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A arte é exuberante, mas a história pesa. “Complexo Brasil” traz samba, Amazónia e passado colonial

Dezenas de obras de arte, instalações audiovisuais e objectos etnográficos compõem um olhar sobre o Brasil, na nova exposição da Gulbenkian.

Mauro Gonçalves
Escrito por
Mauro Gonçalves
Editor Executivo, Time Out Lisboa
Exposição "Complexo Brasil", Fundação Calouste Gulbenkian
Pedro Pina
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"Um país é uma entidade múltipla que não cabe em estojo nenhum." As palavras são de José Miguel Wisnik, académico brasileiro, ensaista, músico e um dos curadores da exposição "Complexo Brasil", que a partir desta sexta-feira pode ser visitada no Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian. A frase ecoa como aviso ao visitante. Entre escultura, instalação, pintura, fotografia, som e vídeo, não se espere encontrar a síntese de um país, antes um olhar subjectivo sobre as suas singularidades, onde obviamente cabem os laços com Portugal.

"É uma experiência de brasis. Não é uma visão descritiva, linear, histórica ou compartimentada", continua em jeito de preâmbulo. "Um ponto muito importante para a definição da exposição foi adoptar o título Complexo Brasil, que já diz de saída que é algo que não está ciscunscrito, acabado, entendido. O Brasil, não só como um país com aspectos paradoxais, que pode ser olhado sob muitos ângulos, às vezes opostos, mas principalmente, como um complexo de idiomas, de etnias, de linguagens, de culturas, de tempos, de processos económicos", remata.

Exposição "Complexo Brasil", Fundação Calouste Gulbenkian
Pedro Pina

É a partir desta lógica de objectos dialongantes – com a história e entre si – que a exposição flui ao longo de dois pisos, cerca de 1600 metros quadrados. E foi no exercício de desenterrar e recontar histórias e tradições que a equipa curatorial – composta ainda por Milena Britto, doutora em literatura e cultura brasileira, e pelo arquitecto Guilherme Wisnik – desenhou um primeiro momento, apelidado de desencobrimento do Brasil. A história fala por si, mas José Miguel Wisnik revê rapidamente a matéria – apropriação de território indígena pelos colonos portugueses, captura e escravização da população e transferência de quase cinco milhões de pessoas para o continente sul-americano.

"Esse é um processo que envolve Brasil e Portugal profundamente. Uma coisa óbvia, mas nunca olhada de maneira consciente, tanto no Brasil quanto em Portugal, é que o Brasil foi o território para o qual foram embarcadas dez vezes mais pessoas do que para a América do Norte, três vezes mais do que para toda a América Hispânica e uma soma igual ao Caribe inteiro. Portanto, temos que tomar a consciência de que não se trata apenas de uma escravização entre outras. No processo moderno de mundialização dos mercados, apoiado na escravização e no tráfico, Brasil e Portugal têm um papel fundamental. Além disso, o Brasil foi o único país que, depois da independência, continuou largamente o projecto escravista e com o tráfico. Manteve a monarquia, a dinastia de Bragança, o latifúndio, a escravidão e a burocracia colonial. Ou seja, é uma continuidade. Nós somos uma continuidade de Portugal", reflecte José Miguel Wisnik.

O manto como símbolo de apropriação, mas também de resgate

Na sala, o destaque vai para os vestígios de uma "experiência colectiva vivente" apagada pelo colonialismo. É o caso das urnas marajoaras que vieram do Museu Nacional de Etnologia, "testemunhas de uma civilização que durou do século IV ao século XVI ou XVII". A poucos metros, impõem-se a imagem de um indígena, retratado a óleo sobre tela por um pintor holandês em 1641. Também aqui surge o manto como símbolo roubado, apropriado e posteriormente reclamado. O magnífico Manto Tupinambá – que em 2024 foi devolvido pela Dinamarca ao Brasil – não viajou até Lisboa, mas está presente na exposição através de um vídeo. Ao lado, vemos o Manto Raio de Sol, criação contemporânea da artista e investigadora Glicéria Tupinambá, que recuperou as antigas técnicas de urdidura dos mantos ligados a rituais indígenas.

