Sete coisas que aprendemos na exposição “Arte & Moda”

A nova exposição da Gulbenkian coloca os tesouros da colecção em diálogo com os mestres da alta-costura.
Gulbenkian moda e arte
Fundação Calouste Gulbenkian. Foto: © Jon Cazenave
Time Out em associação com Gulbenkian
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"É a melhor exibição de arte e moda de sempre. Nesta mostra, tanto a arte como a moda jogam na Liga dos Campeões". A afirmação é de Eloy Martínez de la Pera Celada, curador de “Arte e Moda”, a nova exposição da Gulbenkian, inaugurada a 18 de Abril, que apresenta cerca de 140 peças de alta-costura ao lado de tesouros do acervo do museu. 

E, sim – a declaração é ousada, mas nem por isso deixa de ser verdadeira. Afinal, não é todos os dias que vemos Rembrandt, Rubens, Monet, Degas, Dior, Givenchy, Balenciaga e McQueen e muitos outros grandes nomes da arte e da moda a dialogarem no mesmo espaço. 

Se ainda não conseguiu ir ver a exposição (atenção que só tem até 21 de Junho), fique com um gostinho daquilo que pode esperar e do que vai aprender.

1. O dourado é a mais aspiracional das cores, tanto na arte como na moda

Historicamente, o dourado surge associado à divindade, à espiritualidade e ao poder. Foi usado no Egipto Antigo, em tradições da América Latina e assume um papel central na Igreja Católica para dignificar figuras. Mais do que uma cor, funciona como um símbolo de elevação, seja no plano religioso, artístico ou social.

Na moda, o fio de ouro tornou-se uma forma de exaltar peças e estatutos. Um dos exemplos mais marcantes apresentados na exposição é Magnificent Gold, de Guo Pei – uma criação imponente.

A mostra começa precisamente com esse diálogo. De um lado, a máscara egípcia da Coleção Gulbenkian; do outro, a peça de Guo Pei. Separadas por séculos, mas unidas pelo uso do dourado, estas duas obras mostram como a mesma linguagem visual atravessa o tempo, mantendo intacto o seu poder simbólico.

2. A arte salvou partes da História

“A arte deve inspiração à moda, mas a moda deve à arte a sua permanência no tempo.” A frase do curador resume uma relação de dependência mútua que atravessa séculos. Se, por um lado, a moda influencia a arte, por outro, é a arte que garante que a moda não desapareça. 

Na verdade, a maioria das peças de vestuário anteriores ao século XVIII não sobreviveu até aos dias de hoje pela fragilidade dos materiais, da humidade, da exposição à luz ou até de desastres naturais. Mas ficaram as imagens. Graças aos registos da arte, sabemos como se vestiam diferentes épocas, classes sociais e culturas. É através da arte que se reconstroem silhuetas, tecidos, cores e detalhes que, de outra forma, teriam desaparecido por completo.

3. Não somos assim tão inventivos

“Não é por seres um designer que faz saias para homens que és moderno.” A citação do curador foi feita junto a uma estátua funerária do Egipto, datada de cerca de 2000 a.C., onde a peça já aparece representada. Ao lado, um coordenado contemporâneo de Yohji Yamamoto reforça a ideia. A moda pode parecer disruptiva, mas muitas vezes limita-se a recuperar códigos antigos. 

4. Nada nasce do zero

Mais um exemplo claro de como a moda absorve referências antigas, transformando-as em algo novo. O vestido Delphos, de Mariano Fortuny, criado em 1907, surgiu num momento em que as descobertas arqueológicas em Knossos despertaram um novo fascínio pela Antiguidade. O vestido contempla um cinto com um símbolo inspirado nas crateras gregas e é, segundo o curador, “a única peça de alta-costura considerada obra de arte”.

5. Antes do pantone, já havia cores do ano

No século XIX, a inauguração do canal do Suez serviu de passarela para a imperatriz Eugénia de Montijo e o seu guarda-roupa assinado por Charles Frederick Worth. O “pai da alta-costura” imortalizou ali o verde Nilo, um tom que se tornou popular em revistas e, claro, na sociedade da época. Este impacto antecipou o conceito moderno de “cor do ano”. 

6. A moda acompanha (e acelera) a mudança

Em 1968, enquanto Paris fervilhava com a contestação estudantil e a ascensão do feminismo, Yves Saint Laurent reinterpretava a sahariana – uma peça de herança militar e masculina. Ao colocá-la numa mulher e, ainda para mais, na capa da revista Vogue, o designer abriu caminho para uma nova leitura do guarda-roupa feminino. Faria o mesmo com o smoking uns mais tarde. A moda não só reflete a mudança social, como por vezes a antecipa.

7. “A beleza salvará o mundo”

“A beleza salvará o mundo”, escreveu Dostoiévski. E a exposição recupera essa ideia como uma espécie de fecho – não como conclusão, mas como intenção. Nas palavras de Eloy Martínez de la Pera Celada: “tornamo-nos melhores pessoas quando estamos cercados pela beleza. É algo que eu adoraria que acontecesse às pessoas que passassem por aqui."

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