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‘A Saga de Anatahan’: era uma vez, algures no Oceano Pacífico…

O último filme de Josef von Sternberg, rodado no Japão em 1953 e baseado numa história real passada durante a II Guerra Mundial numa remota ilha do Pacífico, tem finalmente estreia comercial em Portugal.

Escrito por
Eurico de Barros
A Saga de Anatahan
DR | A Saga de Anatahan
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Nunca exibido em Portugal no circuito comercial, A Saga de Anatahan (1953), o derradeiro filme de Josef von Sternberg (embora o último a ser estreado tenha sido As Estradas do Inferno, em 1957), foi apenas visto no nosso país incluído em ciclos ou em sessões avulsas em instituições como a Cinemateca ou na Fundação Gulbenkian. A Midas Filmes estreia-o agora, num programa triplo neste mês de Agosto, e de que fazem ainda parte a longa-metragem de propaganda Soy Cuba (1964), de Mikhail Kalatozov (estreia dia 13), e o drama policial A Piscina (1969), de Jacques Deray (estreia dia 20), interpretado por Alain Delon, Romy Schneider, Maurice Ronet e Jane Birkin.

Nesse início da década de 50, von Sternberg, o homem que descobriu e “criou” Marlene Dietrich, autor de filmes tão marcantes como A Última Ordem, O Anjo Azul, Desonrada, O Expresso de Xangai, A Imperatriz Vermelha ou Aconteceu em Xangai, já não estava nas boas graças de Hollywood. O realizador tinha, no entanto, bons contactos no Japão desde os anos 30, que restabeleceu após a II Guerra Mundial e a normalização das relações a nível internacional com aquele país, onde também gozava de grande popularidade junto do público e da crítica. Conseguiu assim, junto do produtor e distribuidor Nagamasa Kawakita, um orçamento e meios para rodar, com total controlo sobre o projecto, um filme baseado num artigo que havia lido na revista Life, sobre um facto ocorrido na remota ilha de Anatahan, situada no Oceano Pacífico e parte do Arquipélago das Marianas.

Entre 1944 e 1951, 30 marinheiros e soldados japoneses cujos navios de abastecimento foram afundados por aviões americanos, viram-se retidos em Anatahan, aonde tinham ido dar nos seus salva-vidas. Na ilha havia também uma mulher nipónica e um outro homem. Os 20 náufragos sobreviventes foram resgatados pela Marinha dos EUA sete anos mais tarde (desconheciam que a guerra já tinha acabado), vindo depois a saber-se que os homens tinham lutado entre si pela mulher, tendo vários morrido de forma violenta ou desaparecido. Um dos sobreviventes, Mishiro Maruyama, publicou na altura um livro em que contava tudo o que havia sucedido em Anatahan.

A Saga de Anatahan
DRA Saga de Anatahan

Em parceria com Tatsuo Asano, Josef von Sternberg escreveu o guião de A Saga de Anatahan usando como referência a obra de Maruyama, fazendo algumas alterações à história original, como a redução dos participantes para 13 homens e uma mulher, chamada Keiko (interpretada por Akemi Negishi, que viria depois a entrar nalguns filmes de Akira Kurosawa) e não Kazuko, como a verdadeira. O realizador reconstituiu cuidadosamente a atmosfera tropical e a selva da ilha em estúdio, em Quioto, dado que seria problemático, penoso e caro ir rodar no cenário original; e trabalhou longa e arduamente com os actores, quase todos vindos do teatro Kabuki. Como não falava japonês, von Sternberg concebeu um storyboard detalhadíssimo e muito original, usando, um sistema de cores e contendo indicações muito precisas para aqueles se orientarem, e garantir a continuidade “psicológica e dramática” de cada cena, bem como da história no seu todo. E assumiu ainda a narração do filme. (Curiosidade: o seu título de trabalho era A Forquilha do Diabo.)

A Saga de Anatahan
DRA Saga de Anatahan

Exibido em estreia mundial em 1953 no Festival de Veneza, A Saga de Anatahan não foi particularmente bem recebido. A opinião da crítica também não foi boa, particularmente no Japão, onde a fita foi muito atacada, pelo seu “exotismo”, por estereotipar os japoneses, por não estar em sintonia com os sentimentos destes no pós-guerra, ou por von Sternberg ter tido o “mau gosto” de filmar uma história com características tão degradantes. Até a prestigiada e influente revista de cinema Kinema Junpo, a mais antiga do Japão (começou a ser publicada em 1919), e uma das mais antigas do mundo, se atirou a A Saga de Anatahan com unhas e dentes.

Mas o filme, que foi pouco visto em vida do realizador (von Sternberg morreu em 1969, aos 75 anos) também teve os seus defensores, caso de François Truffaut. E era o favorito de Jim Morrison e Ray Manzarek, futuros Doors, quando estudaram Cinema na Universidade de Los Angeles e Josef von Sternberg lá deu aulas, entre 1959 e 1963. Com o tempo, A Saga de Anatahan foi sendo reconsiderado e reapreciado, acabando por ganhar os favores dos cinéfilos de todas as latitudes e estatuto de filme de culto – e também a ser devidamente contextualizado na filmografia de Josef von Sternberg. É esta obra singularíssima, dotada de um fascínio desconcertante e que escapa a rótulos e classificações, que se estreia finalmente em Portugal, 73 anos após ter sido filmada.

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