Exposição "Complexo Brasil", Fundação Calouste Gulbenkian
Pedro Pina

Um pouco mais à frente, numa série de aguarelas alemãs, vemos mantos semelhantes a este serem usados numa parada carnavalesca em Estugarda, em 1599. Apropriações que se multiplicaram pelo Velho Continente, que durante séculos criou a sua própria narrativa em torno dos ritos e tradições dos povos ameríndios. Quase sempre de forma distorcida. Caso da antropofagia, retratada nas gravuras de Theodor de Bry, do século XVII.

O manto surge, porém, como símbolo de resistência. Tecido por Arthur Bispo do Rosário, o Manto da Apresentação é exibido numa vitrine e com um espelho na parte inferior. Só assim é possível ver ambas as faces desta peça profusamente trabalhada por este homem, que foi mantido em internamento psiquiátrico durante cerca de 50 anos. E por falar em arte que se veste, os Parangolés de Hélio Oiticica estão mesmo ali à mão de semear. As vestes geométricas foram deixadas em cabides para que os visitantes possam vesti-las e dançar.

O corpo negro e a arte

Avançamos na galeria e a exposição ganha outras vozes e estéticas. A fotografia, a escultura, a instalação e a pintura misturam-se sem que os seus autores sejam segmentados. As obras de artistas brancos, negros, homens, mulheres, indígenas, vivos e idos atravessam a sala. Milena Britto chama, ainda assim, a atenção para um movimento de recontextualização do corpo negro na arte. "A gente tem aí um conjunto de respostas diferenciadas a uma homogenização do que seria a arte negra. Existem várias possibilidades, várias estéticas, vários perfis, modos de ver, mas existem coisas muito importantes para se assinalar, porque o corpo negro foi objecto da arte canónica, da arte ocidental. E há uma retomada desse corpo por artistas negros e por artistas indígenas também, especificamente nas representações. Há um processo de se recompor em relação à própria história, que se relaciona com a colonialidade, e ao mesmo tempo de se apropriar da própria história", resume Milena.

Exposição "Complexo Brasil", Fundação Calouste Gulbenkian
Pedro Pina

É aqui que artistas como Maxwell Alexandre entram, por vezes em resposta à objectificação do corpo negro, refutando referências culturais, formas de representação e até técnicas pictóricas. A curadora fala ainda no recuperar de "símbolos, cores, gestos de amor", representações ou motivos que artistas evocam em nome de uma reconciliação com o passado e de uma celebração das suas heranças culturais. "Existe uma compreensão de artistas negros e indígenas de que a melhor forma de se reverter isso [silenciamento] é não voltar a accionar essas zonas de violência, mas usar a estética, a arte para sensibilizar as pessoas e para que as pessoas brasileiras se vejam também como parte dessa história", remata.

Depois da exposição, a imersão

As obras são complementadas por seis vídeos, produzidos para a exposição e exibidos em pequenas salas acústicas, espalhadas ao longo do percurso. Na primeira, percorre-se um século de música brasileira – das composições de Villa-Lobos ao funk carioca. Mas é no andar de baixo que a verdadeira experiência imersiva tem lugar.

Descidas as escadas, que estavam tapadas há coisa de três décadas, separando as duas galerias do Edifício Sede, damos de caras com um vídeo de pesca. Uma comunidade de ribeirinhos do Nordeste, onde o ritual de apanhar um peixe graúdo envolve cantar-lhe músicas de embalar, enquanto este se debate já fora de água. A Amazónia como construção biocultural espreita na primeira sala. As camas de rede usadas por comunidades nómadas foram penduradas logo a seguir e convidam os visitantes a deitarem-se e a colocarem os headphones. Aí, serão eles a sentir-se embalados.

Exposição "Complexo Brasil", Fundação Calouste Gulbenkian
Pedro Pina

O despertar acontece na sala seguinte. João Gilberto entoa "Samba da Minha Terra", de Dorival Caymmi, aqui sobreposto por uma das células rítmicas do Candomblé. A experiência funciona como tira-teima e não deixa grandes dúvidas sobre de onde vem o samba. Nasceu da música africana, certamente. Para os visitantes, a experiência cola-se ao ouvido e pode muito bem descer até aos pés.

Avenida de Berna, 45A (Praça de Espanha). Qua-Seg 10.00-18.00 (Sáb 10.00-21.00). Até 17 de Fevereiro. 8€-14€

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