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Depois de mais de uma década ligado ao rap, Mike El Nite apresenta um disco que marca uma viragem artística e pessoal, ‘Existencisensual’. O músico fala sobre o novo som, saúde mental, portugalidade e o desejo de criar canções intemporais.

Não é Mike El Nite, não é o Justiceiro, nem sequer é Miguel Caixeiro. Desta vez, é Simplesmente Miguel a assumir as rédeas e o microfone, e a mostrar um universo onde convivem synth pop, italo disco, música romântica portuguesa e redenção.
No seu mais recente disco, Existencisensual, o rapper de Telheiras encarna esta nova personagem assumindo-se como mais do que um músico: é um enterteiner, um artista de variedades, cantor residente de um bar de música ao vivo. Inspirado em parte pelo seu pai, Joaquim Caixeiro, mais conhecido por Quinzinho de Portugal, foi neste alter-ego que Mike encontrou forma de falar das suas fragilidades, das dificuldades que encontrou nos últimos anos para fazer as pazes com o seu passado e, essencialmente, para mostrar a renovada gratidão que sente perante a sua vida.
Em entrevista à Time Out, Mike El Nite fala sobre a criação do disco e levanta um pouco o véu sobre o que se pode esperar dos concertos de apresentação de Existencisensual, que começa em Lisboa, no B.Leza, a 12 de Março.
Quando é que surgiu a ideia para começar a trabalhar neste disco, Existencisensual?
O disco começou a ganhar forma há cerca de ano e meio. Ao longo destes últimos anos, especialmente desde 2020, que coincidiu com o fim da Think Music, deparei-me com uma encruzilhada. Estava a questionar-me sobre a minha personalidade, o que queria fazer com o meu projecto artístico e o sentido daquilo que andava a fazer. Mais tarde, quando criei o projecto David & Miguel com o David Bruno, do qual resultou o Palavras Cruzadas, senti que se abriu um caminho para mim num registo diferente e que gostei muito de explorar. Comecei a compilar algumas coisas porque fiquei com vontade de levar esta estética para o meu projecto a solo.
O que o fez tomar essa decisão?
Comecei a pensar se queria envelhecer exclusivamente como rapper, ou como um artista mais multifacetado. Nesse sentido, há cerca de um ano e meio, foi-me apresentado o Baco [produtor do disco que colaborou com artistas como Slow J, xtinto ou Cláudia Pascoal, e que está a lançar música a solo]. Já tinha tentado trabalhar com outros produtores, mas nunca funcionou muito bem. No entanto, com ele foi "tiro e queda". Quando encontras uma dinâmica assim, funcional e fluida, no meio musical é algo que temos de aproveitar, porque não é comum.
Como foi esse processo?
Comecei a mostrar ideias antigas e fiquei espantado com a eficácia dele. O Baco é um artista que já trabalhou com muitas pessoas diferentes, em muitos contextos diferentes e em diferentes áreas – como dobragem, edição e já trabalhou em teatro de revista, com o pai. Portanto, tem uma linguagem musical muito ampla. Eu mostrava-lhe uma música de referência e ele conseguia reproduzir no momento. Isto criou um ambiente muito confortável para poder explorar à vontade esta nova faceta.
O que é que Baco ajudou a acrescentar ao seu trabalho?
É raro encontrar um produtor que esteja aberto a produzir fora do âmbito urbano. Porque mesmo a música pop ou o rap que surge, actualmente, é algo mais multifacetado e com elementos de portugalidade à mistura ou com influências brasileiras. Toda esta música tem uma grande carga de produção de hip-hop porque é a escola dos produtores que estão envolvidos nestes projectos. Precisava de alguém que viesse de outro sítio. O Baco gosta muito de artistas como o Bruno Mars, de disco, soul e de música mais animada – ao contrário de mim, que sou mais melancólico. Complementamo-nos. Quando demos por ela, estávamos a trabalhar num universo diferente do que eu estava a fazer antes. Era precisamente isso que eu queria.
Deste novo disco resultou uma personagem nova, o Simplesmente Miguel. Como é que o descreveria?
É complexo, porque, claro que é um personagem ou um alter-ego, mas, ao mesmo tempo, também é a recusa desses conceitos. Ou seja, apesar de ser um personagem, é algo que me ajuda a ser mais pessoal e genuíno do que nunca. Embora tenha sempre tentado ser genuíno em toda a música que fiz, existe sempre uma tendência no personagem do rapper para se inflacionar e ser maior do que ele próprio. Apesar dessa lógica ainda existir, este foi um pensamento que, durante muito tempo, me impediu de conseguir escrever e compor. O segredo estava em, basicamente, ser sincero e falar sobre coisas sem medo de não ser cool. De permitir que pudessem ver a minha personalidade, os meus defeitos. Tudo isso foi possível criando este personagem e este universo novos. Foi preciso fazer este reset para ter esta abertura.
