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Como é que o tremoço, as favas ou a perdiz vieram parar à nossa cozinha? É o que nos conta Paulo Moreiras no seu novo livro, que reúne “mil e uma curiosidades” tipicamente portuguesas.

Quando começou a escrever o seu primeiro romance, A Demanda de D. Fuas Bragatela, cuja acção decorre no século XIV, Paulo Moreiras quis referir os hábitos alimentares da época e isso levou-o a uma série de pesquisas. Desde então que a gastronomia é uma preocupação em todos os seus romances. Agora, mais de duas décadas depois, e reunindo as muitas curiosidades que tem vindo a acumular, apresenta Do Palito à Perdiz, um livro para pessoas que gostam muito de ler, comer e beber, e que é uma autêntica viagem no tempo e pelo mundo, através de histórias divertidas sobre coisas tipicamente portuguesas.
“A gastronomia faz parte da nossa identidade enquanto portugueses. Grande parte das minhas memórias de infância estão associadas à comida, aos sabores, aos rituais da mesa, às histórias que a minha avó me contava à beira do lume, com as chouriças por cima. Quando comecei a escrever não podia deixar isso de parte”, conta à Time Out Paulo Moreiras, que nasceu em Moçambique, em 1969, na então cidade de Lourenço Marques, actual Maputo, e cresceu em Portugal, na casa da avó materna, à beira do rio Douro. “Vivemos rodeados de pequenas coisas que escondem histórias mirabolantes. E isso fascina-me.”
Como é que certos alimentos e utensílios vieram parar à nossa cozinha? É a grande questão que orienta este novo livro que, à primeira vista, parece abordar coisas tão triviais como um tremoço ou uma cereja, mas que se revela, acima de tudo, um manifesto pela defesa e promoção da gastronomia portuguesa. “É importante conhecermos a história dos nossos produtos, pois só assim seremos capazes de os valorizar e de lhes ter outro respeito. Veja-se como os franceses e os espanhóis são tão acérrimos defensores do seu terroir e da história dos seus produtos”, diz-nos o autor, que assim também nos prova como somos aquilo que comemos, a começar pela forma como falamos.
O palito, por exemplo, começou por chamar-se dentiscalpium – era assim que os romanos o nomeavam –, mas também foi conhecido por palhito e até cavacas. Na verdade, desvenda Moreiras, o termo palito entrou na língua portuguesa por via do castelhano, “tendo sido identificado pela primeira vez em 1706, no Inventário dos Bens da Rainha da Grã-Bretanha D. Catarina de Bragança”. Mas, entre as maiores curiosidades em torno deste utensílio, está o facto de o termos usado para baptizar Olive Oyl, a eterna namorada de Popeye, que em Portugal conhecemos como Olívia Palito, “devido, precisamente, à sua figura longa e estreita”, tal e qual um palito.
“Claro que aquilo que comemos tem impacto na nossa linguagem. Ao longo dos séculos fomos incorporando novos produtos na nossa alimentação, fruto do contacto com outros povos e culturas, mas também novas práticas culinárias, e tudo isso veio enriquecer o nosso património linguístico. Depois, é interessante como muito daquilo que comemos entra nas expressões populares ou mesmo nos provérbios que utilizamos no dia-a-dia. Isso também demonstra bem a importância da nossa culinária na maneira como nos expressamos”, explica Moreiras, que começa todos os capítulos – seis ao todo, dedicados a diferentes utensílios e alimentos – com informações sobre as origens dos nomes.
Desde histórias relacionadas com palitos na boca, com os quais os gregos tinham por hábito passear-se nas ruas como “sinal de abastança e de mesa farta”, até favas, proibidas por Pitágoras aos seus discípulos, e perdizes, que o escritor Aquilino Ribeiro considerava uma das aves mais lindas de Portugal, Paulo Moreiras partilha “mil e uma curiosidades” acerca do nosso património culinário, através de recolhas de costumes, aforismos, adivinhas e manifestações religiosas e culturais, incluindo superstições. “Não digo que as superstições me intriguem, mas deixam-me bastante curioso, como por exemplo, as rezas que as padeiras fazem antes de colocar o pão no forno.” Mas não só.
O pai do autor, por exemplo, à mesa, nunca gostava de ver um pão virado ao contrário. “Aquele era o corpo de Cristo, logo não poderia estar virado ao contrário.” A explicação talvez pareça insólita, mas é precisamente por isso que Paulo Moreiras não a esquece. “Gosto de partir do quotidiano para depois descobrir o insólito, o curioso”, confessa. “No entanto, nada disto seria possível sem uma grande dose de paixão pelos temas a que me atrevo a trabalhar. Além da natural curiosidade, preciso de estar apaixonado pelo tema para me embrulhar em muitas horas de trabalho de pesquisa e de escrita.”
Para concluir este projecto, foi necessário cerca de um ano, e claro que houve histórias que ficaram de fora (“há sempre mais uma história a contar, um pormenor a descobrir”), mas Moreiras espera que o que reuniu – sobre o palito, o tremoço, a morcela, a fava, a cereja e ginja, e a perdiz – seja o suficiente para que os seus leitores fechem o livro com votos renovados com a mesa portuguesa. “Com respeito pelo que vão comer, respeito por quem produziu os ingredientes, respeito por quem os soube confeccionar. Dar de comer ao outro é um acto de amor. E isso merece todo o nosso respeito.”
Do Palito à Perdiz, de Paulo Moreiras. Casa das Letras, 272 pp., 18,90€
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