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De um lado, Rembrandt, Rubens, Monet e Degas. Do outro, Dior, Givenchy, Balenciaga e McQueen. "Arte & Moda" coloca tesouros da Colecção Gulbenkian em diálogo com os mestres da alta-costura.

As paredes foram pintadas de preto e os focos de luz estrategicamente apontados. Tudo foi pensado para enaltecer as peças em exposição, não dando margem para distracções. É fácil seguir este plano à medida que percorremos a sala. "Arte & Moda", que abre ao público este sábado, 18 de Abril, no Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, apresenta cerca de 140 peças de alta-costura ao lado de tesouros do acervo do museu (que reabre este Verão, depois de mais de um ano fechado para obras).
O diálogo entre as duas é essencialmente estético, mas também histórico ou conceptual. E é sempre rico, sublimado pelo virtuosismo de mestres como Rembrandt, Rubens e Monet e pela excelência de criadores como Dior, Balenciaga e Alaïa. Um projecto único na história do museu, nas palavras de Xavier F. Salomon, que no início deste ano tomou posse como director do Museu Gulbenkian. Mas também o resultado de um longo trabalho de pesquisa, como recorda António Filipe Pimentel, ex-director do museu.
"Nasceu da ideia de que, ao contrário do que se imagina, o Sr. Gulbenkian era um homem fascinado pela moda. A moda tinha, para ele, o mesmo encanto que toda a arte. A partir daí, desafiei o Eloy Martínez de la Pera Celada a fazer esta exposição. Foram anos de trabalho – a exposição foi evoluindo e evoluindo até chegar a este grande momento das comemorações dos 70 anos da fundação", assinala António Filipe Pimentel, que vê assim inaugurar a última exposição programada por si enquanto director.
O curador, Eloy Martínez de la Pera Celada, vai mais longe – estamos perante "a melhor exposição de arte e moda alguma vez feita". "Precisávamos de moda que estivesse ao nível destas obras de arte, moda que fosse capaz de dialogar com Rubens, com Carpaccio, com uma das máscaras de ouro egípcia mais belas de sempre. Durante quatro anos, a dificuldade foi encontrar as 140 peças de alta-costura que encaixassem na narrativa que queríamos para a exposição", resume de la Pera Celada, cujo currículo inclui oito anos de colaboração estreita com Hubert de Givenchy e um lugar no Conselho de Administração da Fundação Cristóbal Balenciaga.
O arranque é, no mínimo, ofuscante. A máscara egípcia da Colecção Gulbenkian, que também marcará o início do percurso expositivo no Museu Gulbenkian, surge lado a lado com uma exuberante criação de Guo Pei – Magnificent Gold é uma peça de alta-costura de grandes proporções, exposta pela primeira vez na Europa. Unidas pelo ouro, são as primeiras peças a dialogar. "O dourado foi sempre a mais aspiracional das cores, tanto na pintura como na moda. O fio dourado era usado para elevar o vestuário", assinala o curador.
Guo Pei pode não ser um nome sonante para o visitante comum, mas a sua relação com a alta-costura tem sido pautada por silhuetas teatrais, convocando, muitas vezes, elementos do folclore chinês. Em 2015, vestiu Rihanna para a Met Gala. Pelo amarelo intenso e pela cauda de quase cinco metros, a criação ficou conhecida como o vestido omelete. Onze anos depois, a Gulbenkian exibe seis das mais espectaculares peças da designer chinesa. Voaram directamente da China e, algumas delas, estão a ser apresentadas na Europa pela primeira vez.
O mesmo dourado surge em apliques, que podem muito bem ter iluminado a casa de Calouste e Nevarte Gulbenkian em Paris, emparelhados com um casaco Givenchy, igualmente adornado, e com um guarda-roupa profusamente decorado – segundo o curador, Hubert de Givenchy tinha um semelhante na própria casa.
Além da máscara funerária do Antigo Egipto, a exposição segue no encalço de outras civilizações, sempre com a moda atrás. Mesopotâmia e Grécia Antiga são paragens obrigatórias, mas também técnicas ancestrais, cunhadas em diferentes partes do globo. Pequenos núcleos de moda, pintura, escultura e artes decorativas revisitam a filigrana, a tapeçaria e a porcelana. Nesta última, os olhos estão postos no Oriente. "A porcelana azul e branca é algo universal. Encontramo-la na Dinastia Ming, na China, encontramo-la em Delft, nos Países Baixos, encontramo-la em Talavera de la Reina, em Espanha, encontramo-la nos azulejos portugueses. Quisemos prestar homenagem à beleza da porcelana, da mesma forma que fizemos com a cerâmica islâmica, mesmo aqui ao lado", continua o curador.
