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Em ‘Primeira Pessoa do Plural’, com estreia a 19 de Fevereiro, Albano Jerónimo interpreta várias personagens presas à mesma dor. Nesta entrevista, o actor fala sobre o filme de Sandro Aguilar, a perda e a necessidade de continuar a criar.

Há mais de duas décadas que Albano Jerónimo vem construindo o seu percurso como um dos mais aclamados actores portugueses de cinema e teatro. No entanto, foi em Primeira Pessoa do Plural, a nova longa-metragem de Sandro Aguilar (com quem volta a colaborar) que encontrou “pela primeira vez, ao fim de 27 anos de profissão, uma zona de entrega muito pura, muito infantil e genuína”. Em conversa com a Time Out, o actor reflecte sobre o processo de criação deste universo, a exigência física e emocional da sua interpretação, a cumplicidade com o realizador e Isabel Abreu e a forma como o filme aborda o luto através de um registo simultaneamente burlesco e perturbador. Houve ainda tempo para falar sobre como foi fazer a dobragem para um filme de Hayao Miyazaki.
Como é que surgiu o convite para participar neste novo filme, Primeira Pessoa do Plural?
Felizmente, já tenho uma história com o Sandro Aguilar, com o Som e a Fúria e com a Isabel Abreu. Mas, nomeadamente, com o Sandro. Esta é a nossa quinta colaboração. Juntos fizemos duas longa-metragens e três curtas. Encontrámos aqui esta trindade, eu, a Isabel e o Sandro – obviamente, sem descartar o Rui Xavier, que é sempre o cúmplice na fotografia. O convite surgiu deste trabalho conjunto que já fazemos há alguns anos, desta vontade latente de queremos colaborar e, sobretudo, de crescermos juntos na forma de pensar no mundo, nas coisas e as pessoas. Esta cumplicidade desemboca na feitura de um filme.
O que é que o atraiu neste projecto?
Começa exactamente nas pessoas, primeiro de tudo, e isso é transversal a qualquer coisa que eu faça, nomeadamente em cinema e teatro. O que me atraiu foi a vontade de mergulhar, uma vez mais, no universo do Sandro Aguilar. Na vontade de fazer diferente, nomeadamente, em abrir mais os objectos que o Sandro faz. Por norma, os seus filmes são mais fechados e herméticos, obrigando o público a ser mais emancipado. Desta vez, abriu-se um bocado mais, seja numa perspectiva mais técnica, como na fotografia, tornando-a mais apelativa e colorida. Isto serve para contrastar – e, agora, entra aqui a segunda razão porque quis fazer este trabalho – com a temática abordada.
Quais são as questões exploradas no filme?
Estamos a falar de um casal que perde uma filha, em contraponto com um filme que tem uma arquitectura glamourosa, brilhante e estridente, que serve de contraste com esta diluição de dor. Como é que um casal se reinventa? Como é que desenvolves um manual de sobrevivência quando te deparas com a perda de um filho? Esta é uma dor difícil de definir porque se pode manifestar de mil e uma maneiras diferentes. Uma destas formas, clinicamente falando, é que um casal que passa por esta situação acaba por se espelhar noutras vidas. De uma forma muito concreta, imagina que, agora, que estou a falar contigo, começava a imaginar que tinha a tua vida porque isso ia ajudar-me a diluir esta dor que tenho dentro de mim. O Sandro filmou estas possibilidades. Eu faço cinco personagens, a Isabel faz três. Portanto, esta proposta, para mim, enquanto actor, que me permite multiplicar neste mosaico que se parte em tantas outras possibilidades, é um desafio tremendo. Permite-me ter outras personas à volta da mesma dor e da tentativa de a dissolver. Tudo isto foi o que me empurrou para, uma vez mais, abraçar este universo do Sandro e Guilherme.
Estava a falar sobre o luto e, para mim, uma das coisas mais interessantes deste filme é a forma completamente surreal como este é retratado no grande ecrã.
Tocas aí num ponto que eu acho que é interessante e vital neste filme. Falamos pouco sobre a morte e, sobretudo, das pessoas que ficam e sofrem com o luto. O filme toma caminhos cómicos, burlescos e grotescos da realidade, quase surreais. Daí a fisicalidade que nós propusemos ao Sandro. Esta família existe nesta unidade através do corpo, nesta fisicalidade meio estranha e clownesca até. Quisemos rasgar e abrir este luto, exactamente para o oposto, para esta comicidade com o público. Desta forma, a audiência pode identificar-se, entrar e rir-se destas multiplicidades de existir nesta dor e deste lado surreal. No fundo, queremos dar várias montras ao público para ele se identificar, mas o objectivo principal é que ele entre nesta história connosco, que se dispa dos seus preconceitos, das previsões de como é que sentiria a perda de um filho e que se dilua connosco nestas outras possibilidades, mesmo que pareçam quase circenses.
A sua performance neste filme é muito expressiva. Descreveria inclusive como selvagem, descontrolada, excêntrica. Este tipo de papéis são mais complicados? É mais difícil interpretar um papel que esteja mais ligado ao improviso ou um que exige uma maior ligação ao guião?
Essa é uma boa pergunta e que toca em pontos que são muito apetitosos. Essa selvageria que descreves, e que considero ser uma palavra bastante acertada, resultou muito pouco da improvisação. Ela é muito escassa neste filme. Fizemos duas residências em que dissecamos muito o texto e apropriámo-nos dele de tal forma para que, no fundo, provocasse essa mesma dúvida. Queríamos que o espectador pensasse: isto é improviso ou não?
Foi o que aconteceu comigo, pelo menos.
Quisemos provocar uma vertigem entre o que está a acontecer, com momentos selvagens e bárbaros, mas que parecesse que nos estávamos a divertir ou a gozar. Tudo isto foi altamente coreografado e detalhado para que depois, nesta arquitectura rígida, pudesses existir de forma plena e te libertasses. Há outro detalhe, mais a título pessoal. Eu perdi a minha mãe, um mês antes de começar esta rodagem, num período longo de perda com várias vicissitudes. Não estamos aqui a falar de terapia. Detesto esta coisa de fazer uma purga através do meu trabalho. Estamos a falar de uma abertura mais livre para o trabalho. Ou seja, encontrei, pela primeira vez, ao fim de 27 anos de profissão, uma zona de entrega muito pura, muito infantil e genuína. Isso também está no filme. Esquece a palavra representação, que é muito pesada para aqui. É quase um convite para brincar. Com a Isabel e com o Sandro, houve um pacto de confiança e uma abertura infantil para estarmos no momento. É isso que prevalece, seja estar no momento e habitar a decoração ou as necessidades técnicas de figurino, o que seja, para podermos dar vida a todos os inputs criativos.
Estreia a 19 de Fevereiro
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