Sente que isto permitiu aos seus ouvintes conhecerem uma nova faceta sua?
Queria convidar todos para o meu mundo interior e partilhar a experiência humana que é viver com ansiedade, sofrimento e dúvida. Algo que fosse além da típica mensagem do "eu sou uma estrela". Acho que as pessoas também se conectam mais quando te abres dessa maneira.
Estávamos a falar sobre o corte que fez com o seu som anterior. Era uma vontade antiga?
Comecei a sentir esta necessidade quando comecei a ver, infelizmente, alguns dos meus heróis de infância a envelhecer mal dentro do estilo musical. Também notei que o público, no auge da Think Music, era maioritariamente académico. Isso criou-me um sentimento um bocado repelente. Todos os anos tinha de agradar a um público novo e jovem, criar uma dinâmica de coolness para ser visto como um "produto fresco". Com a minha idade a avançar, comecei a descolar-me dessa lógica. Quero fazer músicas que possam ser ouvidas daqui a 20 anos, que sejam universais e actuais e que não sejam altamente associadas a uma época. Há música feita hoje em dia que não vai sobreviver ao tempo. Por isso, fiquei muito interessado com a universalidade de estilos musicais mais abrangentes, como o soul ou a disco.
A solução para esse problema foi olhar para o passado?
Sim. Estava a pensar como é que seria, hoje em dia, um artista de variedades, o animador de um cruzeiro ou o cantor residente de um bar. Estes artistas tem de cantar um bocadinho de tudo e ser multifacetados. Aonde é que eles pertencem, actualmente, na sociedade.
Nota-se através dos skits que o Simplesmente Miguel surge dessa tradição, até pela forma como fala, às vezes até parece um comediante de stand-up, pela forma como fala ou faz crowdwork.
Eu cresci neste ambiente. Os meus pais tinham um bar de música ao vivo, o Vicente Borga, na Madragoa, que era a tendência em Lisboa nos anos 80 e 90. Costumava ter filas de reservas porque era um bar muito pequeno. O meu pai [Joaquim Caixeiro, que adoptou o nome artístico de Quinzinho de Portugal e participou em projectos como a Brigada Victor Jara] passava a noite toda com a guitarra a cantar e, entre as canções, dizia piadas e animava a malta. Ou seja, não era um papel bem definido: ele era o entertainer. Tem de manter a casa animada, tem de ser divertido, tem de ser meio polémico, tem de cantar estilos diferentes. É engraçado como toda a gente adora esse personagem, mas depois ele também tem uma vida pessoal e os seus problemas, demónios e frustrações. Queria encarnar este arquétipo, mostrar como é no mundo do entretenimento, mas também como é atrás do palco e dentro da sua cabeça.
É interessante reparar que a presença e inspiração do seu pai assume uma presença e influência mais literal.
É verdade. Sempre reneguei isso durante toda a minha carreira. O meu pai fez música de intervenção e depois fez música popular. Eu não só queria renegar esse nepotismo – que é uma coisa que está muito na moda de se dizer – como queria, esteticamente, fazer algo diferente. Queria fazer intervenção, mas no meu estilo urbano, o estilo que eu ouvia. É essa coisa muito adolescente de querermos separar-nos das nossas amarras. Mas a verdade é que existe também o chamamento do sangue [risos]. Aquilo que vimos ao crescer fica embrenhado em nós.
Às vezes é inevitável regressarmos às origens.
O meu pai teve um projecto de pimba irónico com letras muito subversivas, o Quinzinho de Portugal, o que podia ser comparado, hoje em dia, a um Chico da Tina, nos primórdios da carreira. Mas esta personagem que ele criou acabou por consumir a carreira dele. Neste momento, em que se fala muito de portugalidade e do cantor popular, e de toda a gente querer abraçar o tradicionalismo de uma forma muito literal – somos portugueses, usamos filigrana, cantamos fado e estamos aqui na tasca –, há muito mais em ser português do que isto. Para mim, o Portugal que eu vi quando crescia foi o Portugal destes ambientes nocturnos e dos bares de música ao vivo. As pessoas queriam ir ouvir música ligeira. A Rita Guerra tem tanta portugalidade como um rancho. Queria explorar este percurso que o meu pai fez – alguém que surgiu da música tradicional, foi parar à música pimba, pelo caminho cantava covers de outros artistas e esteve encolvido em projectos como os Trovante ou a Brigada Victor Jara. Tudo isto é Portugal. Não é só a chapa 3. Este disco é um regresso honesto às minhas origens e aos ambientes onde cresci.
