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Matt Damon personifica Ulisses em ‘A Odisseia’, de Christopher Nolan, o filme mais caro da carreira do realizador, e de todas as adaptações desta obra, e que chega aos cinemas carregado de controvérsia.

O poema épico de Homero, que é, com A Ilíada, um dos maiores e mais perenes da história da humanidade, fascinou o cinema desde o tempo do mudo, datando a sua primeira transposição à tela de 1911, numa versão muda assinada pelo italiano Giuseppe de Liguoro. Mas só mais de 40 anos depois, em 1954, vimos outra adaptação cinematográfica, para muitos uma das melhores – ou mesmo a melhor – de todas: Ulisses, de outro italiano, Mario Camerini, com Kirk Douglas no papel principal, e com uma interpretação histórica (o actor ficou para sempre associado à personagem no imaginário cinéfilo), Anthony Quinn como Antinous e, numa original ideia de casting, Silvana Mangano no duplo papel de Circe e de Penélope.
Mas é na televisão que encontramos duas das mais conseguidas adaptações subsequentes de A Odisseia. A primeira data de 1968 e é uma série em co-produção italiana, francesa, alemã e jugoslava, tutelada pela RAI. O jugoslavo Bekim Fehmiu desempenha o papel de Ulisses, acompanhado por nomes como Irene Papas, Renaud Verley ou Barbara Bach. Os realizadores foram três: Mario Bava, Franco Rossi e Piero Schivazappa. A segunda foi a minissérie assinada em 1997 por Andrei Konchalovsky, tendo Francis Ford Coppola como um dos produtores, através da sua Zoetrope, Armand Assante interpretando Ulisses e um elenco onde Irene Papas volta a aparecer, e que inclui Greta Scacchi, Isabella Rossellini, Christopher Lee, Eric Roberts, Vanessa Williams, Jeroen Krabbé, Geraldine Chaplin ou Bernadette Peters, entre muitos outros. São ambas consideradas, sobretudo a de 1968, como duas adaptações muito fiéis do poema de Homero.
A nova versão para cinema de A Odisseia, realizada por Christopher Nolan, um cineasta que associamos muito mais a filmes de ficção científica e de super-heróis como Batman, do que a grandes produções de recorte histórico-mitológico, estreia-se em Portugal a 16 de Julho. E ainda antes sequer de ter chegado às salas, vem vergada a uma pesada mochila de controvérsia. As críticas incluem desde uma total falta de rigor histórico e de um irrealismo escancarado na representação de barcos, armaduras e armamento, até um elenco anacrónica e forçadamente “inclusivo” em que se destacam actores não brancos, como Lupita Nyong’o ou Zendaya, o que vai contra a natureza intrinsecamente europeia e mediterrânica das personagens mitológicas, e as deturpa.
Ainda no plano do elenco, foi criticada a presença de Elliot Page no papel de Sinon, um guerreiro grego e primo de Ulisses, personagem para a qual aquele não terá a menor credibilidade física – tal como o próprio Matt Damon, apontado igualmente como um Ulisses “americano demais”. A abundância de vulgarismos do inglês tal como se fala nos EUA nos diálogos também não escapou ao crivo dos que investiram contra a fita, perante os vários trailers que foram sendo tornados públicos. E houve também críticos de cinema gregos que lamentaram a ausência de actores nacionais na produção, ou ainda o esquecimento e apagamento das “raízes helénicas das figuras mitológicas e históricas” do poema, como referiu o jornalista Tasos Kokkinidis.
Christopher Nolan (que esteve para realizar Tróia, em 2004, que ficaria depois para Wolfgang Petersen filmar), disse que se decidiu a rodar A Odisseia porque o poema nunca tinha sido levado ao cinema em grande escala por um estúdio de Hollywood, e por se tratar de uma obra “fundadora”, incorporando elementos de vários géneros literários e cinematográficos. Nolan leu várias traduções do poema e afirmou ter sido influenciado por muitos filmes de ambiência mitológica grega ou influenciados por ela, caso daqueles com efeitos especiais assinados pelo mestre inglês Ray Harryhausen, bem como por títulos de cineastas como Andrei Tarkovsky ou Akira Kurosawa.
Rodado nos EUA, Grécia, Marrocos, Itália, Escócia e Islândia, A Odisseia foi um projecto que Christopher Nolan manteve sob um manto de secretismo durante bastante tempo, e tem um orçamento de 250 milhões de dólares, o que faz do filme o mais caro de toda a carreira do realizador de O Terceiro Passo, O Cavaleiro das Trevas, A Origem, Interstellar ou Oppenheimer. No seu elenco, e além dos nomes já citados, encontramos também Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Charlize Theron, James Remar ou Samantha Morton. Cabe agora aos espectadores dizerem de sua justiça sobre esta Odisseia que reflecte agendas, tensões e convulsões do século XXI, e plebiscitarem ou condenarem o filme nas bilheteiras.
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