À mesa, o Alentejo não engana


Poucos ingredientes, muito sabor: no Alentejo, a cozinha assenta em combinações improváveis que dão origem a pratos cheios de carácter. É com pão, azeite, alho e coentros que nascem algumas das receitas mais emblemáticas da região. É o caso da açorda, que em mãos menos hábeis poderia parecer apenas uma sopa de pão, mas que aqui é um dos grandes pratos da cozinha portuguesa: rica, aromática, profundamente reconfortante e muitas vezes finalizada com um ovo escalfado que lhe dá uma textura quase cremosa. As migas, por sua vez, têm mais corpo, são puro conforto, sobretudo ao lado de carne de porco grelhada. E depois há a própria carne de porco, em especial o porco preto alimentado a bolota, que surge em cortes como secretos ou plumas e tende a desaparecer do prato num instante.
Pelo meio, há queijos de ovelha, enchidos, espargos bravos, caça, saladas de tomate que sabem mesmo a verão e aquelas combinações discretas que definem a cozinha portuguesa mais antiga. A carne de porco à Alentejana continua a ser uma das mais inesperadas – e melhores – junções: carne de porco, amêijoas e coentros num prato que, no papel, não devia resultar e que, na prática, funciona na perfeição. Já na costa, a cozinha torna-se mais leve: peixe grelhado, polvo, amêijoas, arroz de marisco, caldeiradas com profundidade. E as sobremesas, muitas delas de origem conventual, não se fazem de modestas: há ovos, açúcar, memória e pouca vontade de pedir desculpa por isso.
O vinho faz naturalmente parte deste cenário, mas não como um extra sofisticado. No Alentejo, o vinho está na base de tudo. Em zonas como Vidigueira e Vila de Frades, a tradição da talha continua viva, com vinhos feitos em ânforas de barro segundo um método que remonta aos tempos romanos e que nunca ficou preso ao passado. Continua presente no dia a dia. A essa continuidade junta-se hoje uma cena vínica mais contemporânea e aberta ao mundo, que em 2026 ganha ainda mais destaque: o Baixo Alentejo é Cidade Europeia do Vinho, com um programa que atravessa o ano e o território. Provas, gastronomia, música, património e experiências nas vinhas fazem parte da equação, mas a ideia principal é simples: esta é uma região que sabe transformar o vinho num bom motivo para viajar.
Segundo a Forbes, três projectos do Alentejo entraram no top 50 mundial de enoturismo em 2025: a Fita Preta, a Herdade do Sobroso e a Torre de Palma. Um sinal claro de que a oferta já não se resume a uma prova e uma garrafa para levar. Hoje, fala-se de arquitetura, paisagem, boa mesa, hotéis bem pensados e experiências que começam muito antes do primeiro copo.