Que sítios eram esses?
Um dos que mais me passou pela cabeça foi um sítio que frequentei muito com os meus pais e, mais tarde, sem eles: os Templários, um bar onde a Marisa Liz começou a cantar. Mas também o Xafarix ou o Speakeasy. Todos estes foram bares de Lisboa dos anos 80 e 90 com música ao vivo onde entravas, sentavas-te, pedias bebidas, normalmente vinha uma coisa para acompanhar, como umas pipocas salgadas, e depois estavas a ver música ao vivo. No outro dia estava nos Templários e, normalmente, as pessoas associam esses sítios a um lugar onde os músicos acabados vão actuar, mas de repente estás ali a ver uma banda de covers e do nada reparas que está lá o pianista do Rui Veloso a tocar. Não tens acesso a este mundo noutro sítio, portanto, ainda há valor nesses sítios. Sinceramente, é uma maneira de sair à noite que aprecio bastante, agora que já tenho alguma idade [risos], e que está a extinguir-se. Era importante, para mim, manter viva essa Lisboa.
Estávamos a falar sobre o corte que fez com o passado e achei interessante que a primeira linha da primeira música é: "É complicado/ Fazer pazes com o passado". Isto é um diálogo com as personagens que encarnou no passado?
Isto aborda directamente o processo deste disco, que foi bastante pessoal e difícil. Envolveu uma tentativa de auto-melhoramento e de algumas decisões e mudanças um bocado extremas na minha vida. Venho do meio artístico nocturno e com tudo o que isso implica e algumas coisas estavam a prejudicar a minha carreira e relações pessoais. No processo deste disco, andei num carrossel entre decidir estar sóbrio ou não – agora estou e é para manter esse caminho. Ao longo destes anos no meio artístico, que já vinha antes de ter o projecto Mike El Nite, foram feitos muitos danos ao longo do caminho, a mim próprio e aos outros que me rodeiam. Este disco não é um romper com o passado, é uma tentativa de fazer pazes com tudo. Não quero fugir mais, quero olhar-me ao espelho, encarar quem sou e fazer esse processo ao vivo para toda a gente ver.
O ambiente sonoro que escolheu para ilustrar estes sentimentos é uma mistura de inspirações que incluem o synth pop, city pop ou a música romântica portuguesa. Porque é que este é o som ideal?
Isso aconteceu porque coincidiu com uma fase em que estava a ouvir muito jazz de fusão japonês, city pop e italo disco. Foi também quando fiz uma viagem a Itália, a Nápoles, e percebi que a música deles era muito parecida com a nossa música popular, porque também é muito dramática e romântica. Encontrei algumas semelhanças com sítios como a Ribeira do Porto, Alfama ou o Cais do Sodré, e comecei a perceber que havia aqui uma linguagem mediterrânica, típica dos anos 80, quando o cantor romântico, a música popular, o soul e o jazz, tiveram um momento em que estiveram todos juntos. Depois, aqui em Portugal, nos anos 90, criou-se a estética da música pimba. No entanto, se fores procurar discos da Ágata, do Zé Malhoa ou a Ana, tudo cantores que hoje em dia são pimba, mas que chegaram a ser produzidos pelo Tozé Brito ou o Mike Sergeant. Eles faziam disco, soul, música dançável, música sensual... Houve a tentativa de criar esse mercado aqui em Portugal e falhou, porque o que singrou foram coisas como o rock, o pop-rock ou o new wave. Quis pegar nesse ponto da história e continuá-lo. Também queria fazer o statement de que entre o pimba e o jazz não há uma diferença assim tão grande [risos].
E quais foram as maiores dificuldades que encontrou ao abandonar a estética do hip-hop?
Sem dúvida, a maneira de escrever. Ser sintético com as palavras e a explicar ideias, enquanto conseguia manter a mesma profundidade. Foi um exercício muito importante, que me fez respeitar mais as palavras e ter mais cuidado a escolher o que vou dizer. Mas não me quis limitar, especialmente, pelos meus preconceitos, sobre o que é que é compor ou as estruturas musicais. Deixei a coisa rolar.
Sim, até porque o rap acaba por encontrar o seu espaço neste disco na mesma.
