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Já é tradição: Tiago Rodrigues escreve, a peça esgota. Mas, para além de quem a assina, o que tem ‘Coro dos Amantes’ de especial? Tonan Quito e Cláudia Gaiolas respondem.

Foi o primeiro exercício de Tiago Rodrigues na escrita para o teatro. A estreia remonta a 2006. Nessa altura a história do casal interpretado por Cláudia Gaiolas e Tonan Quito ainda estava só a começar. Volvidas quase duas décadas, os actores regressam ao palco para nos contar o final, ou o início, depende da perspectiva. É o Coro dos Amantes, está em cena no TBA de 17 a 20 de Setembro, e a casa já está cheia. Fomos ver um ensaio e tentar perceber o que de especial tem este texto em particular.
“Foram três anos seguidos de Urgências e havia vários autores que escreviam peças curtas [que se articulavam] para o espectáculo, no Teatro Maria Matos. O Tiago, que também dirigia toda a banda, escreveu a primeira parte deste texto e calhou-nos a nós dizê-lo”, revela Cláudia Gaiolas. “Agora temos quatro ‘canções’.” A segunda e terceira foram escritas em 2007, para compor uma peça de maior fôlego – Duas Metades, estreada na Culturgest – e a quarta e última em 2021, na versão francesa.
É, portanto, a primeira vez que Coro dos Amantes é apresentado integralmente em português, e com a mesma equipa que tem acompanhado a produção ao longo dos anos, desde Magda Bizarro nos figurinos a Thomas Walgrave no desenho de luz e cenografia. “A última vez que fizemos este espectáculo em Portugal foi para aí em 2008”, recorda Tonan. Completo só mesmo em francês, com sessões em Marselha, Nantes e Paris.
“Foi um grande desafio. Em português é-nos mais próximo. Noutra língua, é diferente, dá muitos nervos”, confessa o actor. Cláudia Gaiolas subscreve: “Tens de ter uma apropriação maior da palavra. Quando represento noutra língua, não penso no que a palavra significa ao mesmo tempo que a digo. Tem de haver trabalho de pré-preparação, porque não é a nossa língua materna, somos sempre estrangeiros e improvisar é difícil, sobretudo num texto como este.”
Este regresso, contudo, não é uma revisitação, dizem-nos, desta vez em coro. Afinal, é assim, a duas vozes, que o espectáculo se desenrola. O protagonista é o casal, mais do que as pessoas que o compõem. Ritmados como uma partitura, muitas vezes em uníssono, cada intérprete descreve versões ligeiramente distintas dos mesmos acontecimentos: uma situação de vida ou morte, mas sobretudo a força vital do amor, que é o que resiste sempre quando tudo o resto é posto em causa.
Em palco, fala-se, acima de tudo, de cumplicidade, a cumplicidade que faz uma vida – como a vida do casal-protagonista –, e a cumplicidade de que vive o teatro – do qual também se fala em cena, porque o casal faz teatro, e fora de cena, porque os intérpretes fazem teatro. É a ficção que é real, ou a realidade que é ficção? “Há esta relação que nós temos enquanto actores em palco e amigos na vida”, diz Cláudia. Tonan completa: “Caso contrário, não o faríamos. Não seria possível de se fazer. Isto está no nosso corpo e na nossa cabeça.”
Imagine-se uma orquestra. Cada nota, como cada palavra, deve soar no tempo certo. Não há margem para erros. O texto obriga à precisão e essa precisão implica uma trust fall. Tonan fala em “mergulho”. “Tipo, atiras-te para a piscina e pronto, depois ficas em apneia”, brinca, antes de admitir que, apesar disso, a memória ajuda. “A primeira parte, então, é óbvio, porque foi aquela que a gente martelou mais vezes. Ficou ali guardado nalgum recanto.” Mas não é, reforça, “um trabalho de arqueologia”. “O sentimento que tenho é aquele que se tem quando se lê uma história pela primeira vez: agora é que isto acabou.”
A vida fora do palco tem impacto na vida em cima do palco, é o que estão a tentar dizer-nos. Não só é a primeira vez que fazem a peça do início ao fim em português, como não há maneira de se repor o texto como ele era da primeira vez que o disseram. Se eles já não são os mesmos, a peça também não pode ser. A idade, os medos, a abordagem, enumeram. “Somos nós, com a consciência de que estamos em palco, a partilhar o texto um com o outro e com o público, e de que o tempo passou por nós, ou nós passámos pelo tempo”, remata Cláudia.
O tempo é, aliás, o fio condutor de Coro dos Amantes. Como é, afinal, tantas vezes o fio condutor da vida: o tempo que não temos, o tempo de que precisamos, o tempo que nunca mais passa, ou o tempo que passa rápido demais, o tempo que perdemos, ou que recuperámos, ou que investimos, ou que lembramos. Pelo meio, também o tempo em que confinámos e o tempo em que desconfinámos, e o que isso nos levou a querer fazer com o tempo que resta. Por exemplo, arranjar “uma porra de um jardim”, como diz Cláudia. No palco ou fora dele, não interessa. “Há essa esperança, de que tenhas tempo para fazer as coisas que realmente gostas e queres.” Como conseguir comprar um bilhete para uma peça de Tiago Rodrigues.
TBA – Teatro do Bairro Alto (Rato). 17-20 Set (Qua-Sáb) 19.30. 12 € (esgotado)
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