o jardim, uma fonte de gelo, banho turco, sauna e três salas de tratamento.

A carta de massagens é variada e tem desde massagens de relaxamento de corpo inteiro (140€/60 minutos) a tratamentos faciais, bem como tratamentos com produtos à base do vinho, reforçando a ligação da Casa da Calçada com o mundo vínico. “Este espaço nem sequer foi recuperado, foi construído de raiz e acreditamos que vai ser uma mais valia”, acrescenta o responsável.

Casa da Calçada
Jorge FerreiraO spa "Tempo", da Casa da Calçada

Além do wellness center, o hotel tem também disponível diversas actividades, incluindo passeios para conhecer vinha, juntamente com um sommelier do grupo. Socalco a socalco, década a década, o passeio permite explorar ao detalhe as vinhas da propriedade que dão origem aos vinhos da Calçada. De seguida, pode fazer uma prova no bar da piscina (35€/três vinhos ou 60€/cinco vinhos), acompanhada de uma tábua de enchidos da região (25€). Há ainda, na zona do jardim, uma ampla sala de eventos e estão programadas outras actividades que os hóspedes podem aproveitar, desde aulas de ioga a workshops de cocktails. 

Casa da Calçada
Jorge FerreiraAs vinhas da Casa da Calçada

Uma viagem gastronómica no Largo do Paço 

Na hora da refeição, não faltam propostas na Casa da Calçada. Se pretender algo mais tradicional e de conforto, o Canto Redondo, sob a alçada do chef italo-argentino Emiliano Savio, tem tudo o que precisa. Se se recorda como era o espaço antigamente, certamente vai reparar nas diferenças que existem nos corredores do piso da restauração: onde antes predominavam as cores bordô, vivem agora tons brancos e arcadas iluminadas, com um bonito bar no meio. À Margem é outro dos espaços gastronómicos que existem no hotel, com uma carta ligeira e de snacks e o local onde os hóspedes tomam um pequeno-almoço cheio de pastelaria e pratos à la carte. Mas se o que lhe apetece mesmo é provar a gastronomia italiana, o Ciao Tílias é uma boa opção, com uma convidativa varanda sobre o Tâmega.

A grande jóia da Casa da Calçada é, no entanto, o restaurante Largo do Paço, que antes do fecho para obras detinha uma estrela Michelin. Agora, o espaço regressa à ribalta com Francisco Quintas ao leme, o mais jovem chef português a receber uma estrela, no 2Monkeys, em Lisboa. De regresso à Casa da Calçada, onde também passou como estudante, o chef proporciona uma autêntica viagem por sabores e texturas “que intrigam e que fazem pensar”, através de um menu de degustação surpreendente, com produtos da temporada e que mostra que o fine dining também pode ser uma experiência descomplicada e reconfortante. 

Largo do Paço
Luis FerrazLírio com ovas ikura, cucamelon, pepino e lavanda

Cada um dos 15 momentos deste menu é servido de forma coordenada por uma equipa de sala jovem, que não deixou nenhum detalhe de parte  incluindo a harmonização de vinhos cuidadosamente pensada. Num ambiente intimista e muito interactivo, o menu é apresentado, inicialmente sob a forma de uma sopa de palavras, onde cada um deve tentar descobrir os ingredientes presentes em cada prato. Tarefas à parte, toda a refeição é um crescendo de intensidade e complexidade de sabores.

Nas entradas, destacam-se os brócolos com béarnaise, trigo sarraceno e caril, que chamou à atenção pelo seu sabor e textura peculiar, servido em trio juntamente com a sapateira com melão, presunto e manjericão e ainda com o atum com caviar e brócolos. Terminadas estas três entradas, segue-se uma ida à cozinha do chef. Neste momento, os clientes são convidados a conhecer a equipa e a ver de perto a finalização da gamba violeta com massa mãe, acompanhada de batata e chilli, um prato de Verão, que traz o conforto e a descontração de um fim de tarde.

Largo do Paço
Luis FerrazBrócolos com béarnaise, trigo sarraceno e caril

Apesar de cumprir o conceito de fine dining, com uma gastronomia sofisticada, o chef Francisco Quintas pretende também trazer descontração e servir uma experiência sem demasiada formalidade. “Temos uma equipa jovem e queremos este dinamismo, esta parte divertida, em que a equipa vem à sala e os clientes vão à cozinha. Queremos que se desformalize um pouco o formalismo do fine dining”, explica em conversa depois do jantar. 

Toda a refeição é um percurso de sabores e influências do chef – desde a frescura do lírio com ovas ikura, cucamelon, pepino e lavanda (servido com granizado ralado no momento pelo chef), ao maior conforto e complexidade da enguia fumada com cebola, crème fraîche, lima caviar e cogumelos. Sem esquecer o pregado com lula gigante, caviar e bergamota, um dos pratos favoritos de toda a refeição.  

Largo do Paço
Luis FerrazPregado com óleo de lula gigante, caviar e bergamota

Há ainda combinações improváveis, até porque Francisco Quintas quer trazer "uma cozinha divertida, com muitos sabores, com muita coisa a acontecer". Exemplo disso é o saboroso prato de molejas de vitela com carabineiro, cebolinho, alho negro e macadâmia, que combina, em simultâneo, o mar e a terra; ou o pombo com ruibarbo, nabo fumado e cevadinha, num momento em que cada cliente escolhe uma faca feita pelo projecto Lua Knives exclusivamente para a Casa da Calçada. Ainda antes deste parto de carne, é servido um outro mais selvagem: o tamboril grelhado com molho de cenoura, salada de funcho, aneto e citrino.

Após vários pratos bem equilibrados e complexos, há espaço para as sobremesas que também não deixam ninguém indiferente. Começamos pelos morangos com mousse de chocolate branco assado, crocante de hibisco e hortelã e seguimos para uma combinação de sabores e texturas proporcionadas pelo gelado de citrinos com limão e merengue. O jantar termina com mais um momento interactivo e imersivo: os petit fours são servidos dentro de uma Casa da Calçada em miniatura, feita em madeira por um artesão local. O menu está disponível de terça-feira a sábado, apenas ao jantar, e tem um custo de 160€ (mais 100€ com pairing de vinho) com 15 momentos e 140€ (75€ com pairing) para 13 momentos.

Largo do Paço
Luis FerrazMolejas de vitela com carabineiro, cebolinho, alho negro e macadamia

O chef Francisco Quintas assume a missão de reconquistar a estrela Michelin para o Largo do Paço, recebida pela primeira vez há 20 anos, sob a batuta do chef Cordeiro, mas confessa não pensar demasiado nisso. “A minha maior pressão não é a estrela, é os clientes saírem satisfeitos. Estamos com um preço de menu já alto, por tudo o que apresentamos e para a carga de staff que temos, e, para mim, a maior pressão é isso. É o que sempre disse: acredito que se os clientes saírem satisfeitos e com vontade de voltar, o resto acaba por vir naturalmente”, assegura. Se tudo correr bem, a estrela Michelin poderá ser reconquistada já no próximo ano.

Largo do Paço, 6 (Amarante). 255 410 830. Preços a partir dos 200€ por noite

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