Em alguns momentos, sim. O rap é algo que está impresso em mim depois de quase 20 anos de actividade [risos]. Também quis simplificar o discurso porque o trabalho que desenvolvi com o David Bruno deu-me acesso a um público que não tinha antes e que quero muito manter. E, além disto tudo, respeitar a canção pop, na sua simplicidade, como um bom veículo para passar a mensagem. É engraçado falares nisto porque, agora que fiz este disco, estou com vontade de voltar a lançar mais músicas dentro deste registo.
Está a falar sobre o David Bruno. Como é que ele e o João Não, com quem também tem colaborado, o inspiram neste disco?
Os discos que lancei com o David e o João Não e o Lil Noon foram uma parte muito importante do processo para chegar até aqui, porque foram o início de toda esta estética. O David inspira-me muito na sua iconografia e na forma de criar universos, especialmente no texto, com muita simplicidade e repetição, quase como se fossem mantras... mantras da portugalidade [risos]. É uma maneira de fazer música completamente contrária à minha. Quando juntamos os nossos universos acabámos por beber um do outro e voltámos com mais competências. No caso do João, um escritor soberbo e altamente prolífico, e do Noon, um produtor multifacetado e super talentoso, foi interessante trabalhar nesse universo e depois voltar para o meu e tentar que essas influências não transbordassem demasiado no meu projecto. Queria encontrar a minha maneira de fazer este som com a minha voz.
Alguém que também participou neste disco foi o João Chaves, apresentador do programa de rádio Oceano Pacífico. Como é que nasceu esta colaboração?
Tive a ideia para o tema "Oceano Pacífico", fizemos a música e pensei: não só gostava que fosse incluída nesse programa, como seria muito interessante ter a voz original do programa a introduzir o tema. Encontrei o perfil de Facebook do João Chaves, mandei-lhe uma mensagem e ele aceitou participar. Mandei-lhe o texto, ele enviou-me um áudio no Whatsapp, disse muito obrigado e só pediu para estar nos créditos da canção. É algo que remete para esse universo dos anos 80 e 90, do cantor romântico e das baladas na rádio, que ouvias à noite enquanto conduzias na marginal, mas também para o som dos Clã, na altura de "O sopro do coração". Foi a minha forma de mostrar que existem muitas camadas na música portuguesa.
Este disco ainda tem uma parte de sátira, em que falas de investidores, na "O Prazer É Meu", mas também sobre enfrentar demónios, numa faixa com o mesmo nome. Contudo, o clímax acontece em "Grato", e aborda tudo aquilo pelo qual está agradecido na sua vida. De onde é que surgiu este momento?
Sabes aquela fase da carreira do Tim Maia em que ele se tornou espiritual e passa a juntar disco, soul e língua portuguesa nas suas músicas? Queria emular essa onda. Mas não é só isso, durante este percurso de auto-melhoramento, resolução e de amadurecimento, pesquisei bastante sobre saúde mental e física e encontrei um episódio do podcast do Andrew Huberman, que é sobre saúde e ciência aplicado ao dia-a-dia, com uma entrevista ao Paul Conti, que é um psicólogo. No final, ele engloba tudo o que falaram e diz que uma das coisas mais importantes para a saúde mental é o sentimento de gratidão. Acordarmos e pensarmos em tudo aquilo que está bem na nossa vida, em vez de vivermos numa narrativa negativa. Porque não cristalizar este sentimento numa música? A música precisa mais desses sentimentos. Até pode ser visto como uma cena lamechas, mas eu já fui revoltado durante toda a minha carreira inteira e, neste momento, estou a sentir-me muito agradecido por tudo o que tenho.
Estávamos a falar sobre estas diferenças ao longo do seu percurso musical. Como é que, durante os concertos, estes diferentes registos vão conviver?
Para já, a tour da apresentação do disco vai ser quase na totalidade músicas deste disco. Estou a preparar alguns momentos alusivos ao meu trabalho anterior e está a ser um processo interessante. Quero interpretar as músicas antigas com roupagens novas, como a "Dr. Bayard". Talvez inclua também um tema ou outro desses projectos colaborativos que fiz, e que às vezes são pedidos pelo público. Mas, numa primeira fase da tour, pretendo focar-me nos temas do disco e apresentar a proposta estética do disco, com uma ou outra surpresa.
E para o futuro do Mike El Nite, o que podemos esperar?
Eventualmente, gostava de contar com a minha própria banda ao vivo, que incluísse as meninas do coro. Estou cada vez mais interessado na parte orgânica da música e em dinâmicas de palco. Sinto que isto é o início da segunda metade da minha carreira, e que daqui para a frente vai ser tudo mais bonito, mais complexo, mais profundo, mais experimental e, sobretudo, mais feliz.
B.Leza, Cais do Gás, 1 (Cais do Sodré). 12 Mar (Qui) 21.30. 15€
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