A presença de designers de moda portugueses é expressiva ao longo da exposição. Entre o azul e branco da porcelana, encontramos uma criação de Storytailors. Mais à frente, nomes como Maria Gambina, Alves/Gonçalves, José António Tenente, Nuno Gama, entre outros. Peças cedidas pelo MUDE, que se destaca como a maior fonte de peças de moda para a exposição – 38, no total. Mas há outras contribuições expressivas, como o Museo del Traje de Madrid, a maison Givenchy e a Fundação Azzedine Alaïa – que detém a maior colecção privada de alta-costura do mundo, segundo o curador.
As várias técnicas usadas para manipular tecidos e outros materiais serão sempre um chamariz infalível. Ao longo do percurso, o olhar é convidado a parar, a aproximar-se e a observar em detalhe as peças que repousam sobre os bustos Stockman. No final, sobra espaço para o encantamento, aqui duplo pela justaposição de moda e arte. O encontro entre a pintura Pavão e Troféus de Caça, de Jan Weenix, o vestido bordado de Jan Taminiau e o casaco em penas de ganso de Manuel Pertegaz são o exemplo perfeito deste diálogo sem interrupções.
Curiosamente, o segmento dedicado às penas e plumas fica bem mais atrás. É lá que encontramos uma das várias criações de Balenciaga que integram a exposição, mas também uma peça de Stella McCartney e um vestido que Givenchy criou para Audrey Hepburn. "Há tantas histórias dentro desta exposição", comenta. "Ela é feita de diálogos estéticos, de diálogos conceptuais, de diálogos emocionais e, às vezes, de diálogos sociais. E uma coisa posso garantir: qualquer uma destas peças é uma belíssima obra de arte. Van Dyck com Poiret, McQueen e Azzedine Alaïa. Temos Rembrandt com Lacroix, com Thierry Mugler e mais McQueen. Temos Halston e ainda temos Rubens com Jean Paul Gaultier. Olhem à vossa volta – isto nunca aconteceu em nenhuma outra exposição, seja no Metropolitan, no Victoria and Albert, no Louvre", remata.
E é na companhia de Van Dyck, McQueen, Poiret, Balenciaga, Maria Gambina e Issey Miyake – um grupo improvável, sabemos – que nos debruçamos sobre uma imagem com séculos de história e que perdura até hoje: o traje preto e o colarinho branco. Se Filipe II de Espanha fez do preto uma cor de ostentação, usada somente pelos mais abastados, os colarinhos e punhos brancos instituíram-se como símbolos de privilégio social e económico.
"Na época, Filipe II não era só o rei de Espanha, mas também dos Países Baixos e de países da Europa Central. Começaram todos os vestir-se de preto – só os colarinhos e os punhos eram brancos, para mostrar que não trabalhavam, não suavam. Por causa disso é que, se formos a Wall Street, a um escritório de advogados, encontramos aquilo a que chamamos colarinhos brancos", explica de la Pera Celada.
A aula de história segue, entre sedas, plissas e pigmentos. E foi precisamente um outro pigmento a ditar mais um núcleo da exposição – o verde Nilo, a cor que todas as damas queriam usar no final do século XIX. "Quando Eugenia de Montijo foi com Napoleão II à inauguração do canal do Suez, ela encomendou a Charles Frederick Worth 150 vestidos. Worth criou alguns deles num tom específico, o verde Nilo. Esse tom tornou-se mesmo muito popular", conta.
O esquema de manequins e obras de arte é subitamente interrompido por uma cadeira com um xaile. Uma piscadela de olho ao folclore português, através de uma peça preta, com flores de cores vibrantes. Pertence a Joana Vasconcelos, que cedeu mais do que uma peça para a exposição. Pretexto para pendurar na parede uma das belíssimas naturezas mortas da Colecção Gulbenkian – esta de Henri Fantin-Latour –, acompanhada por peças igualmente floridas de Balmain e Givenchy.
E se a exposição começa com a peça que fará as honras no Museu Gulbenkian, o final segue o mesmo pensamento. Pela mão de Edward Burne-Jones, dez deusas debruçam-se sobre um espelho de água. "Na pintura vemos dez deusas e eu quis ter dez vestidos em exposição. São de designers do século XX que fizeram alguns dos mais belos plissados de sempre", resume. Criações de Mariano Fortuny, Azzedine Alaïa, Madame Grès, Givenchy, entre outros, posam com o quadro como pano de fundo. Na vontade de reproduzir a silhueta helénica, pintura e alta-costura eternizam o mesmo ideal de beleza.
Avenida de Berna, 45 A (Praça de Espanha). Seg, Qua-Sex 10.00-18.00, Sáb-Dom 10.00-21.00. Até 21 Jun. 8€ (entrada gratuita domingo a partir das 14.00)
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